.ISSN 1678-8419  

Revista Partes - Ano V - 02/09/2008 00:17:07 

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Aborto social
Por Valdicleia Gleise da Silva Costa

                Estive em uma Feira de Conhecimento no centro do Recife, é uma escola Pública e tradicionalmente formadora de professores para o ensino fundamental [Normal/Magistério], mais que também tem algumas turmas de ensino médio [segundo grau para vestibular].        

            Questionada por alguns colegas palestrantes que acompanhavam-me como alienígenas vislumbrando o novo-velho mundo do fazer educação para as massas desprovidas e aviltadas. Questionavam-me  sobre a visão ousada de “pobresque sonham  com um curso superior.

-         Utopia? Ou direito natural da massa dos excluídos, em busca de acessão via escolarização. Mas com a atual escola pública? -estes “coitados” saem mais do que despreparados ao longo da jornada escolar, fazem volume nos anuários estatísticos para alocar recursos para uma educação de faz de contas.

 Uns raros por competência ou  auto-didatismo ou pura sorte na loteria do vestibular   passam pelo estreito funil, para lentamente serem  derrubados ao longo de seus cursos, fadadas ao fracasso e ao subemprego. Mas claro que  há os pouquíssimos  heróis  que superam as adversidades reais, e as dificuldades do imaginário social dos preconceitos, e vencem.

Esses poucos  muitas vezes mascaram-se de elite, escondendo seu passado de  aluno de escola pública.

Optam por discursos que denigrem os que superam as múltiplas adversidades  e conquistam  uma graduação, para que suas máscaras não caiam e seus rostos não sejam vistos com suas verdadeiras marcas.

Pessoas que  são os nossos verdadeiros heróis, anônimos  e ocultos. Envergonhados de seu passado, ou para ser aceitos  em seu novo status–quo escondem-se ao invés de mostrar-se  como elementos motivadores para  os tantos outros que estão em meio à longas jornadas, os muitos que não aceitaram a aniquilação, mais lutam bravamente anos após anos  apesar das  precárias condições das escolas públicas, e ao mesmo tempo graças à escola pública.

          A escola pública é para a grande maioria a única opção, sem ela  não há  opção! Com ela luta-se apesar de tudo, esperançosamente  por um  amanhã...

Havia em um dos stands uma rica apresentação sobre o aborto e o direito da mulher sobre seu corpo. Fotos belíssimas de mulheres saudáveis, malhando, abraçadas a homens bonitos, todos com expressões felizes, contrapostas a imagens de abortos criminosos, feitos por curiosos e até por pseudos médicos .

              Um álbum seriado foi sendo apresentado ao público  presente que passivo assistia a tudo com tanta naturalidade  que chocava vê-las.Perninhas arroxeadas, rostinhos desfigurados, e outras tantas cenas dantescas e inexplicáveis em grandes ampliações fotográficas estrategicamente disposta com o objetivo de romper o sono letárgico e hermético, que envolvem muitos ao abordar a questão da saúde da mulher, o direito  a vida.Mas que tipo de vida? Foi um  momento de horror,  as imagens de corpinhos esbranquiçados pelo éter em vidros de maionese exibidos  em público como  rótulos de cientificismo vulgar.

               Algo inexplicável inquietava-me palavras iam nebulando minha mente com letras, sons e imagens fundido-se como em um surto psicodélico.

              Questiono-me se o estado de letargia e torpor de todo o público que assistiu as apresentações  foi  baseado  na calosidade de almas brutalizadas pela miséria e violência de um país  de miseráveis?

              Quando digo miseráveis, não falo dos famintos que povoam as ruas, das crianças  que  vendem buginguangas ou  vendem-se nos sinais das grandes avenidas, das mães brutalizadas  pela  pobreza  que induz a mentes frágeis que precisam de apoiosegurança a pratica  pequenos delitos encobertos pela máscara do pesadelo da fome.Entorpecidos pelo inebriante cheiro da cola de sapateiro, e pelo efeito do “artame”, e do  medo.  

Não falo de armas em mãos tão pequenas que mal podem segurar e apertar o gatilho, mais que tão sedo tem que se ver brutalizadas pelo aborto social.

Falo da miséria humana quando vejo palafitas  e mocambos  casebres  paupérrimo  que  até os ratos abandonam  por tão grande precariedade, vejo corpos estendidos no chão  ,assassinados!  ,e as bocas  que vomitam expressões alicerçadas pela dominação ideológica sem refletir a conjuntura  que impôs-se as pequenas  vidas sem valor que bradejam de cima das consciências acríticas “- era apenas mais umbandido” “marginal”e daí?” Prostrados no chão crivados pela violência social é atéfácil” atribuir-lhe culpa, voltam-se  para o berço que sempre os embalou as ruas e todas as mazelas que  os forjou  assim.

A margem da vida, vida sem vida,sem dignidade, vítimas  ou réus ? quem as poderia julgarEuum também abandonado pela vida? o senhor  que por motivos diversos abandonou a miséria que o cerca  entrincheirado-se  em condomínios  guardados por seguranças cães e câmeras? ou exilou-se para  sobreviver  e resguardar  sua integridade  mental e moral fingindo–se inatingível com os  frágeis vidros fechados ? No distanciamento  fugaz, volátil  mais socialmente  aceito como  naturalNão nos compete julgar? criticar ? conscientizar? Indignar? modificar?

 [ No Aurélio= miséria  é...1.estado deplorável 2.desprezível,infame 3.perverso,malvado   4.próprio de quem é muito pobre  5.Sem valor,ínfimo.]

             Digo do país dos Miseráveis, no sentido da miséria  humana  da mixórdia administrativa do lucro  da volúpia do poder, de corpos  sem almas de mentes sem consciência  que moldam  com minudência   os   abortados sociais , mata-se a alma em corpos mutilados de uma vida  real.

              De escolas que deseducam, ou melhor reproduzem o macro mundo que os cercam onde a violência diária, o descaso, e o  funesto  sentido de aprender , são roubados, do primeiro e principal direito  natural –   O  DA  VIDA!

               Em estado deplorável de  muitas escolas,que  não são melhores que suascasas” reproduzindo o autoritarismo e o descaso com o progresso pessoal, esperando tacitamente a  obliteração  da maioria, encubando  utopias  de  desempenhar  uma função social.

               As desprezíveis,infames, políticas públicas com suas  “incompetências” de leitura do cotidiano das mazelas sociais ,que  tentam moldar e rotular a todos e a tudo como  vidros de remédios “placebos” em prateleiras empoeiradas da botica  metodológicas das teorias educacionais .

               A ação, perversa,malvada,  de insuflar  sonhos  de liberdade, igualdade e prosperidade como  em  um  slogan  da revolução francesa dos trópicos , a quem libertará  a formação deficiente, inexistente, talvez  a fila dos  que buscam empregos?, dos que engrossam o caldo dos muitos concursos públicos ?, dos que  se sente enganados pela vida? pela  falta de oportunidades?, mas que na realidade a baixa qualificação  de uma escolaridade  que não  tem em seus cabedal  formativo  os elementos  para a atual empregabilidade do sujeito  das camadas menos favorecidas.

Desprovidos dos múltiplos alimentos que nutrem o corpo e a alma do ser humano, de  lazer e recursos, desprovidos de ambiente  e estrutura, de saberes socialmente reconhecidos como fundamentais.

                  É próprio de quem é muito pobre, empobrecidos na senzala contemporânea, envergonharia Gilberto Freire, na grande senzala  moderna, pais escravos filhos escravos ou no máximo Capitães do Mato tal analogia envergonha-nos, mais no fundo, não terá algo de verossímil? Vejo brutalizados homens e mulheres que  em sua maioria chegam ao segundo grau analfabetos  de letras, de números, de humanidade.

Envergonhados esconde-se em capas de da rigidez, da agressão do vandalismo, da evasão  ,empobrecidos de sonhos de vida ,apegam-se a , a mitos a ídolos  a políticos  eternos salvadores de consciências ingênuas  solucionadores de todos os problemas, “mandadores” de todas as ordens, decifradores de todos os destinos  criadores de todas as oportunidades . Falácias   das  desesperanças, crivo real  de dominação de  seus senhores ocultos, está na pele pálida, às vezes gordas  ou magras, opulência opugnável de  mazelas, roupas rotas , dentes falhos, mentes...

                Sem valor, ínfimo, o trabalho empregado  jogado fora , quemuito mais trabalho  e contunde muito mais profundamente  que se bem executado, o quanto custa manter na escola  uma criança dos seis aos 18 anos em média ? quarenta crianças por sala ? quatro horas por dia ? de quatro a cinco semanas por mês?  onze meses por ano ?

Instumentalizando–as  em leitura e interpretação , escrita , cálculo, texto e contexto  em  história, geografia  ciências literatura ,línguas,direitos e deveres artes ecologia  tecnologia.

De dignidade humana! Permitindo-lhes o  sagrado direito de sonhar, e lutar por seus sonhos, e ver seus esforços  recompensados  quando  percebem cidadões .

Custa muito, em marginalidade, em oportunidades, em  dignidade, custa  proporcionalmente a policiais, a presídios , a assistencialismos , a saúde pública , custa à dignidade  custa  ao turista , custa ao país .                

Sabemos que há, e sempre haverá bons e não tão bons profissionais em todas as  áreas ,mais o esforço  de inúmeros dos nosso professores  de escolas públicas devem ser reconhecido.

Trabalhando em condições precárias, salários vergonhosos, sem reconhecimento nem oportunidades, tem de ligar os dois mundos  e  criar condições de adequar  o melhor possível às legiões de jovens ao mundo de regras rígidas do saber culto, e tecnológico. Promovendo, o respeito às instituições e as leis, o amor próprio, a consciência  crítica, e a competência  dos saberes que os instrumentaliza  para a vida produtiva.                  

                Quando defrontar-se  no próximo semáforo com aqueles grandes olhos brilhantes  que  seu  medo  não seja de um assalto, mais  do que  eu, você, nós  fizemos, ou melhor nos omitimos  e por omissão referendamos  tacitamente.

Urge transformar  este país  no país de  homens  mulheres e crianças  o país de oportunidades se não iguais mais pelo menos  mais  amplas, o país da  esperança. Não mais um país de Miseráveis .

E eu poderei  assistir  a uma feira de conhecimentos  que fala do direito ao  aborto, do direito da mulher de decidir sobre seu corpo, sem segurar a bolsa  apavorada olhando para os lados, sem ficar  chocada com as pichações, e degradações das instalações, sem  ter uma resposta  para calar a boca dos que  criticam a incompetência dos nossos verdadeiros grandes nomes que constroem a História Real do Brasil com seus esforços pessoais, abandonados, violentados em seus direitos, mais guerreiros  que lutam, e forjam-se pelas adversidades  e diferente dos que se omitem  e são coniventes com  as  atrocidades  existentes co-participantes do aborto social que vemos  ser  feito em massa como um genocídio pós-moderno.

 Pois estarei assistindo um país que  aprendeu a respeitar o seu povo propiciando   oportunidades reais  a todos. E não bolsa esmola, a um país que percebeu que resta-nos um caminho, a EDUCAÇÃO de qualidade que propicia oportunidades a todos independente de seu estamento.

Valdicleia     Gleise da Silva Costa é :

Especialista em educação pós-graduada pela UFRPE, graduada pela UNICAP,escritora publicada pelas edições Bagaço de Recife e professora  de História   da Rede Pública Estadual / Municipal e privada em Recife /Pernambuco/Brasil.

 



 

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