A Escola enquanto instituição é o lugar privilegiado para se pensar
a cultura e identidade. Sem reduzir sua responsabilidade social,
cultural e histórica na percepção da construção cognitiva processual
e progressiva do aluno respeitando as individualidades e zelando
pelo bem comum.
Neste exercício reflexivo amplio esta compreensão para
construir aprendizagem sobre a estrutura do transtorno de déficit de
atenção. O principal questionamento é qual a validade do ensino?
Acredito que o conhecimento apenas tenha significado quando se
consegue fazer com que os alunos se reconheçam como agentes
produtores de conhecimentos. Para
Tiba (1998): “Ensinar
é transmitir o que se sabe a quem quer saber, portanto é dividir a
sabedoria”. Essa divisão, porém, não segue as leis matemáticas. Em
vez de o conhecimento diminuir se ganha algo mais. Ensinar faz com
que o mestre atualize seu saber, abra a própria cabeça para
perguntas. “Os questionamentos revolvem os neurônios em busca de
novas respostas, reativando o cérebro, revivendo a alma. Ensinar é
um gesto de amor!” (TIBA, 1998, p. 61).
Para SILVA (2005) o sistema nervoso tem cerca de 2% da massa
corpórea nos humanos, porém controla a totalidade das funções
orgânicas e psíquicas do indivíduo. O sistema nervoso executa
numerosas atividades que são fundamentais para a conservação do
indivíduo e da espécie. E está profundamente ligada a aquisição e
construção da aprendizagem.
A Síndrome do Déficit de Atenção - hiperatividade (SDA-H) é definido
como um distúrbio neurocomportamental mais encontrado em crianças,
caracterizado clinicamente por dificuldade em manter a atenção e
controlar os impulsos, bem como a atividade motora. Basicamente há
três sintomas: déficit de atenção, impulsividade e hiperatividade. Esta síndrome pode ser encontrada em crianças normais e a sua
persistência ou repetição, co-ocorrência e intensidade que
determinam à identificação da síndrome.
Esta síndrome é conhecida desde o século XX e particularmente na
década de 1960 passou a ser discutida mundialmente. Desde
1994, a
Associação Psiquiátrica Americana elaborou um manual Diagnóstico e
Estatístico para homogeneizar o diagnóstico passando a ser
classificada como síndrome no mesmo subgrupo dos distúrbios do
comportamento e da conduta distribuído em três tipos: Combinado;
predominantemente do tipo déficit de atenção e predominantemente do
tipo hiperativo-impulsivo.
Neste manual para o paciente diagnosticar a patologia é necessário
que apresente seis das nove características que persistam por pelo
menos um período de seis meses e tenha aparecido antes dos sete anos
contemplando os setores diários de atividades (casa, escola,
trabalho, esporte/diversão). Esta síndrome altera a vida da criança
quanto a relacionamento social, desenvolvimento emocional e
auto-estima.
A síndrome de déficit de atenção não consiste numa heterogeneidade e
a origem de sua patologia ainda não é precisa. O quadro clínico
considera necessário um quadro de critérios para aferir ao paciente
a constituição do quadro clínico. Neste quadro clínico os sintomas
primários considerados são: a incapacidade de manter atenção na
realização de uma tarefa, o que na atual estrutura da nossa escola
torna-se uma tortura para as crianças e acabam criando uma situação
constrangedora e/ou inconveniente para o paciente. Outra
característica é a impulsividade que é a incapacidade de medir as
próprias ações e a hiperatividade que é o sintoma mais evidente no
diagnóstico.
Além da hiperatividade um desdobramento dela é a
hiperatividade motora que compromete igualmente o relacionamento
social e educativo dos alunos aumentando o fracasso na aprendizagem
e diminuindo a auto-estima. O quadro completa-se com a ansiedade
que atinge grande parte dos pacientes em idade escolar púbere e
causam uma estatística elevada de reprovações nos 5º anos.
Além do sintoma primário o quadro pode ser mais complexo.
Há possibilidade de ocorrência de distúrbios associados. Os
principais são de aprendizagem, conduta, afetivos, ansiedade e
humor. Estas comorbidades podem surgir em decorrência do
diagnostico tardio e/ou por uma característica genética. Os
distúrbios mais comuns são: dislexia, discalculia e disgrafia,
associados a linguagem e construção da aprendizagem. Associados ao
comportamento e conduta se podem citar: a agressividade, atos
destrutivos, falsidade, desonestidade, tristeza, frustração,
depressão e humor.
Cerca de 30% dos familiares dos casos diagnosticados tem
alguma relação genética hereditária e em 5% aproximadamente dos
casos ocorre alteração no lobo frontal direito, onde o fluxo
sangüíneo no núcleo caudado direito está diminuindo. Esta região do
cérebro afetada compromete amplamente a distribuição das conexões do
sistema nervoso, neste sentido a concentração e atenção.
A entrevista diagnóstica é imprescindível e relevam
aspectos como fatores ambientais, sociais, econômicos e culturais e
ocultos. A história familiar e escolar é investigada para contribuir
com detalhes na elaboração do tratamento mais adequado. Para um
exame mais completo a investigação passa por exames laboratoriais,
neurológico tradicional e EEG. Testes de coordenação e persistência
motora também podem constituir o diagnóstico, pois permitem uma
avaliação comparativa da evolução do quadro.
O tratamento consiste na utilização medicamentosa de
basicamente três drogas: estimulantes, antidepressivos tricíclicos e
alfa-2 agonistas. No primeiro grupo o mais utilizado é o
metifenidato (Ritalina) utilizado geralmente duas vezes por dia
evitando o horário vespertino, pois inibi o desejo alimentar. No
segundo grupo encontra-se os antidepressivos triciclicos como a
Imipramina (Tofranil), e outros com poucos efeitos colaterais como
a fluoxetina (Prozac) e a Bupropiona. O terceiro grupo agonistas
Alfa-2 Noradrenergicos como a Clonidina (Atensina), Guanfacina (Catapres
e Tenex). É preciso considerar os efeitos colaterais da medicação,
como em caso de patologias mais graves e atentar para os efeitos
colaterais bem como verificar a necessidade da utilização da
medicação.
A medicação deve ser interrompida durante um período para
observação do comportamento por parte do professor, bem como evitar
a medicação nos finais de semana e férias. O tratamento geralmente é
administrado por dois ou três anos, mas a manutenção deve ser
periódica e o tratamento interrompido a qualquer momento.
A psicoterapia é um tratamento que visa aumentar a
auto-estima e pode ser atendida em pequenos grupos, dependendo do
quadro, bem como extensivo aos pais e familiares pretendendo
reforçar o comportamento adequado e inibir os inadequados.
O planejamento escolar se estende ao ambientes domésticos
com poucos estímulos e com uma supervisão e acompanhamento de um
adulto, observando um tempo com atividades lúdicas e que não
extrapole o limite, contribuindo para um vínculo de
responsabilidade. Na escola o ideal é um atendimento em classes
reduzidas e com poucos estímulos. Já o tratamento multidisciplinar
deve ser efetuado na dependência da existência de comorbidades
na área da aprendizagem e neste caso o prognóstico será mais
complexo.
As teorias de aprendizagem estão em constante transformação
e às vezes, percebemos que a renovação acontece apenas como
readaptação dos meios para se chegar aos resultados esperados. Estes
que muitas vezes, não são os resultados da essência, mas sim os da
superfície que espera os “deveres” cumpridos. Para fazer nosso aluno
transcender deste patamar e alcançar suas essências é preciso
eliminar o vício paradoxal do ensino e estar preparado para novos
desafios.
Aprender é sinônimo de igualdade. Temos a mesma carne,
respiramos o mesmo ar. Circunstancialmente, alguém sabe mais sobre
determinado assunto, mas, assim que ensina e o outro aprende o saber
já se torna um bem comum.
Referência Bibliográfica:
KAPLAN, Harold I.; SADOCK, Benjamim J.; GREEBB, Jack A. Compêncio
de psiquiatria: ciências do comportamento e psiquiatria clínica.
Porto Alegre, RS: Artes Médicas, 2007;
NITRINI, Ricardo; BACHESCHI, Luiz Alberto. A Neurologia que todo
médico deve saber. São Paulo, SP: Atheneu, 2003;
TIBA, Içami. Ensinar aprendendo: como superar os desafios do
relacionamento professor-aluno em tempos de globalização. São
Paulo: Editora Gente, 1998;
WOLFFENBÜTTEL, Patrícia Pinto (Org.) Psicopedagogia: teoria e
prática
em discussão.
Novo Hamburgo, RS: Feevale, 2005.
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* SOUZA, José
Edimar de. Professor, Graduado em História, Especialista em Gestão
da Educação, Especialista em Psicopedagogia Clínica e Institucional.
Acadêmico do curso de Geografia REGESD/UCS. Assessor Pedagógico da
SMED/NH- Secretaria Municipal de Educação e Desporto de Novo
Hamburgo. E-mail:
profedimar@gmail.com