A persistência em escrevermos textos voltados a discussões
pertinentes à formação docente, parte sempre de experiências
práticas, frutos de nossas ações educativas em contato com alunos
reais, espaços reais de ensino e claro, situações ‘reais’ e adversas
nas quais nos docentes, estamos constantemente envolvidos.
O gosto por escrever vem de longe, bem como essa produção conjunta,
onde esse labor de quatro mãos é nosso desejo maior de pôr-mos
nossas idéias e diálogos materializados por nossos debates, nossas
incertezas, nosso gosto por ensinar, aos olhos dos leitores
curiosos, que como nós, nos inquietamos com temas pouco explorados.
É nas ações pedagógicas desta Filósofa que tanto admiro, do orgulho
de compartilhar dos novos problemas levantados por esta educadora
que me ponho a escrever algumas incursões sobre a inclusão dos
portadores de necessidades especiais.
Não somos nenhuma autoridade no assunto, mas dividimos sim produções
no campo de estudo. Recentemente fui agraciado pelo prefácio da
Fernanda em um livro que editamos e publicamos sobre a trajetória
educacional da Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais de Santa
Maria (APAE-SM). Buscamos nele alguns entendimentos sobre os
processos educacionais que esta entidade desenvolve durante os anos
de 1995 e 2002, para estabelecer um clima social, não de aceitação,
mas de respeito aos p.n.e. Nossas análises são iluminadas pela
teoria das Representações Sociais, com fortes influências
em Denise Jodelet
(2005) e Sandra Jovchelovitch (In GUARESCHI, 2003).
Enquanto docentes, acreditamos na necessidade do olhar de FREIRE
(1987) para nossas práticas pedagógicas, onde refletimos a cada aula
trabalhada, a cada situação adversa ou mesmo corriqueira, sempre na
tentativa de buscarmos em nossas conversas um outro olhar. Por
natureza de nossas áreas de estudo, um da História o outro da
Filosofia, o gosto por debater permeia nossa práxis. E quando nos
referimos à debates, cabe especificar que partem sempre de ações
oriundas de nossos sujeitos, nossos alunos, nós em contato com eles,
e de coisas simples, mas que adquirem grandeza no campo da educação.
O gosto e apreciação por filmes também estão ganhando um corpo cada
vez mais forte, indicados em sua maioria por uma educadora que se
dedica a estudar questões raciais e suas imbricações com a educação.
Do meu lado, me atenho mais propriamente aos processos educacionais.
Como professor, atuo na Universidade Federal de Santa Maria, no
cargo de professor substituto do Centro de Educação, lecionando
cadeiras de metodologia de História e temas voltados a Educação e
formação docente, para cursos como Pedagogia, Educação Especial,
História e Matemática. Destes, recentemente fui ‘surpreendido’ por
ter em uma turma uma aluna com necessidades educativas especiais,
uma aluna cega. Entre outros fatores que permearam a disciplina,
freqüentemente buscava entendimentos com a Fernanda, relatando
certas situações nas quais fui tentando desenvolver uma prática que
acreditasse, tanto para mim enquanto educador, como para os alunos
enquanto ‘professor’, realizar o trabalho com eficiência.
Algum tempo atrás, havia cursado uma pós-graduação a nível de
especialização em História do Brasil, na qual havia me dedicado a
estudar os processos educacionais de inclusão de portadores por meio
das práticas e iniciativas de uma entidade filantrópica, já que me
sentia extremamente ‘deficiente’ frente as novas experiências, que
por ventura, agora posso relatar. Mesmo tendo completado uma
pós-graduação, hoje não tão raro de cursarmos uma, porém não
acessível à maioria dos letrados, que por sinal, advém de uma
graduação, bem como eu, onde nem se quer de longe abordam
‘didáticas’ referentes aos alunos portadores de necessidades
especiais, de fato a surpresa da aluna inclusa foi grande.
No meu caso específico, apesar de todos os encalços passados, pude
contar com uma equipe que me auxiliava em meu fazer. Alunos que
acompanham a aluna, bolsistas encarregados em lerem o material e ou
gravarem em arquivos de áudio para auxiliar nos seus estudos,
pessoas preocupadas e voltadas para as observações destas
iniciativas como componentes de suas formações.
Hoje, quando assisti o filme “Uma Viagem Inesperada”, que se baseia
em uma história real da luta de uma mãe, em não apenas desenvolver
as capacidades cognoscitivas e cognitivas de seus dois filhos
gêmeos, autistas, mas sim em integrá-los em escolas consideradas
‘normais’, para nossa linguagem acadêmica, regular, em nosso país
assegurada pela LDB-EM 9394/96; penso quão difícil é para os pais e
familiares a não aceitação social. Por outro lado, como é difícil
para nós, educadores, olharmos para nossas ações e vermos que, como
no meu caso específico, não estou qualificado para desenvolver um
trabalho direcionado a estes alunos.
Vale destacar também, que os filmes sempre nos auxiliam e abrem um
leque enorme de recursos utilizáveis em nossas formações, seja ele
direcionado para os alunos assistirem, ou mesmo para nós, onde
juntamente com os livros, as produções de artigos, também colhemos
importantes conhecimentos. Destes, gostaria de destacar a incrível
capacidade de ao olharmos uma arte, tentarmos aproximarmos ela de
nossa realidade, para com ela aprender em contato com nossas ações
práticas.
Ainda, atenta-se para o espaço onde fui surpreendido. Uma
instituição federal de ensino, uma aluna adulta, com suportes
disponíveis para me auxiliar e conduzir a ela um estudo voltado as
suas necessidades, e mesmo assim, esbarrei em uma série de fatores,
como por exemplo, selecionei um filme legendado e em alemão, no qual
não consegui uma cópia dublada, logo, para minha aluna inclusa,
neste dia, não a incluí na turma na qual estava de corpo presente.
E então nos perguntamos, e se não fosse em uma universidade, mas sim
na escola municipal onde a Fernanda atua? Como lidar com essa
adversidade, sem uma equipe para dar-nos o suporte? E em qual
momento buscamos essa qualificação? Uma formação continuada nós dá a
garantia de um trabalho eficiente? E onde devemos buscá-las?
Como pretensioso historiador, tirei a sorte grande. A aproximação
com a Filosofia veio com o bônus da educadora. Em muitos momentos
fazer perguntas e não obter as respostas me inquietava, a ponto de
mesmo calar algumas delas. Hoje, admiro elaborá-las, até porque não
estou sozinho neste diálogo. E a busca pelas respostas, bem, estas
já não são mais o alvo das minhas preocupações.
A partir do filme, começo a rever certos conceitos por mim
pesquisado e discutidos com a Fernanda, a respeito da inclusão dos
portadores em salas regulares. Como nosso interesse não é obter um
consenso e sim a troca constante e dinâmica de idéias, acreditamos
que este artigo possa se não clarear as dúvidas que habitam nosso
eco-docente, irmos além, fazer com que outros (as) professores (as)
escrevam suas experiências, para que parafraseando NÓVOA (1995),
possamos dar ‘voz o professor’.
REFERÊNCIAS
FREIRE, Paulo.
Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro, RJ: Paz e Terra, 17ª
Edição, 1987.
GUARESCHI,
Pedrinho; JOVCHELOVITCH, Sandra (org.); prefácio Serge Moscovici.
Textos
em
Representações Sociais.
8 ed. Petrópolis: Vozes, 2003.
JODELET,
Denise. Loucuras e Representações Sociais. Trad. Lucy
Magalhães. Petrópolis, RJ: Vozes, 2005.
NÓVOA,
António. (org.). Vidas de Professores. Portugal: Porto
Editora, 2ª ed., 1995.
OLIVEIRA,
Décio Luciano Squarcieri. “COM QUEM VAI FICAR O MEU FILHO?”:
História e Representação Social da APAE – Santa Maria (1995-2002).
Prefácio: Fernanda Gabriela Soares Santos. Santa Maria: [s.n.],
2008.