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Objetivamos, neste texto, sintetizar a concepção de criança construída
no âmbito da teoria interacionista. Discutiremos as idéias de três
grandes teóricos, Piaget, Vygotsky e Wallon. Trataremos de pontuar de
forma breve, dada a natureza dessa produção, o que expõe cada um desses
autores sobre as formas de constituição do pensamento infantil. Nessa
perspectiva, inicialmente, apresentamos a criança de Piaget.
Interessa-nos saber seu perfil, enquanto sujeito que conhece. Daí, a
pertinência de começarmos expondo o que diferencia e aproxima o ser
criança do ser adulto:
A criança como o
adulto, só executa alguma ação exterior ou mesmo inteiramente interior
quando impulsionada por um motivo e este se traduz sempre sobre a forma
de uma necessidade (uma necessidade elementar ou um interesse, uma
pergunta, etc). (PIAGET, 1995, p.14).
E no mesmo texto, lê-se:
[...] a visão de
um mesmo objeto suscitará diferentes perguntas em uma criança ainda
incapaz de classificação e em uma maior, cujas idéias são mais amplas e
mais sistemáticas. Os interesses de uma criança dependem, portanto, a
cada momento do conjunto de suas noções adquiridas e de suas disposições
afetivas, já que estas tendem a completá-las em sentido de melhor
equilíbrio (PIAGET, 1995, p.14).
Diante
do
exposto,
percebemos
que
é a
necessidade
que
vai
impulsionar,
mobilizar
a
criança
para
ação.
Isso
também
acontece
com
o
adulto,
logo,
há
aproximação
no
que
se refere ao
desenvolvimento
intelectual
entre
esses.
O
desenvolvimento
se
pauta
pela
interação
do
sujeito
com
o
objeto
de
conhecimento.
No
entanto,
a
criança
se diferencia do
adulto
por
conta
do
movimento
intelectual
que
caracteriza essa
interação,
tendo
em
vista
que
o
processo
corresponde às
formas
de
organização
cognitiva e esta acontece de
acordo
com
a
rede
de
esquemas
já
estruturada
pelo
sujeito.
Daí, ser relevante realçarmos o que nos diz Piaget (1995), trecho já
destacado antes, sobre o conjunto de noções adquiridas e as disposições
afetivas. Para ele, esses são aspectos integrantes de um equilíbrio
cognitivo progressivo. É o processo de equilíbrio e desequilíbrio,
desencadeado pela necessidade. Esse é um ponto forte da teoria
Piagetiana, para se compreender o desenvolvimento intelectual da
criança.
Nesse
sentido,
cabe
descrever
a
criança
como
um
sujeito
que
através
de sucessivas
assimilações
e acomodações, vai avançando de
acordo
com
o
seu
nível
de
interações.
Primeiro
interage no
plano
da
ação
e
depois
no
plano
psicológico,
inicialmente
está
em
desacordo
com
o
nível
intelectual
do
adulto.
Mas,
é
um
sujeito
epistêmico,
que
interage
com
o
meio,
num
constante
processo
de
assimilação
e acomodação
em
busca
de
satisfação
de
suas
necessidades.
Em
um
estudo
sobre
a
obra
de Piaget (1995), ressalta-se:
Quanto mais uma
criança ouve e vê, mais quer ver e ouvir, pois as informações enviadas
ao cérebro geram sempre conexões novas que as mantém sempre ativas. É
tão significativa essa relação que, no prazo de dois anos, a criança
aprende milhares de informações, e até uma língua complexa, apenas por
ouvi-la. (ALMEIDA, 1995, p.30).
O argumento, acima, descreve o potencial da criança para organização do
conhecimento do seu mundo e nos reporta à necessidade da interação com o
outro mais experiente, mediador, este é um aspecto fundamental na
constituição do sujeito que aprende. Piaget (1995) lançou seu olhar para
a Gênese do conhecimento e afirma que conhecer não está nem no sujeito,
nem no objeto, mas na interação sujeito-objeto.
Ampliando a discussão de como se conhece numa visão interacionista,
discutiremos a abordagem de Vygotsky (1991). Tendo como âncora esse
aporte teórico, falaremos da importância da internalização, princípio
chave na teoria Sócio-histórica, considerada elemento essencial na
constituição do pensamento.
Para Smolka (2000), internalizar é tornar próprio, é converter práticas
sociais em conhecimentos individuais, é nesse percurso ao longo da vida
que o indivíduo se apropria de bens culturais. Essa forma de
apropriação, não acontece do mesmo jeito com todos os seres humanos. É a
partir dos contextos de vivência e características psíquicas próprias
que cada um vai significando o seu cotidiano e se constituindo enquanto
sujeito.
Segundo Vygotsky (1991), criança e objeto de conhecimento transitam um
pelo outro, através de outra pessoa. Assim, são as interações sociais
que permitem as significações, estas vão sendo construídas num contexto
cultural, historicamente constituído. Em seus estudos, Vygotsy (1991)
descreve a criança em oposição a macacos, animais que foram utilizados
para experimentos, dizendo que ela tem capacidade de incluir estímulos
que não estão no campo visual imediato, exerce operações práticas menos
impulsivas e espontâneas, através da fala planeja e executa uma
atividade visível, age através de processo psicológico complexo. E
assim, demarca a utilização do signo como uma atividade humana,
afirmando que a criança é alguém com capacidade de abstração, que
manipula a fala e outros instrumentos culturais, canalizando-os para o
processo de conhecer, significar. A literatura que trata desses aspectos
esclarece que:
Nesse processo de
elaboração inter-pessoal, a criança faz tentativas de imitar a análise
intelectual, mesmo sem compreendê-la completamente. E, por utilizar-se
dela (ainda que imitativamente) começa a elaborá-la, transformando
(desenvolvendo sua atividade cognitiva). (Galvão, 2005, p. 47)
Dessa forma, a criança coloca seu pensamento em um quadro de
relações já consolidadas, apropriadas em experiências anteriores, e
consegue ampliar seus conhecimentos. O desenvolvimento nessa perspectiva
é visto como de natureza cultural.
Tal como sugere Pino (2006), o desenvolvimento caracterizado
como um fenômeno cultural, não ignora o biológico, mas encontra nele as
possibilidades para a história humana ir sendo construída. Nesse
sentido, o autor esboça que o biológico e o cultural, pertencem a ordens
diferentes, mas são constituintes de uma mesma história. Essa história
começa no período inicial da vida, na infância.
A criança, concebida através da abordagem sócio-histórica é
integrante de um processo de personalização do que estava socialmente
dado em sua cultura e sua aprendizagem acontece de acordo com o seu
acesso aos instrumentos sociais e formas de internalização por ela
elaborada. Por isso as aprendizagens não se dão da mesma forma e na
mesma escala cronológica.
No entender de Wallon (1981), tratar da criança enquanto
sujeito que conhece, é vê-la num processo descontínuo, marcado por
contradições e conflitos. A exemplo de Piaget, o autor fala de estágios
e os caracteriza como sendo momentos marcados por características
específicas, mas que não são demarcadas nitidamente, podendo passar por
sobreposição, mistura, confusão. No entanto, dentro de uma ordem que ele
considera necessária. Discutindo esse aspecto, é importante refletir
acerca do:
[...] ritmo
descontínuo que Wallon assinala ao processo de desenvolvimento infantil,
assemelha-se ao movimento de um pêndulo que, oscilando entre pólos
opostos, imprime características próprias a cada etapa do
desenvolvimento.
(GALVÃO, 2005,
p.47).
É essa posição Walloniana que permite pensar na criança como um
sujeito carregado de dimensões do cognitivo e do afetivo. Por isso, a
atividade intelectual é nessa concepção marcada, entrelaçada com os
aspectos da emoção, isso é constituinte do pensamento infantil.
A criança, em seu percurso de desenvolvimento, vai se formando
através de transformações vividas tanto no biológico como no meio
social. A teoria de Wallon fala de uma pessoa que se inicia na vida a
partir de relações de ordem afetiva com o meio ambiente, as emoções.
Imerso na emoção o sujeito é regido pelas situações emocionais do
ambiente humano.
À medida que a criança avança em idade, também aumentam seus
progressos. Assim, Wallon descreve o que ele chama de revoluções de
idade. Em seu lastro teórico, o choro, o sorriso, o movimento, o jogo e
outras manifestações peculiares ao período inicial da vida vão sendo
relatadas como aspectos que dão passagens para outros comportamentos e
novas aprendizagens.
As experiências da infância vão se sobrepondo para edificar o
adulto. Mas, é o meio um fator indispensável para a manifestação desse
crescimento. O processo de continuidade de edificação da pessoa passa
também pela linguagem que exerce um papel preponderante na constituição
do sujeito. Sobre a linguagem vejamos:
Sem ela, não há
nenhuma possibilidade de representar a ordem mais insignificante, de
efetuar uma seqüência. Dela depende também o poder de ordenar as
sucessivas partes do discurso. [...] Ela não é, verdade se diga, a causa
do pensamento, mas é o instrumento e o suporte indispensáveis aos seus
progressos. (WALLON, 1981, p.186).
E assim, o teórico confirma a importância da linguagem para o
desenvolvimento infantil. Através da linguagem acontece a substituição
do objeto perceptível, a representação, através dessa realidade
simbólica a criança opera sobre o ausente. Desse modo se insere no mundo
dos signos, um referencial para o seu pensamento, que se traduz numa
forma de “[...] unir o que estava desunido, separar o que tinha sido
simultâneo”. (WALLON, 1981, p.187). Mas, esse jeito de refletir está
permeado pela dificuldade, pelo conflito que repercute nas crises pelas
quais o ser vai se auto-afirmando como pessoa, vencendo oposições.
No caminho que traça para a explicação da gênese da pessoa,
Wallon entrelaça o biológico e o social. Nessa visão, a puberdade
finaliza um período da vida, a infância. Este momento é considerado de
ruptura e de aproximação da vida adulta.
Finalmente, elaborando nossa intersecção é possível dizer que Piaget
(1995), busca em seu empreendimento a gênese do conhecimento, isso no
princípio da constituição do humano, e partiu da ação como manifestação
inicial da inteligência, sua criança é epistêmica, sujeito do
conhecimento. Sem negar a criança de Piaget, no sentido de que a criança
é um sujeito que conhece, Vygotsky (1991) a define como sujeito social,
que conhece significando e passa por transformações advindas dos valores
culturais do seu ambiente, esse é também por ela transformado, isso a
torna um ser criador e ao mesmo tempo recriador de cultura. Wallon
(1981), diz que a criança nasce num contexto social, é inicialmente dele
dependente para sobreviver, é geneticamente social. Na concepção
Walloniana a criança sente prazer na repetição, e isto é relevante,
indispensável para sua aprendizagem, manifesta satisfação pelo lúdico e
pela investigação, inerente ao seu ser, tudo isso via de “assimilação ou
confusão adaptada”.
Referências:
ALMEIDA, Paulo
Nunes de.
Educação
lúdica:
técnicas
e
jogos
pedagógicos.
São
Paulo.
Edições
Loyola, 1995.
FONTANA, Roseli A.
Cação. Mediação pedagógica na sala de aula. 4. ed. Campinas, SP:
Autores Associados, 2005. (Coleção educação comtemporânea).
GALVÃO, Isabel.
Henri Wallon: uma concepção dialética do desenvolvimento infantil. 14.
ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2005.
PIAGET, Jean.
Seis estudos de psicologia. Tradução: Maria Alice Magalhães D’amorim
e Paulo Sergio Lima Silva. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1995.
PINO, Angel. As
marcas do humano: às origens da constituição cultural da criança na
perspectiva de Lev S. Vigotski. São Paulo: Cortez, 2005.
SMOLKA,
Ana
Luiza Bustamante. O (im)próprio
e o (im)pertinente
na
apropriação
das
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Cadernos
Cedes.
Vol. 20 , Nº 50 .
Campinas,
2000.
VYGOTSKY, Lev
Semenovick. A formação social da mente: o desenvolvimento dos
processos psicológicos superiores. Tradução: José Cipolla
Neto, Luiz Silveira Nenna Barreto, Solange Castro Afeche. São Paulo:
Martins Fontes, 1991.
WALLON, Henri.
A evolução psicológica da criança. Lisboa: Edições 70, 1981. |