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ISSN 1678-8419         última atualização em: sábado, 03 de julho de 2010 22:45:53                                               

 
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EDUCAÇÃO

Intolerância religiosa em sala de aula: o caso das religiões de matriz africana

   

Paulo Hipólito 1 Adrianne Monique Silva Firmino 2

publicado em 03/07/2010

 

 

Resumo:

Abordar as religiões de matriz africana em sala de aula torna-se primordial para que o preconceito, o estigma e a intolerância religiosa sejam subtraídos. É nesta perspectiva que este trabalho vem ceder uma discussão teórico-metodológica que possa, pelo menos, amenizar esse problema em sala de aula, contribuindo para tornar o ambiente escolar mais democrático e inclusivo.

Palavras-chave: Intolerância religiosa; religiões de matriz africana; sala de aula, educação inclusiva.
 

Não devemos deixar de ressaltar, a princípio, o problema que suscita sempre que nos submetemos em trabalhar com religião(ões), pois acabamos entrando em um campo onde os aspectos místicos, de crença, nos impõe certos limites. Mas não estamos aqui para julgar ou negar doutrinas religiosas, e sim para trazer à luz do conhecimento outras religiões que pelo sufocamento promovido por religiões e classes “dominantes”, em um longo processo histórico, deixamos de (re)conhecê-las e considerá-las enquanto elemento determinante para compreendermos a construção de nossa pluralidade religiosa.

Será nosso desafio neste trabalho, procurar compreender como a mentalidade negativa das religiões de origem africanas se constituiu e permanece até hoje disseminada na sociedade brasileira. Mentalidade esta que justificam muitos dos atos de intolerância em nossa sociedade e se reflete em nossas salas de aulas.

As religiões de matriz africana: alguns motivos da intolerância

Antes de entrarmos na discussão, é necessário deixar esclarecido alguns conceitos que serão trabalhados neste artigo. Então partiremos destacando o conceito de intolerância. Partindo do pressuposto de que a intolerância

[...] é a falta de respeito diante das práticas e crenças alheias. Manifesta-se quando alguém se recusa a deixar ou expressar opiniões diversas. A intolerância pode traduzir-se pela rejeição ou exclusão de pessoas por causa de sua crença religiosa, opção sexual ou mesmo por seu tipo de vestimenta ou corte de cabelo. (BORGES; MEDEIROS; D`ADESKY, 2002, p.50)

Nessa perspectiva, intolerância religiosa significa a não-aceitação, o desrespeito e a exclusão daqueles que têm religiões diferentes da nossa. A intolerância pode expressar-se pelo simples ato de afirmar que nossa religião seja a única verdadeira ou superior, desprezando todas as demais religiões.

Mas é necessário destacar aqui, também, o conceito de religiões de matriz africana o qual adotaremos neste trabalho. Religião de matriz africana será abordada como toda aquela religião que reivindica condições e experiências africanas; aquela que remete sua origem, de alguma forma, ao continente africano, como os candomblés de matrizes nagô (ketu), jejê e bantu (XAVIER, 2005, p.112).

Sabemos que são variadas as razões que se explicam a intolerância às religiões de matriz africanas, cuja principal é religiosa. Ou seja, tem a ver com a forma como as religiões ditas “dominantes” – elencadas principalmente pelas judaico-cristãs –, que há séculos vêm, através de seus discursos imperativos, perseguindo as religiões de matriz africana. Para as religiões judaico-cristãs, essas religiões são colocadas como “práticas diabólicas” e, portanto, devem ser extintas, ou pelo menos repudiadas pelos seus seguidores. A intolerância está relacionada também com a relação de poder. Baseia-se na forma como cada religião age para continuar existindo – no caso as religiões de matriz africana – ou para manter sua hegemonia – as chamadas “grandes religiões”, catolicismo, protestantismo, islamismo etc.

Um fato que contribuiu e contribui para a não divulgação das religiões de matriz africana constitui na falta de documentação. Já os documentos que chegaram até nós, em sua maioria foram escritos por pessoas de instituições que pregavam a sua destruição, como a Igreja Católica, que denunciava nos atos das Inquisições os seguidores das religiões africanas e afrobrasileiras por prática de “bruxaria”. Muitas pessoas pagaram com a vida por isso. Nesse sentido, “A história dessas religiões tem sido feita, portanto, quase que anonimamente, sem registros escritos, no interior dos inúmeros terreiros fundados ao longo do tempo em quase todas as cidades brasileiras” (SILVA, 2000, p.13).

Além dessa dificuldade de divulgação, podemos apontar outras que justificam a falta de interesse e, consequentemente, o preconceito às religiões de matriz africana:

É que, tanto no senso comum como em muitos circuitos intelectuais, essas religiões não desfrutam do mesmo status de outras – por exemplo, o catolicismo, cuja história tem sido fartamente registrada e, em muitos casos, divulgada nas escolas como parte dos currículos de algumas disciplinas oficiais ou como matéria principal do ensino religioso facultativo. (Ibidem)

O pensamento de que as religiões de matriz africana têm relação com práticas diabólicas é histórico e fora instituído principalmente pela Igreja Católica, durante os períodos colonial, imperial e republicano. Mas vale salientar que os próprios seguidores das religiões de matriz africana, como meio de continuar existindo, também se apoderaram desse pensamento, assim como expõe Oliveira (2003, p.24):

Essa associação com o Diabo vem do tempo da repressão, quando o culto do candomblé [e de todas outras formas de religiões africanas e afrobrasileiras] era reprimido pela polícia. Quem era do candomblé precisava ser temido e respeitado. A relação com o Satanás servia para manter o policial longe. Até hoje, certamente por causa dessa reputação, há alguns garis que temem recolher as obrigações das ruas. (Grifo nosso)

A verdade é que o processo de repressão às religiões de matriz africana deixou sequelas muito difíceis de serem revertidas. A associação dessas religiões com o mal é o exemplo mais expressivo. Está incutida no imaginário popular de que as religiões de matriz africana só fazem o mal. Na estatística posta por Oliveira (Ibidem), “De cada dez pessoas que procuram os candomblés, oito pedem maldade. As pessoas se aproveitam dessa coisa demoníaca para fazer nome”. Mas como o próprio Oliveira afirma, “[...] o tempo de se esconder já passou. Não tem cabimento revelar o encanto, os fundamentos [das religiões de matriz africana], mas é possível falar da beleza e do sentido” (Ibidem, p.25, Grifo nosso), e assim contribuir para amenizar muitos dos atos intolerantes.

A intolerância religiosa em sala de aula

Percebemos que a intolerância e o preconceito às religiões de matriz africana em sala de aula são encarados como algo corriqueiro, como brincadeira de alunos, e dificilmente são levados em consideração. Se o professor/educador, diante dessa situação, optar pelo silêncio, estará promovendo o preconceito, mesmo que implicitamente. Pois o silêncio, enquanto não-dito, se expressa como uma forma de discurso que chamamos de “discurso do silêncio”.

Supomos a seguinte situação: se numa sala de aula certo aluno zombar do seu colega com expressões do tipo “catimbozeiro”, ou “macumbeiro”, ou “galo de terreiro” e o professor presenciar a cena e não intervir, simplesmente calar-se ou até mesmo achar graça, nesse caso o professor será o legitimador da intolerância religiosa. Isso porque como educador, por ser seu o compromisso promover o respeito e a moral nos alunos, deveria repreender o agressor, não com indiferença, mas com passividade, como amigo, pois devemos estar cientes de que o fato da intolerância muitas vezes “[...] resulta do conhecimento insuficiente de um assunto” (GAARDER; GELLERN; NOTAKER, 2005, p.17), podendo então complicar ainda mais a situação. Geralmente quando ocorre um fato como este citado é por que o agressor não tem o conhecimento plausível da religião do outro, falta-lhe uma elucidação.

A falta de conhecimento, por outro lado, pode explicar a falta de ação ou a ação debochada partida do professor no exemplo citado acima. Poucos são os professores que têm o conhecimento suficiente sobre as religiões de matriz africana que seja capaz de barrar a intolerância. Citamos agora o exemplo do que aconteceu numa escola do Rio de Janeiro, conforme matéria publicada no site do O globo, no dia 25 de janeiro de 2009, onde uma professora, além de expulsar o aluno da sala de aula o chamou de “filho do demônio”, por este aluno pertencer a uma família praticante do Candomblé. A mãe do aluno, no entanto, acionou as autoridades e denunciou a professora por crime de intolerância religiosa. A professora só foi afastada da escola e respondeu criminalmente menos pela eficácia da lei do que pela repercussão do ocorrido, o que deixa claro que a imprensa e a mídia podem ser poderosas aliadas tanto na disseminação quanto na subtração da intolerância religiosa.

É oportuno também destacar o papel de muitos gestores que contribuem para configurar o ambiente escolar em um ambiente intolerante. São aqueles gestores em sua maioria de escolas privadas e ditas tradicionais, arraigadas em práticas essencialmente católicas, que mesmo não sendo explícito, bloqueia o acesso de alunos de outras religiões.

Por fim colocamos o não interesse de muitos professores em tratar não só das religiões de matriz africana, mas tecer uma discussão geral sobre a intolerância e como ela se transmite. Mas o que acontece muitas vezes é esse problema ser encarado como da não alçada dos educadores. O pequeno número de adeptos também é colocado como barreira a não abordagem dos temas ligados às religiões de matriz africana: para que fazer referência às religiões de matriz africana quando grande parte dos alunos pertence às religiões de matriz judaico-cristã? E assim a minoritária exceção de praticantes de religiões de matriz africana vê suas religiões serem depreciadas.

(In)Conclusão

Esperamos ter contribuído para a discussão da temática das religiões de matriz africana em sala de aula, no que concerne a promulgação da aceitação, do respeito, da tolerância não só a estes seguimentos religiosos, mas a todas que compõe o universo religioso brasileiro.

O importante é que os alunos compreendam que cada religião – africana ou não, “poderosa” ou não – comporta sua importância na construção das relações e culturas humanas, portanto, devem ser respeitadas e toleradas. Mas vale lembrar também que o compromisso com a tolerância não cabe apenas a um professor específico. Esse assunto é transversal, e a diversidade religiosa é uma realidade presente em todas as escolas do Brasil, seja pública ou privada, a qual o professor deve estar sempre preparado a lidar com ela.

A busca pela coexistência de diversas religiões é um dever de todos nós. Esta busca deve está embasada no respeito às diferenças e na igualdade de direitos:

Uma atitude tolerante pode perfeitamente coexistir com uma sólida fé e com a tentativa de converter os outros. [...] A tolerância não limita o direito de fazer propaganda, mas exige que esta seja feita com respeito pela opinião dos outros. [...] O respeito pela vida religiosa dos outros, por suas opiniões e seus pontos de vista, é um pré-requisito para a coexistência humana. Isso não significa que devemos aceitar tudo como igualmente correto, mas que cada um tem o direito de ser respeitado em seus pontos de vista, desde que estes não violem os direitos humanos básicos. (GAARDER; GELLERN; NOTAKER, 2005, p.17)

Assim, tentando ceder uma (in) conclusão a nosso trabalho, gostaríamos de finalizar com uma citação de Silva (2004, p.3), que resume bem quase tudo do que foi posto até aqui:

Ora, o respeito à diversidade é um dos valores mais importantes do exercício da cidadania, como não podemos esquecer. Só nesse respeito absoluto podemos entender que não existem seitas (pois não existem grandes e pequenas religiões), não existe sincretismo (pois não existe uma religião pura de influência de outras) e, acima tudo, não existe para o historiador ou para o filósofo uma religião melhor do que outra. Cada uma colaborou com uma parte do pensamento religioso; cada uma expressa uma visão de um grupo e cada uma teve e tem seu valor específico, exatamente por serem diferentes.


 


 

Referências:

XAVIER, Juarez Tadeu de Paula. Limites conceituais no estudo das religiões afrodescendentes. In: SANTOS, Gevanilda e SILVA, Maria Palmira da (Org.). Racismo no Brasil: percepções da discriminação e do preconceito no século XXI. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 2005, pp.111-117

SILVA, Eliane Moura da. Religião, diversidade e valores culturais: conceitos teóricos e a educação para a cidadania. In: ReverRevista de Estudos da Religião, n.2, pp.1-14, 2004. Disponível em: www.pucsp.br/rever/rv2_2004/p_silva.pdf. Acessado em 3 de agosto de 2009.

GAARDER, Jostein; HELLERN, Victor; NOTAKER, Henry. O livro das religiões. Trad.: Isa Mara Lando. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.

OLIVEIRA, Rafael Soares de. Candomblé: diálogos fraternos contra a intolerância religiosa. Rio de Janeiro: DP&A, 2003.

SILVA, Vagner Gonçalves da. Candomblé e umbanda: caminho da devoção brasileira. São Paulo: Ática, 2000.

BORGES, Edson (Org.). Racismo, preconceito e intolerância. São Paulo: Atual, 2002.


 


 

1 Estudante de História da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), Campus de Guarabira. E-mail: paulo-hipolito@hotmail.com

2 Graduada em Geografia pela Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), Campus de Guarabira. E-mail: moniquegba@hotmail.com

Como ser citado:
 

Como citar este artigo:

HIPÓLITO, Paulo; FIRMINO, Adrianne Monique Silva. Intolerância religiosa em sala de aula: o caso das religiões de matriz africana. Revista Eletrônica P@rtes, v. 00, março de 2010. Disponível em:

P@rtes.V.00 p.eletrônica. Junho 2010. Disponível em <www.partes.com.br/educacao/processodeinclusao.asp>. Acesso em _/_/_.

 

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