Resumo:
Abordar as religiões de
matriz africana em sala de aula torna-se primordial para que o
preconceito, o estigma e a intolerância religiosa sejam
subtraídos. É nesta perspectiva que este trabalho vem ceder uma
discussão teórico-metodológica que possa, pelo menos, amenizar
esse problema em sala de aula, contribuindo para tornar o ambiente
escolar mais democrático e inclusivo.
Palavras-chave:
Intolerância religiosa; religiões de matriz africana; sala de
aula, educação inclusiva.
Não devemos deixar de
ressaltar, a princípio, o problema que suscita sempre que nos
submetemos em trabalhar com religião(ões), pois acabamos entrando
em um campo onde os aspectos místicos, de crença, nos impõe certos
limites. Mas não estamos aqui para julgar ou negar doutrinas
religiosas, e sim para trazer à luz do conhecimento outras
religiões que pelo sufocamento promovido por religiões e
classes “dominantes”, em um longo processo histórico, deixamos de
(re)conhecê-las e considerá-las enquanto elemento determinante
para compreendermos a construção de nossa pluralidade religiosa.
Será nosso desafio neste
trabalho, procurar compreender como a mentalidade negativa das
religiões de origem africanas se constituiu e permanece até hoje
disseminada na sociedade brasileira. Mentalidade esta que
justificam muitos dos atos de intolerância em nossa sociedade e se
reflete em nossas salas de aulas.
As religiões de matriz
africana: alguns motivos da intolerância
Antes de entrarmos na
discussão, é necessário deixar esclarecido alguns conceitos que
serão trabalhados neste artigo. Então partiremos destacando o
conceito de intolerância. Partindo do pressuposto de que a
intolerância
[...] é a falta de respeito diante das práticas e crenças alheias.
Manifesta-se quando alguém se recusa a deixar ou expressar
opiniões diversas. A intolerância pode traduzir-se pela rejeição
ou exclusão de pessoas por causa de sua crença religiosa, opção
sexual ou mesmo por seu tipo de vestimenta ou corte de cabelo.
(BORGES; MEDEIROS; D`ADESKY, 2002, p.50)
Nessa perspectiva,
intolerância religiosa significa a não-aceitação, o desrespeito e
a exclusão daqueles que têm religiões diferentes da nossa. A
intolerância pode expressar-se pelo simples ato de afirmar que
nossa religião seja a única verdadeira ou superior, desprezando
todas as demais religiões.
Mas é necessário
destacar aqui, também, o conceito de religiões de matriz africana
o qual adotaremos neste trabalho. Religião de matriz africana será
abordada como toda aquela religião que reivindica condições e
experiências africanas; aquela que remete sua origem, de alguma
forma, ao continente africano, como os candomblés de matrizes nagô
(ketu), jejê e bantu (XAVIER, 2005, p.112).
Sabemos que são variadas
as razões que se explicam a intolerância às religiões de matriz
africanas, cuja principal é religiosa. Ou seja, tem a ver com a
forma como as religiões ditas “dominantes” – elencadas
principalmente pelas judaico-cristãs –, que há séculos vêm,
através de seus discursos imperativos, perseguindo as religiões de
matriz africana. Para as religiões judaico-cristãs, essas
religiões são colocadas como “práticas diabólicas” e, portanto,
devem ser extintas, ou pelo menos repudiadas pelos seus
seguidores. A intolerância está relacionada também com a relação
de poder. Baseia-se na forma como cada religião age para continuar
existindo – no caso as religiões de matriz africana – ou para
manter sua hegemonia – as chamadas “grandes religiões”,
catolicismo, protestantismo, islamismo etc.
Um fato que contribuiu e
contribui para a não divulgação das religiões de matriz africana
constitui na falta de documentação. Já os documentos que chegaram
até nós, em sua maioria foram escritos por pessoas de instituições
que pregavam a sua destruição, como a Igreja Católica, que
denunciava nos atos das Inquisições os seguidores das religiões
africanas e afrobrasileiras por prática de “bruxaria”. Muitas
pessoas pagaram com a vida por isso. Nesse sentido, “A história
dessas religiões tem sido feita, portanto, quase que anonimamente,
sem registros escritos, no interior dos inúmeros terreiros
fundados ao longo do tempo em quase todas as cidades brasileiras”
(SILVA, 2000, p.13).
Além dessa dificuldade
de divulgação, podemos apontar outras que justificam a falta de
interesse e, consequentemente, o preconceito às religiões de
matriz africana:
É
que, tanto no senso comum como em muitos circuitos intelectuais,
essas religiões não desfrutam do mesmo status de outras –
por exemplo, o catolicismo, cuja história tem sido fartamente
registrada e, em muitos casos, divulgada nas escolas como parte
dos currículos de algumas disciplinas oficiais ou como matéria
principal do ensino religioso facultativo. (Ibidem)
O pensamento de que as
religiões de matriz africana têm relação com práticas diabólicas é
histórico e fora instituído principalmente pela Igreja Católica,
durante os períodos colonial, imperial e republicano. Mas vale
salientar que os próprios seguidores das religiões de matriz
africana, como meio de continuar existindo, também se apoderaram
desse pensamento, assim como expõe Oliveira (2003, p.24):
Essa associação com o Diabo vem do tempo da repressão, quando o
culto do candomblé [e de todas outras formas de religiões
africanas e afrobrasileiras] era reprimido pela polícia. Quem era
do candomblé precisava ser temido e respeitado. A relação com o
Satanás servia para manter o policial longe. Até hoje, certamente
por causa dessa reputação, há alguns garis que temem recolher as
obrigações das ruas. (Grifo nosso)
A verdade é que o
processo de repressão às religiões de matriz africana deixou
sequelas muito difíceis de serem revertidas. A associação dessas
religiões com o mal é o exemplo mais expressivo. Está incutida no
imaginário popular de que as religiões de matriz africana só fazem
o mal. Na estatística posta por Oliveira (Ibidem), “De cada dez
pessoas que procuram os candomblés, oito pedem maldade. As pessoas
se aproveitam dessa coisa demoníaca para fazer nome”. Mas como o
próprio Oliveira afirma, “[...] o tempo de se esconder já passou.
Não tem cabimento revelar o encanto, os fundamentos [das religiões
de matriz africana], mas é possível falar da beleza e do sentido”
(Ibidem, p.25, Grifo nosso), e assim contribuir para amenizar
muitos dos atos intolerantes.
A intolerância religiosa
em sala de aula
Percebemos que a
intolerância e o preconceito às religiões de matriz africana em
sala de aula são encarados como algo corriqueiro, como brincadeira
de alunos, e dificilmente são levados em consideração. Se o
professor/educador, diante dessa situação, optar pelo silêncio,
estará promovendo o preconceito, mesmo que implicitamente. Pois o
silêncio, enquanto não-dito, se expressa como uma forma de
discurso que chamamos de “discurso do silêncio”.
Supomos a seguinte
situação: se numa sala de aula certo aluno zombar do seu colega
com expressões do tipo “catimbozeiro”, ou “macumbeiro”, ou “galo
de terreiro” e o professor presenciar a cena e não intervir,
simplesmente calar-se ou até mesmo achar graça, nesse caso o
professor será o legitimador da intolerância religiosa. Isso
porque como educador, por ser seu o compromisso promover o
respeito e a moral nos alunos, deveria repreender o agressor, não
com indiferença, mas com passividade, como amigo, pois devemos
estar cientes de que o fato da intolerância muitas vezes “[...]
resulta do conhecimento insuficiente de um assunto” (GAARDER;
GELLERN; NOTAKER, 2005, p.17), podendo então complicar ainda mais
a situação. Geralmente quando ocorre um fato como este citado é
por que o agressor não tem o conhecimento plausível da religião do
outro, falta-lhe uma elucidação.
A falta de conhecimento,
por outro lado, pode explicar a falta de ação ou a ação debochada
partida do professor no exemplo citado acima. Poucos são os
professores que têm o conhecimento suficiente sobre as religiões
de matriz africana que seja capaz de barrar a intolerância.
Citamos agora o exemplo do que aconteceu numa escola do Rio de
Janeiro, conforme matéria publicada no site do O globo, no
dia 25 de janeiro de 2009, onde uma professora, além de expulsar o
aluno da sala de aula o chamou de “filho do demônio”, por este
aluno pertencer a uma família praticante do Candomblé. A mãe do
aluno, no entanto, acionou as autoridades e denunciou a professora
por crime de intolerância religiosa. A professora só foi afastada
da escola e respondeu criminalmente menos pela eficácia da lei do
que pela repercussão do ocorrido, o que deixa claro que a imprensa
e a mídia podem ser poderosas aliadas tanto na disseminação quanto
na subtração da intolerância religiosa.
É oportuno também
destacar o papel de muitos gestores que contribuem para configurar
o ambiente escolar em um ambiente intolerante. São aqueles
gestores em sua maioria de escolas privadas e ditas tradicionais,
arraigadas em práticas essencialmente católicas, que mesmo não
sendo explícito, bloqueia o acesso de alunos de outras religiões.
Por fim colocamos o não
interesse de muitos professores em tratar não só das religiões de
matriz africana, mas tecer uma discussão geral sobre a
intolerância e como ela se transmite. Mas o que acontece muitas
vezes é esse problema ser encarado como da não alçada dos
educadores. O pequeno número de adeptos também é colocado como
barreira a não abordagem dos temas ligados às religiões de matriz
africana: para que fazer referência às religiões de matriz
africana quando grande parte dos alunos pertence às religiões de
matriz judaico-cristã? E assim a minoritária exceção de
praticantes de religiões de matriz africana vê suas religiões
serem depreciadas.
(In)Conclusão
Esperamos ter
contribuído para a discussão da temática das religiões de matriz
africana em sala de aula, no que concerne a promulgação da
aceitação, do respeito, da tolerância não só a estes seguimentos
religiosos, mas a todas que compõe o universo religioso
brasileiro.
O importante é que os
alunos compreendam que cada religião – africana ou não, “poderosa”
ou não – comporta sua importância na construção das relações e
culturas humanas, portanto, devem ser respeitadas e toleradas. Mas
vale lembrar também que o compromisso com a tolerância não cabe
apenas a um professor específico. Esse assunto é transversal, e a
diversidade religiosa é uma realidade presente em todas as escolas
do Brasil, seja pública ou privada, a qual o professor deve estar
sempre preparado a lidar com ela.
A busca pela
coexistência de diversas religiões é um dever de todos nós. Esta
busca deve está embasada no respeito às diferenças e na igualdade
de direitos:
Uma atitude tolerante pode perfeitamente coexistir com uma sólida
fé e com a tentativa de converter os outros. [...] A tolerância
não limita o direito de fazer propaganda, mas exige que esta seja
feita com respeito pela opinião dos outros. [...] O respeito pela
vida religiosa dos outros, por suas opiniões e seus pontos de
vista, é um pré-requisito para a coexistência humana. Isso não
significa que devemos aceitar tudo como igualmente correto, mas
que cada um tem o direito de ser respeitado em seus pontos de
vista, desde que estes não violem os direitos humanos básicos. (GAARDER;
GELLERN; NOTAKER, 2005, p.17)
Assim, tentando ceder
uma (in) conclusão a nosso trabalho, gostaríamos de finalizar com
uma citação de Silva (2004, p.3), que resume bem quase tudo do que
foi posto até aqui:
Ora, o respeito à diversidade é um dos valores mais importantes do
exercício da cidadania, como não podemos esquecer. Só nesse
respeito absoluto podemos entender que não existem seitas (pois
não existem grandes e pequenas religiões), não existe sincretismo
(pois não existe uma religião pura de influência de outras) e,
acima tudo, não existe para o historiador ou para o filósofo uma
religião melhor do que outra. Cada uma colaborou com uma parte do
pensamento religioso; cada uma expressa uma visão de um grupo e
cada uma teve e tem seu valor específico, exatamente por serem
diferentes.
Referências:
XAVIER, Juarez Tadeu de Paula.
Limites conceituais no estudo das religiões afrodescendentes. In:
SANTOS, Gevanilda e SILVA, Maria Palmira da (Org.).
Racismo no Brasil: percepções da
discriminação e do preconceito no século XXI.
São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 2005, pp.111-117
SILVA, Eliane Moura da.
Religião, diversidade e valores culturais: conceitos teóricos e a
educação para a cidadania. In: Rever
– Revista de Estudos da Religião, n.2, pp.1-14, 2004.
Disponível em:
www.pucsp.br/rever/rv2_2004/p_silva.pdf.
Acessado em 3 de agosto de 2009.
GAARDER, Jostein; HELLERN,
Victor; NOTAKER, Henry. O livro das religiões.
Trad.: Isa Mara Lando. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.
OLIVEIRA, Rafael Soares de.
Candomblé: diálogos
fraternos contra a intolerância religiosa.
Rio de Janeiro: DP&A, 2003.
SILVA, Vagner Gonçalves da.
Candomblé e umbanda:
caminho da devoção brasileira.
São Paulo: Ática, 2000.
BORGES, Edson (Org.).
Racismo, preconceito e intolerância.
São Paulo: Atual, 2002.