Resumo: A proposta deste texto
é evidenciar o conceito de Interculturalidade no contexto Amazônico,
especificamente no Estado de Rondônia – Brasil. Tem como propósito
produzir um demonstrativo sobre os primeiros passos do Curso de
Licenciatura em Educação Básica Intercultural Indígena que, iniciado
em 2009 no âmbito da Fundação Universidade Federal de Rondônia
pretende produzir diálogos com os diversos grupos culturalmente
distintos que integram o universo Amazônico.
Palavras - chave: Educação.
Formação. Interculturalidade. Amazônia.
Considerações iniciais
Historicamente a educação na Amazônia
tem sido palco de intensos debates, isso porque o território é
composto por grupos culturalmente distintos e que a partir de seus
espaços específicos, produzem significados e marcas simbólicas para
as suas ações. Quilombolas, ribeirinhos, extrativistas e indígenas
confrontam o processo de urbanização da floresta, situação que
produz e oportuniza um diálogo intercultural entre os grupos urbanos
e as populações tradicionais. Perante isso, se localiza o Estado de
Rondônia no âmbito da Amazônia Legal, formado por minorias étnicas e
pessoas que alimentaram o processo migratório principalmente a
partir das décadas de setenta e oitenta do século XX, provenientes
das regiões sul, sudeste e principalmente nordeste. O universo
Amazônico, composto pela diversidade cultural oportunizou conquistas
históricas, como por exemplo, a promoção e igualdade de acesso a
educação escolar.
Educação intercultural em Rondônia
Pensando na efetivação de propostas de
Interculturalidade, a Fundação Universidade Federal de Rondônia –
UNIR propôs a constituição e funcionamento do primeiro curso
superior de Rondônia que pretende produzir um intenso diálogo com a
diversidade amazônica. Desde 2007, professores, alunos e entidades
representativas sociais se uniram em função da aprovação da
graduação em Licenciatura em Educação Básica Intercultural Indígena
- que foi possível depois que o ”CONSUN – Conselho Universitário no
âmbito do REUNI – Programa de Apoio ao Plano de Reestruturação e
Expansão das universidades Federais, no dia 24 de Outubro de 2007”
(NEVES, 2009, p.78), aprovou o curso destinado a formação indígena.
Tendo em vista as ocorrências para a
efetivação do esperado curso pelas comunidades indígenas, Neves
(2009) argumenta que a efetivação do Curso superior indígena em
Rondônia “é um gesto que significa, sobretudo, um passo na direção
da viabilização do direito à educação, do respeito ás culturas
tradicionais” (p, 179). Neste sentido, é possível concordar com
Haddad e Graciano (2006), para quem
O direito a educação escolar indígena
está assegurado na Constituição Federal de 1988, artigo 5º caput,
que afirma a igualdade de todos perante a lei; artigo 4º, IV, todos
tem direito a não discriminação; artigo 205, todos tem direito a
educação; artigo 206 I, igualdade de acesso e permanência na escola;
artigo 208 I e IV, ensino Fundamental obrigatório e gratuito, e
acesso aos níveis mas elevados de ensino, pesquisa e criação
artística, além do artigo 231, que assegura as populações indígenas
sua organização social, costumes, línguas, crenças, tradições e
sobre as terras que tradicionalmente ocupam. (p. 246-247)
Nesta perspectiva, ampliando os
espaços de direitos, o Curso de Licenciatura em Educação Básica
Intercultural Indígena da Fundação Universidade Federal de Rondônia
pretende promover quatro áreas de formação, sendo que o acadêmico
permanecerá na Universidade durante cinco anos, tempo necessário
para conseguir integralizar o curso. Os dois anos iniciais são
constituídos por uma base comum, ao passo que nos últimos três anos,
o acadêmico indígena deverá optar entre as áreas de Educação Escolar
no Ensino Fundamental e Gestão Escolar; Ciências da Linguagem
Intercultural; Ciências da Natureza e da Matemática Intercultural e
Ciências da Sociedade Intercultural.
O intenso desafio na promoção do Curso
Superior Indígena refere-se tanto a capacidade de promover a
acessibilidade e permanência dos indígenas na Universidade, como
também a estrutura curricular. O primeiro desafio está diretamente
relacionado à construção de espaços em que os indígenas possam
sentir-se inseridos em um diálogo intercultural, já o segundo
desafio, refere-se a concepções e integração histórica de
conhecimento e valorização dos saberes indígenas e não indígenas,
através da formatação de um currículo que se perceba claramente como
sendo intercultural.
O conceito de Interculturalidade no
sentido que defendemos, refere-se a capacidade de possibilitar
trocas de saberes e experiências entre grupos culturalmente
distintos, entretanto, o diálogo intercultural só é viabilizado em
espaços multiculturais em que os sujeitos é possibilitado “olhar
para o outro, especialmente o outro que a sociedade nos ensinou a
olhar com desconfiança e suspeita, não como um potencial inimigo,
mas um parceiro em nosso trabalho, nossa comunidade” ( NENEVÉ &
PANSINI, 2009, p. 15). Entretanto, quando somos arremessados ao
contexto educacional, não podemos deixar de questionar até que ponto
as instâncias dos processos curriculares representam o mundo do
outro, isso porque o currículo “não é elemento inocente e neutro de
transmissão desinteressada do conhecimento social. o currículo está
implicado em relações de poder, o currículo transmite visões sociais
particulares e interessadas, o currículo produz identidades
individuais e sociais particulares”. (MOREIRA & SILVA, 2005, p.8).
Tais proposições com referência ao
nosso desafio na construção de uma educação eminentemente dialógica
e intercultural referem-se a nossa desconfiança da tradição escolar
do currículo, já que historicamente tem sido apontado como
instrumento de dominação e:
nunca é um conjunto neutro de
conhecimento, que de algum modo aparece nos textos e nas salas de
aulas de uma nação. Ele é sempre parte de uma tradição seletiva,
resultado da seleção de alguém, da visão de algum grupo acerca do
que seja conhecimento legítimo. É produto das tensões, conflitos e
concessões culturais, políticas e econômicas que organizam e
desorganizam um povo.
(APPLE, 2005, p. 59)
A continuação do desafio a que nos
propomos, está diretamente ligada a formatação da educação
intercultural indígena. Constantemente nos perguntamos sobre a
legitimidade de nossos saberes frente aos saberes historicamente
construídos pelas sociedades indígenas. Como efetivar e legitimar um
currículo eminentemente intercultural? De que forma eleger saberes
que não venha representar estruturas de dominação e poder? São
questões como estás que nos desafiam a cada instante, e não temos
respostas precisas já que nossas ameaças provem daqueles que
esclarecem que a construção de uma educação significativa não tem
sido fácil, e que “o significado é sempre um espaço colonizado, no
qual a necessidade já foi inscrita por códigos culturais e pelo
campo mais amplo de relações políticas, econômicas e sociais” (MAcLAREM,
2000, p.31).
Considerações Finais
Diante dos apontamentos evidenciados
no texto, voltamos a reafirmar que os desafios que estamos
enfrentando no sentido de efetivar uma educação intercultural em
Rondônia, referem-se tanto a viabilização de espaços eminentemente
intercultural, como também, a construção de um currículo capaz de
promover um diálogo entre os grupos culturalmente distintos.
A reconhecermos o currículo como
espaço de dominação e que transfere para as culturas minoritárias os
valores e interesses dos grupos majoritários, redobramos nosso
interesse em efetivar uma educação que no mínimo não represente
espaço de manutenção de poder e dominação social.
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