“Como explicar
a um meigo
Um leigo
assassinado?”
Nei Lisboa
A nova safra de filmes brasileiros não tem deixado a desejar. Ao
contrário da difundida idéia de que “Pra filme brasileiro é bom”, o
cinema nacional desde sua retomada tem demonstrado um profundo
cuidado com os filmes lançados. Prova disso são os interessantes
Amarelo Manga, Tropa de Elite, Central do Brasil, Quem matou Pixote?
Bons filmes, embora não lotando ainda os cinemas tal como os
enlatados que são consumidos em larga escala por aqui. O convite
para assistir ao filme Linha de Passe é o convite para aqueles que
não têm medo de ver o que não raro nos negamos. Em uma família na
qual a mãe é a chave, moram na mesma casa filhos de pais diferentes
que possuem a mãe como elo.
É impossível não se encantar com o mesmo menino que fez o Central do
Brasil e que caiu aos gostos do diretor já crescido e mostrando a
que veio. Fazendo um personagem interessante, bem construído,
inquieto em suas escolhas. Não tem como não se encantar com o tom
conferido ao personagem, delicado da mesma maneira que foi seu
personagem em Central do Brasil, emocionando tal como da outra vez.
A mãe dos meninos também faz uma interpretação antológica na medida
em que já está grávida de outro filho e luta para manter seu
trabalho como empregada doméstica, pois se torna difícil fazer as
tarefas em função da gestação. Um dia, ao chegar ao seu trabalho,
percebe que a patroa também chamou outra para ajudar, e ela sente
um grande medo de perder seu emprego.

Cleuza (Sandra Corveloni) vibra com a torcida no estádio
Uma outra grande sacada do filme é o imaginário brasileiro em
relação ao futebol. Um dos seus filhos sonha ser jogador de um time
e é advertido por um amigo que para poder ter direito a jogar alguns
minutos em um pequeno time, precisa pagar uma quantia de dinheiro.
Lógico que a família não dispõe do valor necessário, uma vez que a
renda é pequena. Esse mesmo menino sofre por fazer dezoito anos e
não ter entrado em nenhum clube para jogar, pois está ficando velho
para iniciar uma carreira futebolística.
E em um dos melhores momentos do filme, os mesmos braços levantados
que cultuam , amam e sofrem com o futebol, na próxima tomada,
aparecem em um culto religioso. Tão fervorosos e apaixonados, pois o
outro filho aspira ser participa de um culto. É impossível um
imaginário não se alinhavar com o outro, o futebolístico e o
religioso, costurando duas paixões que podem se tornar fanatismos,
assim como todas as paixões que vivemos...
Fazer esse,
essencialmente humano, como nos coloca FREIRE (1987, p.92):
Práxis que,
sendo reflexão e ação verdadeiramente transformadora da realidade, é
fonte de conhecimento reflexivo e criação. [...] E é como seres
transformadores e criadores que os homens, em suas permanentes
relações com a realidade, produzem, não somente os bens materiais,
as coisas sensíveis, os objetos, mas também as instituições sociais,
suas idéias, suas concepções. Através de sua permanente ação
transformadora da realidade objetiva, os homens, simultaneamente,
criam a história e se fazem seres histórico – sociais.
Gostemos ou não de fanatismos, antes de mais nada devemos reconhecer
enquanto manifestação, como diria o filósofo Nietzsche, humano
demasiado humano. Totalmente compreensível, ainda que não raras
vezes nos cause estranheza e indignação. Como entender um país que
mal se alimenta, porém deposita dinheiro para essas igrejas? Como
entender as brigas de torcidas nos estádios? Como é possível que as
pessoas se matem por desentendimentos futebolísticos? Por que
discutir por um gol?
E manifestações sempre organizadas, com muitas pessoas. As brigas de
torcidas, todos sabemos não são casos isolados. Torcidas organizadas
se provocam, xingam-se, batem. Os estádios que antigamente eram um
local de lazer para as famílias aos domingos, vão gradativamente
tornando-se um local perigoso, no qual os pais já não levam mais
seus filhos para passearem.
Costurando todos esses caminhos vemos a batalha de uma mãe para
criar sozinha todos esses filhos, que em alguns momentos refresca a
alma em uma mesa de bar e se entristece quando o filho lhe cobra
estar grávida novamente. Luta para fazer uma festa de dezoito anos
para um dos filhos e se enerva quando um deles lhe presenteia com
uma bolsa que, tal como na música do Chico Buarque “Veio com tudo
dentro...”
Cleuza
(Sandra
Corveloni) e o filho Dinho (José Geraldo Rodrigues) discutem durante
o jantar
Difícil não se emocionar com a história. Impossível quem de nós não
conheça alguma semelhante ou não a compare com a sua. Quantas
mulheres sozinhas sustentando casas, lutando por seus filhos e
trabalho, sofrendo preconceito, e ainda assim, chamadas de sexo
frágil?
Para CHAUÍ
(2002, p.11):
Como se pode
notar, nossa vida cotidiana é toda feita de crenças religiosas, da
aceitação tácita de evidências que nunca questionamos porque nos
parecem naturais, óbvias. Cremos no espaço, no tempo, na realidade,
na qualidade, na quantidade, na verdade, na diferença entre
realidade e sonho ou loucura, entre verdade e mentira; cremos também
na objetividade e na diferença entre ela e a subjetividade, na
existência da vontade, da liberdade, do bem e do mal, da moral, da
sociedade.
E assim, como na citação, aceitamos todo o cotidiano com
naturalidade. Já não nos surpreendemos com essas histórias, não mais
somos tocados pela história triste do vizinho. A sociedade do
espetáculo está alicerçada no cuidado individual, na preocupação com
seu quintal, o qual não raro anda gradeado e com cerca elétrica. O
problema alheio não me comove, pois tenho os meus que já são
suficientes.
Acreditar no improvável, na mudança e na transformação, para muitos,
ficou perdido no desusado discurso marxista de intervenção na
realidade. O fundamental agora é o acúmulo de bens de consumo, o
celular da moda, independente se terei dinheiro para pagar o feijão
até o fim do mês. O mais importante é que o meu celular tire fotos e
quem sabe eu consiga ouvir músicas nele.
Enquanto isso uma camada significativa da população não sabe se vai
comer amanhã, seus filhos estão fadados ao fracasso escolar e a
morrer de doenças ainda pouco consideradas erradicadas. Enquanto os
nossos filhos baixam músicas na rede, os filhos de muitos jamais
terão a rede em casa. E isso não faz parte de show nenhum, pois
nunca vão conseguir nos incutir a impossibilidade de sonhar, de
querer e sobretudo de lutar por um mundo melhor...
REFERÊNCIAS
CHAUÍ,
Marilena. Convite à Filosofia. São Paulo, SP: Editora
Ática, 12ª ed., 2002.
FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Miniaurélio: o
minidicionário da língua portuguesa. 6. ed. rev. amp.
Curitiba: Posigraf, 2004.
FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro,
JR: Editora Paz e Terra, 17ª Edição, 1987.