Resumo
Este texto tem por
objetivo apresentar o trabalho desenvolvido pelo Projeto LUDIBUS,
ligado à Faculdade de Filosofia e Ciências da UNESP, Campus de
Marília. O Projeto tem como principal característica a existência
de um ônibus adaptado e devidamente equipado para o
desenvolvimento de atividades artísticas e lúdicas junto às
crianças de escolas de Educação Básica (Educação Infantil e Ensino
Fundamental) do município de Marília- SP. Por meio das linguagens
artísticas, as crianças criam, organizam atividades e falam muito
de si e de seu mundo, revelando toda a riqueza do universo
infantil.
Palavras- chave: Lúdico,
criança, arte, Educação Básica.
Abstract
This
text has like objective introduce the advanced work by LUDIBUS
Project, settled in Philosofhy and Science Faculty by UNESP, from
Marília Campus City. The project has like main characteristic the
existence of a bus that was adaptted and fitted out to development
the artistics and jest activities with the children by Basic
Education (Childish Education and Fundamental Teaching) from
Marília-SP municipality. Through the artistics language the
children create, organize activities and talk so much about
themselves and their world, revealing all the wealth of the
childish Universe.
Key-words:Jest, child,
art , Basic Education
Imaginem um ônibus
enorme que, ao invés de assentos para passageiros e catraca possui
baús coloridos cheios de livros, gibis, brinquedos e materiais
para a realização de diversas atividades artísticas. Imaginem um
ônibus cheio de cores, com mesas e banquinhos apropriados para que
crianças, em seu interior, sintam-se à vontade para ler, desenhar,
pintar, brincar, sonhar. Este ônibus existe, sim. Muitas crianças
da cidade de Marília - SP, o conhecem. É o LUDIBUS, carinhosamente
chamado de “o ônibus da alegria”.

Este ônibus faz parte de
um Projeto que visa levar atividades artísticas e lúdicas às
crianças de Escolas de Educação Infantil e de Ensino Fundamental
(séries Iniciais). A fim de que as crianças imaginem, criem,
brinquem, experimentem e se desenvolvam, propostas artísticas e
lúdicas são apresentadas às escolas por meio do Projeto LUDIBUS,
que tem como principal característica a existência deste ônibus
mágico, cheio de possibilidades e de materiais diversificados.
Quando e onde esta
história começou? Em 1999, na Faculdade de Filosofia e Ciências da
UNESP (Universidade Estadual Paulista), Campus de Marília.
Inspirado nas brinquedotecas itinerantes surgidas no Brasil a
partir da década de 1990, que visavam levar atividades lúdicas e
culturais, geralmente por meio de ônibus ou veículos que chegavam
aos diversos bairros das cidades, o LUDIBUS é um Projeto de
Extensão Universitária ligado ao Departamento de Didática da FFC –
UNESP.
Segundo Araújo (2007), a
proposta do ônibus lúdico na FFC surgiu dos esforços de
professores do Departamento de Didática e do Departamento de
Ciências da Informação, juntamente com a Direção da Faculdade, no
sentido de integrar a Universidade à comunidade mariliense por
meio de um trabalho articulado, voltado para o campo das artes e
do lúdico entre professores e graduandos da FFC e professores,
gestores e alunos das escolas públicas da cidade. O ônibus foi
comprado da “Empresa Circular de Marília” com recursos da Reitoria
e organizado e adaptado pela FFC para o trabalho proposto pelo
Projeto. Desde então o Projeto LUDIBUS passou a funcionar de forma
ininterrupta, procurando sempre desenvolver um trabalho capaz de
suscitar nas crianças o gosto pelas linguagens artísticas e por
jogos variados.
A proposta de trabalho
da equipe do Projeto é a de apresentar as linguagens artísticas de
forma lúdica, evitando atividades estereotipadas e práticas
correntes nas escolas, como apresentação de desenhos prontos e
xerocados para as crianças pintarem, apresentações teatrais com
temas moralizantes ou pré - determinados para serem apresentadas
em momentos festivos ou datas comemorativas, danças com
coreografias repetitivas, entre outras. Segundo nosso
entendimento, essas práticas demonstraram-se, ao longo do tempo,
obsoletas. A premissa que norteia o trabalho é a de levar as
crianças a se tornarem, além de apreciadoras da arte, criadoras
pessoais de cultura.
O trabalho desenvolvido
pelo projeto tem como base a idéia de que as linguagens artísticas
e lúdicas devem estar presentes nas vidas de todos. Partimos do
pressuposto de que todos são capazes de apreciar uma obra de arte
e de criar, de elaborar produções artísticas próprias.
Consideramos que a arte não deve ser vista como algo para
“iniciados” ou para pessoas que possuem um “dom” especial para a
criação. Enxergamos as linguagens artísticas e lúdicas como
elementos da cultura, como construções humanas, como parte da
história.
Partindo deste ponto de
vista, consideramos que todos têm o direito ao acesso a estes
elementos universais da cultura. Também consideramos que a arte,
como área de conhecimento tem uma importância fundamental para o
desenvolvimento infantil, pois trabalha com a percepção, a
sensibilidade, a estética, a criação, a imaginação e forma o gosto
das pessoas. Também pode, de acordo com o trabalho realizado,
aguçar a criticidade e levar as crianças a falarem mais de si e de
seu mundo, compreendo-o melhor.
Em nosso trabalho, temos
como premissa básica a afirmação de Ernst Fischer (1971), que nos
dirá que a arte é, foi e sempre será necessária. Ele primeiramente
questiona porque milhões de pessoas lêem livros, ouvem música, vão
ao teatro ou cinema. O homem, segundo Fischer, quer ser mais que
apenas ele mesmo. Anseia por absorver o mundo circundante, por
integrá-lo a si. “Anseia por unir na arte o seu ‘Eu’ limitado com
uma existência humana coletiva e por tornar social a sua
individualidade” (1971, p.13).
No entanto, o homem se
aproxima da obra de arte também por um processo de não
identificação:
“Não conterá a arte o elemento ‘apolíneo’ de divertimento e
satisfação que consiste precisamente no fato de que o observador
não se identifica com o que está sendo representado e até se
distancia do que está sendo representado, escapa ao poder direto
com que a realidade o subjuga, através da representação do real, e
liberta-se na arte do esmagamento em que se acha sob o cotidiano?”
(FISCHER, 1971, p.13)
Há aí uma dualidade: de
um lado, a tentativa de absorver a realidade e, de outro, o desejo
de controlá-la. Fischer nos diz que a tensão e a contradição
dialética são inerentes à obra de arte. O mundo capitalista cria
dualidades, separa razão e emoção. A arte precisa remover esse
conflito, ultrapassá-lo.
Corroboramos com Fischer
e pautamos nosso trabalho voltado para as linguagens artísticas de
forma a levar as crianças a falarem de si e de seu mundo, a
criarem a partir de sua própria cotidianidade, a refletirem sobre
o que vivenciam, seja com propostas voltadas para as artes
visuais, para o jogo teatral, para a literatura infantil ou para a
musicalidade. As propostas de atividades se voltam para formas
lúdicas de aprendizagem.
Privilegiamos o jogo,
que tem como base o improviso, em todo o processo de trabalho. Não
trabalhamos, por exemplo, com o teatro formal, mas com o jogo
teatral. E por que o jogo? Por meio do ato de jogar a criança
experimenta vários caminhos para chegar à solução de problemas.
Huizinga (1996) valoriza de tal forma o ato de jogar que parte do
pressuposto de que o jogo é mais que um elemento da cultura, ele
está na base da própria civilização humana. Religião, arte,
linguagem, filosofia, nascem do jogo, considerado pelo autor como
atividade livre, voluntária, realizada dentro de limites de tempo
e de espaço, que obedece a determinadas regras. O jogo envolve o
mais alto grau de seriedade, segundo o autor.
Por meio do ato de
jogar, a criança experiencia o mundo, elabora hipóteses, testa os
melhores caminhos para a resolução de problemas, questiona o que
está posto e reflete sobre o mundo que a rodeia. Um trabalho
artístico que privilegia as formas lúdicas de aprendizagem evita a
cristalização do conhecimento, abre novas perspectivas para os
atores educacionais. É isso que o Projeto LUDIBUS visa
proporcionar com seu trabalho nas escolas de Educação Básica.
De 1999 até a
atualidade, inúmeras escolas foram atendidas e beneficiadas pelo
Projeto. A partir do ano de 2005, várias parcerias foram
estabelecidas junto a algumas secretarias do município de Marília:
Secretaria da Educação, Secretaria da Cultura e Secretaria do
Verde e Meio Ambiente. A equipe do Projeto, formada pela docente
coordenadora e alunos (as) dos cursos de Pedagogia e Filosofia da
FFC desenvolvem o trabalho nas escolas durante todo o ano letivo.
Por ano, cerca de duas ou três escolas são contempladas com
parcerias estabelecidas e inúmeras outras recebem a visita do
ônibus lúdico para que as crianças o conheçam e adentrem em seu
interior, experimentando do momento mágico de brincar e criar
dentro deste veículo capaz de fazer sonhar.

Dentro do ônibus,
fantoches aguçam a imaginação e as crianças criam histórias
improvisadas, às vezes intrincadas, cheias de ação. Petecas,
bolas, bambolês, bilboquês, brinquedos de tempos antigos passam a
ser conhecidos pelas crianças, que brincam com eles e os apreciam.
Jogos de damas, quebra - cabeças, livros de Literatura Infantil,
gibis, papéis coloridos, tudo serve à magia, ao encantamento das
horas passadas no interior do LUDIBUS.
A própria equipe do
Projeto vivencia o fazer artístico e as atividades lúdicas nos
momentos de preparação do trabalho a ser realizado nas escolas,
por meio de reuniões semanais. Nestas reuniões, os (as) graduandos
(as), juntamente com a coordenadora do Projeto, organizam
materiais e oficinas artísticas e lúdicas de forma coletiva.
Assim, o Projeto forma professores criadores, apreciadores da arte
e capazes de levar as crianças a também tomarem gosto pelas
linguagens artísticas por meio de oficinas elaboradas para este
fim.
O Projeto também visita,
de forma mais esporádica, as comunidades de bairros e o bosque
municipal durante as atividades ligadas ao meio ambiente,
promovidas pela Secretaria do Verde e Meio Ambiente no mês de
junho. Nestes espaços, enfatizamos as oficinas de artes visuais e
os momentos de leitura agradável no interior do ônibus. Caber
salientar que não apenas crianças, mas adultos, apreciam adentrar
no interior de um espaço único, todo destinado à alegria e à
aprendizagem.
Como resultado das
atividades desenvolvidas, crianças ouvem, contam, criam e recriam
histórias, elaboram cenas teatrais a partir do diálogo e do jogo
dramático e teatral, falam de si e de seu mundo (casa, amigos,
escolas, bairros) por meio de desenhos, encenações, músicas, etc.
Exposições com os trabalhos das crianças são realizadas no
interior do LUDIBUS para a apreciação de todos da comunidade
escolar.
Também como resultado
deste trabalho, conseguimos estabelecer um salutar diálogo entre a
Universidade e as escolas públicas da Educação Básica (Educação
Infantil e Ensino Fundamental, séries iniciais) sobre as
linguagens artísticas e lúdicas. Pesquisas são desenvolvidas pelos
graduandos a partir do contato com esta rica realidade das
escolas.
Desta forma, visamos
cumprir com a meta de levar as crianças a aprenderem de forma
lúdica e divertida por meio do jogo, que requer que a criança
pense em variadas estratégias de ação e por meio das linguagens
artísticas, tão importantes para uma formação humana mais
completa.
Quando ouvem o ronco de
motor perto da escola, muitas crianças já sabem que ele vem
chegando: o LUDIBUS, o ônibus da alegria!
Referências
ARAÚJO, R. T. Sobre as rodas
da Alegria: uma incursão ao trabalho de formação artística e
cultural de alunos de 1ª a 4ª série do Ensino Fundamental de
Marília por meio do Projeto LUDIBUS. 2007. 101 p. (monografia)
Trabalho de Conclusão de Curso de Graduação em Pedagogia. FFC.
Marília.
CORDEIRO, A. P.; ARAÚJO, R. T.;
LOPES, F. M. Projeto LUDIBUS: a arte e o lúdico nas escolas e
bairros de Marília, SP. In: PINHO, S. Z. de; SAGLIETTI, J. R.C.
(Org.). Cadernos dos Núcleos de Ensino. São Paulo: UNESP-
PROGRAD, 2008.
FISCHER, E. A necessidade da
arte. Rio de Janeiro: Zahar, 1971.
HUIZINGA, J. Homo Ludens.
4. ed. São Paulo: Perspectiva, 1996.
* É formada em Pedagogia
pela Universidade Estadual Paulista e é Mestre e Doutora em
Educação pela Universidade Estadual Paulista. Atualmente é docente
lotada no Departamento de Didática da Faculdade de Filosofia e
Ciências – UNESP- Campus de Marília – SP. Coordena, desde 1999, o
Projeto “Oficinas de Teatro da UNATI (Universidade Aberta à 3ª
Idade) – UNESP de Marília” e desde 2005 o Projeto “LUDIBUS, o
ônibus da alegria”. Contato:
napcordeiro@marilia.unesp.br
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