Vem se falando muito de dificuldades de aprendizagem na
escola, dificuldade que é sempre atribuída ao aluno, que por algum
motivo “não aprende”. No entanto, se essas dificuldades se
manifestam na escola, não há como desresponsabilizá-la. Há
casos onde questões orgânicas são importantes, mas mesmo nestas –
principalmente nestas – a atitude diante do aluno irá influenciar a
aprendizagem.
Assim, há de se levar em consideração que as dificuldades
de aprendizagem podem ter origens diversas, relacionadas tanto a
aspectos afetivos, cognitivos ou sociais. Em qualquer situação, o
que se passa na escola, tem relação com a dificuldade – em maior ou
menor grau.
Aqui abordo apenas uma das questões relacionadas à questão
das dificuldades de aprendizagem: a mediação docente. Não entendam
como “jogar a ‘culpa’ para os professores”, nem como afirmação de
que em todas as escolas essa situação se repita, nem como sendo esta
a causa única de todos os problemas, mas sim uma apreciação das
dificuldades de aprendizagem a partir da análise da prática docente
na mediação de conceitos científicos.
A apreciação fundamenta-se na Teoria Sócio-Histórica,
destacando a origem social dos conceitos, tanto dos cotidianos – no
convívio com as formas estabelecidas pela cultura – quanto dos
científicos – mediados intencionalmente pelos indivíduos do grupo
cultural.
Os conceitos cotidianos ou espontâneos são aqueles
formados a partir de vivências, da observação do mundo; já os
conceitos científicos são aqueles relacionados à instrução.
Conceitos cotidianos e científicos não estão isolados, mas
influenciam-se reciprocamente.
El dessarollo
de los conceptos científicos habrá de apoyarse de modo indispensable
en un determinado nível de maduración los conceptos espontáneos
(...) Por outro lado, debemos admitir que lá aparación de conceptos
de tipo más elevado, como son los conceptos científicos, no puede
dejar de acusar la influencia de los conceptos espontáneos surgidos
con anterioridad, ya que ni unos ni outros están encapsulados en la
consciencia del niño, ni están separados por um tabique
infranqueable. No fluyen por canales aislados, sino que hallam
inmersos en un processo de continua interacción, que deberá tener el
resultado de que las generalizaciones de estructura superior,
próprias de los conceptos científicos, produzcam cambios
estructurales en los conceptos espontáneos (VYGOTSKY, 1993, p.194).
Partindo dessa relação entre conceitos espontâneos e
científicos apontada por Vygotsky (1993) proponho a análise da
mediação que se faz na escola tendo em vista a elaboração dos
conceitos científicos.
Se os conceitos científicos se “apóiam” nos conceitos
cotidianos, deduz-se que se os conceitos cotidianos não atingiram
certo nível ou se a criança não os tenha elaborado, a aprendizagem
dos conceitos científicos fica comprometida.
Diante disso o que faz o professor?
Continua normalmente a sua aula, sem deter-se nos conceitos que
julga que todos já devem saber? Porque não pode “atrasar” o
conteúdo?
Dá uma explicação “dicionarizada”, que também não esclarece a
situação? Explica algo utilizando outros termos que são igualmente
desconhecidos e descontextualizados?
Essas duas situações denotam a falta de entendimento dos processos
de aprendizagem. É preciso que o professor utilize situações
vivenciais ou experienciais, possibilitando reflexões e o
estabelecimento de relações e, assim então, se dará a formação do
conceito. Ressalta-se ainda que os conceitos não devem ser
trabalhados isoladamente, mas que constituam uma rede de
significados relacionados e estruturados.
Principalmente nos primeiros anos escolares penso que, em alguns
casos, as dificuldade de aprendizagem podem ser decorrentes da
ausência ou de contraditória elaboração de alguns conceitos
cotidianos que a escola julga que os alunos entendam; isto é, o
professor parte para o ensino de conceitos científicos pressupondo
que a criança tenha já formado conceitos cotidianos (supondo que
esses façam parte da realidade de todos os alunos) necessários para
a tal compreensão, entretanto não cogita que talvez alguns alunos
não conheçam esses conceitos prévios. Da mesma forma, nos casos em
que professores buscam na realidade dos alunos a base para
contextualizar os conceitos científicos, percebe-se que a
aprendizagem torna-se significativa para a criança, desperta maior
interesse, proporcionando uma verdadeira construção de conceitos,
não mera repetição.
A descontextualização é fator que prejudica a formação dos
conceitos, e está presente nas práticas educativas de forma geral,
tanto nos primeiros anos quanto nas séries escolares mais avançadas.
As explicações “dicionarizadas” se apóiam na falsa idéia de que é
possível “transmitir” conceitos – o professor fala e o aluno
prontamente se apropria do conceito. Vygotsky afirma:
“(...) la
imposibilidad de transmitir los conceptos del maestro al alumno de
manera directa y simple, de transferir mecánicamente el significado
de la palabra de una cabeza a outra con ayuda de otras palabras”
(VYGOTSKY, 1993, p.185).
“Transferir” o conceito é impossível, cabe assim ao professor
utilizá-lo em diferentes contextos nos quais o sujeito possa vir a
compreendê-lo. A contextualização permite não só que o aluno se
aproprie do conceito, mas que o perceba em várias situações. Essa
generalização é o que caracteriza o conceito propriamente dito.
O conceito científico caracteriza-se também por ser mediado e
consciente, isto é, é mediado por outros sujeitos e outros conceitos
prévios atingindo um nível de generalização que passa então a
reestruturar também os conceitos anteriores.
Assim, pode-se dizer que os conceitos científicos carecem de
conceitos cotidianos; e ao se desenvolverem transformam os últimos.
A principal diferença psicológica entre eles é a ausência de um
sistema nos conceitos espontâneos. A sistematização entra na mente
da criança através do aprendizado dos conceitos científicos e são
posteriormente transferidos para os conceitos cotidianos.
Destaca-se assim o aprendizado escolar como fonte de
conceitos e conseqüente estruturação psicológica. “O aprendizado
escolar produz algo fundamentalmente novo no desenvolvimento da
criança” (VYGOTSKY, 1991, p.95).
De acordo com essa perspectiva, a escola ganha destaque na
promoção do desenvolvimento infantil.
Isto quer
dizer que as atividades desenvolvidas e os conceitos aprendidos na
escola (que Vygotsky chama científicos) introduzem novos modos de
operação intelectual: abstrações e generalizações mais amplas acerca
da realidade (que por sua vez transformam o modo de utilização da
linguagem). Como conseqüência, na medida em que a criança expande
seus conhecimentos, modifica sua relação com o mundo (REGO, 2002,
p.104).
É possível perceber a importância que Vygotsky atribuía à escola.
Penso que hoje, apesar da “crise” pela qual ela passa, ainda
configura-se num espaço essencial no desenvolvimento dos sujeitos.
Ocorre que a “função” da escola, em muitas delas, parece ter se
perdido. Ora, se pensarmos que a função é transmitir informação,
conhecimento, realmente ela está ultrapassada, outros meios mais
interessantes (TV, internet, jornais, revistas) exercem essa função.
As escolas que já atentaram para estas mudanças conseguem que esses
novos meios sejam aliados, podem partir das informações que os
alunos obtêm das mídias para então organizar os conceitos
científicos.
Se pensarmos na escola como espaço da produção de conhecimento, na
qual os alunos são sujeitos do processo de aprendizagem, vemos que
sua importância não se perdeu.
E como a escola pode ser espaço da produção de conhecimento?
Aqui voltamos à questão da mediação. Não cabe ao professor
transmitir informações, mas sim, trabalhar a partir das percepções
de mundo dos alunos – que são muitas e, geralmente, desordenadas –
possibilitando uma análise crítica e uma organização dessas
percepções, fazendo assim o aluno sujeito do seu conhecimento.
Retomamos também a questão dos conceitos científicos, estes são
sistematizações, não podem se realizar sem a conscientização do
sujeito.
Considerando todo o exposto, vejo sim na escola, a possibilidade de
aprendizagem; para tanto é preciso pensá-la como espaço de produção
de conhecimento e não de transmissão de conhecimento, isto é, pensar
a mediação docente com vistas ao aluno refletir sobre seus conceitos
prévios e reestruturá-los, sistematizando-os e não ter a pretensão
de fazer o aluno “captar” o conceito pronto.
Referências:
REGO, Teresa Cristina. Vygotsky: uma perspectiva
histórico-cultural da educação. 14ª ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2002.
VYGOTSKY, Lev Semenovich. A formação social da mente:
o desenvolvimento dos processos psicológicos superiores. São Paulo:
Martins Fontes, 1991.
VYGOTSKY, Lev Semenovich (1934). Pensamiento y Lenguaje.
Conferencias sobre Psicología. Obras escogidas II, Madrid,
Viscor, 1993.