spacer

 

ISSN 1678-8419         última atualização em: quinta-feira, 06 de setembro de 2012 20:45:05                                               

 
  Principal
 Agenda
 Artes e Artesanato
 Colunistas
 Cultura
 Crônicas
 Econotas
 Editorial
 Educação
 Em Questão
 Em Rhede
 Entrevistas
 Humor
 Política e Cidadania
 Reportagens
 Mirim
 Notícias
 Outras edições
 Poesia e Contos
 Reflexão
 Expediente
 Sócio Ambiental
 Terceira Idade
 Terceiro Setor
 Turismo
   Participe
 Cartas
 Blog
 Fale Conosco
   Especiais
 Igrejas
 Meio Ambiente
 SP 450 anos
 Memória Sindical
 Assédio Moral
 Vitrine do Giba
 Nosso Dáimon
 O Grito do Ipiranga
 Mirim
 Feiras e Mercados
 Em RHede
 Econotas
 Ambientais
 Agenda
.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
EDUCAÇÃO

A importância da mediação na aprendizagem: conceitos científicos

   

Adriane Cenci[1]

publicado em 20/06/2009

 

 

        

         Vem se falando muito de dificuldades de aprendizagem na escola, dificuldade que é sempre atribuída ao aluno, que por algum motivo “não aprende”. No entanto, se essas dificuldades se manifestam na escola, não há como desresponsabilizá-la. Há casos onde questões orgânicas são importantes, mas mesmo nestas – principalmente nestas – a atitude diante do aluno irá influenciar a aprendizagem. 

         Assim, há de se levar em consideração que as dificuldades de aprendizagem podem ter origens diversas, relacionadas tanto a aspectos afetivos, cognitivos ou sociais. Em qualquer situação, o que se passa na escola, tem relação com a dificuldade – em maior ou menor grau.

         Aqui abordo apenas uma das questões relacionadas à questão das dificuldades de aprendizagem: a mediação docente. Não entendam como “jogar a ‘culpa’ para os professores”, nem como afirmação de que em todas as escolas essa situação se repita, nem como sendo esta a causa única de todos os problemas, mas sim uma apreciação das dificuldades de aprendizagem a partir da análise da prática docente na mediação de conceitos científicos.

         A apreciação fundamenta-se na Teoria Sócio-Histórica, destacando a origem social dos conceitos, tanto dos cotidianos – no convívio com as formas estabelecidas pela cultura – quanto dos científicos – mediados intencionalmente pelos indivíduos do grupo cultural.

Os conceitos cotidianos ou espontâneos são aqueles formados a partir de vivências, da observação do mundo; já os conceitos científicos são aqueles relacionados à instrução. Conceitos cotidianos e científicos não estão isolados, mas influenciam-se reciprocamente.

 

El dessarollo de los conceptos científicos habrá de apoyarse de modo indispensable en un determinado nível de maduración los conceptos espontáneos (...) Por outro lado, debemos admitir que lá aparación de conceptos de tipo más elevado, como son los conceptos científicos, no puede dejar de acusar la influencia de los conceptos espontáneos surgidos con anterioridad, ya que ni unos ni outros están encapsulados en la consciencia del niño, ni están separados por um tabique infranqueable.  No fluyen por canales aislados, sino que hallam inmersos en un processo de continua interacción, que deberá tener el resultado de que las generalizaciones  de estructura superior, próprias de los conceptos científicos, produzcam cambios estructurales en los conceptos espontáneos (VYGOTSKY, 1993, p.194). [2]

 

         Partindo dessa relação entre conceitos espontâneos e científicos apontada por Vygotsky (1993) proponho a análise da mediação que se faz na escola tendo em vista a elaboração dos conceitos científicos.

         Se os conceitos científicos se “apóiam” nos conceitos cotidianos, deduz-se que se os conceitos cotidianos não atingiram certo nível ou se a criança não os tenha elaborado, a aprendizagem dos conceitos científicos fica comprometida.  

Diante disso o que faz o professor?

Continua normalmente a sua aula, sem deter-se nos conceitos que julga que todos já devem saber? Porque não pode “atrasar” o conteúdo?

Dá uma explicação “dicionarizada”, que também não esclarece a situação? Explica algo utilizando outros termos que são igualmente desconhecidos e descontextualizados?

Essas duas situações denotam a falta de entendimento dos processos de aprendizagem. É preciso que o professor utilize situações vivenciais ou experienciais, possibilitando reflexões e o estabelecimento de relações e, assim então, se dará a formação do conceito. Ressalta-se ainda que os conceitos não devem ser trabalhados isoladamente, mas que constituam uma rede de significados relacionados e estruturados.

Principalmente nos primeiros anos escolares penso que, em alguns casos, as dificuldade de aprendizagem podem ser decorrentes da ausência ou de contraditória elaboração de alguns conceitos cotidianos que a escola julga que os alunos entendam; isto é, o professor parte para o ensino de conceitos científicos pressupondo que a criança tenha já formado conceitos cotidianos (supondo que esses façam parte da realidade de todos os alunos) necessários para a tal compreensão, entretanto não cogita que talvez alguns alunos não conheçam esses conceitos prévios. Da mesma forma, nos casos em que professores buscam na realidade dos alunos a base para contextualizar os conceitos científicos, percebe-se que a aprendizagem torna-se significativa para a criança, desperta maior interesse, proporcionando uma verdadeira construção de conceitos, não mera repetição.

A descontextualização é fator que prejudica a formação dos conceitos, e está presente nas práticas educativas de forma geral, tanto nos primeiros anos quanto nas séries escolares mais avançadas. As explicações “dicionarizadas” se apóiam na falsa idéia de que é possível “transmitir” conceitos – o professor fala e o aluno prontamente se apropria do conceito. Vygotsky afirma:

 

“(...) la imposibilidad de transmitir los conceptos del maestro al alumno de manera directa y simple, de transferir mecánicamente el significado de la palabra de una cabeza a outra con ayuda de otras palabras”[3] (VYGOTSKY, 1993, p.185).

 

“Transferir” o conceito é impossível, cabe assim ao professor utilizá-lo em diferentes contextos nos quais o sujeito possa vir a compreendê-lo.  A contextualização permite não só que o aluno se aproprie do conceito, mas que o perceba em várias situações. Essa generalização é o que caracteriza o conceito propriamente dito.

O conceito científico caracteriza-se também por ser mediado e consciente, isto é, é mediado por outros sujeitos e outros conceitos prévios atingindo um nível de generalização que passa então a reestruturar também os conceitos anteriores.

Assim, pode-se dizer que os conceitos científicos carecem de conceitos cotidianos; e ao se desenvolverem transformam os últimos. A principal diferença psicológica entre eles é a ausência de um sistema nos conceitos espontâneos. A sistematização entra na mente da criança através do aprendizado dos conceitos científicos e são posteriormente transferidos para os conceitos cotidianos.

         Destaca-se assim o aprendizado escolar como fonte de conceitos e conseqüente estruturação psicológica. “O aprendizado escolar produz algo fundamentalmente novo no desenvolvimento da criança” (VYGOTSKY, 1991, p.95).

         De acordo com essa perspectiva, a escola ganha destaque na promoção do desenvolvimento infantil.

 

Isto quer dizer que as atividades desenvolvidas e os conceitos aprendidos na escola (que Vygotsky chama científicos) introduzem novos modos de operação intelectual: abstrações e generalizações mais amplas acerca da realidade (que por sua vez transformam o modo de utilização da linguagem). Como conseqüência, na medida em que a criança expande seus conhecimentos, modifica sua relação com o mundo (REGO, 2002, p.104).

 

É possível perceber a importância que Vygotsky atribuía à escola. Penso que hoje, apesar da “crise” pela qual ela passa, ainda configura-se num espaço essencial no desenvolvimento dos sujeitos.

Ocorre que a “função” da escola, em muitas delas, parece ter se perdido. Ora, se pensarmos que a função é transmitir informação, conhecimento, realmente ela está ultrapassada, outros meios mais interessantes (TV, internet, jornais, revistas) exercem essa função. As escolas que já atentaram para estas mudanças conseguem que esses novos meios sejam aliados, podem partir das informações que os alunos obtêm das mídias para então organizar os conceitos científicos.

Se pensarmos na escola como espaço da produção de conhecimento, na qual os alunos são sujeitos do processo de aprendizagem, vemos que sua importância não se perdeu.

E como a escola pode ser espaço da produção de conhecimento?

Aqui voltamos à questão da mediação. Não cabe ao professor transmitir informações, mas sim, trabalhar a partir das percepções de mundo dos alunos – que são muitas e, geralmente, desordenadas – possibilitando uma análise crítica e uma organização dessas percepções, fazendo assim o aluno sujeito do seu conhecimento. Retomamos também a questão dos conceitos científicos, estes são sistematizações, não podem se realizar sem a conscientização do sujeito.

Considerando todo o exposto, vejo sim na escola, a possibilidade de aprendizagem; para tanto é preciso pensá-la como espaço de produção de conhecimento e não de transmissão de conhecimento, isto é, pensar a mediação docente com vistas ao aluno refletir sobre seus conceitos prévios e reestruturá-los, sistematizando-os e não ter a pretensão de fazer o aluno “captar” o conceito pronto.

 

Referências:

REGO, Teresa Cristina. Vygotsky: uma perspectiva histórico-cultural da educação. 14ª ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2002.

VYGOTSKY, Lev Semenovich. A formação social da mente: o desenvolvimento dos processos psicológicos superiores. São Paulo: Martins Fontes, 1991.

VYGOTSKY, Lev Semenovich (1934). Pensamiento y Lenguaje. Conferencias sobre Psicología. Obras escogidas II, Madrid, Viscor, 1993.

 


 

[1] Educadora Especial. Mestranda do Programa de Pós Graduação em Educação da Universidade Federal de Santa Maria – UFSM.

adricenci@hotmail.com.br 

[2]  O desenvolvimento dos conceitos científicos deverá se apoiar de modo indispensável em um determinado nível de maturação dos conceitos espontâneos (...) Por outro lado, devemos admitir que a aparição dos conceitos de tipo mais elevado, como são os conceitos científicos, não pode deixar de denunciar a influência dos conceitos espontâneos surgidos anteriormente, já que nem um nem outros estão encapsulados na consciência da criança, nem estão separados por muros intransponíveis. Não fluem por canais isolados, senão que se encontram imersos em um processo de contínua interação, que deverá ter o resultado inevitável de que as generalizações de estrutura superior, próprias dos conceitos científicos, produzam mudanças estruturais nos conceitos espontâneos.  

[3] “(...) a impossibilidade de transmitir os conceitos do professor ao aluno de maneira direta e simples, de transferir mecanicamente o significado da palavra de uma cabeça a outra com ajuda de outras palavras”

 

Como citar este artigo:

CENCI, Adriana. A importância da mediação na aprendizagem: conceitos científicos.P@rtes (São Paulo). V.00 p.eletrônica. Junho de 2009. Disponível em <www.partes.com.br/educacao/mediacaonaaprendizagem.asp>. Acesso em _/_/_.

 

Pesquisa personalizada
 
  

spacer
::sobre o autor::


 

::contato com o autor::

Fale com o autor clicando aqui.

 
::uma foto::


 
   ::participe::
 Cartas
 Blog
 Rede Social Ning
::outros artigos::

Sobre o filme “Um homem bom”  e as decisões que tomamos em nossa história de vida
Décio Luciano Squarcieri de Oliveira; Fernanda Gabriela Soares Santos
publicado em 07/05/2009

Para entender o filme “Linha de Passe”
Décio Luciano Squarcieri de Oliveira; Fernanda Gabriela Soares Santos
publicado em 08/04/2009
 

O Curioso Caso de Benjamin Button: o esvaziar da ampulheta
Décio Luciano Squarcieri de Oliveira; Fernanda Gabriela Soares Santos
publicado em 04/04/2009

 

Um outro olhar sobre Avaliação: Alternativas Didáticas – Metodológicas entre História e Filosofia
Fernanda Gabriela Soares dos Santos e Décio Luciano Squarcieri de Oliveira
publicado em 02/03/2009

 

A dor no filme “Última Parada 174”
Fernanda Gabriela Soares dos Santos e Décio Luciano Squarcieri de Oliveira

publicado em 15/01/2009

 

Nota sobre o filme “Um Ensaio Sobre a Cegueira”
Fernanda Gabriela Soares dos Santos e Décio Luciano Squarcieri de Oliveira
publicado em 06/01/2009

 

 

Normas para publicar artigosRevista Virtual Partes

::apoiadores::






© copyright Revista P@rtes 2000-2008
Editor: Gilberto da Silva (Mtb 16.278)
São Paulo - Brasil
spacer
© copyright Revista P@rtes 2000-2009
Editor: Gilberto da Silva (Mtb 16.278)
São Paulo - Brasil