A
constituição da pesquisa
Esta pesquisa é resultado de um estudo de caso qualitativo realizado
numa escola pública estadual de Campo Bom onde foram utilizados como
instrumentos de coleta de dados, principalmente, entrevistas e
observações. O objeto de pesquisa foi à compreensão de como o
ensinar e o aprender História nas séries finais do Ensino
Fundamental possibilitam a construção de um posicionamento, uma
reflexão crítica capaz de produzir conhecimento e aplicá-lo na vida
em sociedade. A
proposta foi investigar o ensinar e o aprender na prática de
História e as mediações exercidas por estas para que os sujeitos se
constituam como sujeitos autônomos, capazes de se perceberem
como cidadãos.
Para TRIVIÑOS (1987) o materialismo histórico ressalta a
força das idéias, capaz de introduzir mudanças nas bases econômicas
que as originou. Por isso, destaca a ação dos agrupamentos humanos.
Essa ação pode produzir transformações importantes nos fundamentos
materiais dos grupos sociais. O Ser social compreende relações
materiais dos homens com a natureza e entre si que existem em forma
objetiva, independente da consciência.
Partindo do pressuposto que as aulas de História deveriam contribuir
para o desenvolvimento de uma consciência cidadã, este aspecto vem
sofrendo alterações, principalmente para que os alunos consigam ler
sua realidade. A população da pesquisa foi constituída por um
professor de História dos anos finais do Ensino Fundamental e duas
turmas: 7ª e 8ª séries, num total de 11 sujeitos. Os sujeitos
participantes da investigação foram escolhidos de duas maneiras. Os
alunos contemplados compreendem uma faixa etária de
15 a
31 anos, trabalham durante o dia e estudam a noite; quase todos com
um histórico familiar de separação dos pais; são oriundos de classes
sociais distintas; um encontro étnico-racial e de gênero que
identificam comportamentos fortes em relação a opções sexuais e de
hábitos sócio-comportamentais.
Interface:
teoria e prática de ensino de História
A práxis (ética e política) da poésis refletida nas ações de
práxis do professor de História no Ensino Fundamental é observada no
sentido de compreender a práxis analisando-a na relação
ensino e aprendizagem.
Marilena Chauí
(2001) complementa
Se examinarmos
as ações humanas, veremos que (...) há uma distinção entre dois
tipos de atividades: a atividade técnica (ou o que os gregos chamam
de poésis) e a atividade ética e política (ou o que os gregos
chamam de práxis) [...]. A práxis, porém, é a
atividade própria dos homens livres, dotados de razão e de vontade
para deliberar e escolher uma ação. Na práxis, o agente, a
ação e a finalidade são idênticas e dependem apenas da força
interior ou mental daquele que age.
(Chauí, 2001, p. 11)
Freire (1996)
acredita na educação consciente, de que aprender é tomar
consciência de um determinado saber que se encontra em movimento.
“Mas, o termo conscientização entendido como diálogo de consciências
(...) sempre através da mediação da realidade concreta e na intenção
expressa de compreensão crítica e transformação dessa realidade.”
(GURGEL, 2003, p.87). Nesse sentido, a prática de história é
entendida como meio e luta constante na educação para preparar os
homens contra os obstáculos à sua humanização.
Os jovens que
compreendem este estudo são apontados pelo professor como:
“agressivos, irresponsáveis, dispersos e desinteressados” (conforme
entrevista). Sujeitos indisciplinados que insistem em afrontar
professores. Há outros alunos que vagueiam pelo tempo, aparentemente
perdidos “não respondem as intervenções do professor” no espaço e
acabam se agregando a grupos liderados por aproveitadores que
transformam o corpo em desenvolvimento, num corpo “parasita” que
necessita da figura do Outro perverso para se projetar. Estes jovens
iludidos pela “facilidade das recompensas” com que alcançam seus
desejos, se perdem na ideologia dominante e exclusiva. A grande
maioria dos adolescentes se envolve em menor ou maior grau com a
delinquência, confusão e revolta. Como cita um aluno durante a
chamada feita pelo professor. “Fulano não veio, ta namorando a
Brytnei”.
Para o professor investigado ensinar é “descoberta pelo instinto,
evolução humana. Os elementos da natureza em desenvolvimento”
aproximando sua prática metodológica a perspectiva inatista. Quanto
à dificuldade de ensinar História percebe que o grande problema com
a disciplina seja uma questão de interpretação, bem saber ler,
escrever e interpretar. Os alunos, de modo geral entendem que
aprendem pela explicação do professor, que para isso é preciso ficar
em silêncio, estar atento, que devem perguntar, mas como afirma (AD8-1)**“Ele
ri quando os alunos falam, (quando percebe que não o respeita) ele
manda para rua, grita”. Ou como afirma (ASD8-1)***“Não
adianta ele explicar de novo, ele explica mais difícil”, “eu já
expliquei” se referindo a uma nova pergunta feita pelos alunos e
reitera “Ele dá trabalho e é só cópia do livro. Ele fica sentado
e não explica, a gente que tem que procurar, são muitas páginas”
e como conclui um aluno “Entender não entendi, mas se não tem
cachorro caço com gato”.
(...) Educar significa, então, capacitar, potencializar, para que o
educando seja capaz de buscar a resposta do que pergunta, significa
formar para a autonomia. A escola, no ideal de Sócrates, deveria
instituir-se toda ela em torno da autonomia. Seu método: o diálogo.
O discípulo é quem deve descobrir a verdade. (GADOTTI, 1992, p.
9-10)
Autonomia, conforme Piaget
(1932/1992) é a condição do indivíduo se dar conta de que é capaz de
constituir normas a partir da cooperação. Ele, a partir do princípio
da simpatia, é capaz de perceber a reciprocidade espontânea, o que é
típico da relação de amizade, e a reciprocidade normativa de cunho
social. Já para Moacir GADOTTI (1992) e Paulo FREIRE (1996) educar
se relaciona com o dialogar e perguntar constante. Pressupostos para
maturidade de pensamento e alcance da consciência individual.
Conforme observações “não há um vínculo entre professor e alunos”,
“o professor não apresenta domínio e segurança para os alunos
perguntarem”, o que dificulta o ensino e a aprendizagem de História,
bem como da constituição da autoria. Muitos alunos não lembram o que
aprenderam.
A disciplina que deveria colaborar para que as desigualdades
sociais, culturais, históricas fossem amenizadas e capazes de
produzir uma realidade mais humana e justa, acaba sendo desprezada
pelos alunos, sendo entendida ainda como uma mera repetição, como
uma cópia de livros, e pior como uma história que valoriza o
belicismo e personalismo de sujeitos.
Considerações finais
Identifico que as aulas de história não colaboram para a
libertação dos sujeitos e autonomia de pensamento. O que se percebe
ainda é uma prática de ensino de história tradicional positivista,
distando de uma produção democrática e cidadã, de um desenvolvimento
e salto social, justo e humanitário. A crítica à aula tradicional
acaba sendo substituídas pela concorrência do mercado capitalista,
as discussões que deveriam versar por uma autoria, por uma
organização do pensamento frente à realidade se perdem no cotidiano
e o que foi observado é a intensificação das diferenças sociais,
humanas, de sexo (preconceitos pelo colega negro, gay...),
competitividade e uma “teatralização” da aprendizagem. A falta de
mobilidade na condição de ensino e aprendizagem conserva um pacto
oculto de que cada um deva bem cumprir seu papel na sociedade tal
qual como ela se apresenta, não há um encorajamento para enxergar
além daquilo que a ideologia dominante apresenta para estes jovens.
As questões são elaboradas na hora e estas não se relacionam com o
conteúdo em estudo, o que dificulta uma participação efetiva. Os
alunos fazem atividades diferenciadas e não há uma conexão do grupo,
do coletivo com o que é desenvolvido. “É pela atividade produtiva,
teórica e prática, que os homens transformam a natureza, criam a
ciência, desenvolvem seu pensamento e transforma a si próprios.” (REDIN,
1995, p. 5). O indivíduo na sua realidade é o conjunto das relações
sociais que estabelece, e estas são expressões gerais da atividade
prática e teórica de determinado modo de produção, de organização do
trabalho, como atividade primordial.
Perguntar, dialogar é indispensável para construir aprendizagens e
confrontar saberes e conhecimentos da realidade. É necessário que a
escola ensine a pensar para que a autonomia e a cidadania se
materializem; para que a realidade se transforme; para que uma
prática pedagógica mais sincera se constitua. Isto significa romper
com as amarras do colonialismo, a tradição empirista e possibilita a
elaboração de uma instituição que represente a própria cultura da
realidade.
As possibilidades de autoria de pensamento dos alunos que conservam
esta característica são pouco aproveitadas pelo professor,
principalmente da escola pública estadual, como é o caso deste
estudo. Estas são atravessadas pelo convívio tecnológico. Os alunos
manifestam sintoma quanto à falta de autonomia, de participação e
das oportunidades para se atreverem, transgridem, fazem um jogo de
forças de poder com o professor, que perversamente utiliza sua
autoridade para preconizar os alunos, enquanto poderia ser utilizado
no debate de idéias e diálogo cidadão. É necessário que haja um
líder que enxergue. É preciso fazer mais. É preciso que muito mais
de um de nós sustente o desejo de enxergar.
Referências
Bibliográficas
CHAUI, Marilena. O que é Ideologia. São Paulo: Brasiliense,
2001;
FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia: Saberes necessários à
prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996;
GADOTTI, Moacir.
Escola Cidadã.
São Paulo:Editora Cortez e Autores Associados,1992 ;
PIAGET, J. Le Jugement Moral chez l’Enfant.
Paris: PUF, 1932/1992;
TRIVIÑOS, Augusto Nibaldo Silva. Introdução à pesquisa em
ciências sociais: a pesquisa qualitativa em educação. 3 ed. São
Paulo: Atlas, 1987.
____________
* Professor,
Graduado em História, Especialista em Gestão da Educação e
graduando em Geografia – REGESD/UCS. Assessor Político-Pedagógico da
Secretaria Municipal de Educação de Novo Hamburgo- RS.
**AD- Código
identificador de aluno da pesquisa. 8/7 indica a série,
D/dificuldade e o número da indicação.
***ASD-
Código identificador de aluno da pesquisa. S/sem dificuldade. 8/7
indica a série e o número da indicação.