O filme em questão não nos
tocou apenas por sermos professores, mas sobretudo por sermos seres
humanos. Quem de nós nunca amou alguém a distância? Quantas vezes
não cuidamos alguém e admiramos sem que essa pessoa perceba?
Como em todos os bons
filmes, essa não é uma idéia nova e nem precisa ser. Basta
recordarmos o brasileiro “O homem que copiava”. O importante não é
inserir uma nova idéia, mas imprimir uma maneira singular ao trazer
para a tela uma idéia que por outras e outros já foi explorada.
O protagonista durante
muito tempo admirou uma colega de trabalho, a defendia de um dos
chefes que não tinha tato e a observava. Nas ruas, nos encontros, na
academia. Odiava a maneira como os outros se referiam a ela.
Possivelmente não foi
pensado nem realizado para ser um grande filme ou angariar prêmios.
Foi idealizado unicamente para tocar nossos corações. Impossível não
nos identificarmos com algumas das situações vivenciadas pelo
protagonista.
Seu sobrinho não entende
porque ele a segue pelas ruas. Como explicar a uma criança algo tão
subjetivo?
O filme quase não
apresenta diálogos, sendo que na sua maioria as cenas sugerem uma
troca de lugar do espectador com o protagonista, em seus dias de
trabalho e de desejo. Vão sendo criadas conversas imaginárias, onde
também observamos as mesmas situações da personagem, mas em patamar
mais amplo, visualizando o seu espaço de trabalho, de seus colegas,
sua casa, bairro, com pequenos ângulos de visão além do que ele
mesmo nos permite olhar.
O filme foi rodado no
Uruguai, em uma Montevidéu tão cativante quanto somente esta cidade
pode ser. Simples, de costumes gentis, ‘latinos americanos’ como
nós, polêmica nas suas relações de trabalho, conflituosa em sua
política, desafiadora para um coração romântico e contemplante em
sua natureza.
É notável a aproximação
deste país em seus costumes, formas de trato com as pessoas, em
semelhança ao ‘nosso’ país. A temática do filme nos traz essa
aproximação. São pessoas semelhantes ao nosso cotidiano, ao nosso
modo de trabalhar, de desejar, um tanto diferente em seus hábitos
alimentares e apreciadores de ótima música. Roupas que aqui não
fariam sucesso, parecem não preocupar por lá. Os uniformes escolares
são um charme à parte, algo de nostálgico que por aqui são agora
fantasias de carnaval.
Outro aspecto
interessantíssimo no cenário da produção é que quase a totalidade
das cenas são gravadas em um supermercado. Um cotidiano significante
a primeira vista para quem vive situação idêntica. Mas a surpresa do
material é exatamente outra.
Somos capazes de nos
sentirmos pertencentes a algo que não nos recordamos em termos
vivido? Cenas que num primeiro momento não povoa as nossas
experiências diárias? Situações de trabalho que se figuram um tanto
desconhecidas das quais estamos habitualmente acostumados?
Pelo contrário! São
situações diariamente vividas por nós, mas que por terem a
tonacidade de serem simples, nos aparecem como naturais. Como algo
que nos é posto da maneira como se apresentam, acabado, pronto e sem
motivos para olharmos com maior sensibilidade.
Frequentamos senão
diariamente, pelo menos algumas vezes na semana sentimos a
necessidade de irmos ao supermercado. Lá encontramos artigos
essenciais a nossa vida, como nossa alimentação, higiene, artigos
para nossa casa, para facilitar nossa rotina caseira, nossa saúde e
em determinados ambientes, até mesmo nossa cultura, nossas fantasias
e satisfações pessoais. Há quem relate que uma ida ao supermercado é
relaxante. É um momento de lazer, de descontração, de encontrar
amigos ou simplesmente de passar o tempo.
Mas devemos então parar
alguns instantes e pensar que nesse espaço que freqüentamos, bem
como nos demais que em nossa vida é vivida por nós, pessoas o tempo
todo vivem também as suas vidas e fazem coisas necessárias para que
nosso dia-a-dia tenha sentido. Não estamos sozinhos no mundo. Nossa
vida não é uma linha de trem que segue linearmente seu curso
pré-definido, sujeito apenas a alguns descarrilamentos. Ao contrario
disso, estamos inseridos em algo maior, que está conectado, que está
em processo.
E quando abordamos a idéia
de processo, logo fazemos com base na significação que damos ao
todo, as conexões, as redes interligadas e que sabemos nós, ou pelo
menos buscamos saber, influenciam de forma direta nossa vida e a
vida das demais pessoas que vivem as suas vidas.
E
como estamos escrevendo sobre uma produção cinematográfica, nos
remetemos a outros filmes com abordagens semelhantes nessa tentativa
de mostrar ao tele-espectador que existe um mundo em ebulição por
trás de tudo o que a gente vive.
A
máxima que nos chama a atenção nestas três obras do diretor
Alejandro González-Iñárritu: Amores Brutos (2000), 21 Gramas
(2003) Babel (2006), é a conectividade das cenas apresentadas, dos
protagonistas, sejam eles na mesma cidade, no caso de Amores Brutos
e 21 Gramas, ou ainda, com dimensões globais, no caso de Babel. Sem
sombra de dúvida, as várias indicações à prêmios que recebeu o
diretor, é mérito garantido, onde em linhas acima, poderíamos dizer
ser ele hábil de uma profunda filosofia sobre o tempo. [...] O
fascínio que demonstramos pelos filmes, recai sobre a idéia de
mostrar que a História é este processo de conexão, de interligação,
onde ao mesmo tempo que várias ações estão sendo empreendidas nos
mais diferentes espaços, outras tantas, simultaneamente estão sendo
realizadas, mas não somente isso, que qualquer ação empreendida em
qualquer destes espaços, seus efeitos estão imbricados, ligados como
os lados de uma folha de papel. (OLIVEIRA; SANTOS, 2009)
O
filme “O Gigante” traz essa habilidade. Apesar de centrar na figura
de uma única personagem, e de suas ações terem um grande efeito
sobre o cotidiano de seus colegas, percebemos que da mesma maneira
que ele imprime suas intenções nos demais, algumas situações fogem
de seu controle, de seu ‘domínio’.
Um
exemplo disso é o modo como conjugamos de um imaginário feminino.
Nossas observações diárias nos mostram aquilo que de alguma forma
ganhou vida e continuidade, mesmo que saibamos ou desejamos nós não
serem assim. O cuidado com a mulher amada, as formas de contato com
ela, seja da nossa parte, da maneira com que os outros intencionam
com ela ou dos que desconhecem porque as tratamos assim.
A
observação é um recurso constituinte da nossa educação, seja ela
formal ou informal. Com ela conhecemos o mundo a nossa volta,
projetamos nossas atitudes, criamos situações inusitadas.
Desta
última, vale destacar a cena em que nossa personagem compra um vaso
de flores e posiciona estrategicamente em algum corredor do
supermercado, no chão, o objeto que servirá para presentear sua
admiração, por ter o controle de seus horários, de suas funções e
até porque não, de seus gostos, desejos, sua sensibilidade.
Curioso são as demais atitudes dos colegas no interior desse
supermercado. Com hábitos que o protagonista interpretando um
segurança, desconsidera, como pequenos furtos de alimentos, ou
objetos, sendo por ele ignorados ou quando necessário, optando pela
advertência ao invés da denuncia.
Em
outros momentos, descontentes com as situações de trabalho, resolve
com voracidade o que considera injusto. Principalmente combatendo o
que por é significa falta de respeito e de justiça para com sua
mulher amada.
E
assim nosso protagonista nos encanta, pela sua cordialidade, mesmo
em um trabalho penoso, de horário sacrificante. Carismático e
afetuoso com o sobrinho, por vezes descuidado com sua própria
alimentação. Trabalhador, honesto, amoroso e sonhador, seja de sua
forma simples e humilde, ou pela forma brutal de defender suas
convicções. Viver com dignidade e desejar dia-a-dia a pessoa amada
são atributos mesmo de um “Gigante”!
BIBLIOGRAFIA
SANTOS, F. G. S.,
OLIVEIRA, D. L. S. O Tempo e a História:
Algumas Correlações a partir dos Filmes – Amores Brutos, Babel e 21
Gramas. Revista Virtual Partes - Educação. , jun. 2009,
p.1 – 3. Disponível na Web:
http://www.partes.com.br/educacao/otempoeahistoria.asp
. ISSN: 1678-8419.