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ISSN 1678-8419         última atualização em: terça-feira, 08 de fevereiro de 2011 21:52:44                                               

 
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EDUCAÇÃO

Filme “O Gigante”: Uma Ode Ao Amor

   

Fernanda Gabriela Soares Santos * Décio Luciano Squarcieri de Oliveira **

publicado em 10/12/2009

 

 

“Porque o amor é uma coisa mais profunda

Que um encontro casual.”

Belchior

  

O filme em questão não nos tocou apenas por sermos professores, mas sobretudo por sermos seres humanos. Quem de nós nunca amou alguém a distância? Quantas vezes não cuidamos alguém e admiramos sem que essa pessoa perceba?

Como em todos os bons filmes, essa não é uma idéia nova e nem precisa ser. Basta recordarmos o brasileiro “O homem que copiava”. O importante não é inserir uma nova idéia, mas imprimir uma maneira singular ao trazer para a tela uma idéia que por outras e outros já foi explorada.

O protagonista durante muito tempo admirou uma colega de trabalho, a defendia de um dos chefes que não tinha tato e a observava. Nas ruas, nos encontros, na academia. Odiava a maneira como os outros se referiam a ela.

Possivelmente não foi pensado nem realizado para ser um grande filme ou angariar prêmios. Foi idealizado unicamente para tocar nossos corações. Impossível não nos identificarmos com algumas das situações vivenciadas pelo protagonista.

Seu sobrinho não entende porque ele a segue pelas ruas. Como explicar a uma criança algo tão subjetivo?

O filme quase não apresenta diálogos, sendo que na sua maioria as cenas sugerem uma troca de lugar do espectador com o protagonista, em seus dias de trabalho e de desejo. Vão sendo criadas conversas imaginárias, onde também observamos as mesmas situações da personagem, mas em patamar mais amplo, visualizando o seu espaço de trabalho, de seus colegas, sua casa, bairro, com pequenos ângulos de visão além do que ele mesmo nos permite olhar.

O filme foi rodado no Uruguai, em uma Montevidéu tão cativante quanto somente esta cidade pode ser. Simples, de costumes gentis, ‘latinos americanos’ como nós, polêmica nas suas relações de trabalho, conflituosa em sua política, desafiadora para um coração romântico e contemplante em sua natureza.

É notável a aproximação deste país em seus costumes, formas de trato com as pessoas, em semelhança ao ‘nosso’ país. A temática do filme nos traz essa aproximação. São pessoas semelhantes ao nosso cotidiano, ao nosso modo de trabalhar, de desejar, um tanto diferente em seus hábitos alimentares e apreciadores de ótima música. Roupas que aqui não fariam sucesso, parecem não preocupar por lá. Os uniformes escolares são um charme à parte, algo de nostálgico que por aqui são agora fantasias de carnaval.

Outro aspecto interessantíssimo no cenário da produção é que quase a totalidade das cenas são gravadas em um supermercado. Um cotidiano significante a primeira vista para quem vive situação idêntica. Mas a surpresa do material é exatamente outra.

Somos capazes de nos sentirmos pertencentes a algo que não nos recordamos em termos vivido? Cenas que num primeiro momento não povoa as nossas experiências diárias? Situações de trabalho que se figuram um tanto desconhecidas das quais estamos habitualmente acostumados?

Pelo contrário! São situações diariamente vividas por nós, mas que por terem a tonacidade de serem simples, nos aparecem como naturais. Como algo que nos é posto da maneira como se apresentam, acabado, pronto e sem motivos para olharmos com maior sensibilidade.

Frequentamos senão diariamente, pelo menos algumas vezes na semana sentimos a necessidade de irmos ao supermercado. Lá encontramos artigos essenciais a nossa vida, como nossa alimentação, higiene, artigos para nossa casa, para facilitar nossa rotina caseira, nossa saúde e em determinados ambientes, até mesmo nossa cultura, nossas fantasias e satisfações pessoais. Há quem relate que uma ida ao supermercado é relaxante. É um momento de lazer, de descontração, de encontrar amigos ou simplesmente de passar o tempo.

Mas devemos então parar alguns instantes e pensar que nesse espaço que freqüentamos, bem como nos demais que em nossa vida é vivida por nós, pessoas o tempo todo vivem também as suas vidas e fazem coisas necessárias para que nosso dia-a-dia tenha sentido. Não estamos sozinhos no mundo. Nossa vida não é uma linha de trem que segue linearmente seu curso pré-definido, sujeito apenas a alguns descarrilamentos. Ao contrario disso, estamos inseridos em algo maior, que está conectado, que está em processo.

E quando abordamos a idéia de processo, logo fazemos com base na significação que damos ao todo, as conexões, as redes interligadas e que sabemos nós, ou pelo menos buscamos saber, influenciam de forma direta nossa vida e a vida das demais pessoas que vivem as suas vidas.


 

E como estamos escrevendo sobre uma produção cinematográfica, nos remetemos a outros filmes com abordagens semelhantes nessa tentativa de mostrar ao tele-espectador que existe um mundo em ebulição por trás de tudo o que a gente vive.
 



 

A máxima que nos chama a atenção nestas três obras do diretor Alejandro González-Iñárritu: Amores Brutos (2000), 21 Gramas (2003) Babel (2006), é a conectividade das cenas apresentadas, dos protagonistas, sejam eles na mesma cidade, no caso de Amores Brutos e 21 Gramas, ou ainda, com dimensões globais, no caso de Babel. Sem sombra de dúvida, as várias indicações à prêmios que recebeu o diretor, é mérito garantido, onde em linhas acima, poderíamos dizer ser ele hábil de uma profunda filosofia sobre o tempo. [...] O fascínio que demonstramos pelos filmes, recai sobre a idéia de mostrar que a História é este processo de conexão, de interligação, onde ao mesmo tempo que várias ações estão sendo empreendidas nos mais diferentes espaços, outras tantas, simultaneamente estão sendo realizadas, mas não somente isso, que qualquer ação empreendida em qualquer destes espaços, seus efeitos estão imbricados, ligados como os lados de uma folha de papel.  (OLIVEIRA; SANTOS, 2009)

 



 

O filme “O Gigante” traz essa habilidade. Apesar de centrar na figura de uma única personagem, e de suas ações terem um grande efeito sobre o cotidiano de seus colegas, percebemos que da mesma maneira que ele imprime suas intenções nos demais, algumas situações fogem de seu controle, de seu ‘domínio’.

Um exemplo disso é o modo como conjugamos de um imaginário feminino. Nossas observações diárias nos mostram aquilo que de alguma forma ganhou vida e continuidade, mesmo que saibamos ou desejamos nós não serem assim. O cuidado com a mulher amada, as formas de contato com ela, seja da nossa parte, da maneira com que os outros intencionam com ela ou dos que desconhecem porque as tratamos assim.

A observação é um recurso constituinte da nossa educação, seja ela formal ou informal. Com ela conhecemos o mundo a nossa volta, projetamos nossas atitudes, criamos situações inusitadas.

Desta última, vale destacar a cena em que nossa personagem compra um vaso de flores e posiciona estrategicamente em algum corredor do supermercado, no chão, o objeto que servirá para presentear sua admiração, por ter o controle de seus horários, de suas funções e até porque não, de seus gostos, desejos, sua sensibilidade.

Curioso são as demais atitudes dos colegas no interior desse supermercado. Com hábitos que o protagonista interpretando um segurança, desconsidera, como pequenos furtos de alimentos, ou objetos, sendo por ele ignorados ou quando necessário, optando pela advertência ao invés da denuncia.

Em outros momentos, descontentes com as situações de trabalho, resolve com voracidade o que considera injusto. Principalmente combatendo o que por é significa falta de respeito e de justiça para com sua mulher amada.

E assim nosso protagonista nos encanta, pela sua cordialidade, mesmo em um trabalho penoso, de horário sacrificante. Carismático e afetuoso com o sobrinho, por vezes descuidado com sua própria alimentação. Trabalhador, honesto, amoroso e sonhador, seja de sua forma simples e humilde, ou pela forma brutal de defender suas convicções. Viver com dignidade e desejar dia-a-dia a pessoa amada são atributos mesmo de um “Gigante”!


 

BIBLIOGRAFIA
 

SANTOS, F. G. S., OLIVEIRA, D. L. S. O Tempo e a História: Algumas Correlações a partir dos Filmes – Amores Brutos, Babel e 21 Gramas. Revista Virtual Partes - Educação. , jun. 2009, p.1 – 3. Disponível na Web: http://www.partes.com.br/educacao/otempoeahistoria.asp . ISSN: 1678-8419.

* Graduada em Filosofia – Licenciatura Plena pela Universidade Federal de Santa Maria. Especialista em Gestão Educacional/UFSM, Mestranda em Educação/UFSM, Professora da Rede Municipal de Formigueiro – RS, Membro do Grupo de Estudos e Pesquisas em Imaginário Social – GEPEIS – UFSM. fernandagssantos@yahoo.com.br

** Graduado em História – Licenciatura Plena pela Universidade Federal de Santa Maria. Especialista em História do Brasil/UFSM, Mestrando em Educação/UFSM, Professor Pesquisador I da Universidade Aberta do Brasil – UAB/UFSM, Membro do Grupo de Estudos e Pesquisas em Imaginário Social – GEPEIS – UFSM. decioluciano@yahoo.com.br

 


 

Como citar este artigo:

OLIVEIRA, Décio Luciano Squarcieri., SANTOS, Fernanda Gabriela Soares, Filme “O Gigante”: Uma Ode Ao Amor P@rtes (São Paulo). V.00 p.eletrônica. dezembro 2009. Disponível em <www.partes.com.br/educacao/ogigante.asp>. Acesso em _/_/_.

 

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