spacer

 

ISSN 1678-8419         última atualização em: quarta-feira, 03 de fevereiro de 2010 21:32:59                                               

 
  Principal
 Agenda
 Artes e Artesanato
 Colunistas
 Cultura
 Crônicas
 Econotas
 Editorial
 Educação
 Em Questão
 Em Rhede
 Entrevistas
 Humor
 Política e Cidadania
 Reportagens
 Mirim
 Notícias
 Outras edições
 Poesia e Contos
 Reflexão
 Expediente
 Sócio Ambiental
 Terceira Idade
 Terceiro Setor
 Turismo
   Participe
 Cartas
 Blog
 Fale Conosco
   Especiais
 Igrejas
 Meio Ambiente
 SP 450 anos
 Memória Sindical
 Assédio Moral
 Vitrine do Giba
 Nosso Dáimon
 O Grito do Ipiranga
 Mirim
 Feiras e Mercados
 Em RHede
 Econotas
 Ambientais
 Agenda
.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
EDUCAÇÃO

Olhar o outro e ser olhado: educação e Interculturalidade em questão

   

Genivaldo Frois Scaramuzza1

publicado em 03/021/2010


Resumo:
Este texto tem como objetivo comunicar saberes referentes às práticas educativas desencadeadas a partir do ensino da disciplina Territorialidade e Espaço no âmbito do Curso de Licenciatura em Educação Básica Intercultural da Fundação Universidade Federal de Rondônia – UNIR. Pretende-se evidenciar as primeiras experiências em ensino intercultural, considerando os conceitos de educação intercultural e trocas de saberes.

Palavras - chave: Olhar. Educação. Interculturalidade.

Considerações iniciais

As experiências descritas neste trabalho referem-se às práticas educativas iniciais que ocorrerem no âmbito do Curso de Licenciatura em Educação Básica Intercultural da Fundação Universidade Federal de Rondônia – UNIR. Trata-se de um curso regular voltado para a formação de professores e professoras indígenas que integram mais de 50 etnias espalhadas pelo território do Estado de Rondônia. As práticas descritas neste texto refere-se as anotações de aulas, bem como as discussões específicas da disciplina intitulada Territorialidade e Espaço.

As problemáticas enfrentadas para estabelecer um diálogo que caracterizasse práticas de Interculturalidade no âmbito do curso de formação indígena da Universidade Federal de Rondônia, nos ofereceram importantes contribuições ao tempo que nos instigava a formular várias indagações, tais como: De que forma os indígenas compreendem seus espaços? Como estabelecer uma conexão entre os etnoconhecimentos indígenas sobre o espaço e os conhecimentos propostos pela academia? Como promover trocas de experiências tendo em vista não incorrer na imposição de saberes não indígenas em detrimento dos saberes indígenas? Questões como estas nos instigaram a compreender as interlocuções do conceito de Interculturalidade na disciplina Territorialidade e Espaço.


 

Trocas de olhares e experiências em questão


 

O início das discussões referente a disciplina Territorialidade e Espaço no âmbito do curso de formação indígena se deu a partir de leituras específicas sobre a construção de espaços, considerando para isso as interlocuções da Geografia humanística em sua vertente Cultural. Autores como Tuan (1983) tem afirmado que o conhecimento do processo de produção do espaço passa pela instância da percepção, ou seja, para o autor, o espaço é significado simbolicamente pelas mediações das tradições culturais, sendo que o ser humano capta estes símbolos pelos sistemas sensoriais produzindo seguidamente a complexidade das representações espaciais. Em seu texto Espaço e Lugar: a Perspectiva da Experiência, o autor afirma que “na experiência e o significado de espaço freqüentemente se funde com o de lugar [...] a amplitude da experiência ou conhecimento pode ser direta e íntima, ou pode ser indireta e conceitual, mediada por símbolos” (TUAN, 1983, p. 6-7). Tais proposições foram utilizadas como suporte para as discussões iniciais no curso de formação de professores indígena, destacando a concepção de experiência como suporte do conhecimento espacial. As intervenções propostas através da leitura do texto ofereceram aos acadêmicos indígenas a possibilidade de significar os saberes adquiridos através da leitura do texto teórico, contrapondo-o com os saberes de suas tradições, situação que ocorreu de forma tensa.

As situações desencadeadas no âmbito das práticas de ensino na disciplina, nos instigaram a compreensão e entendimento das múltiplas falas dos acadêmicos indígenas, a este respeito destaca-se a fala de um estudante indígena referente a perspectiva da experiência para a compreensão do espaço. No momento em que discutíamos as proposições elaboradas por Tuan (!983) sobre a transformação do espaço através das intervenções experienciais da vida cotidiana, o acadêmico indígena subitamente interrompeu a aula e gentilmente pediu para proferir um pequeno discurso. Argumentou que em sua tradição as construções dos espaços, bem como os sistemas de objetos técnicos não passaram pela perspectiva experiencial, pois no âmbito de seu povo, tanto os espaços como os objetos pertencentes a tradição, são atribuições dos espíritos que incorporam um mediador capaz de transitar entre o mundo indizível do sagrado e o mundo sensível do vivido.

Para o acadêmico, os indígenas de sua etnia sempre souberam construir suas casas, fazer suas flechas sem que se passassem pela experimentação até atingir a forma perfeita. O indígena evidenciou que em sua tradição os espíritos entram em contato com os pajés e estes por sua vez comunicam a comunidade sobre como fazerem seus objetos e suas construções, pois o sobrenatural está intimamente ligado com o mundo natural. Autores como Bentes (2006), têm afirmado que para grande parte das populações indígenas o pajé é “alguém que transita entre dois mundos, o físico e o sobrenatural, que interpreta as mensagens e a vontade dos deuses, que pode orientar seu povo para as graças das divindades”. (p.27) Diante disso, o autor mencionado enfatiza que, cabia aos pajés compreender as intempéries do mundo físico como doenças, períodos de escassez e derrota nas guerras, e que estas ocorrências eram sempre interpretadas como manifestação da ação dos espíritos no mundo dos homens. “Assim, cabia ao pajé a tarefa de conversar com os espíritos e intermediar a solução dos problemas. Porém, o pajé não era apenas uma figura que indicava aos homens a vontade dos espíritos, era um homem dotado de conhecimentos que lhe davam poderes mágicos, podendo lutar e vencer os espíritos considerados malignos” (idem, p.28).

Considerando as interlocuções propostas, Claval (2001), tem contribuído para o entendimento das questões evidenciadas neste texto. O autor em questão afirma que

os homens não podem, entretanto, viver sem dar sentido aquilo que os cercam. Sua preocupação não é somente satisfazerem as suas necessidades e assegurar a transmissão do que sabem as futuras gerações. Eles lêem no céu e nos vastos horizontes o peso de forças cósmicas ou a presença do divino: ao profano da vida cotidiana opõe-se o sagrado dos lugares visitados ou habitados pelos gênios, espíritos ou príncipes invisíveis, mas que são mais verdadeiros que o mundo invisível ( CLAVAL, 2001, p. 293)


 

As experiências descritas por acadêmicos do Curso de Licenciatura em Educação Básica Intercultural durante a realização da disciplina Territorialidade e Espaço, nos interpelaram a retomar novos direcionamentos. Foi imprescindível compreender a intensa ligação entre o mundo natural e o sobrenatural no âmbito das diversas manifestações das culturas indígenas Amazônica. Ao verificarmos os questionamentos indígenas sobre a validade de nossas explicações para a compreensão do espaço, tornou-se provocativo ampliar o debate e estender o desafio a todos os participantes do curso de formação. Muito embora, nossa sociedade se assenta nos paradigmas das ciências modernas como possibilidade de explicação dos fatos através da proposição causa- efeito, prescindíamos que estas explicações eram insuficientes para contrapor o princípio da produção do espaço através das experiências desencadeadas no âmbito da esfera cotidiana indígena, bem como ao princípio de transformação do espaço como vontade transcendente. No caso específico da situação que estávamos vivendo, claramente foi possível perceber que não se tratava de comprovar nossos saberes perante os saberes do outro, a questão não era despir o outro, muito menos demonstrar pelo cartesianismo nossas supostas evidencias da verdade, mas sim compreender o outro efetivamente com seus discursos, suas vontades, seus saberes, suas vozes e olhares.

Ao longo das temáticas que fomos propondo como suporte das discussões da disciplina, foi possível percebermos que a efetivação da compreensão do espaço para os grupos indígenas envoltos no processo, não era apenas questão de experiências naturais, mas decisões que muitas vezes fugiam ao domínio explicativo do natural, o que nos impulsionou a tentar ampliar nossos saberes com referencia a práticas educacionais intercultural. No âmbito do curso de formação indígena proporcionado pela Fundação Universidade Federal de Rondônia, estamos iniciando nossas compreensões de como efetivar uma educação que possa fortalecer os grupos indígenas Amazônicos, considerando que faz parte de nossa proposta que os professores/acadêmicos indígenas possam compreender as questões inerentes a educação sem perderem de vista suas respectivas tradições. Considerando estas prerrogativas, concordamos que os acadêmicos indígenas “devem, sobretudo, aprender a levantar questões acerca dos princípios que subjazem os diferentes métodos didáticos, técnicas de pesquisas e teorias da educação, em vez de aprenderem o “como fazer”, o que muitas vezes é requerido em cursos para docentes. Há que se privilegiar a reflexão sobre os problemas escolares, sem ditar normas, cartilhas ou modelos” (BERNARDES & CAMARGO, 2008, p.2)


 

Considerações Finais


 

Diante das prerrogativas já evidenciadas neste texto, é possível compreender que o processo de construção da educação intercultural em Rondônia efetivamente passa pela compreensão do universo do outro, sem perder de vista o respeito e problematização das diferenças. No caso específico de nossa experiência no Curso de Formação de Professores Indígenas da Fundação Universidade Federal de Rondônia, foi possível perceber as diversas formas explicativas evidenciadas pelos acadêmicos aos fatos que por razões cientificistas já havíamos afirmado nossas certezas.

O processo de construção do espaço indígena e não indígena, objeto de nossas reflexões na disciplina de Territorialidade e Espaço, eminentemente se estabeleceu como uma possibilidade de diálogo com as explicações indígenas sobre o espaço. Foi possível verificar que nossas práticas educacionais no curso de Licenciatura em Educação Básica Intercultural efetivamente se dão pela compreensão do universo do outro, bem como pela compreensão pelo outro de nosso universo. São trocas de experiências e saberes em que olhamos o outro e somos olhados.


 

Referências

BENTES, Dorinethe dos Santos. As primeiras imagens da Amazônia.Manaus: Centro Cultural dos povos da Amazônia, 2006.

BERNARDES, Sueli Teresinha de Abreu; BERNARDES, Sueli Teresinha de Abreu. O fazer e o pensar no cotidiano da sala de aula. UNIBER. Disponível em: www.anped.org.br/reunioes/25/.../sueliteresinhabernardesp08.rtf. acessado em:13 de Janeiro de 1010.

CLAVAL, Paul. A geografia cultural. 2 ed. Florianópolis: Ed. Da UFSC, 2001.

TUAN, Yi-Fu Espaço e Lugar: a perspectiva da experiência. São Paulo: Difel, 1983.

1 Professor da Fundação Universidade Federal de Rondônia, Mestre em Geografia e Pesquisador no Grupo de Pesquisa em Educação na Amazônia.

 

 

 

 
  

spacer
::sobre o autor::


 

::contato com o autor::

Fale com o autor clicando aqui.

 
::uma foto::


 
   ::participe::
 Cartas
 Blog
 Fale Conosco
 
 

::outros artigos::

Licenciatura em educação Intercultural na Amazônia: a dimensão de um desafio
Genivaldo Frois Scaramuzza
publicado em 11/11/2009

 
 
 

 

 

 
 

 

Normas para publicar artigosRevista Virtual Partes

::apoiadores::






© copyright Revista P@rtes 2000-2010
Editor: Gilberto da Silva (Mtb 16.278)
São Paulo - Brasil
spacer