Resumo: Este texto tem como objetivo comunicar saberes
referentes às práticas educativas desencadeadas a partir do ensino
da disciplina Territorialidade e Espaço no âmbito do Curso de
Licenciatura em Educação Básica Intercultural da Fundação
Universidade Federal de Rondônia – UNIR. Pretende-se evidenciar as
primeiras experiências em ensino intercultural, considerando os
conceitos de educação intercultural e trocas de saberes.
Palavras - chave:
Olhar. Educação. Interculturalidade.
Considerações iniciais
As experiências descritas
neste trabalho referem-se às práticas educativas iniciais que
ocorrerem no âmbito do Curso de Licenciatura em Educação Básica
Intercultural da Fundação Universidade Federal de Rondônia – UNIR.
Trata-se de um curso regular voltado para a formação de professores
e professoras indígenas que integram mais de 50 etnias espalhadas
pelo território do Estado de Rondônia. As práticas descritas neste
texto refere-se as anotações de aulas, bem como as discussões
específicas da disciplina intitulada Territorialidade e Espaço.
As problemáticas
enfrentadas para estabelecer um diálogo que caracterizasse práticas
de Interculturalidade no âmbito do curso de formação indígena da
Universidade Federal de Rondônia, nos ofereceram importantes
contribuições ao tempo que nos instigava a formular várias
indagações, tais como: De que forma os indígenas compreendem seus
espaços? Como estabelecer uma conexão entre os etnoconhecimentos
indígenas sobre o espaço e os conhecimentos propostos pela academia?
Como promover trocas de experiências tendo em vista não incorrer na
imposição de saberes não indígenas em detrimento dos saberes
indígenas? Questões como estas nos instigaram a compreender as
interlocuções do conceito de Interculturalidade na disciplina
Territorialidade e Espaço.
Trocas de olhares e
experiências em questão
O início das discussões
referente a disciplina Territorialidade e Espaço no âmbito do curso
de formação indígena se deu a partir de leituras específicas sobre a
construção de espaços, considerando para isso as interlocuções da
Geografia humanística em sua vertente Cultural. Autores como Tuan
(1983) tem afirmado que o conhecimento do processo de produção do
espaço passa pela instância da percepção, ou seja, para o autor, o
espaço é significado simbolicamente pelas mediações das tradições
culturais, sendo que o ser humano capta estes símbolos pelos
sistemas sensoriais produzindo seguidamente a complexidade das
representações espaciais. Em seu texto Espaço e Lugar: a Perspectiva
da Experiência, o autor afirma que “na experiência e o significado
de espaço freqüentemente se funde com o de lugar [...] a amplitude
da experiência ou conhecimento pode ser direta e íntima, ou pode ser
indireta e conceitual, mediada por símbolos” (TUAN, 1983, p. 6-7).
Tais proposições foram utilizadas como suporte para as discussões
iniciais no curso de formação de professores indígena, destacando a
concepção de experiência como suporte do conhecimento espacial. As
intervenções propostas através da leitura do texto ofereceram aos
acadêmicos indígenas a possibilidade de significar os saberes
adquiridos através da leitura do texto teórico, contrapondo-o com os
saberes de suas tradições, situação que ocorreu de forma tensa.
As situações desencadeadas
no âmbito das práticas de ensino na disciplina, nos instigaram a
compreensão e entendimento das múltiplas falas dos acadêmicos
indígenas, a este respeito destaca-se a fala de um estudante
indígena referente a perspectiva da experiência para a compreensão
do espaço. No momento em que discutíamos as proposições elaboradas
por Tuan (!983) sobre a transformação do espaço através das
intervenções experienciais da vida cotidiana, o acadêmico indígena
subitamente interrompeu a aula e gentilmente pediu para proferir um
pequeno discurso. Argumentou que em sua tradição as construções dos
espaços, bem como os sistemas de objetos técnicos não passaram pela
perspectiva experiencial, pois no âmbito de seu povo, tanto os
espaços como os objetos pertencentes a tradição, são atribuições dos
espíritos que incorporam um mediador capaz de transitar entre o
mundo indizível do sagrado e o mundo sensível do vivido.
Para o acadêmico, os
indígenas de sua etnia sempre souberam construir suas casas, fazer
suas flechas sem que se passassem pela experimentação até atingir a
forma perfeita. O indígena evidenciou que em sua tradição os
espíritos entram em contato com os pajés e estes por sua vez
comunicam a comunidade sobre como fazerem seus objetos e suas
construções, pois o sobrenatural está intimamente ligado com o mundo
natural. Autores como Bentes (2006), têm afirmado que para grande
parte das populações indígenas o pajé é “alguém que transita entre
dois mundos, o físico e o sobrenatural, que interpreta as mensagens
e a vontade dos deuses, que pode orientar seu povo para as graças
das divindades”. (p.27) Diante disso, o autor mencionado enfatiza
que, cabia aos pajés compreender as intempéries do mundo físico como
doenças, períodos de escassez e derrota nas guerras, e que estas
ocorrências eram sempre interpretadas como manifestação da ação dos
espíritos no mundo dos homens. “Assim, cabia ao pajé a tarefa de
conversar com os espíritos e intermediar a solução dos problemas.
Porém, o pajé não era apenas uma figura que indicava aos homens a
vontade dos espíritos, era um homem dotado de conhecimentos que lhe
davam poderes mágicos, podendo lutar e vencer os espíritos
considerados malignos” (idem, p.28).
Considerando as
interlocuções propostas, Claval (2001), tem contribuído para o
entendimento das questões evidenciadas neste texto. O autor em
questão afirma que
os homens não podem,
entretanto, viver sem dar sentido aquilo que os cercam. Sua
preocupação não é somente satisfazerem as suas necessidades e
assegurar a transmissão do que sabem as futuras gerações. Eles lêem
no céu e nos vastos horizontes o peso de forças cósmicas ou a
presença do divino: ao profano da vida cotidiana opõe-se o sagrado
dos lugares visitados ou habitados pelos gênios, espíritos ou
príncipes invisíveis, mas que são mais verdadeiros que o mundo
invisível ( CLAVAL, 2001, p. 293)
As experiências descritas
por acadêmicos do Curso de Licenciatura em Educação Básica
Intercultural durante a realização da disciplina Territorialidade e
Espaço, nos interpelaram a retomar novos direcionamentos. Foi
imprescindível compreender a intensa ligação entre o mundo natural e
o sobrenatural no âmbito das diversas manifestações das culturas
indígenas Amazônica. Ao verificarmos os questionamentos indígenas
sobre a validade de nossas explicações para a compreensão do espaço,
tornou-se provocativo ampliar o debate e estender o desafio a todos
os participantes do curso de formação. Muito embora, nossa sociedade
se assenta nos paradigmas das ciências modernas como possibilidade
de explicação dos fatos através da proposição causa- efeito,
prescindíamos que estas explicações eram insuficientes para
contrapor o princípio da produção do espaço através das experiências
desencadeadas no âmbito da esfera cotidiana indígena, bem como ao
princípio de transformação do espaço como vontade transcendente. No
caso específico da situação que estávamos vivendo, claramente foi
possível perceber que não se tratava de comprovar nossos saberes
perante os saberes do outro, a questão não era despir o outro, muito
menos demonstrar pelo cartesianismo nossas supostas evidencias da
verdade, mas sim compreender o outro efetivamente com seus
discursos, suas vontades, seus saberes, suas vozes e olhares.
Ao longo das temáticas que
fomos propondo como suporte das discussões da disciplina, foi
possível percebermos que a efetivação da compreensão do espaço para
os grupos indígenas envoltos no processo, não era apenas questão de
experiências naturais, mas decisões que muitas vezes fugiam ao
domínio explicativo do natural, o que nos impulsionou a tentar
ampliar nossos saberes com referencia a práticas educacionais
intercultural. No âmbito do curso de formação indígena proporcionado
pela Fundação Universidade Federal de Rondônia, estamos iniciando
nossas compreensões de como efetivar uma educação que possa
fortalecer os grupos indígenas Amazônicos, considerando que faz
parte de nossa proposta que os professores/acadêmicos indígenas
possam compreender as questões inerentes a educação sem perderem de
vista suas respectivas tradições. Considerando estas prerrogativas,
concordamos que os acadêmicos indígenas “devem, sobretudo, aprender
a levantar questões acerca dos princípios que subjazem os diferentes
métodos didáticos, técnicas de pesquisas e teorias da educação, em
vez de aprenderem o “como fazer”, o que muitas vezes é requerido em
cursos para docentes. Há que se privilegiar a reflexão sobre os
problemas escolares, sem ditar normas, cartilhas ou modelos”
(BERNARDES & CAMARGO, 2008, p.2)
Considerações Finais
Diante das prerrogativas
já evidenciadas neste texto, é possível compreender que o processo
de construção da educação intercultural em Rondônia efetivamente
passa pela compreensão do universo do outro, sem perder de vista o
respeito e problematização das diferenças. No caso específico de
nossa experiência no Curso de Formação de Professores Indígenas da
Fundação Universidade Federal de Rondônia, foi possível perceber as
diversas formas explicativas evidenciadas pelos acadêmicos aos fatos
que por razões cientificistas já havíamos afirmado nossas certezas.
O processo de construção
do espaço indígena e não indígena, objeto de nossas reflexões na
disciplina de Territorialidade e Espaço, eminentemente se
estabeleceu como uma possibilidade de diálogo com as explicações
indígenas sobre o espaço. Foi possível verificar que nossas práticas
educacionais no curso de Licenciatura em Educação Básica
Intercultural efetivamente se dão pela compreensão do universo do
outro, bem como pela compreensão pelo outro de nosso universo. São
trocas de experiências e saberes em que olhamos o outro e somos
olhados.
Referências
BENTES, Dorinethe dos
Santos. As primeiras imagens da Amazônia.Manaus: Centro
Cultural dos povos da Amazônia, 2006.
BERNARDES, Sueli Teresinha
de Abreu; BERNARDES, Sueli Teresinha de Abreu. O fazer e o pensar
no cotidiano da sala de aula. UNIBER. Disponível em:
www.anped.org.br/reunioes/25/.../sueliteresinhabernardesp08.rtf.
acessado em:13
de Janeiro de 1010.
CLAVAL, Paul. A
geografia cultural. 2 ed. Florianópolis: Ed. Da UFSC, 2001.
TUAN, Yi-Fu
Espaço e Lugar: a perspectiva da experiência. São Paulo:
Difel, 1983.