Neste breve artigo sobre o tempo, logo de antemão já
informamos que, não é nossa pretensão elaborar um tratado
filosófico sobre o mesmo, tão pouco discorrer densas
conceitualizações, dada a sua imensa complexidade e
necessidade primeira, caso fosse à tônica, de apontar idéias
vitais para o tema, advindo de autores como Aristóteles,
Newton, Reinhart Koselleck, E. Husserl ou M. Heidegger. A
intenção prima é mostrar a partir de três produções
cinematográficas – Amores Brutos, Babel e
21 Gramas
–, as possibilidades didáticas de abordar noções de tempo
aos nossos alunos da disciplina de História. De que forma a
apresentação dos eventos que compõe os filmes trazem uma
nova configuração do processo histórico, semelhantes aos
dizeres de Foucault, quando manifesta a História como uma
continuidade temporal, mas descontínua de ações.
S
anto
Agostinho, em seu celebre livro Confissões (livro 11, cap.4)
já nos alertava: “O que é tempo? Se ninguém me perguntar,
então eu sei. Mas se quiser explicar a quem me pergunta, já
não sei.”. E é a partir dessa dificuldade que partimos
algumas de nossas provocações, indagações, ao termos que
trabalhar densos conteúdos da disciplina de História para
com nossos alunos, considerando aqui em específico, as
primeiras séries escolares, na qual encontramos respaldos
nos estudos de Jean Piaget sobre as percepções temporais das
crianças, suas maturidades e formas de percepção do mesmo.
Não raro colhemos comentários dos nossos alunos
quanto suas dificuldades em compreender a disciplina de
História, mediante suas dificuldades de compreensão do
tempo, imaginando por vezes que quando estudamos o
continente europeu, não há vida em outros continentes,
devido o fato do conteúdo de história ser tratado de forma
fragmentada e também, dos nossos alunos, de suas noções
temporais terem como ponto de referência o espaço físico.
Assim, quando se desloca no espaço geográfico o conteúdo, é
como se “deixasse de existir vida em outro lugar”. Para
estas significações, a formatação deste artigo não daria
conta da vasta possibilidade de análises que poderíamos
fazer, mas sim nos indica, a tamanha preocupação dos
professores em aproximar as interpretações históricas das
realidades e dos entendimentos de nossos alunos.
A
ntes
de adentrarmos mais especificamente nos filmes enquanto
recursos para se trabalhar à temporalidade, merecem destaque
duas citações, sendo a primeira de cunho didático, teórico
metodológico da disciplina em questão, e a segunda mais
dedicada a uma pincelada da complexidade da análise temporal
e de sua correlação com o conhecimento e produção da
Historiografia
contemporânea. Segundo BEZERRA (In: KARNAL, 2005, p.44), as
‘temporalidades históricas’, apresentam a questão chave para
se aproximar do aluno os conhecimentos oriundos da
disciplina, por se tratar de que:
A
dimensão da temporalidade é considerada uma das categorias
centrais do conhecimento histórico. Não se trata de insistir
nas definições dos diversos significados de tempo, mas de
levar o aluno a perceber as diversas temporalidades no
decorrer da História e ter claro sua importância nas formas
de organização social e seus conflitos. Sendo um produto
cultural forjado pelas necessidades concretas das
sociedades, historicamente situadas, o tempo representa um
conjunto complexo de vivencias humanas.
Sendo assim, dessa utilidade de perceber as
diferentes temporalidades, para cada situação histórica
própria, em nível capaz de ser inteligível ao aluno, estudos
elaborados por ARÓSTEGUI (2006) apontam para duas direções:
a primeira consiste em trabalhar o tempo nos moldes
histórico-filosóficos, dos quais cita algumas definições a
partir dos estudos de R. KOSELLECK:
[...]
o historiador situa-se diante do “futuro do passado”. Toda a
construção sobre o histórico trabalha com uma manipulação do
tempo, uma vez que escrevemos a partir do presente sobre o
passado e a concepção do futuro intervém igualmente nela. O
historiador enfrenta o “futuro do passado” de uma forma
precisa: para ele, aquilo de que trata é seu passado: o tema
como tal é, em sua ontologia, um presente: o historiador faz
a análise de tal presente-passado à luz do que sucedeu
“depois” do que descreve como presente. Está, pois,
trabalhando com um futuro passado, com um futuro do passado.
(R. KOSELLECK. In: ARÓSTEGUI, 2006, p.353)
A discussão neste nível é notavelmente importante, e
acreditamos em sua produção enquanto possibilidade formativa
do docente de História. Mas nosso interesse aqui, não
esqueçamos, é como essa carga teórica pode ganhar corpo ao
entendimento dos nossos discentes. Para contrabalançar com
as duas citações acima, cabe destacar ainda a segunda carga
de entendimentos empreendida por ARÓSTEGUI (2006, p.272):
Para a
construção da idéia de história, no entanto, o que
interessa, na realidade, é a maneira pela qual a
significação do tempo como um componente interno, inserido
realmente nas coisas, pode ser captada e explicada por nós
de forma objetiva: de que forma o tempo atua sobre a
existência das coisas e se manifesta no processo histórico.
Neste ponto, cabe então elucidarmos os filmes, visto
que a forma como podemos captar o desenrolar do tempo, sua
dinâmica e movimento, ganha corpo nas produções que nos
servem de referência. A máxima que nos chama a atenção
nestas três obras do diretor
Alejandro González-Iñárritu:
Amores Brutos (2000),
21 Gramas
(2003) Babel (2006), é a conectividade das cenas
apresentadas, dos protagonistas, sejam eles na mesma cidade,
no caso de Amores Brutos e
21 Gramas,
ou ainda, com dimensões globais, no caso de Babel. Sem
sombra de dúvida, as várias indicações à prêmios que recebeu
o diretor, é mérito garantido, onde em linhas acima,
poderíamos dizer ser ele hábil de uma profunda filosofia
sobre o tempo.
É
preciosa
a
forma
como
as
cenas
são
construídas,
como
ele
brinca
com
nossa
noção
linear
de
tempo,
a
ponto
de
nos
prender
na
tela
e de
fazer
nossos
sentidos
desencontrarem os
nexos
em
que
fomos submetidos
em
nossas primeiras
aulas
de
História.
O
fascínio
que
demonstramos
pelos
filmes,
recai
sobre
a
idéia
de
mostrar
que
a
História
é
este
processo
de
conexão,
de interligação,
onde
ao
mesmo
tempo
que
várias
ações
estão sendo empreendidas
nos
mais
diferentes
espaços,
outras tantas, simultaneamente estão sendo realizadas,
mas
não
somente
isso,
que
qualquer
ação
empreendida
em
qualquer
destes
espaços,
seus
efeitos
estão imbricados, ligados
como
os
lados
de uma
folha
de
papel.
Os recursos visuais que se utiliza o diretor fazem
cair por terra a cortina do mágico, desvendando os segredos
da História, a ponto de em várias cenas poder ser vistas
pedaços constitutivos de outras cenas que já aconteceram ou
que, ainda estão por acontecer, na temporalidade do filme,
mas não da temporalidade histórica, de forma a dar os
encadeamentos processuais da História.
Essa
forma
de
abordagem
requer do
docente
um
trabalho
intenso
com
seus
discentes,
podendo-se
mesmo
optar
por
ir
construindo
com
os
alunos,
paradas
estratégicas a
fim
de
dar
inteligibilidade à
história.
É
bem
verdade
que
o
conteúdo
das
obras
são
inadequadas
para
alunos
inferiores
a
faixa
etária
de 14
anos,
porém,
citamos estas
três
obras
como
exemplos
vitais
de outras
linguagens
de se
trabalhar
a
disciplina
de
História,
muitas
vezes
fadadas a se
preservar
em
apenas
livros
didáticos.
Nossa
intenção
aqui
é
mostrar
as possibilidades dos
recursos
de
que
temos
acesso
e de
que
uma
nova
concepção
de
ensino
e de
História,
como
do
tempo,
começa
a
ganhar
corpo,
de
modo
que
nossa
linearidade
e sequencialidade
começa
a
perder
espaço
para
a
totalidade
de
ações
e a
integrar
a
vida
de outras
pessoas
ao
nosso
dia
a
dia.
Bem
vindos a
sociedade
fragmentada.
Bem
vindos a
sociedade
conectada!
BIBLIOGRAFIA
ARÓSTEGUI, Julio. A pesquisa Histórica: teoria e método.
Tradução: Andréa Dore; revisão José Jobson de Andrade
Arruda. Bauru, SP: EDUSC, 2006.
KARNAL,
Leandro (org.). História da Sala de Aula: conceitos,
práticas e propostas. 3 ed. São Paulo: Contexto, 2005.
A
palavra historiografia seria, como sugere
Topolsky, a que melhor resolveria a necessidade de um
termo para designar a tarefa de investigação e
escrita da História, frente ao termo História, que
denominaria a realidade histórica. Historiografia
é, na sua acepção mais simples, “escrita da História”. E
historicamente pode aludir às diversas formas de escrita
da História que se sucederam desde a Antiguidade
clássica. [...] Historiografia seria a atividade e o
produto da atividade dos historiadores e também a
disciplina intelectual e acadêmica por eles constituída.
(ARÓSTEGUI 2006, p.36).
Graduado em História – Licenciatura Plena pela Universidade
Federal de Santa Maria. Especialista em História do Brasil/UFSM,
Mestrando em Educação/UFSM, Professor Substituto do
Departamento de Metodologia do Ensino – Centro de Educação –
UFSM, Membro do Grupo de Estudos e Pesquisas
em
Imaginário Social
– GEPEIS – UFSM.
decioluciano@yahoo.com.br