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É incrível como existem palavras bonitas sendo ditas por aí. Fica
difícil lembrar de todas, mas algumas me vêem a cabeça sem fazer muito
esforço: solidariedade, paz, saudade, felicidade, amor, e tantas outras
das quais agora não consigo me lembrar.
Na educação também temos encontrado palavras bonitas sendo ditas,
escritas, defendidas e até repudiadas. É um ciclo de idas e vindas no
vocabulário utilizado por aqueles que se preocupam em estudar a evolução
dos processos educacionais. Só tenho uma dúvida: até que ponto essas
palavras representam a realidade vivida e sentida pela maioria dos
educadores que efetivamente estão dentro de uma sala de aula todos os
dias?
Fala-se e escreve-se muito sobre metodologias. A importância de
inovar, de trazer para sala de aula novas propostas, com o
objetivo de atrair a atenção do aluno, de fazê-lo aceitar com “mais
leveza e alegria” os conteúdos que o atual sistema exige que a escola
aborde. Houve uma época, por exemplo, que a palavra em moda era
lúdico. Tudo na sala de aula devia ser lúdico. Tudo devia ser
tratado de forma prazerosa. Brincadeiras deviam ser criadas para tornar
a aula um eterno momento de prazer. Quem não conseguisse tal intento
estava à margem dessa nova forma de ver a educação, estava superado, era
um dinossauro. Sim, porque quem não se adapta rapidamente a essas
novas propostas é taxado de dinossauro ou coisa pior.
Para Esteve:
[...] os
professores se encontram ante o desconcerto e as dificuldades de
demandas mutantes e a contínua crítica social por não chegar a atender
essas novas exigências. Às vezes, o desconcerto surge do paradoxo de que
essa mesma sociedade, que exige novas responsabilidades do professores,
não lhes fornece os meios que eles reivindicam para cumpri-las. Outras
vezes, da demanda de exigências opostas e contraditórias (1999, p.13).
Assim, mais tarde, acabou-se percebendo que aprender não é só brincar.
Em outras palavras, para aprender é preciso antes de tudo compreender
que a vida não será uma eterna brincadeira, que ela nos cobrará, em
algum momento, responsabilidade, concentração nas atividades que
realizaremos e, principalmente, conhecimento, pois a chave desse novo
milênio não é simplesmente obter a informação, mas saber o que fazer com
ela.
Pois bem, os tempos mudam e as palavras também. Hoje, inclusive, o
número de palavras que andam por aí é bem maior. A maioria delas sendo
ditas apenas porque são moda, outras por que são uma imposição legal e,
outras, ainda, porque dão a impressão de que se está criando novas
maneiras de educar e formar.
Como já mencionei anteriormente, minha dúvida é até que ponto essas
palavras têm significado para os que estão realmente envolvidos com o
processo de educar. Até que ponto elas estão, realmente, ajudando os
professores e, conseqüentemente, os alunos a perceberam a educação de
maneira diferente, ou seja, de forma mais séria e comprometida. Não sei,
tenho dúvidas, muitas dúvidas.
Atualmente, a proposta pedagógica que está em moda é a
interdisciplinaridade. Palavra comprida, difícil de se escrever e
até de se falar (tente bem rápido e veja se consegue). Mas será que quem
defende essa proposta sabe do que está falando? Sabe, por exemplo, que
essa metodologia exige um tempo maior na sua preparação e
implementação, tempo que a grande maioria dos professores não tem? E
isso não é uma questão de não querer fazer (afinal, somos todos
profissionais), mas de estar imerso em um sistema que exige da maioria
dos professores uma carga horária semanal de 30 a 40 horas em sala de
aula. Sem contar que a profissão de professor é uma das poucas que ainda
leva trabalho para casa (muito trabalho, aliás), que deve ser sempre
atualizado, criativo, inovador e voltado, obviamente, para o atendimento
das necessidades cada vez maiores das crianças e jovens que freqüentam
as nossas salas de aulas.
Nesse aspecto, é Esteve, novamente, quem esclarece quando explica ser o
professor
[...] uma pessoa
condenada a fazer mal seu trabalho, já que nos últimos anos acumulou-se
sobre suas costas a quantidade de responsabilidades, sem as
contrapartidas correspondentes para poder cumpri-las, que
profissionalmente se encontra esgotado, faltando-lhe tempo material para
cumprir tudo aquilo que considera seu dever (1999, p.144-145).
Paralelamente a esses novos contextos interdisciplinares
encontraremos outros, como a questão controversa e pouco compreendida da
inclusão. O que mais se ouve e se lê é sobre a necessidade do
professor aprender a lidar com as diferenças existentes dentro de uma
sala de aula. A premissa em si não está equivocada, professor que é
professor deve estar preparado para trabalhar com turmas heterogêneas,
em níveis de aprendizagem diferenciados. No entanto, a questão que se
impõe no momento é que crianças e jovens com dificuldades especiais (em
alguns casos, muito especiais) estão sendo inseridas em turmas nas quais
os professores não dispõem das mínimas condições para atendê-las com a
atenção e o cuidado que necessitam e merecem. Se em uma turma de trinta
alunos, por exemplo, há quatro alunos com déficit de atenção e
hiperatividade, um com a Síndrome de Asperger e outro, ainda, com TOC, o
professor fica sem ter como atender, com qualidade, a esses e muito
menos aos 25 alunos restantes na sala de aula. É humanamente impossível.
Não é má vontade, como alguns, talvez, se apressem a dizer. No entanto,
há uma imposição legal e as escolas estão tentando adaptar-se a ela.
Mas, até agora o que se tem visto é a mesma rotina, salas cheias e um
único professor para atender a todas as necessidades e demandas que lhes
são impostas. Um único professor!
Acredito que o grande problema, aliás, um problema histórico, foi o de
considerar a profissão de professor um sacerdócio. Tudo é possível para
quem é professor, ele deve estar disposto a assumir todas as
responsabilidades e atributos, mesmo que em outras profissões as
exigências sejam bem menores e o reconhecimento das limitações de cada
uma, maiores. Um professor deve atender 30 e até 40 alunos por vez e
isso em 50 minutos, durante toda uma manhã/tarde ou durante todo o dia.
Como diz Perrenoud: “O professor não tem instrumentista, mas espera-se
que ele tenha ‘à mão’, quase sempre, os meios de ensino e de avaliação
mais convenientes” (2001, p.83). Só mesmo sendo um santo!
Mas palavras bonitas ainda continuarão existindo ou sendo inventadas,
principalmente quando estivermos tratando de educação. Afinal, essa é
uma das áreas na qual todos se acham no direito de opinar, tal como
ocorre no futebol: todos são técnicos de futebol querendo escalar o time
que entrará em campo; todos são professores e entendem de educação. A
profissão de professor e, conseqüentemente, a educação vêm, ao longo do
tempo, perdendo não só o prestígio, mas também a credibilidade, dando
espaço a muitas opiniões e a pouquíssimas ações. Em outras palavras,
muito tem-se dito, muito tem-se exigido, mas pouco, muito pouco, tem-se
feito de concreto para melhorar as condições de ensino e da própria
atividade do professor. Portanto, a nós, professores, só resta continuar
tentando compreender o significado dessas palavras bonitas, sempre nos
re-inventando (outra palavra bonita!), tentando com isso
transformar a sala de aula em um ambiente, não só de aprendizagem, mas
também de crescimento pessoal.
REFERÊNCIAS
ESTEVE, José M. O mal-estar docente: a sala de aula e a saúde dos
professores. Bauru, SP: EDUSC, 1999.
PERRENOUD, Philippe. Ensinar: agir na urgência, decidir na
incerteza. Porto Alegre, Artmed Editora, 2001. |