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ISSN 1678-8419         última atualização em: sexta-feira, 11 de abril de 2008 22:57:21                                               

 
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EDUCAÇÃO

Palavras bonitas ou limite da competência?

   

Gilka  Pierry Coimbra

publicado em 07/07/2007

 

No exercício de minha atividade profissional, ao longo de 43 anos de trabalho em coordenação pedagógica, tenho desencadeado ações, assessorando o trabalho dos professores na busca de metodologias diversificadas e adequadas ao momento atual. No decorrer desse tempo, com diferentes grupos de professores, realizei estudos e reflexões sobre nossas práticas, o que tem nos levado a investir sobremaneira em reuniões, seminários e discussões internas num processo que, ao mesmo tempo em que identifica nossos anseios e objetivos, estabelece contraposições frente à incompletude da educação.

 

Durante esse tempo de trabalho efetivo junto aos professores, tenho vivenciado esforços muitas vezes frustrados e frustrantes, considerando não apenas a velocidade das mudanças e a inércia das práticas pedagógicas, mas também o descompasso, existente entre a proposta de trabalho do professor e da escola e seu significado frente à expectativa e às necessidades atuais do aluno e do próprio professor.

 

Não poderia deixar de reconhecer as tendências em direção à mudança e as reflexões sérias e intencionalmente corretas feitas por diversos grupos com quem trabalhei e trabalho, entretanto ainda são, no mínimo, insuficientes e/ou inadequadas.

 

Tenho observado nos professores uma dicotomia entre a reflexão, que até fazem, e as alterações na própria prática; entre a crença do que seria possível e a concretização dessa mesma crença, como se estivessem engessados num outro lugar do qual não conseguem sair tão facilmente.

 

 

Assessorar grupos de professores no desenvolvimento do trabalho escolar, hoje, reforça ainda mais minhas inquietações e, conseqüentemente, a necessidade de aprofundar estudos e realizar pesquisa relacionada à temática da formação do professor.

 

Detecto, no meu fazer pedagógico, a dificuldade dos grupos na transição do paradigma educacional. Os professores, tanto pela sua formação inicial quanto pela estrutura do sistema educacional vigente e  pelo perfil atual da escola onde atuam, ainda permanecem presos ao referencial anterior, com investimentos insuficientes para o desafio a que estão sendo chamados: o desafio de inovar, de investir em estratégias de ensino que oportunizem, concomitantemente, os três modos de aprender - o ensinado, o assistido e o autônomo.

 

O modo de ensino não tem oportunizado ritmo de aprendizagem compatível com a velocidade e as exigências do momento atual, pelo menos não tão significativamente na escola. Essa corrida tem lugar num mundo cada vez mais veloz, em que urgem também as “desaprendizagens”.

 

Acredito ser cada vez mais “necessário e urgente preparar o professor para a complexidade,” (MORIN, 2001, p.54) para a diversidade e as situações profissionais que terá de enfrentar.

 

Minhas leituras e meu trabalho reforçam a tese de que “educar é cada vez menos prática individual e cada vez mais exercício de equipe pedagógica e do estabelecimento de ensino. É preciso esclarecer as urgências e as incertezas da ação pedagógica.” (PERRENOUD, 2001, p.231). A revolução em curso é, com certeza, uma revolução cognitiva que reclama por tecnologias mediáticas de conhecimento e informação.

 

 

Tenho vivenciado e observado o nosso “andar”, que precisa inovar, numa época de instabilidade e de relatividade, com uma postura emancipatória de transição que necessita, com urgência, ser criada e exercitada - individual e coletivamente.

 

 Tenho observado muitos esforços realizados, por alguns no interior solitário da sala de aula, que passam, às vezes, até despercebidos, mas que buscam, tateando, outras direções. Para outros, os esforços resultam em obviedades, ou apenas mais algumas palavras bonitas que andam por aí de tempos em tempos fazendo moda.

 

Tenho observado nossos alunos estabelecendo relações comunicativas numa nova linguagem, ágil e célere, como se os terminais do computador fossem apenas prolongamentos de suas mãos e de seus neurônios, e as distâncias, o tempo e o espaço, elementos lúdicos pelos quais circulam com naturalidade.

 

 O que sabemos sobre o trânsito de nossos alunos entre a realidade virtual e as possibilidades do mundo real?

 

Como inovar para a incerteza? Como ensinar para a incerteza? Que concepção de educação, de ensino, de aprendizagem, de avaliação temos de ter e quais as ferramentas e métodos são adequados e significativos para esse tempo?

 

 Quais competências nos são necessárias desenvolver para corresponderem aos compromissos que nos são inerentes em relação ao aluno, em relação a nós mesmos e em relação à responsabilidade social da educação?

 

 

Inúmeros são os questionamentos e os campos que merecem investigação nesses tempos de provisoriedade, de relatividade e de instabilidade.

 

 Que saber é esse que ainda circula nas instituições educacionais como verdade consistente e duradoura num mundo em que domina a inovação?  Como organizamos nossas propostas pedagógicas na era da instabilidade e do relativo, na época em que o tempo também é o das possibilidades e o da expansão?

 

Não podemos simplificar a ponto de acreditarmos que o emprego de novas tecnologias resolveria o problema da inadequação da escola atual. O professor é chamado hoje a criar e recriar conhecimentos aprendidos para aplicar numa realidade cada vez mais mutante.

 

Nesse contexto, Carneiro (2001) enfatiza a educação centrada no primado da pessoa, em que o valor aprendente da vida, o aprender ao longo da vida e o aprender vivendo e viver aprendendo resulta em crescimento pessoal e coletivo.

 

Essa educação busca a autonomia e o desenvolvimento de competências que formem sujeitos relacionais, aptos a viver em ambientes de informação, críticos de seu papel social num universo cultural cada vez mais globalizado, diversificado e livre de fronteiras geográficas e de conhecimento.

 

 

Acredito que a formação do professor precisa ser reexaminada, e o conceito de docência precisa ser ampliado, uma vez que “a educação está em plena mutação, e as possibilidades de aprender oferecidas pela sociedade exterior à escola multiplicam-se em todos os domínios, enquanto que a noção de qualificação, no sentido tradicional, é substituída pelas noções de competências evolutivas” (DELORS, 1998, p.104)

 

Rodríguez (1999) nos diz que a ruptura epistemológica desse final de século e de milênio e a influência que isso exerce sobre a evolução intelectual têm uma clara repercussão nos processos de formação e profissionalização dos professores, o que exige uma forma diferente de atuação tanto nas funções como nas tarefas que, como profissional, ver-se-á obrigado a desempenhar nos espaços educativos do século XXI. Assim como o desenvolvimento e a incidência da tecnologia atingiu a concepção de educação, também influirá no desenvolvimento da profissão docente.

 

Com muita rapidez, vemos a escola ser invadida por novas idéias, recursos e ferramentas tecnológicas. As funções dos docentes modificam-se quando devem desenvolver suas atividades num entorno virtual que deixa de ter limitações geográficas, físicas, temporais e tende, ainda, a ter de dar resposta a grupos de alunos cada vez mais heterogêneos, tanto que alguns são considerados incluídos.

 

        Uma sociedade de conhecimento sempre provisória e mutante necessita de profissionais capazes de realizar movimentos de mudança no contexto atual da escola. O sentimento (de todos os profissionais da escola) deve ser aquele que impulsiona para os novos modos de aprender e os contextos aprendentes numa proposta de educação pluridimensional.

 

Cora Coralina quando diz que “Mestre é o que ensina o que sabe e aprende o que ensina” nos mostra com palavras bonitas uma difícil realidade.

 Ou desempenhamos o duplo papel de professor e de eterno aprendente, ou teremos que admitir o limite de nossa competência.

 

Referências Bibliográficas

 

·        Carneiro, Roberto. Fundamentos da Educação e da aprendizagem – Ensaios para o séc. XXI. Vila Nova da Gaia: Ed. FML, 2001.

 

·        Delors, Jacques. Educação: Um tesouro a descobrir. Petrópolis: Vozes, 1998.

 

·        Morin, Edgar. Os Sete Saberes Necessários a Educação do Futuro. São Paulo: Cortez, 2000.

 

·        Perrenoud, Philippe. Ensinar: Agir na Urgência e decidir na Incerteza. Porto Alegre, Artes Médicas Sul, 2001.

 

 

 

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 Gilka Pierry Coimbra é pedagoga e reside em Porto Alegre - RS

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