Atualmente percebe-se nas escolas que o grande desafio do professor
é trabalhar com alunos que apresentam algum tipo de diferença no
processo de aprendizagem, pois, grande parte dos docentes não está
preparada para atuar com essa realidade, provêm de uma formação em
que a prioridade é dar conta do conteúdo, e que o aluno deve
aprender independe de sua individualidade.
Essa perspectiva do processo de ensinar e aprender deveria ser
diferente tendo em vista, que vivemos em uma sociedade em que cada
pessoa tem uma história, uma linguagem, uma maneira de agir, pensar
e sentir, e esses elementos são construídos pelas diversas relações
estabelecidas com o meio, o que faz cada sujeito ser único. E
através desse olhar diferenciado construído pela escola e
educadores, é possível praticar uma ação pedagógica voltada ao
atendimento das diferenças.
O aluno segundo Luckesi (1994, p. 117) “[... ] é um sujeito ativo
que, pela ação, ao mesmo tempo se constrói e se aliena. Ele é um
membro da sociedade como qualquer outro sujeito, tendo caracteres de
atividade, sociabilidade, historicidade, praticidade”. Partindo
desse olhar individual, é que o professor tem que desenvolver sua
práxis, atendendo cada sujeito em sua singularidade, interagindo com
o aluno, tentando suprir suas dificuldades na aprendizagem.
A interação na escola entre professores e alunos, as formas de
comunicação, os aspectos afetivos e emocionais, fazem parte das
condições organizativas do trabalho docente, juntamente com os
aspectos cognitivos e sócio-emocionais da relação professor-aluno.
Isso significa que o trabalho docente se caracteriza não apenas pelo
preparo pedagógico e científico do professor e de toda a equipe da
escola, mas também, pelo constante vaivém entre as tarefas
cognoscitivas colocadas pelo professor e o nível de preparo dos
alunos para resolvê-las. (LIBÂNEO, 1994)
O professor é o sujeito que ajuda o aluno no processo de construção
de diversos saberes, tais como a amar e respeitar, por isso, ser um
mestre vai além de “transmitir” conteúdos. É preciso cativar o
aprendiz e conquistar sua confiança, pois os laços criados nessas
relações é que irão garantir o início da caminhadas rumo a formas
mais adequadas de aprendizagem.
Para compreender os problemas que dificultam o aprendizado do aluno,
é preciso que os profissionais envolvidos com a educação construam
laços, no intuito de se aproximar e considerar as diversas causas,
observando todo processo de aprender, bem como as interações
estabelecidas pelo educando. É essencial levar em conta, que o
problema manifestado por uma criança é um conjunto de fatores que
influenciam todo sistema escolar, não apenas ao professor e sua
turma. Isso requer maior atenção e preparo tanto do profissional
quanto de toda equipe escolar, que deve estar voltada para atuar
frente a esse contexto.
Este fato põe em xeque a formação do professor, que ainda
negligência ou trata de forma distorcida os aspectos relacionais em
geral, parecendo esquecer as novas condições a que o exercício
profissional está inserido, causadas pela transformação da estrutura
social da população escolar e pela própria evolução social.
Diante disso, faz-se necessário que a formação dos educadores esteja
voltada para esse contexto, buscando prevenir e diminuir as
dificuldades no processo de ensinar e aprender. Perrenoud (2002) in
apud Oliveira (2003) menciona que esse é o caminho para a
profissionalização, uma vez que permitirá o desenvolvimento da
capacidade reflexiva desses profissionais e através dessa reflexão é
que se encontrarão meios para atuar com essa realidade discente, já
que não existem fórmulas nem receitas para esta prática.
As competências que o professor deve adquirir para trabalhar com os
problemas que a aprendizagem se depara cotidianamente, serão
construídas somente através da qualificação profissional, e segundo
(Oliveira, 2003) a noção de competências está intimamente ligada à
capacidade dos indivíduos de se adequarem a novas situações e de
resolverem problemas que possam enfrentar na sua prática.
Freire (1996, p.43) afirma que: “É pensando criticamente a prática
de hoje ou de ontem é que se pode melhorar a próxima prática.” Nesse
sentido, é que a atualização profissional, ou seja, a construção do
saber constante é essencial para a realização de um trabalho
(trans)formador, pois permite o processo ação-reflexão-ação.
Desse modo, Schön (1997, p. 87) nos diz que
(...) o desenvolvimento de uma prática reflexiva eficaz tem que
integrar o contexto institucional. O professor tem de se tornar um
navegador atendo à burocracia. E os responsáveis escolares que
queiram encorajar os professores a tornarem-se profissionais
reflexivos devem criar espaços de liberdade tranqüila onde a
reflexão seja possível. Estes são os dois lados da questão –
aprender a ouvir os alunos
Nesse contexto, cabe mencionar que as mudanças no contexto escolar e
social requerem profissionais atualizados e competentes, que estejam
preparados para atuar com diferentes problemas, tais como de
comportamento, dificuldades de aprendizagem primárias e secundárias,
altas habilidades, deficiências, síndromes, entre outros, visto que
são necessários educadores com uma sólida formação capazes de
incluir estes alunos na sala de aula, atuando de forma
diversificada, de acordo com a necessidade de cada um, através de
uma prática crítica-reflexiva e consciente das necessidades e
desafios educacionais.
Para incluir, a escola precisa primeiramente acreditar que todas as
crianças podem e devem aprender, através de adaptações curriculares
e de uma educação de qualidade, passando acima de tudo pela
formação docente. As adaptações curriculares constituem um conjunto
de modificações que se realizam nos objetivos, conteúdos, critérios,
procedimentos de avaliações, atividades e metodologias para atender
as individualidades dos alunos.
No entanto, nada disso adianta se não existem competências
profissionais voltadas para atuar com a diversidade, pois sabe-se
que as diferenças não estão somente no modo de aprender, existem no
modo de vestir, de falar, de gesticular, na opção sexual, na
cultura, enfim, na exigência de uma práxis respeitadora e inclusiva,
pois, incluir, acreditar nas diferenças, não significa colocar o
aluno na mesma sala de aula dos ditos “normais” e tentar igualá-lo
aos demais, muito pelo contrário, significa acreditar na diferença
desse sujeito e trabalhar na tentativa de incluí-lo nesta sociedade
tão excludente.
De acordo com (BRASIL/MEC/SEESP, 2006, p. 13):
(...) no reconhecimento das diferenças humanas e na aprendizagem
centrada nas potencialidades dos alunos, ao invés da imposição de
rituais pedagógicos pré-estabelecidos que acabe por legitimar as
desigualdades sociais e negar a diversidade. Nessa perspectiva, as
escolas devem responder às necessidades educacionais especiais de
seus alunos, considerando a complexidade e heterogeneidade de
estilos e ritmos de aprendizagem.
Diante disso, é fundamental que a escola aprimore suas ações
pedagógicas, visando o atendimento às diferenças, pois é
imprescindível a inovação, a busca de novas alternativas e
metodologias que proporcionem um ensino de qualidade para todos,
visto que (trans)formar a educação exige trabalho e dedicação de
todos, inclusive da família e da sociedade.
De acordo com Carneiro (1998, p. 49) partindo da idéia de
Necessidades Especiais:
A Lei determina que todas estas crianças têm o direito a um
atendimento educacional especializado. Preferencialmente, devem ter
o seu espaço de aprendizagem em classes normais, ao lado das demais
crianças, evitando-se, desta forma, qualquer modalidade de
segregação. Países como Itália e Canadá trabalham com o conceito de
“escolas inclusivas”, ou seja, estabelecimentos normais de em ensino
que contam com um programa especial para crianças com Necessidades
Especiais. Isto porque está comprovado que elas rendem mais quando
convivem com crianças normais. Infelizmente a “inclusão” é um tema
ainda novo no Brasil, restrito à área acadêmica.
Com isso, faz-se necessário compreender e vivenciar a inclusão,
adequando-a a prática pedagógica, bem como os conteúdos, as
atividades de ensino e aprendizagem, os recursos materiais e as
avaliações, pois uma escola aberta à diferença é aquela que
flexibiliza seu currículo em prol do educando.
Por outro lado, sabe-se que a escola, de uma maneira geral, não é
planejada para atender as diferenças, mas sim para a padronização,
transmitindo saberes e “acreditando” que todos estão “aprendendo” da
mesma forma e ao mesmo tempo. É nesse contexto que o aluno com
problemas de aprendizagem é excluído, pois não consegue aprender
como os “demais”. Essa visão de educação tem que ser modificada, o
professor deve perceber os alunos como diferentes, visto que incluir
não significa igualá-los diante de uma sala de aula e tapar os olhos
frente a diferença.
Nesta perspectiva, é necessário refletir sobre a formação docente
para que se possa mediar conhecimentos, e proceder a uma educação de
qualidade, transformando a escola em
um lugar que acolhe “a todos” e que valoriza a diferença. Para
tanto, de acordo com Nóvoa (1995) na formação de professores é
preciso conceber a escola como um ambiente educativo, no qual
trabalhar e formar não sejam atividades distintas. Essa formação
deve ser vista como um processo permanente integrado no dia-a-dia
dos professores – vistos como protagonistas ativos nas diversas
fases do processo de formação –, devendo este voltar-se para os
desenvolvimentos: pessoal, profissional e organizacional.
Assim, a formação do educador deve ser vista como o desenvolvimento
das suas potencialidades, o que ele almeja enquanto pessoa e
profissional, pois acreditar na formação significa fazer um regate
dos conhecimentos já construídos, trocar saberes em grupos de
estudos, cursos, palestras, seminários, observações no dia a dia,
preenchendo as lacunas existentes na formação e potencializando,
assim, o seu fazer pedagógico.
REFERÊNCIAS:
BRASIL, MEC/SEESP. Política Nacional de Educação Especial na
Perspectiva da Educação Inclusiva, 2006.
CARNEIRO, Moaci Alves. LDB fácil: leitura crítico-compreensiva:
artigo a artigo. Petrópolis, RJ, 1998.
FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia. 20ª ed. São Paulo: Paz
e Terra, 1996.
LIBANÊO, José Carlo. Adeus Professor, adeus professora: novas
exigências educacionais e docente. São Paulo: Cortez, 2002.
NÓVOA, Antonio. (coord). Os professores e sua formação.
Lisboa-Portugal, Dom Quixote, 1997.
NÓVOA, Antônio. Vidas de professores. 2ª edição. Porto
Editora, 1995.
OLIVEIRA, Dalila Andrade. Reformas educacionais na América Latina
e os trabalhadores docentes. BH: Autêntica, 2003.
SCHÖN, Donald. Os professores e sua formação. Coord. De Nóvoa;
Lisboa, Portugal, Dom Quixote, 1997.
Co-autora:
Psicóloga formada pela Universidade Regional Integrada do Alto
Uruguai e das Missões - URI Campus
Santiago/RS. (klehnhard@yahoo.com.br)