Convidamos a
assistir a esse filme, todos aqueles que não têm medo de ver a arte
enquanto inquietação. Não é uma comédia romântica e o final, pasmem
não é nenhum pouco feliz. O episódio todos conhecemos através do
show que a mídia deu mostrando–nos o dia inteiro o ônibus sendo
assaltado. Naquele exato momento, a mídia fez por nós a escolha:
elegeu quem seria o grande ator do espetáculo, para quem torceríamos
e quem seria o bandido, que só por coincidência era negro, pobre,
viciado e esteticamente considerado feio.
Não estou
defendendo ou condenando ninguém, nenhum de nós naturalmente
gostaria de estar naquele ônibus. A questão que coloco é o real
motivo daquele ter sido o grande espetáculo do dia, se vários ônibus
são assaltados e outros crimes estavam também acontecendo no país?
Lembro da minha indignação na sala de cinema com o contexto e ouvi
de alguém sentado ao fundo: -“Bem feito para ele”.
Fiquei me
questionando: Bem feito para quem? Ele em questão é o protagonista,
o menino de rua Sandro, uma das poucas vítimas que sobreviveu a
estúpida Chacina da Candelária.Viu sua mãe ser assassinada na
infância e passou por várias instituições ao longo da vida, foi
preso, enfim, para muitos, o estereótipo de um marginal, desses que
a sociedade em geral acredita que não mereceria ser “beneficiado”
pelos direitos humanos.
E se torna um
maldito porque mantêm a professora refém. Saí da sala de cinema e
fiquei me perguntando o quanto nós o tornamos refém. Vítima de uma
vida inteira. Quais as oportunidades que demos para ele. Algum de
nós deixaria ele brincar com o nosso filho pequeno? Algum de nós se
preocupou com as crianças que sobreviveram à chacina?

Lógico que o
dia que ele tocar em algum de nós ficaremos enojados dele, afinal de
contas ele era sujo, feio, negro, pobre. Imagina se quisesse namorar
a filha de um de nós? E quando acontece algo assim a sociedade fica
torcendo para que ele se dê mal, todos acharam super normal ele ter
morrido no carro da polícia. Ninguém lembra que ele não matou
ninguém dentro do ônibus. Ninguém se preocupou em saber o que
realmente aconteceu dentro do carro, afinal foi só um marginal
morto. Talvez se ele tivesse um sobrenome tradicional a história
teria sido outra, pois filho de família abastada nesse país recebe
um tratamento diferenciado.
Mas o Sandro
morreu vítima da hostilidade de uma polícia despreparada. E talvez
ninguém tenha chorado sua morte, ela apenas tenha virado
estatística. Quando condenamos ele, nenhum de nós levou em conta sua
história de vida, a impossibilidade de sucesso escolar, uma vida
fadada a ser miserável.
Segundo PAIVA
(1988, p. 144): “Para o herói trágico, por exemplo, o conflito é
interior, enquanto, para o herói do melodrama, o conflito é
exterior, ocorrendo entre os personagens e o mundo à sua volta.”
Dessa maneira,
enquanto na tragédia o herói possui indagações existenciais (ethos e
daimon), no melodrama o herói luta com o mundo ao seu redor.

E ao
longo de uma caminhada de vida, opinião essa nascida no contexto de
quem já militou, já almoçou e jantou em barracos, já vivenciou o
cotidiano do sertão, hoje o Sandro é um herói. Malvado para a mídia
e para os milhões de brasileiros que torciam pela sua morte,
guerreiro para nós que não condenamos alguém só porque utiliza
drogas e que, tal como Vygotsky, acreditamos que o ser humano é,
antes de mais nada, um ser social, atravessado pelo seu contexto.
Um
social que as pessoas têm dificuldades de entender que não é como o
nosso. Ele não foi uma criança esperada e planejada como as nossas,
não tinha um quartinho azul o esperando, nem tampouco fizeram festa
quando nasceu. Era mais uma boca para comer em uma vida de absoluta
miséria e sabe lá Deus com que idade foi apresentado a cola de
sapateiro. Qualquer um de nós utilizaríamos se passássemos fome e
frio, se tivéssemos febre e ninguém para nos socorrer. Não, não
tinha como ser diferente, e não citem por favor aquele um em milhões
que uma ONG salvou e o tornou herói de uma geração. Talvez não hajam
culpadas, ou a única culpada seja a história de séculos de
exclusão.
Preparem-se para depois de assistir ao filme, ter vontade de pegar
um trem para as estrelas e jamais voltar. Vergonha de ser humano, de
não fazer nada, de considerarmos normalidade fome, miséria e
preconceito. De sempre condenarmos os grandes bandidos enquanto
algozes da violência e de acharmos terríveis quando cometem crimes
cruéis.

Crueldade
pertencer a uma sociedade que se satisfaz ao ver o Roberto Carlos
cantando no fim do ano, e que faz votos de felicidade para o ano
vindouro, esquecendo é claro que o rei lá, todo de branco, jamais
escreveu uma linha de protesto. Mas mora no imaginário do
brasileiro, lota shows e é música predileta nas formaturas do ensino
superior.
Em sua teoria
da complexidade, Edgar Morin nos ensinou que nossa educação nos
ensinou a separar, compartimentar, isolar os conhecimentos. Talvez
daí consigamos entender nossa dificuldade nas relações, em entender
que um acontecimento não está livre dos demais. E é justamente
nessas uniões que devemos situar o nosso planeta, na luta por
humanidade, pela ecologia, pela ética. Uma luta não se faz isolada
das outras.
Outro dia, em
uma escola ouvi de uma mãe: -Olha o que minha filha aprontou,
queria fazer aulas de capoeira.
Essa mãe não
era uma mãe qualquer, era uma professora com ensino superior, esposa
de médico. Fiquei imaginando o que habitam ou que monstros habitam
esse imaginário, pois qual o problema da capoeira? Uma dança-luta
trazida pelos escravos? Isso a torna menos digna? Penso que sim, que
as pessoas conservam o costume de separar seus lixos, mas têm nojo
do catador que passa na rua. Odeiam olhar para os seus filhos
desdentados, piolhentos e negros. Afinal, não são crianças como as
nossas...
Na
hora agradeci a Deus por essa mãe não ser uma professora em
exercício como eu, não estar falando essas bobagens em uma sala de
aula repleta de crianças e disseminando mais um preconceito. Como
pode? Alguém que em determinado momento da vida quis ser um educador
proibir um filho de praticar determinado esporte? Essa é a classe
dominante do país e o que fazem com nossos miseráveis e famintos?
Tenho pensado
infinitamente na música do Nando Reis: “O que está acontecendo? O
mundo está ao contrário e ninguém reparou...”
REFERÊNCIAS
MORIN, E.
Terra Pátria. Porto Alegre: Sulinas, 1996.
PAIVA, S.J.H.
de P. O cinema teatro de Fassbinder. São Paulo: Dissertação
de Mestrado (Mestrado em Ciências da Comunicação) – Universidade de
São Paulo,1998.