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Resumo:
O artigo aborda as formulações de
Boaventura de Sousa Santos e suas intermediações com Durkheim, Marx e Weber,
tendo por foco a crise do paradigma atual das ciências, a dominação exercida
pelo modelo econômico neoliberal vigente e suas implicações na formação do
indivíduo; e a proposta de um novo paradigma, que alie ciência e senso
comum.
Palavras-chave: Paradigma Emergente; Ciências
Naturais; Ciências Sociais.
1. O professor Boaventura de Sousa Santos é doutor em
sociologia e direito pela Universidade de Yale, professor titular da
Universidade de Coimbra e autor de vários livros, dentro os quais: “Um
discurso sobre as Ciências”, “Pela Mão de Alice” e “Crítica da Razão
Indolente”.
Considerado um dos maiores expoentes da
intelectualidade da língua portuguesa na área de ciências sociais, sua
trajetória sempre esteve bastante ligada ao Brasil, onde teve contato com
vários projetos sociais, alguns dos quais considerou como experiências
avançadas e bem-sucedidas nas áreas de democracia participativa, produção
alternativa e multiculturalismo. Esse contato contribuiu para sua descrição
da crise do paradigma dominante e do que designou como paradigma emergente,
em que atribui às ciências sociais anti-positivistas uma nova centralidade e
defende que a ciência em geral deve transformar-se num novo e mais
esclarecido senso comum.
Para tanto, Santos propõe um novo modelo de
Universidade, a qual seria um local onde: cientistas, líderes e ativistas
sociais atuariam de forma integrada na análise de problemas e comparação de
práticas, associando conhecimento científico às práticas sociais, de maneira
a que dialoguem entre si, dando origem a um novo senso comum, que recoloque
o ser humano em harmonia com a natureza, em busca do equilíbrio ecológico e
social.
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Santos e Durkheim: O olhar do etnólogo
Santos posiciona Durkheim no contexto do paradigma
dominante, como representante da primeira e mais arraigada vertente do
modelo mecanicista (Santos, 2005, p. 33).
Para estudar os fenômenos sociais como se
fossem fenômenos naturais, ou seja, para conceber os fatos sociais, como
pretendia Durkheim, o fundador da sociologia acadêmica, é necessário reduzir
os fatos sociais às suas dimensões externas, observáveis e mensuráveis.
(Santos, 2005, p. 35).
Essa redução, segundo Santos, nem sempre é fácil e nem
sempre é obtida sem relevar ou distorcer fatos. Ele, no entanto, considera
que a compatibilização das ciências sociais com os critérios de
cientificidade das ciências naturais não interpõe obstáculos
intransponíveis, mas demanda análises qualitativas.
A pesquisa de Santos sobre o pluralismo legal nas
favelas do Rio de Janeiro, feita nos anos de 1970, deve ter sido fundamental
para sua obra “O Direito da Rua”; e o Durkheim etnólogo deve ter permeado
sua análise vis-à-vis do modelo econômico neoliberal. É possível, então,
fazer uma associação entre a crise capitalista, para a qual o neoliberalismo
é a alternativa vigente, e a crise do paradigma dominante.
Embora em tempos históricos distintos, o mundo
econômico continua propiciando um triste espetáculo de conflitos
incessantemente renovados e desordens de todas as espécies (Durkheim, 1981).
O modelo econômico neoliberal vigente não consegue
resolver os problemas sociais decorrentes da evolução tecnológica e se
preocupa basicamente com aspectos de mercado. As tensões sociais são
explícitas ou latentes, constituindo uma resignação que, segundo Santos, é
inaceitável, no que encontra eco em Durkheim (1981): “Mas se o vencido pode
resignar-se por um tempo a uma subordinação que é obrigado a sofrer, não a
consente, e, por consequencia, esta não poderá constituir um equilíbrio
estável” (p. 9), que ainda complementa:
Não posso ser livre senão na medida em que
outrem é impedido de beneficiar da superioridade física, econômica ou outra
de que dispõe, para sujeitar a minha liberdade, e a norma social, só ela,
pode tornar-se obstáculo a estes abusos de poder. Sabe-se agora que a
regulamentação complexa é necessária para assegurar aos indivíduos a
independência econômica sem a qual a sua liberdade não é senão nominal. (Durkheim,
1981, p. 10).
Durkheim reconhece que as funções científicas são as
únicas em condições de disputar lugar com as funções econômicas, mas que, em
seu tempo – não é diferente, hoje – não tinham prestígio senão na medida em
que podiam servir à prática, isto é, em grande parte, às profissões
econômicas. Santos, aí, recorre ao Durkheim sociólogo, para propor algo que
pode ser assemelhado a uma solidariedade orgânica na busca de um novo senso
comum: a ciência, através da Universidade, associada às práticas sociais,
aproveitando de suas experiências e, assim, unindo e integrando esses
saberes.
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Santos e Marx: O capital e o conceito de
totalidade ignorados
A discussão epistemológica proposta por Santos segue a
linha da filosofia clássica, aristotélica, linear. Nesse sentido ele
desconsidera as influências do capital e, por consequencia, o conceito de
totalidade proposto pela dialética marxista.
Sua trajetória intelectual e suas experiências,
basicamente no Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul, demonstram sua crença na
possibilidade de emancipação social a partir de experiências bem-sucedidas
no âmbito social. Isso pode ser considerado como uma releitura do marxismo,
que também propõe uma visão libertadora e emancipadora. A inclusão
das classes sociais, as formas de divisão do trabalho e a organização da
produção em sua análise também estão presentes.
A Universidade assumiria, então, seu sentido mais amplo. Porém, não é esse
tipo de formação e integração preconizado pelo modelo neoliberal:
A associação entre a Universidade e a experiência
prática, na busca de um novo senso comum, esbarra na mercantilização do
ensino, ou seja, sofre influência do mercado, que é dominado pelos ditames
neoliberais. Estes, embora não possam ser totalmente assimilados ao caráter
fetichista da mercadoria, fazem uso de estratégias de doutrinação e
alienação para preservar seus interesses. Dessa forma, o indivíduo,
além de ser expropriado de sua força de trabalho, tampouco se apropria do
conhecimento:
O reflexo religioso do mundo real somente
pode desaparecer quando as circunstâncias cotidianas, da vida prática,
representarem para os homens relações transparentes e racionais entre si e
com a natureza. A figura do progresso social da vida, isto é, do processo da
produção material, apenas se desprenderá do seu místico véu nebuloso,
quando, como produto de homens livremente socializados, ela ficar sob o seu
controle consciente e planejado. Para tanto, porém, se requer uma base
material da sociedade ou uma série de condições materiais de existência,
que, por sua vez, são o produto natural de uma evolução histórica longa e
penosa. (Marx, 1983).
A visão da integração com a natureza e da prática
cotidiana está, portanto, presente na ótica marxista e é aplicável não
apenas à produção de mercadorias, mas, também, à produção de conhecimento.
Nesse sentido, as experiências de Paulo Freire,
anteriores a 1964, e seus atritos com a tentativa de ingerência do Banco
Mundial, no início dos anos de 1990, mostram a aplicabilidade dessa
integração ciência-prática-ambiente, antes mesmo da formulação de novo
paradigma feita por Santos.
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Santos e Weber: A dominação e o neoliberalismo
O “otimismo trágico” de Santos acredita na criação de uma sociedade civil
global, que tenha como ponto comum a dignidade humana, em contraposição à
universalização descaracterizadora, discriminadora e dominadora do
neoliberalismo. Para tanto, ele defende uma integração entre os diversos
saberes, científicos e práticos, que dialoguem entre si, dando origem a um
novo senso comum, que recoloque o ser humano em harmonia com a natureza, em
busca do equilíbrio ecológico.
Essa tendência carrega certa dose de romantismo que, ao analisarmos as
políticas de financiamento de programas educacionais adotadas pelo Banco
Mundial e seus afins, e mesmo as implicações do Processo de Bolonha, tende a
ser restrita e gerar tensões sociais crescentes. De fato, Santos parece não
considerar os processos políticos em termos de “relação de atores”.
Weber (1983), do ponto de vista metodológico, partiu da noção de obediência,
de coerção e de quadro administrativo no exercício da dominação. Nesse
esquema de análise, historicamente contextualizado, ele buscou um modelo que
captasse o devir da história, com suas modificações constantes e concretas.
Nesse âmbito, o neoliberalismo, surgido no início da década de 1980, como
alternativa à crise do capitalismo, tem utilizado seus instrumentos de
dominação (militares, financeiros e midiáticos) para promover essas
modificações constantes e concretas. Como essas alterações visam,
basicamente, aspectos de mercado (produção, consumo e fluxo de capitais de
grande conglomerados internacionais) - e os EUA não são signatários do
Protocolo de Kyoto -, elas tendem a se configurar como fatores inibidores do
Paradigma Emergente, seja na concepção de Santos ou na da Escola de
Frankfurt. A dominação ocorre tanto no âmbito da constelação de interesses,
como mediante autoridade.
Segundo Oliveira (2005), os grandes grupos financeiros
e industriais se combinam com o Estado para definir as estratégias de
desenvolvimento, interferindo nas estruturas econômicas e
político-financeiras. O poder de decisão ocorre nas instâncias mundiais de
concentração do poder econômico, geralmente em perfeita simbiose entre os
interesses das corporações transnacionais, que, em conjunto, defendem o
neoliberalismo.
O G-8 surge como ícone desse Estado global que, apesar das divergências
internas, tem conseguido atender aos interesses do capital transnacional;
controlar os riscos da sociedade global; controlar os mercados emergentes;
impor uma hierarquia de poder transnacional; e disseminar o neoliberalismo
no Terceiro Mundo, como Weber (1983) já sintetizava: “[...] toda a grande
central bancária e todos os grandes bancos de crédito exercem, com
frequência, uma influência dominadora sobre o mercado capitalista, por causa
de sua posição monopolizadora” (p. 11).
Em nome de um mercado auto-regulado, o Estado tem suas funções reduzidas e
passa a agir como administrador de tensões sociais.
Os programas sociais são significativamente reduzidos e mesmo os
remanescentes são pontuais e seletivos.
Ainda segundo Oliveira (2005): as novas relações:
capital-trabalho e trabalho-educação, acirram a contradição educar-explorar.
O novo trabalhador deve ter habilidades de
comunicação, de abstração, de visão de conjunto, de integração e de
flexibilidade. Como essas competências não podem ser desenvolvidas em curto
prazo e nem pela empresa, a educação fundamental ganha centralidade nas
políticas educacionais, sobretudo nos países em desenvolvimento.
Nesse contexto, o ensino fundamental tem como função
primordial desenvolver as novas habilidades cognitivas e as competências
sociais necessárias à adaptação do indivíduo ao novo paradigma produtivo,
além de formar o consumidor competente, exigente e sofisticado. As
orientações do Banco Mundial para o ensino básico e superior seguem essa
tendência, e a solução consiste em desenvolver um ensino mais eficiente, de
qualidade e capaz de oferecer uma formação geral mais sofisticada, em lugar
de treinamento para o trabalho. Essas definições, baseadas primordialmente
no atendimento às diretrizes do mercado, seguem a visão de Weber (1983),
segundo a qual: “[...] a dominação exercida na escola determina, também, de
modo mais duradouro e constante a forma e a preponderância da linguagem
escolar oficial” (p. 9).
Lembrando das definições de poder, dominação e disciplina formuladas por
Weber (1983, p. 10), é possível depreender que o condicionamento de
financiamentos de projetos de educação às premissas do Banco Mundial, é um
exercício de dominação. A priorização do ensino fundamental dentro desse
escopo visa a formar consumidores, o que pressupõe, na prática, a construção
de indivíduos integrados ao processo de globalização, mas como elementos
disciplinados. Partindo-se do princípio de que a formação básica contribui
para arraigar atitudes e, portanto, para condicionar à obediência sem
questionamentos, é possível intuir que está em processo um adestramento, em
suma.
Talvez por também entender dessa forma, Santos propõe a associação do
conhecimento científico à experiência prática, como forma alternativa.
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Considerações finais
Santos resume as limitações do paradigma dominante,
com base em Durkheim:
É como se o dito de Durkheim se tivesse
invertido e em vez de serem os fenômenos sociais a ser estudados como se
fossem fenômenos naturais, serem os fenômenos naturais estudados como se
fossem fenômenos sociais (Santos, 2005, p. 68).
As intermediações de Santos com Durkheim, Marx e Weber
ocorrem, mesmo sem que haja citação desses autores. Não poderia ser
diferente, tendo em conta a fundamental importância de cada um deles para o
pensamento moderno. Cada um deles contribuiu para a evolução das ciências
sociais com sua percepção e sistematização. Porém, a dinâmica dos fatos e o
contexto histórico nos colocam numa situação em que um novo passo deve ser
dado na busca da superação da crise atual, como forma de evitar um
distanciamento ainda maior entre os atores sociais.
O paradigma emergente anunciado por Santos é uma
alternativa para buscar respostas que o paradigma dominante não consegue
fornecer senão parcialmente.
A idéia de associar o conhecimento científico ao senso
comum, para a obtenção de uma ciência clara, surge como uma ruptura
epistemológica com o paradigma dominante.
A ciência pós-moderna, ao sensocomunizar-se,
não despreza o conhecimento que produz a tecnologia, mas entende que, tal
como o conhecimento se deve traduzir em autoconhecimento, o desenvolvimento
tecnológico deve traduzir-se em sabedoria de vida (Santos, 2005, p. 91).
Santos é um sedutor e, como ele próprio se reconhece,
algo utópico. De fato, os aspectos de divisão social do trabalho, do capital
e de dominação envolvidos, os quais geram tensões culturais, sociais e
econômicas, merecem uma abordagem e busca de solução que alie o conhecimento
científico à prática, seguindo as tendências do paradigma emergente das
ciências, de forma que se converta em senso comum para todos os âmbitos da
sociedade globalizada, contribuindo para diminuir a expropriação da
mais-valia, para a apropriação democrática do conhecimento e para a
estabilidade global.
A utopia, no entanto, está na base de toda evolução da
humanidade.
Referências Bibliográficas
CANÇADO, José Maria e outros. Boaventura de
Sousa Santos. Disponível em: <http://www.dhnet.org.br/direitos/militantes/boaventura/boaventura_td.html>.
Acesso em 20 jun. 2006.
DURKHEIM, Émile. I. Objeto e método. p. 41-63 e
II. Divisão do trabalho. p. 73-84. In: Sociologia. Ed. Ática. Col.
Grandes Cientistas Sociais. Vol. 1. 1981.
MARX, Karl. A mercadoria. In: Contribuição à
crítica da economia política. Ed. Martins Fontes, 1983.
OLIVEIRA, João F. e outros. A educação escolar no
contexto das transformações da sociedade contemporânea. In: Educação
escolar: políticas, estruturas e organização. São Paulo: Cortez, 2003. p.
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SANTOS, Boaventura S. Da ciência moderna ao novo
senso comum. In: A crítica da razão indolente. São Paulo: Ed. Cortez,
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SANTOS, Boaventura S. Um discurso sobre as ciências.
In: A crítica da razão indolente. 3. ed. São Paulo: Ed. Cortez, 2005.
WEBER, Max. A dominação. In: Cardoso, F. H. e
Martins, C. E. Política e sociedade. Ed. Nacional, 1983.
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