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ISSN 1678-8419         última atualização em: quarta-feira, 14 de maio de 2008 18:32:55                                               

 
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EDUCAÇÃO
Passagem necessária à Escola Pública -
Da Tutela à Modernidade Curricular
 
Lizabete Lázara Campos Pereira

publicado em 15/05/2008

O CESEC “Prof.ª Hermelinda Toledo” de Pouso Alegre recebeu a visita do educador, Dr. Romualdo Dias, filósofo da UNESP de Rio Claro, no dia 07 de março de 2008, para
uma profunda reflexão sobre a vida curricular da instituição, que traz em seu plano gestor uma grande inquietação: construir coletivamente um currículo adequado à sua modalidade reparadora de ensino.

Como filósofo e mineiro, chegou manso, comendo pelas beiradas, para conhecer o CESEC a partir da fala e vivência do grupo, mesmo já tendo examinado, antecipadamente,
uma amostragem do Projeto Pedagógico. Conduziu os profissionais a um trabalho de grupo, culminando em desenhos, cartazes e comentários, que revelaram o labirinto demarcado pela limitação da rede física alugada, contrapondo-se à afetiva convivência da comunidade escolar, numa manifestação de que “muita vida” existe no espaço escolar.

Trouxe a proposta de oportunizar aos presentes um momento para que se cuidasse do cuidadores, num espaço que não estava isolado do real: parar, debruçar, analisar,
recolher, acumular... para identificar sabedoria ou equívocos, em meio à tão rica diversidade.

Chamou atenção para a verdadeira autoridade do educador: a experiência . Ela é o fazer real, o poder e o saber. O fato de refletir a prática já implica poder. Poder estar ali naquele momento ou poder conferir ao aluno o seu certificado para ingressar no trabalho, fazer concursos etc. O educador amplia o poder de ler e de escrever, ou seja, realiza um trabalho político, até mesmo comprovado no Projeto: Histórias de Vida e Lições Aprendidas, onde os próprios alunos narraram seus traços de despossuídos.

Partiu-se de uma questão geográfica, pois a instituição não está nas nuvens, e sim, inserida numa sociedade contemporânea brasileira, onde o funcionamento do poder
precisa ter espaço na reflexão sobre o jeito de ensinar. O poderoso mercado capitalista produz estilos de vida, mundos idealizados, penetra no inconsciente, coloniza territórios invisíveis e domina as pessoas. Numa sociedade onde o poder não é mais do Estado, é sim, do Mercado.

Como nos alerta a fábula da ratoeira, urge realizar um trabalho para implicar-se, deslocar-se para mobilizar participações. Não basta conscientizar. É pouco! É preciso
capturar as armadilhas do poder com a arte de aprender ensinando.

Somente uma metodologia artística nos permitirá esta travessia. Existe um modo artista de organizar cada espaço curricular, assim como também de organizar nossa vida.
As coisa não se separam. Precisa-se recuperar o charme da existência, ser criativo lá e cá. Sem decreto. Ninguém cria por decreto e sim por necessidade, porque já estar
implicado. A luta para aprender vem do desejo de aprender. Passa pelas vísceras, como diz Nietzsche.

É o currículo escolar se despindo do biopoder, da vida apropriada pelo mercado, para se revestir da biopolítica. Cada educador se esculpindo e crescendo na convivência
com o outro. Cada um se responsabilizando pelo poder que é, pela fonte de poder presente na biodiversidade do coletivo. Nada da herança do Feudalismo. Passa-se para a
modernidade que rompe com a herança cultural do poder da teta, do clientelismo, do paternalismo... que paralisa nossos corpos... e um corpo paralisado não cria.

A escola tem uma estreita relação com o trabalho, mas o capitalismo está afundando e quem vai ajudar as classes populares a agüentar a descoberta de que não tem mais colo? E não dá mais para fazer esta mudança pela conscientização somente. É preciso mais!

É preciso experiências que desenvolvam habilidades, na relação Eu - Corpo, que dão poder as pessoas : aprender a fazer coisas que as tornam mais independentes e que
podem garantir sua sobrevivência. Desenvolver atitudes na relação Eu – Outro, no fazer e refazer com alteridade, enfrentando o estranhamento, percebendo que a finitude própria de cada um é um convite à abertura para criar vínculos na convivência. É preciso cultivar
valores, pois mesmo a partir da precariedade humana se tem possibilidades de construir obras que permanecem e possibilitam a revivência: Eu -Mundo .

Ser criador é horizontal . Existe salvação fora do mercado, sim. Precisamos é passar a escola pública pelo processo da inquietação, o mesmo que conduziu o cientista às novas
descobertas. Basta, então, criar novas ferramentas metodológicas que não passam apenas pela razão e sim pela necessidade da demanda. Um currículo que atinja as
vísceras, mexa com o corpo e provoque adesão voluntária.

Só assim desobstruiremos canais para que o fluxo de vida escolar retome o seu processo num movimento de afetar e ser afetado.


A figura do líder autoritário, individualista, que centraliza tudo, porque pensa que tudo pode e por isso manipula a todos, está muito desgastada. Chega! O “cala a boca já
morreu, quem manda aqui sou eu” trincou. Não existe mais espaço para a centralização da liderança. Exceto, se o detentor ainda quiser permanecer no caos, catando os próprios cacos, desgastando-se individualmente, enquanto ignora o potencial biopolítico inerente a cada um e impede a sinergia possível da parceria e do diálogo necessários à sadia convivência participativa.

Para isso é necessário que todos envolvidos soltem suas armas. Não se trata mais de competição, por isso dispensa-se a postura defensiva, a fuga ou a espera passiva de
normas ditadas, verticalmente. O movimento será inverso. O primeiro a se colocar numa posição horizontal, circunferente, convergente e experimental, ombro a ombro com os demais será o gestor. A arbitrariedade dará espaço à cumplicidade. Troca-se a manivela reprodutiva pela engrenagem participativa que busca fortalecer a liderança repartindo o poder: “Vamos precisar de todo mundo pra banir do mundo a opressão...um mais um é sempre mais que dois” como canta Beto Guedes.

Realizar-se-á o Sonho Impossível cantado por Bethânia: “Sonhar mais um sonho impossível, lutar quando é fácil ceder, vencer o inimigo invencível, negar quando a regra é
vender, sofrer a tortura implacável, romper a incabível prisão...vai ter fim a infinita aflição, e o mundo vai ver uma flor brotar do impossível chão.”
Será preciso paciência histórica para descobrir toda luz existente no caos. Como Almir Sater : “Ando devagar porque já tive pressa ... pela longa estrada eu vou, estrada eu sou. “

E por que não ousar em meio ao caos, mudar a rota, desviar o curso, reconhecer equívocos, fazer atalhos, recriar o próprio caminho?

Que a manivela reprodutiva que “forma” pessoas somente para a imitação e a repetição seja substituída pela sintonia dos que ousam falar e ouvir, ponderar e sonhar com um espaço criado por todos, liberto da cultura imponente e massificadora. Um espaço rico na diversidade, capaz de superar desigualdades ao dar voz e vez às potencialidades dotadas das forças suscitadas para compor a própria história.

É na fragilidade que se esconde a força. De onde o Criador, no Livro etimológico do Gênesis, tirou a Luz senão das trevas?

O caos existirá para aqueles que se isolarem à própria sombra, em meio ao brilho de tantas luzes. Afinal, qual é a pior solidão?
 

 ¹ Considerações da gestora do CESEC “Prof.ª Hermelinda Toledo” após palestra proferida, no dia 07 de abril de 2008, pelo Prof. Romualdo Dias, da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” - UNESP-Departamento de Educação, do Instituto de Biociências, Campus de Rio Claro, Estado de São Paulo.
 

 

 

 
  

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::sobre o autor::

Lizabete Lázara Campos Pereira é Gestora o CESEC “Prof.ª Hermelinda Toledo”e aluna do Curso de Pós –graduação em Gestão Educacional da UNIVÀS –
Universidade do Vale do Sapucaí- Estado de Minas Gerais.

 

 

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