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O CESEC “Prof.ª Hermelinda Toledo” de Pouso Alegre
recebeu a visita do educador, Dr. Romualdo Dias, filósofo da UNESP de
Rio Claro, no dia 07 de março de 2008, para
uma profunda reflexão sobre a vida curricular da instituição, que traz
em seu plano gestor uma grande inquietação: construir coletivamente um
currículo adequado à sua modalidade reparadora de ensino.
Como filósofo e mineiro, chegou manso, comendo pelas beiradas, para
conhecer o CESEC a partir da fala e vivência do grupo, mesmo já tendo
examinado, antecipadamente,
uma amostragem do Projeto Pedagógico. Conduziu os profissionais a um
trabalho de grupo, culminando em desenhos, cartazes e comentários, que
revelaram o labirinto demarcado pela limitação da rede física alugada,
contrapondo-se à afetiva convivência da comunidade escolar, numa
manifestação de que “muita vida” existe no espaço escolar.
Trouxe a proposta de oportunizar aos presentes um momento para que se
cuidasse do cuidadores, num espaço que não estava isolado do real:
parar, debruçar, analisar,
recolher, acumular... para identificar sabedoria ou equívocos, em meio à
tão rica diversidade.
Chamou atenção para a verdadeira autoridade do educador: a experiência .
Ela é o fazer real, o poder e o saber. O fato de refletir a prática já
implica poder. Poder estar ali naquele momento ou poder conferir ao
aluno o seu certificado para ingressar no trabalho, fazer concursos etc.
O educador amplia o poder de ler e de escrever, ou seja, realiza um
trabalho político, até mesmo comprovado no Projeto: Histórias de Vida e
Lições Aprendidas, onde os próprios alunos narraram seus traços de
despossuídos.
Partiu-se de uma questão geográfica, pois a instituição não está nas
nuvens, e sim, inserida numa sociedade contemporânea brasileira, onde o
funcionamento do poder
precisa ter espaço na reflexão sobre o jeito de ensinar. O poderoso
mercado capitalista produz estilos de vida, mundos idealizados, penetra
no inconsciente, coloniza territórios invisíveis e domina as pessoas.
Numa sociedade onde o poder não é mais do Estado, é sim, do Mercado.
Como nos alerta a fábula da ratoeira, urge realizar um trabalho para
implicar-se, deslocar-se para mobilizar participações. Não basta
conscientizar. É pouco! É preciso
capturar as armadilhas do poder com a arte de aprender ensinando.
Somente uma metodologia artística nos permitirá esta travessia. Existe
um modo artista de organizar cada espaço curricular, assim como também
de organizar nossa vida.
As coisa não se separam. Precisa-se recuperar o charme da existência,
ser criativo lá e cá. Sem decreto. Ninguém cria por decreto e sim por
necessidade, porque já estar
implicado. A luta para aprender vem do desejo de aprender. Passa pelas
vísceras, como diz Nietzsche.
É o currículo escolar se despindo do biopoder, da vida apropriada pelo
mercado, para se revestir da biopolítica. Cada educador se esculpindo e
crescendo na convivência
com o outro. Cada um se responsabilizando pelo poder que é, pela fonte
de poder presente na biodiversidade do coletivo. Nada da herança do
Feudalismo. Passa-se para a
modernidade que rompe com a herança cultural do poder da teta, do
clientelismo, do paternalismo... que paralisa nossos corpos... e um
corpo paralisado não cria.
A escola tem uma estreita relação com o trabalho, mas o capitalismo está
afundando e quem vai ajudar as classes populares a agüentar a descoberta
de que não tem mais colo? E não dá mais para fazer esta mudança pela
conscientização somente. É preciso mais!
É preciso experiências que desenvolvam habilidades, na relação Eu -
Corpo, que dão poder as pessoas : aprender a fazer coisas que as tornam
mais independentes e que
podem garantir sua sobrevivência. Desenvolver atitudes na relação Eu –
Outro, no fazer e refazer com alteridade, enfrentando o estranhamento,
percebendo que a finitude própria de cada um é um convite à abertura
para criar vínculos na convivência. É preciso cultivar
valores, pois mesmo a partir da precariedade humana se tem
possibilidades de construir obras que permanecem e possibilitam a
revivência: Eu -Mundo .
Ser criador é horizontal . Existe salvação fora do mercado, sim.
Precisamos é passar a escola pública pelo processo da inquietação, o
mesmo que conduziu o cientista às novas
descobertas. Basta, então, criar novas ferramentas metodológicas que não
passam apenas pela razão e sim pela necessidade da demanda. Um currículo
que atinja as
vísceras, mexa com o corpo e provoque adesão voluntária.
Só assim desobstruiremos canais para que o fluxo de vida escolar retome
o seu processo num movimento de afetar e ser afetado.
A figura do líder autoritário, individualista, que centraliza tudo,
porque pensa que tudo pode e por isso manipula a todos, está muito
desgastada. Chega! O “cala a boca já
morreu, quem manda aqui sou eu” trincou. Não existe mais espaço para a
centralização da liderança. Exceto, se o detentor ainda quiser
permanecer no caos, catando os próprios cacos, desgastando-se
individualmente, enquanto ignora o potencial biopolítico inerente a cada
um e impede a sinergia possível da parceria e do diálogo necessários à
sadia convivência participativa.
Para isso é necessário que todos envolvidos soltem suas armas. Não se
trata mais de competição, por isso dispensa-se a postura defensiva, a
fuga ou a espera passiva de
normas ditadas, verticalmente. O movimento será inverso. O primeiro a se
colocar numa posição horizontal, circunferente, convergente e
experimental, ombro a ombro com os demais será o gestor. A
arbitrariedade dará espaço à cumplicidade. Troca-se a manivela
reprodutiva pela engrenagem participativa que busca fortalecer a
liderança repartindo o poder: “Vamos precisar de todo mundo pra banir do
mundo a opressão...um mais um é sempre mais que dois” como canta Beto
Guedes.
Realizar-se-á o Sonho Impossível cantado por Bethânia: “Sonhar mais um
sonho impossível, lutar quando é fácil ceder, vencer o inimigo
invencível, negar quando a regra é
vender, sofrer a tortura implacável, romper a incabível prisão...vai ter
fim a infinita aflição, e o mundo vai ver uma flor brotar do impossível
chão.”
Será preciso paciência histórica para descobrir toda luz existente no
caos. Como Almir Sater : “Ando devagar porque já tive pressa ... pela
longa estrada eu vou, estrada eu sou. “
E por que não ousar em meio ao caos, mudar a rota, desviar o curso,
reconhecer equívocos, fazer atalhos, recriar o próprio caminho?
Que a manivela reprodutiva que “forma” pessoas somente para a imitação e
a repetição seja substituída pela sintonia dos que ousam falar e ouvir,
ponderar e sonhar com um espaço criado por todos, liberto da cultura
imponente e massificadora. Um espaço rico na diversidade, capaz de
superar desigualdades ao dar voz e vez às potencialidades dotadas das
forças suscitadas para compor a própria história.
É na fragilidade que se esconde a força. De onde o Criador, no Livro
etimológico do Gênesis, tirou a Luz senão das trevas?
O caos existirá para aqueles que se isolarem à própria sombra, em meio
ao brilho de tantas luzes. Afinal, qual é a pior solidão?
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