Uma
das lições mais lindas que Paulo Freire nos ensinou, diz
respeito as posturas que adotou ao longo de sua existência: a
coerência entre o discurso e a prática, atitudes próprias de
um verdadeiro construtivista. Se somos progressistas (...)
devemos nos esforçar, com humildade, para diminuir ao máximo a
distância entre o que dizemos e o que fazemos. (2000, p.
45). Seu amor pelas pessoas e particularmente pela escola
pública - aquela que segundo o educador deve apresentar entre
outras, qualidades, a seriedade, alegria e competência - foi
demonstrado de muitas formas, seja na proposição de um jeito
competente de alfabetizar pessoas adultas, vistas apenas como
objeto de comiseração por parte do sistema escolar ou mesmo de
atuar como um corajoso secretário de educação num governo
popular de uma das maiores cidades do mundo, o que dá para
supor o tamanho do desafio.
O
compromisso incansável por uma educação que levasse em conta
os interesses dos trabalhadores e trabalhadoras, constitui, a
meu ver, o principal legado de Paulo Freire. Reflexões como
esta, nos remetem à data-referência do dia 2 de maio de 1997,
quando sua voz calou. Seria o último 1º de maio de um grande
trabalhador. Por um tempo, o significado da perda, o silêncio,
a saudade doída e aquele sentimento de que mais um dos aliados
pela vida e contra a malvadez das estruturas, não
estava mais entre nós, dialeticamente imobilizou educadores e
educadoras, formados na escola do mestre pernambucano. Hoje
avaliamos que se tratava de um luto necessário e, acompanhado
de muitas reflexões, pois a possibilidade do diálogo permanece
através de seus escritos.
A
respeito desta perda, posso recordar daquele dia silencioso e
triste. Era um final de tarde e dirigia-me para o Instituto
Municipal onde ministrava aulas de História e Filosofia da
Educação. Para isso, precisava "pegar" o ônibus da linha
Tancredo Neves e assim chegar até à escola. Como de costume
naquele horário estava lotadíssimo; eram crianças retornando
do colégio, trabalhadores e trabalhadoras voltando de mais um
dia exaustivo de atividade e tudo isso em meio a muito suor
com pouco espaço para quase nada, a ponto de impossibilitar a
locomoção dos passageiros/as.
Dentro daquele ônibus, olhando para o rosto das pessoas, o que
via era uma gente cansada, que me fazia pensar no quanto a
miséria degrada e reduz o ser humano. Nisso, senti algo gelado
na parte detrás do meu joelho. Foi quando verifiquei que
tratava-se de um senhor que segurava numa sacola de plástico
dois frangos congelados e, como não havia espaço, a razão da
pressão. Aquela situação incômoda perdurou até eu chegar na
escola.
E
não sei se pelo desconforto ou mesmo pela tristeza em que me
encontrava, o fato é que desabei a chorar, constatando na pele
que a pobreza machuca e agride a nossa dignidade. Lembrava que
Paulo Freire denunciava as estruturas responsáveis por gerar e
manter este estado de coisas, cujo resultado mais imediato é o
efeito negador da vida plena.
E o
que alimentava ainda mais o meu pranto era a desalentadora
sensação de me sentir sozinha com algo tão multifacetado e
gigantesco traduzido por aquela situação. A posição
fatalista que empresta a este ou aquele fator condicionante um
poder determinante, diante do qual nada se pode fazer.
(2000, p. 55).
Chorei muito e por muitas razões: pelas crianças que apostam
na escola todos os dias e cujos resultados são tão
decepcionantes; pelos rituais de exclusão que a escola teima
em manter; pelo despreparo docente. Enfim, chorei pela minha
inércia, pela minha incapacidade e mais ainda porque aquele
lamento era imobilizador. Mas, naquele dia, a aula foi bem
diferente: Sou professor, a favor da esperança que me anima
apesar de tudo (1996, p. 103). As idéias de Paulo Freire
foram de uma grande inspiração, até porque os alunos e alunas
estavam lendo um de seus livros, Pedagogia da Esperança:
Não entendo a existência humana e a necessária luta para
fazê-la melhor, sem esperança e sem sonho. (1993, p. 10),
o que contribuiu para o entendimento de todos e todas nós, de
que a Pedagogia Libertadora é possível, principalmente quando
educamos e sensibilizamos o nosso olhar.
Nesta perspectiva, um olhar acolhedor para os educandos e
educandas acreditando na sua capacidade de aprender, um olhar
crítico para as estruturas com a compreensão de que aí está
a grande tarefa humanista e histórica dos oprimidos –
libertar-se a si e aos seus opressores" (1988, p. 30) e,
um olhar voltado para nossa prática, que precisa ser
reinventada cotidianamente, sabendo que "é na inconclusão
do ser, que se sabe como tal, que se funda a educação como
processo permanente". (1996, p.64).
Portanto, a meu ver, o pensamento provocativo de Paulo Freire,
nos estimula a continuar lutando por uma escola inclusiva, de
feição mais humanitária, que efetivamente se constitua em um
espaço de produção e socialização do conhecimento, na
perspectiva que movia o saudoso educador, a da esperança
" não por pura teimosia, mas por um imperativo
existencial e histórico. (1993, p. 10).