“Mexe qualquer coisa dentro doida
Já qualquer coisa doida dentro mexe...”
Caetano Veloso
Lembro-me,
ainda menina, quando assisti pela primeira vez ao filme “Meu pé
esquerdo.” Sabia do quanto o fora comentado e de como havia agradado
na época aos meus pais. Meu pai estava bastante inquietado com o
ator, que para nós era a primeira vez que o víamos, o irlandês
Daniel Day-Lewis. Assisti com meus tios na casa de minha avó, lembro
de ter assistido sentada no chão, pois não havia espaço para todos e
eu como caçula sempre tinha que ceder meu lugar aos mais velhos. Ah,
essas genealogias...
Nunca esqueci
o filme. Outros tantos filmes vieram na minha história com o mesmo
ator: Em nome do pai, Gangues de Nova York...mas aquele da
minha infância havia sido o mais especial. Sobretudo porque já não
existia nem em VHS e nem em DVD em nenhuma locadora da minha cidade.
Já adulto,
tenho a oportunidade de comprá-lo em uma loja especializada,
trabalho este realizado pra mim por uma tia que mora em Belo
Horizonte.
Desde
que comecei a lecionar, sempre que posso, divido minhas paixões com
meus alunos. A principal dela é a arte, da qual tanto gosto e que,
de certa maneira, tem me mantido viva.
Olhinhos
sempre atentos as histórias que passo, os alunos têm sido grandes
companhias para dividir os filmes de que gosto. Esse era especial,
depois de longos anos voltei a ver com eles. Já sob os olhos da
maturidade, contendo as lágrimas, as quais não foram nenhum pouco
contidas da vez primeira.
Ao contrário
da reação que tive, de muito choro da primeira vez quando não devia
ter mais idade que meus alunos, eles adoraram. Não se emocionaram
tanto, mas viram belezas onde naquele momento eu ainda não tinha
visto. Li, nos textos que foram convidados a escrever
posteriormente, palavras de carinho ao protagonista, que nestes
tortos anos jamais me havia saído da memória. Assim um deles, menino
de treze anos morador do interior escreveu: “tal como a
professora de filosofia sempre nos diz, também o personagem do filme
não tinha perdido a capacidade de sonhar. Ele não desistiu de seus
escritos nem de seus desenhos, porque sabia que a vida também estava
presente nestes pequenos e doces momentos...”
Dentro de uma
geração que, muito mais que a minha, consome a mídia de massas e
filtra muito pouco, filhos de pais que muito pouco acesso ou nenhum
tiveram a escolarização, os textos e avaliações de meus alunos não
raro têm sido as melhores surpresas de meu trabalho. Uma outra
menina, colega sua, escreveu o seguinte em seu texto: muito mais
do que bonita ou comovente a história nos faz pensar que poderia ter
sido a de qualquer um de nós. Ninguém está livre de uma deficiência.
Talvez seja na exibição de filmes como esse que devemos educar as
pessoas que ainda não conhecem o caminho do respeito pelo diferente
que, às vezes, se mostra tão igual a nós...”
Ao escrever
este texto, pensei principalmente nas opções que vamos tomando ao
longo de nossa trajetória docente. Eu poderia ter-lhes exibido
qualquer clássico da Disney, semelhante a estes que têm passado nos
domingos à tarde na Rede Globo. Ou poderia ter-lhes levado algum
destes sucessos de bilheteria não raro esquecidos no próximo verão.
Porém fiz um longo esforço para que meus alunos tivessem acesso a um
filme que possivelmente não exista na cidade deles. Não existem
cinemas lá, jamais se cogitou a hipótese e todos os filmes que ele
vêm são da televisão ou de uma pequena locadora, onde os sucessos
chegam com um atraso bastante grande.
Mas foi a
minha escolha, de alguém que nunca se contentou com o instituído.
Que sonha em trazer seus alunos em uma viagem para que possam
descobrir a magia do cinema. Ou não, mas que, pelo menos em um
momento de suas vidas tenham tido acesso para poderem, fazer sua
própria escolha. Nem todos nós precisamos, em minha opinião,
consumir os cânones da arte. Contudo, todos nós deveríamos ter
direito a, pelo menos uma vez na vida, saber o que isso significa.
Literatura, ficção, cinema nem uma nem outra, ao contrário,
Educação. Mesmo o mais renomado professor, perante o seu ego, não
abre mão das possibilidades de pensar alternativas. Segundo FREIRE
(1987, p.78-79): “a comunicação, o direito a palavra, que se
materializa pelo diálogo, não pode ser negada aos homens, o seu
direito de pronunciar o mundo e de interagir neste e nele propor
mudanças.”
Não se trata de acreditarmos ou não que nossos alunos vão
gostar ou entender. Trata-se, no mínimo, de proporcionarmos. Como já
vamos criticar essa geração que está vindo se não apostarmos neles?
Como desistir de nossos alunos? Sobretudo eles que lutam para não
desistirem da gente.
Por fim, considerando a urgência que se impõe ao profissional da
Educação, a superação dos estigmas e das limitações impositivas das
Disciplinas, enquanto Formador; merece destaque a idéia expressa em
FREIRE sobre a ação e reflexão das atitudes docentes e do seu
pensar:
Práxis que,
sendo reflexão e ação verdadeiramente transformadora da realidade, é
fonte de conhecimento reflexivo e criação. [...] E é como seres
transformadores e criadores que os homens, em suas permanentes
relações com a realidade, produzem, não somente os bens materiais,
as coisas sensíveis, os objetos, mas também as instituições
sociais, suas idéias, suas concepções. Através de sua permanente
ação transformadora da realidade objetiva, os homens,
simultaneamente, criam a história e se fazem seres histórico –
sociais. (FREIRE, 1987, p. 92)
Não
somos
nem
seremos
enquanto
educadores
a
disciplina
que
lecionamos. Somos
muito
para
além
de
qualquer
disciplina,
pois
o
que
tentamos demonstra
não
está
apenas
nos
livros
ou
nos
conteúdos
que
trazemos.
Em
alguma
medida,
somos
tudo
o
que
tentamos
que
nossos
alunos
aprendam.
Nossa
semente
é
lançada,
o
que
eles
farão
com
ela?
Apenas
os
anos
nos
dirão...
REFERÊNCIAS
FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro, JR:
Editora Paz e Terra, 17ª Edição, 1987.
Fernanda Gabriela Soares Santos Graduou-se em Filosofia –
Licenciatura Plena pela Universidade Federal de Santa Maria.
Especialista em Gestão Educacional/UFSM, Especializanda em
Pensamento Político/UFSM, Mestranda em Educação/UFSM, Professora da
Rede Municipal de Formigueiro – RS, Membro do Grupo de Estudos e
Pesquisas em Imaginário Social – GEPEIS – UFSM.
fernandagssantos@yahoo.com.br
Décio
Luciano Squarcieri de Oliveira: Graduou-se em História –
Licenciatura Plena pela Universidade Federal de Santa Maria.
Especialista em História do Brasil/UFSM, Professor Substituto do
Departamento de Metodologia do Ensino – Centro de Educação – UFSM,
Membro do Grupo de Estudos e Pesquisas em Imaginário Social – GEPEIS
– UFSM.
decioluciano@yahoo.com.br