Perfil do Educador Social:
experiências e reflexões
André Michel dos
Santos*
e Vanessa dos Santos Nogueira**
publicado em 03/02/2010
RESUMO
A
proposição de elaboração desse artigo origina-se da
necessidade de subsídios teóricos para o exercício
profissional do Educador Social na atualidade. Percebemos,
após o trabalho de mais de dois anos em uma Obra Social da
Rede Marista de Educação e Solidariedade do RS, localizada
em uma região periférica da cidade de Santa Maria/RS,
muitas dificuldades e desafios permeados no cotidiano do
Educador Social e no seu envolvimento em situações
apresentadas por crianças, adolescentes e suas famílias.
Consideramos a relevância de pesquisas nessa área, no
sentido de esclarecimentos acerca das competências do
Educador Social contemporâneo, como também apontar
elementos que desmistificam e elucidam o ofício desse
profissional inserido em escolas e obras sociais que
atendam público em situação de vulnerabilidade social,
sinalizando o perfil de Educador Social almejado e podendo
diferenciar papéis que são eminentemente de
responsabilidade da família e daqueles que demandam
intervenção direta do Educador Social.
Palavras-chave: Educador Social; Crianças, Adolescentes e
Famílias; Vulnerabilidade Social.
INTRODUÇÃO
Vivemos hoje em uma sociedade capitalista, impregnada pela
cultura individual e determinada muitas vezes pela
globalização, onde neste processo, modificam-se as
relações culturais, conseqüentemente posturas, valores,
princípios, os quais têm refletido no âmbito familiar,
escolar e social.
Permeados por essa diversidade, encontramos desafios para
educar na atualidade, pois educar nos exige: Rigorosidade
metódica; Pesquisa; Respeito ao educando; Corporificação
das palavras pelo exemplo; Aceitação do novo; Rejeição de
qualquer forma de discriminação; Reflexão crítica sobre a
prática; Bom senso, humildade, alegria e tolerância e
essencialmente convicção de que a mudança é possível.
Nesse contexto, situa-se o Educador Social sendo o
profissional que trabalha com usuários em situação de
vulnerabilidade social, os quais são particípes de
programas e projetos sociais, não sendo satisfatório
apenas o seu domínio quanto ao saber teórico ou na boa
intenção. Suas ações não são unicamente pedagógicas,
mas também políticas ou ideológicas.
Esse profissional deve desenvolver:
·
Um respeito real e profundo pelo ser humano;
·
Capacidade para perceber, na comunicação, os aspectos que
subjazem à palavra dita;
·
Transparência na sua forma de ser;
Diante dessas exigências ao Educador Social, é relevante
citar que esta profissão é cercada por outras profissões e
especializações, as quais têm papéis fundamentais para a
complementação do atendimento de situações que fogem do
âmbito de intervenção e atribuição do educador social.
1. COMPETÊNCIAS DO EDUCADOR SOCIAL
O Educador Social deve apoiar a pessoa individualmente
para alcançar e satisfazer seus objetivos, bem como o
exercício da cidadania. Aqui mos refirimos à pessoa sendo
(crianças, adolescentes e suas famílias). Isto implica,
por exemplo:
·
Apoiar as pessoas em seu desenvolvimento para que elas
mesmas possam desenvolver e solucionar os seus problemas
individuais ou grupais;
·
Potencializar as habilidades de cada um, permitindo com
que o mesmo decida por si mesmo;
Em outras palavras, diríamos que o importante é empoderar
a pessoa para que ela seja capaz de entender e atuar
dentro de sua comunidade, através de suas próprias
perspectivas, conhecimentos e habilidades.
Quando mencionamos sobre as competências exigidas ao
Educador Social na atualidade, podemos caracterizar como
sendo estas, uma síntese de conhecimentos, habilidades a
atitudes imprescindíveis a atuação do profissional.
Desta forma, segundo Mezzaroba (2008),o Educador
Social deve ter a competência para intervir,
refletir
e avaliar.
Competência para intervir
O Educador Social deve atuar diretamente na situação e dar
uma resposta para as necessidades e desejos das crianças e
adolescentes e/ou dos adultos de forma adequada, sem muito
tempo para reflexão. Deve ter embasamento teórico e
experiência prática para tal. Essa resposta não significa
resolver o problema desencadear ações para que ele seja
solucionado.
Competência para avaliar
O Educador Social deve saber planejar, organizar e
refletir com relação as suas ações e intervenções futuras.
Deve saber refletir sobre sua própria prática, avaliando
sua intenção, ação e resultado esperado;
Competência de reflexão
O Educador Social junto à sua equipe de trabalho e outros
colegas deve saber refletir sobre os problemas de âmbito
profissional para uma melhor compreensão, favorecendo
assim, o desenvolvimento da profissão nos espaços
públicos.
Sendo assim, o trabalho do Educador Social deve promover a
igualdade, o respeito com todos os sujeitos do seu
contexto, prestando a devida atenção para a necessidade de
cada um, respeitando e protegendo os direitos desses
sujeitos, a privacidade, a autonomia.
E ainda, é importante ressaltar que o Educador Social deve
utilizar-se de sua experiência, do seu saber profissional
como uma das formas para melhorar a qualidade de vida do
sujeitos, de suas famílias e da comunidade em situação de
vulnerabilidade, na batalha contra a pobreza e na luta
pela justiça social.
1.1 ESTILOS DE EDUCADORES:
Após a realização de uma breve reflexão sobre as
competências almejadas ao Educador Social apoiada na
teorização da autora Mezzaroba, ressalta-se que este deve
sentir a necessidade de estar sintonizado com a realidade
macro e micro[1]
o qual ele esteja inserido, podemos apontar diferentes
estilos de Educadores na atualidade. Segundo a autora
Mezzaroba (2008), existem quatro tipos de educadores:
a) Educador resignado:
centra-se nos aspectos pouco estimulantes de sua
profissão; queixa-se de tudo – mas pouco trabalha para
melhorar as coisas;
b) Educador tecnicizado:
excessivamente aplicador dos recursos; rigorosamente
técnico, mas desvinculado do “social”;
c) Educador conformista:
mero executor de suas atividades; sem excessivas
esperanças e sem graves decepções;
d) Educador crítico:
“realista”,
porém não estranho à uma atitude proativa; otimizador;
apóia alternativas inovadoras de melhora; destaca-se por
sua atitude construtiva e otimista; sempre olha para
frente; capta os desajustes e contribui para melhora do
seu trabalho;
Diante do exposto, é momento de autoavaliação, de nos
depararmos e refletirmos se realmente, em nossa prática,
agimos como verdadeiros Educadores Sociais, comprometidos
com a nossa profissão e se efetivamente temos feito
diferença na vida dos usuários à quem atendemos.
2. EDUCADOR SOCIAL X FAMÍLIA: REFLETINDO SOBRE SEUS PAPÉIS
Diante do que já foi abordado, chegamos ao ponto de
refletirmos sobre qual é o nosso papel enquanto Educadores
Sociais e até onde estabelecermos nosso envolvimento
profissional e pessoal, nas adversas situações que
enfrentamos em nosso cotidiano.
Sabe-se que o Educador Social é o profissional que tem um
olhar diferenciado ante as circunstâncias que lhe são
apresentadas, é o profissional que tem
sensibilidade social. Mas é nesse âmbito que precisamos
ter clareza de que Educador Social e Família
possuem papéis diferentes de um modo geral, embora os dois
tenham como finalidade em comum o dever de contribuir na
educação das crianças e adolescentes.
Porém, muitas vezes o próprio Educador Social não consegue
distinguir a sua ação e tomada de postura, diferenciando o
nível profissional do pessoal, o que acaba sendo negativo,
na construção do processo de autonomia, emancipação e
cidadania, das crianças, adolescentes e famílias
envolvidas.
É importante salientar também que Educador Social e
Família têm significações, representações e contribuições
diferentes na vida do educando, partindo de que a relação
de educando - educador não pode substituir, por exemplo, a
relação pai-filho, mãe-filho, ou seja, ocupar um espaço na
vida do educando que por motivos de ordem emocional,
psicológica, transferem essa ausência na família, para a
figura do Educador Social.
Em relação ao papel da família na vida do educando,
podemos afirmar:
A
família é a esfera íntima da existência que une por laços
consangüíneos ou por afetividade os seres humanos. [...].
É o ambiente imediato no qual os seres humanos exercem
seus papéis e que lhes provê recursos essenciais
necessários para facilitar o enfrentamento e ajustamento a
condições internas e externas que estão em constante
mudança (PELZER, 1998, p. 106).
Desta maneira, afirma-se a relevância de distinção de
papéis na relação Educador Social, Educando e Família,
sabendo que é na família onde se deve originar as
possibilidades de representação de papéis, na medida em
que a criança e adolescente possa reconhecer a figura do
pai como tal, da mãe como a sua mãe, e assim por diante.
Portanto, faz-se necessário que se analise e reflita sobre
o tipo de relação que o Educador Social tem com o seu
educando, sabendo que uma de suas competências é intervir
para o fortalecimento, empoderamento, promovendo
emancipação e autonomia para com os usuários atendidos e
em hipótese alguma, criar vínculos de dependências nessa
relação.
2.1 EMOCIONAL X PROFISSIONAL: AUTO-PROTEÇÃO DO EDUCADOR
SOCIAL
Nesse item, destaca-se algumas contribuições para a
auto-proteção do Educador Social. Mas você deve estar se
perguntado, Educador Social deve se proteger de quê?
Como já abordamos anteriormente, temos em nossa prática a
difícil tarefa de lidar cotidianamente com problemas
sociais e necessitamos separar as questões profissionais
que possam interferir em questões pessoais. Para tanto,
apresenta-se alguns fatores para subsídio a essa
auto-proteção:
·
Características individuais do Educador Social;
·
Apoio afetivo;
·
Apoio social externo (colegas, família, amigos, etc);
Também sinaliza-se categorias ou comportamentos que
segundo Mezzaroba (2008) auxiliam para manter a Saúde
Mental do Educador Social:
·
Insight
– hábito de se fazer perguntas e dar respostas honestas;
·
Independência –
distanciamento físico e emocional enquanto satisfaz suas
próprias demandas;
·
Relacionamento –
equilíbrio entre as próprias necessidades e a capacidade
de dar/doar-se aos outros;
Todas essas contribuições vêm no sentido de auxiliar o
Educador Social a poder lidar com a resiliência, ou seja,
a sua capacidade
de superação das adversidades; resistindo às frustrações;
reagindo e podendo deixar o sofrimento para trás e
recuperar-se em prol de uma causa maior.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Acredita-se ser de extrema relevância abordarmos sobre o
perfil do Educador Social na atualidade, em virtude das
demandas sociais e exigências profissionais que são
necessárias ao Educador Social contemporâneo.
Esperou-se, com esse breve artigo oferecer suporte
teórico, para subsídio da prática dos educadores, no
sentido de provocar reflexões inerentes a temática, entre
Educadores Sociais, e suscitar muitos questionamentos e
indagações em relação à efetividade da intervenção do
Educador Social, no exercício de sua profissão, ou seja,
reiterando que o papel do Educador Social não poderá
confundir-se com o papel da família no envolvimentos de
situações que perpassam o cotidiano de seu educando.
REFERENCIAL BIBLIOGRÁFICO:
MEZZAROBA, Solange Maria Beggiato. O papel do Educador
Social: superando. desafios. Disponível em: http://capacitacao.secj.pr.gov.br/arquivos/File/O_PAPEL_DO_EDUCADOR_SOCIAL.ppt.
Acesso em: 14 set. 2008
PELZER, Marlene T. Família saudável e o processo de
cuidar.
In: A família que se pensa e a família que se vive.
Rio Grande: Editora da FURG, 1998.
*
Assistente Social, Especialista em Gestão Educacional/UFSM.
Mestrando do Programa de Pós-Graduação em Educação do
Centro Universitário La Salle – UNILASALLE/Canoas –
RS. Em fase de conclusão do Curso de Especialização em
Educação Ambiental/UFSM. Assistente Social da Rede
Cenecista de Educação do RS. Contatos:
andremicheldossantos@gmail.com ou http://servicosocialescolar.blogspot.com/
**
Pedagoga, Especialista em Gestão Educacional/UFSM,
Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Educação/UFSM,
Especializanda em Tecnologias da Informação e
Comunicação Aplicadas a Educação/UFSM. Tutora do Curso
de Pedagogia a Distância da UFSM/UAB.
Contatos:
snvanessa@gmail.com ou http://vanessanogueira.wordpress.com/
[1]Quando
no texto citamos “macro e micro”, informamos da
necessidade do Educador Social possuir percepção e
conhecimento da conjuntura atual a qual ele está
inserido, permeada por processos econômicos, políticos
ou de exclusão social multidimensional, presentes na
sociedade moderna, seja em âmbito local, como global;
Como Citar este artigo
SANTOS, André Michel. Perfil
do Educador Social: experiências e reflexões
P@rtes.V.00 p.eletrônica.
Fevereiro de 2010. Disponível em <www.partes.com.br/educacao/perfileducadorsocial.asp>. Acesso em _/_/_.