RESUMO: O presente artigo caracteriza-se por uma abordagem
histórico-social, que utiliza como dados a análise documental da
Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da
Educação Inclusiva (2008), e tem por objetivo resgatar
pressupostos históricos do contexto da educação especial,
principalmente, sob o novo paradigma da atualidade. È salutar
constatar que a política repudia práticas excludentes dentro e
fora da escola e apresenta paradigma inclusivo que garante a
todos o acesso e permanência na escola, por meio da educação
especial que, nesse novo contexto, é vista como função de todo a
escola, pois perpassa todos os níveis de ensino.
PALAVRAS-CHAVE: políticas públicas; paradigmas; educação
inclusiva; educação especial;
Considerando o processo histórico da educação especial enquanto
subárea do conhecimento, foi criada Política Nacional de
Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva (2008),
considerando a inclusão como novo paradigma da atualidade. Esse
documento define a educação especial como modalidade de ensino
que perpassa todos os níveis de educação básica, destacando
ainda a importância do atendimento especializado e atuação de
modo transversal, ou seja, a educação especial perpassará todos
os nível de ensino.
O documento do Ministério de Educação – Secretaria de
Educação Especial (MEC/SEESP), a Política Nacional de Educação
Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva (2008), foi
elaborado por um grupo de trabalho nomeado pela portaria nº
948/2007, entregue ao ministro da educação em sete de janeiro de
dois mil e oito. A referida comissão foi composta por
profissionais da Secretaria de Educação Especial/MEC e por
colaboradores (pesquisadores na área da educação) que discutiram
e construíram em conjunto as novas diretrizes que subsidiarão as
práticas educacionais nas escolas de nosso país. Essa comissão
de trabalho elaborou o documento que se subdivide em sete
capítulos, sendo o último de referências bibliográficas.
Na apresentação, é feita uma breve descrição de como se
apresenta o paradigma inclusivo e no que se fundamenta,
justificando que a educação nos dias de hoje se baseia na
perspectiva da qualidade do ensino e acesso para todos,
indistintamente. Nesse primeiro momento, é feita uma breve
descrição da necessidade do documento, que se justifica pela
seguinte frase: “a Política Nacional de Educação Especial na
Perspectiva da Educação Inclusiva, que acompanha os avanços do
conhecimento e das lutas sociais, visando constituir políticas
públicas promotoras de uma educação de qualidade para todos os
alunos” (MEC, 2008, cap.I).
Faz-se importante considerar que, em acordo com Bayer (2005),
nunca houve, na história da educação, uma escola para todos, uma
vez que a instrução era privilégio para filhos de “poderosos”.
Na antiguidade apenas sujeitos “ricos” usufruíam da educação
escolar. Posteriormente, na idade média apenas alunos de
mosteiros e filhos de nobres tinham direito da educação
formal. As camadas populares, nessa época, em sua maioria
artesões, eram analfabetos.
Foi no período iluminista que a educação tornou-se instrumento
de ascensão social apenas para burgueses. Uma vez que o acesso á
educação garantiria submissão das massas populares às mãos de
uma minoria que emergia ao poder, ou seja, a burguesia. Mesmo
havendo lei na Europa que garantia a obrigatoriedade do ensino
também às massas populares que poderiam ingressar na vida
escolar, esse tipo de ensino às massas se caracterizava como
mínimo, em termos de qualidade e, aos filhos de burgueses a
formação era técnica voltada ao comércio e educação superior era
reservada apenas a elite social (BEYER, 2005).
Nesse contexto, de uma educação que privilegiava as elites,
pode-se constatar que nunca houve uma escola aberta à todos. Uma
vez que as escolas sempre se serviram de algum tipo de seleção.
Nessa escola “seletiva” também não houve especo para sujeitos
que possuam algum tipo deficiência.
Décadas depois de ter sido lançado essa lei de obrigatoriedade
no ensino o Brasil também a adotou. Entretanto, não havia espaço
para sujeitos que fugiam dos padrões de normalidade da
sociedade, estas eram tachado como “não educáveis” e sem
“prontidão para a escola”. A esses indivíduos cabia
enclausuramento em suas residências ou em instituições
especiais.
A partir da criação das escolas especiais que sujeitos que
apresentavam alguma deficiência, tiveram acesso ao ensino. Desse
modo, a escola especial não pode ser considerada como
segregadora, em suma, ela surgiu uma vez que o sistema escolar
geral nao era “capaz e não estava disposto” a se ocupar da
educação dos “não educáveis”.
Conforme Beyer (2005) a educação especial esteve guiada por dois
campos paradigmáticos, um que predomina sob pensamento médico
(clínico–terapêutico) e outro que afirma resgate do pedagógico
com concepção da educação inclusiva.
No paradigma clínico-terapêutico, há busca pelas causas que
levaram à deficiência, ou seja, “o estudo etiológico
circunscreve-se, na maioria das vezes, aos limites pessoais ou
familiares” (BEYER, 2005, P. 17). Afirmava-se a concepção de
correção da deficiência, ou seja, o foco dessa abordagem era
insuficiência do sujeito diante de um padrão considerado
“normal”. Assim, sob influência das ciências médicas, a educação
passa ter caráter terapêutico, fixado em um modelo de
normatização.
Com o surgimento dos pressupostos teóricos de Vigotski, a
comunidade científica passa conceber uma nova abordagem para
compreender os sujeitos com necessidades específicas e as
estratégias que podem ser utilizadas para seu processo de
ensino-aprendizagem, Sob essa perspectiva sócio-histórica que
surge o paradigma da educação inclusiva, que supera a integração
e compreende ser imprescindível o acesso aos bens culturais por
todos os sujeitos indistintamente. Desse modo, como a escola é
local onde se institucionaliza o saber, caberia a esses
indivíduos freqüentar, porque não, o ensino regular.
No segundo capítulo, marcos histórico e normativo, é realizado
breve descrição sobre o contexto histórico a respeito da
educação especial e da necessidade de se afirmar paradigma da
educação inclusiva nos dias de hoje. Ainda, ressalta que a
educação especial pela forma como realizava atendimento
(substituição do ensino comum pelo ensino especializado) esteve
diretamente relacionada a um paradigma clínico-terapêutico que
visava diagnosticar por meio de testes psicrométricos as
habilidades (ou incapacidades) dos alunos. Desse modo, esta
visão estava diretamente relacionada a uma visão normalidade e
anormalidade. Somente com a “Constituição Federal de 1988, é
trazido como um dos seus objetivos fundamentais “promover o bem
de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e
quaisquer outras formas de discriminação” (art.3º, inciso IV).”
( MEC, 2008, cap. I). Além disso, somente a partir de 2007 é
lançado pelo MEC o “Plano de Desenvolvimento da Educação:
razões, princípios e programas” que compreende que a educação
especial deve seguir a transversalidade, isso é perpassar todos
os níveis de ensino básico, confirmando assim o paradigma
inclusivo, pois a parir dessa concepção a educação especial
seria repensada como fundamento de toda escola.
No terceiro capítulo da política é abordado o diagnóstico da
educação especial a e descrito como estão sendo realizadas as
ações de implementação da inclusão escola. Conforme consta no
documento, pode-se verificar que a educação inclusiva se
constitui como paradigma que está fundamentado na concepção de
direitos humanos. Isto é, guiado pelos pressupostos de igualdade
e respeito á diversidade, evitando toda e qualquer forma de
exclusão seja dentro ou fora da escola. Segundo o documento
analisado, o acesso e direito à escolaridade, por muitas
décadas, esteve associado a grupos minoritários. Com o passar
dos anos e, com surgimento do processo de democratização da
educação, os sistemas de ensino universalizam o acesso á
educação, entretanto, continuaram os processos de exclusão dos
grupos que não se enquadravam nos padrões normatizados da
escola. Pode-se verificar a partir do documento, que paradigma
inclusivo considerado na atualidade garante acesso e permanência
a todos na escola por meio da qualidade do ensino.
A proposta inclusiva vem de encontro aos paradigmas vivenciados
na história da educação especial em nosso país, pois percebe e
repudia as práticas excludentes seja em âmbito escolar quanto
social. Desse modo a escola passa a introduzir técnicas e
alternativas metodológicas que possibilitem ao individuo
atendimento que respeite suas características formas/estilos de
aprendizagem. Em outras palavras, a educação inclusiva “(...)
avança em relação à idéia de eqüidade
formal ao contextualizar as circunstâncias históricas da
produção da exclusão dentro e fora da escola”. (BRASIL, 2008, p.
5).
Além disso, há de se destacar o público alvo da educação
especial, ou seja, sujeitos que
possuem necessidades específicas em seu processo de
aprendizagem, tais como: deficiências, transtornos globais do
desenvolvimento e altas habilidades/superdotação. A política
refere que os sujeitos sejam beneficiados com alternativas
metodológicas que os possibilitem desenvolvimento de suas
potencialidades, que vai de encontro ao paradigma
clínico-terapêutico que priorizava a normatização dos sujeitos
na escola. Em outras palavras, não PE o sujeito que tem que se
“adequar à escola” mas a escola que tem que prover de meios para
proporcionar a esses educando uma aprendizagem de fato
significativa. Além disso, é “a
inclusão escolar tem início na educação infantil, onde se
desenvolvem as bases necessárias para a construção do
conhecimento e seu desenvolvimento global” (Brasil, 2008, p.
16).
Segundo o artigo 8º, do Plano de Diretrizes e Bases da Educação
Básica, para legitimação do paradigma da educação inclusiva, a
escola deve prover e prever de meios para organização das
classes comuns de forma que haja professores das classes comuns
e da Educação Especial habilitados e especializados, como
também, uma flexibilização e adaptações curriculares, que
pondere conteúdos, além de recursos a serem empregados,
contemplando as estratégias de avaliação, de modo que estejam em
conformidade com projeto político e pedagógico da escola (KASSAR,
2002, p.19). O que a política reforça no capítulo IV.
Conforme a resolução 02 que institui as Diretrizes Nacionais
para Educação das Necessidades Educacionais Especiais - NEE, na
Educação Básica, é assegurado direito de matrícula nas escolas
desde educação infantil. Além de fortalecer a premissa de que a
instituição, até mesmo de pré-escolas e creches, tem o dever de
oferecer serviços de educação especial a esses sujeitos.
Portanto, devemos compreender que o papel da educação especial
nesse contexto não está diretamente ligado a um paradigma
classificatório, que condiciona o indivíduo a um estigma baseado
em praticas sociais excludentes, provindas da história da
educação especial, mas sim por sua universalidade. Isto é, não é
somente função da educação especial atender aos sujeitos que
possuem necessidades especiais, mas sim de toda escola. De modo
que se pense a ”educação para todos” como uma alternativa de
cooperação em prol do objetivo comum: proporcionar acesso e
permanência ao ensino a todos os indivíduos (KASSAR, 2002).
Desse modo, a educação especial, nesse contexto, passa a se
constituir como proposta pedagógica de toda a escola, articulada
com ensino comum tendo a finalidade de orientar professores em
geral, para que sejam atendidas as necessidades específicas do
educando em seu processo de desenvolvimento global
(MEC/SEESP, 2008).
Nesse perpassando todos os graus de ensino na educação básica
que objetiva a colaboração da equipe docente, com a finalidade
de dar subsídios para que esses indivíduos sejam compreendidos e
assistidos quanto seu desenvolvimento cognitivo, social e
emocional. É salutar considerar que o documento trata sobre
abordagem histórica da educação especial e traz a discussão para
atualidade, já que enfatiza que todos os alunos têm direito ao
acesso e permanência no ensino, sendo respeitados por seus
ritmos e estilos de aprendizagem.
Na atualidade, educação especial perpassará transversalmente os
níveis de educação básica com finalidade de oportunizar
permanência e qualidade no processo de aprendizagem desses
alunos que não se enquadram nos padrões homogenizadores da
escola. Assim, considerando que todo sujeito que tem algum tipo
de necessidade específica em seu processo de aprendizagem tem
direito ao acesso e permanência na escola. Portanto, o a
Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da
Educação Inclusiva (2008), retrata os paradigmas da educação
especial e foca as diretrizes que fundamentam paradigma da
educação inclusiva na atualidade, reforçando as lutas sociais
pelo acesso, permanência e direito à qualidade no ensino. Por
conseguinte, através dessa diretriz poderão ser traçadas novos
discursos em prol de uma educação inclusiva e de qualidade a
todos os sujeitos indistintamente.
REFERÊNCIAS:
BRASIL, Ministério da Educação. Política Pública de Educação
Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva, 2008.
Disponível em: http://portal.mec.gov.br/arquivos/pdf/politicaeducespecial.pdf.
Acesso em 10/03/2009 às 21:00.
KASAR, Mc. M. Políticas Nacionais de Educação Inclusiva –
discussão crítica da Resolução nº 02/2001. Revista Ponto de
Vista , Florianópolis, n.3/4, p.013-025, 2002.
BEYER, Hugo Otto.
Inclusão e Avaliação na Escola de Alunos com Necessidades
Educacionais Especiais.
Porto Alegre. Editora Mediação, 2005
Karine
Sefrin Speroni – Educadora Especial/UFSM; Aluna do Curso de
Especialização em Gestão Educacional/UFSM; Integrante do PIT/GPESP/UFSM.