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Resumo
Procuramos
relatar a
experiência
vivida
nos
Cursos
de Formação
Especial
de Professores
no CUFSA como
professor
orientador
de portfólio e TCC. Referir-se à
própria
prática
é uma tarefa
sempre
difícil
e complicada, além
de desafiadora. Procuramos
destacar a
relevância
do Portfólio na formação
de professores,
bem
como
a pesquisa-ação e o ato
reflexivo
no contexto
educacional
desses professores.
Essa trajetória
que
acompanha a construção,
estruturação e reflexão
do portfólio e o conseguinte
desenrolar
do TCC, trouxe importantes
questões
da vida
cotidiana
escolar
desses educadores.
Palavras-chave:
formação
de professores,
portfólio, professor
pesquisador.
Sistematizamos neste
trabalho nossa
experiência vivida no
Curso de Formação
Especial
de Professores
efetivos
de Educação Infantil
(Creche
e Pré-Escola) e das
Séries
Inicias do Ensino
Fundamental
(Infância, Jovens
e Adultos) das redes
municipais de Santo
André, Diadema e Rio
Grande
da Serra, como
professor
orientador de Portfólio e Trabalho
de Conclusão de Curo (TCC),
que
ocorreu de fevereiro de 2003 a
dezembro
de 2004 na Faculdade de Filosofia,
Ciências e Letras
(FAFIL) do Centro
Universitário
Fundação Santo André (CUFSA.
Referir-se à própria
prática
é uma tarefa sempre
difícil
e complicada. A dificuldade reside
principalmente
no fato de que
as representações
que construímos sobre
essas práticas não
se originam apenas em
nossas concepções e teorizações,
mas
também e, principalmente,
em nossa
vivência
diária, em
que
nos envolvemos, e a emoção
muitas vezes interfere na
lógica
e na coerência do
nosso
discurso. A complexidade, por
sua vez, prende-se ao
desafio de colocar em
prática a proposta
pedagógica
audaciosa e ao mesmo
tempo
instigadora dos cursos de
formação
especial de professores
do CUFSA. Proposta, essa, calcada
no cotidiano
escolar tendo como
instrumento
sistematizador de conhecimento o
portfólio, algo
bastante novo no
mundo
da educação e
principalmente
em cursos
especiais
de formação de
professores.
Todavia, se o discurso
perde precisão e as
certezas
são substituídas pelas incertezas,
a experiência ganha
em
humanidade, pois passamos a
falar
cada vez
mais
sobre a própria
vivência
do processo escolar,
tornando-o portanto
cada vez
mais
vivo.
Procuramos destacar
a relevância
do uso da metodologia
da pesquisa-ação, e do ato
reflexivo, no contexto
educacional
desses professores, seja na
vida
cotidiana, dentro do
curso
como alunos e/ou
em suas
unidades
escolares.
Ao discorrer
sobre nossa
prática procuramos ressaltar a
importância
do portfólio na formação de
professores
reflexivos. Traçamos o seguinte
itinerário: num primeiro
momento, apresentamos nosso
entendimento
sobre questão do professor
reflexivo o embasamento
principal; num segundo
momento, as ações
possíveis
adotadas ao longo das
orientações
e o trajeto percorrido
enquanto
método; no terceiro, a
visão do portfólio por
parte do(a)s aluno(a)s;
e na última parte
o que
se levou do portfólio para os TCCs.
1. Pensando no
professor reflexivo
e sua
formação
O que
seria um professor
reflexivo e qual
seria o papel do Portfólio na
formação
de um professor?
Tais
questionamentos são
relevantes e devem ser tomados
como
pontos de partida
para
que ultrapassemos o uso
modístico dos mesmos e passemos a
utilizá-los de forma
amadurecida.
Dessa forma,
procuramos trabalhar a idéia
de Portfólio na visão
reflexiva, seguindo as idéia
de ALARCÃO (2003), como
um conjunto
coerente
de documentação refletidamente
selecionada,
significativamente comentada e sistematicamente
organizada e contextualizada no tempo,
reveladora do percurso profissional.
Essa concepção
de portfólio, vai ao encontro
do movimento dentro
da Educação denominado de
pesquisa-ação, calcado nas idéias
de ELLIOTT (1993). Segundo essa
nova
forma de pesquisar, a pesquisa-ação
toma
como base para
melhora da ação prática,
a característica de ser
um
processo que se modifica
continuamente em
espirais
de reflexão e ação,
em
que cada
espiral
inclui: aclarar e diagnosticar
uma situação
prática ou um
problema prático
que
se quer melhorar
ou
resolver; formular estratégias
de ação; desenvolver essas
estratégias
e avaliar sua
eficiência;
ampliar a compreensão da
nova
situação (situação
resultante) e proceder aos
mesmos passos
para a nova situação
prática.
A pesquisa-ação vai ao
encontro à construção
do conhecimento em
Educação
enraizado na prática do cotidiano
do professor, sendo uma teoria
muito
propícia para a
formação
do professor reflexivo,
sempre
preocupado com o
cotidiano
o qual está envolvido – o
educacional. Destacamos que
esta teoria
também auxilia a formação
dos indivíduos envolvidos nelas,
centra-se em
situações históricas e sociais
que são percebidas
pelos
professores como
problemáticas
passíveis de mudanças e propicia a
compreensão
do ocorrido a partir da
perspectiva
dos implicados no processo:
professores,
alunos, pais e
direção.
Reafirmamos a
necessidade de os professores,
na sua reflexão,
atenderem aos degraus
que
vão do senso
comum
ao contexto
científico. As informações
são, sem
dúvida, muito
importantes,
mas só o
conhecimento
que resulta da sua
compreensão
e interpretação permite a
visão
e a sabedoria necessárias
para mudar
a educação.
2. A construção
do método:
encaminhamentos tomados
Essa vivência
foi muito
rica, pois nos
possibilitou um
crescimento
intelectual intimamente relacionado
com
a problemática vivida
no cotidiano da sala
de aula,
já que
quase
todos os alunos e
alunas eram professores
em
exercícios de suas
respectivas redes
oficiais
de ensino, o que
nos
propiciou e norteou para um
trabalho
de orientação baseado
nessas ricas experiências.
A orientação foi estruturada em
encontros quinzenais com 1 hora de duração para aluno(a)s de
Educação Infantil e para Ensino Fundamental I, sendo alterada em
alguns momentos de encerramento do portfólio e de TCC (quando
passamos a nos reunir de forma mais direcionada por temas
específicos) e textos de apoio. Destacamos que tivemos um grupo
que se alterou muito pouco ao longo dos dois anos de trabalho,
cerca de 90% dos orientando(a)s se mantiveram facilitando o
contato com suas experiências e expectativas em relação ao
curso.
O caminho metodológico adotado
pelo portfólio compunha-se de dois momentos: o primeiro era o
momento de discussão sobre a inserção de cada indivíduo no
processo educacional, incluindo a história de vida de cada
aluno(a), reflexões sobre o ambiente de trabalho, o entendimento
do entorno da unidade educacional, levantamento de temas e
reflexões que despertaram interesses dos aluno(a)s no curso
realizado no CUFSA e no cotidiano de trabalho. Nesse primeiro
momento o uso do diário como instrumento de acompanhamento e
registro, e sua leitura constante, foi um momento de intenso
diálogo com os orientandos, em que os registros denunciavam
saborosas surpresas do cotidiano da prática escolar desses
discentes. O segundo momento foi o desenvolvimento de um tema
escolhido pelo orientando que emergiu como fruto de sua
preocupação e inquietação em relação ao mundo da educação em seu
processo formativo. Nesse momento foi necessário o
desenvolvimento do tema escolhido, por meio de um diálogo com
autores que discutem o mesmo assunto, aplicação de uma prática
pedagógica e sua reflexão.
O caminho metodológico adotado
estava preso ao cotidiano do aluno. Iniciava-se na vivência de
cada indivíduo, expressa por meio de sua história de vida e suas
reflexões e atitudes tomadas no ambiente escolar. Já o tema
escolhido foi delimitado por um objetivo a alcançar nesse
trabalho educacional. O diálogo com os autores evidencia a busca
por diversas visões sobre o tema, no intuito de detalhá-lo e
aproximá-lo da teoria para refletir a sua práxis em cima da
prática pedagógica efetivada. Já nas considerações finais, foi o
momento reflexivo do pesquisador no ato de verificar o resultado
de suas indagações.
3. O portfólio visto pelos
alunos do curso FEP/CUFSA
A contrapartida sobre a efetivação
do portfólio se deu nos relatos sobre a avaliação do portfólio
feita pelos alunos do curso. Destacamos alguns fragmentos dos
relatos e elementos dessa narrativa que caracterizam o processo
de construção do portfólio.
“O Portfólio foi uma das
construções mais importantes do curso, pois, através deste, pude
refletir sobre todo o processo de formação pelo qual passei
durante o primeiro ano do curso, bem como os avanços que obtive
ao desenrolar de cada módulo ... Este, também é a forma mais
autêntica de representação do processo de evolução do aluno, e,
nenhum outro tipo de avaliação obteria os mesmos resultados que
o Portfólio acaba de demonstrar”. A. M.
P.
Neste relato, temos como destaque
a relevância do portfólio como instrumento de maturação e
amadurecimento de idéias e também esclarecedor de
questionamentos ao longo do curso especial de formação de
professores do CUFSA. Outro elemento de destaque foi o resgate
profissional como ponto de partida de uma reflexão mais
aprofundada sobre o ato de ser professor, como o relato a seguir
nos mostra:
“A elaboração do Portfólio foi
muito significativa para mim, pois a partir da realização dos
textos solicitados pelo orientador, pude resgatar alguns
aspectos da minha trajetória profissional, que me fizeram
refletir e valorizar, ainda mais o meu trabalho enquanto
educadora”. K. M. M.
Outro elemento fundamental é a
descoberta da importância metodológica do ato de observar,
registrar e refletir.
“A releitura dos textos que
hoje compõem meu Portfólio me proporcionou uma visão apurada dos
mesmos em relação ao momento em que foram realizados”. K. M. M.
“Dentro de todos esses
acontecimentos achei de suma importância à realização de um
diário para registro de práticas pedagógicas. Ele sempre era
visto pela orientadora e colocado comentários a respeito do que
se estava escrito. Descobri com ele o mérito de se registrar a
prática nessa profissão. Para o TCC o diário ainda me será útil
como registro de dois estudos de casos”. M. R. B.
Essas avaliações do portfólio
também registraram as dificuldades e conflitos vivenciados pelo
curso e pelo próprio desafio de estruturar e pôr em prática o
Portfólio, como podemos verificar no relato a seguir:
“Minha maior dificuldade foi à
elaboração do trabalho do 4º Módulo, que também comporia a pasta
de Portfólio, pois, por mais que eu tentasse , não conseguia
fazer uma boa produção que obedecesse aos quesitos solicitados
pela Faculdade, pois além dos conflitos que estávamos vivendo na
Faculdade, havia os cansaços físico e emocional, próprios de
final de ano” A. M. P.
A maioria dos alunos apesar da
dificuldade inicial de organizar e estruturar o portfólio,
reconheceram-no como importante instrumento reflexivo, não só
para o professor avaliar o aluno, mas, principalmente, para a
formação do aluno. Destacamos que a maioria dos alunos retomou o
tema trabalhado no Portfólio em seus Trabalhos de Conclusão de
Cursos (TCCs), caracterizando seu papel de destaque no
amadurecimento reflexivo no contexto escolar e proporcionando
uma discussão mais aprofundada nos trabalhos de encerramento de
curso, pautados acima de tudo no cotidiano de cada professor
pesquisador.
Considerando alguns pontos
O professor não pode deixar de
ensinar, mas também não deveria furtar-se à realização de
trabalhos de pesquisa. É, exatamente, nesse encontro que se dá
à possibilidade de executar um trabalho como o que foi realizado
do portfólio ao TCC, sem a separação entre prática e teoria.
Acreditamos que é no trabalho conjunto de produção científica
que se encontra o real significado de uma proposta metodológica
que defende o ensino ativo e o papel do professor reflexivo.
Experiências como essas
vivenciadas nesse curso de formação especial de professores
efetivos das redes municipais, infelizmente ainda isoladas, têm
demonstrado que se tornam estimulantes para esses alunos
sentirem-se participantes da construção do conhecimento,
principalmente quando os temas de reflexão são frutos de suas
experiências do cotidiano da sala-de-aula, temas esses que
sempre se defrontam, sem oportunidades para refletirem e
pesquisarem essas questões. Mas, sobretudo, a motivação e a
satisfação do grupo de assumir-se como
professor(a)-pesquisador(a) ativo(a) no processo de construção
de conhecimento escolar.
Agradecimentos
Agradeço a oportunidade de
participar desse curso de formação especial de professores
propiciada pelas Profas. Dras. Marilena Nakano e Ivete Pelegrino
Rosa no primeiro momento do curso, aos alunos(as) do curso que
compartilharam suas ricas experiências do cotidiano escolar nas
atividades de portfólio e TCC; e o convite da Profa. Ms. Maria
de Fátima Moreira para participar dessa coletânea.
Referências
ALARCÃO, Isabel. Professores
Reflexivos em uma Escola Reflexiva. 2ª ed. São Paulo:
Cortez, 2003 (Coleção questões da Nossa Época: 103).
102p.
ELLIOTT, J.
El cambio educativo desde la investigación-acción.
Madri: Morata, 1993. 250p.
FREIRE, Madalena (Org.)
Observação, Registro, Reflexão: instrumentos
metodológicos I. 2ª ed. São Paulo: Espaço Pedagógico,
1996. 68p.
GERALDI, Corinta M. G; FIORENTINI,
Dário; PEREIRA, Elisabete M. A. (Orgs.) Cartografias do
trabalho docente: professor(a)-pesquisador(a).
Campinas: Mercado de Letras/Associação de Leitura do Brasil,
1998 (coleção Leituras do Brasil). 320p.
IMBERNÓN, Francisco. Formação
docente e profissional. São Paulo: Cortez, 2000 (Coleção
questões de Nossa Época: 77). 120p. |