.ISSN 1678-8419  

Revista Partes - Editado pela última vez em 19-09-2012 

 
  Principal
 Agenda
 Artes e Artesanato
 Colunistas
 Cultura
 Crônicas
 Econotas
 Editorial
 Educação
 Em Questão
 Em Rhede
 Entrevistas
 Humor
 Política e Cidadania
 Reportagens
 Mirim
 Notícias
 Outras edições
 Poesia e Contos
 Reflexão
 Expediente
 Sócio Ambiental
 Terceira Idade
 Terceiro Setor
 Turismo
   Participe
 Cartas
 Blog
 Fale Conosco
   Especiais
 Igrejas
 Meio Ambiente
 SP 450 anos
 Memória Sindical
 Assédio Moral
 Vitrine do Giba
 Nosso Dáimon
 O Grito do Ipiranga
 Mirim
 Feiras e Mercados
 Em RHede
 Econotas
 Ambientais
 Agenda
.
 Educação

O portfólio na formação de professores pesquisadores: a experiência dos cursos de formação especial de professores no ABC paulista
Por Clézio Santos

Resumo 

Procuramos relatar a experiência vivida nos Cursos de Formação Especial de Professores no CUFSA como professor orientador de portfólio e TCC. Referir-se à própria prática é uma tarefa sempre difícil e complicada, além de desafiadora. Procuramos destacar a relevância do Portfólio na formação de professores, bem como a pesquisa-ação e o ato reflexivo no contexto educacional desses professores. Essa trajetória que acompanha a construção, estruturação e reflexão do portfólio e o conseguinte desenrolar do TCC, trouxe importantes questões da vida cotidiana escolar desses educadores.

Palavras-chave: formação de professores, portfólio, professor pesquisador.

 

Sistematizamos neste trabalho nossa experiência vivida no Curso de Formação Especial de Professores efetivos de Educação Infantil (Creche e Pré-Escola) e das Séries Inicias do Ensino Fundamental (Infância, Jovens e Adultos) das redes municipais de Santo André, Diadema e Rio Grande da Serra, como professor orientador de Portfólio e Trabalho de Conclusão de Curo (TCC), que ocorreu de fevereiro de 2003 a dezembro de 2004 na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (FAFIL) do Centro Universitário Fundação Santo André (CUFSA.

Referir-se à própria prática é uma tarefa sempre difícil e complicada. A dificuldade reside principalmente no fato de que as representações que construímos sobre essas práticas não se originam apenas em nossas concepções e teorizações, mas também e, principalmente, em nossa vivência diária, em que nos envolvemos, e a emoção muitas vezes interfere na lógica e na coerência do nosso discurso. A complexidade, por sua vez, prende-se ao desafio de colocar em prática a proposta pedagógica audaciosa e ao mesmo tempo instigadora dos cursos de formação especial de professores do CUFSA. Proposta, essa, calcada no cotidiano escolar tendo como instrumento sistematizador de conhecimento o portfólio, algo bastante novo no mundo da educação e principalmente em cursos especiais de formação de professores. Todavia, se o discurso perde precisão e as certezas são substituídas pelas incertezas, a experiência ganha em humanidade, pois passamos a falar cada vez mais sobre a própria vivência do processo escolar, tornando-o portanto cada vez mais vivo.  

Procuramos destacar a relevância do uso da metodologia da pesquisa-ação, e do ato reflexivo, no contexto educacional desses professores, seja na vida cotidiana, dentro do curso como alunos e/ou em suas unidades escolares.

Ao discorrer sobre nossa prática procuramos ressaltar a importância do portfólio na formação de professores reflexivos. Traçamos o seguinte itinerário: num primeiro momento, apresentamos nosso entendimento sobre questão do professor reflexivo o embasamento principal; num segundo momento, as ações possíveis adotadas ao longo das orientações e o trajeto percorrido enquanto método; no terceiro, a visão do portfólio por parte do(a)s aluno(a)s; e na última parte o que se levou do portfólio para os TCCs.

1. Pensando no professor reflexivo e sua formação

O que seria um professor reflexivo e qual seria o papel do Portfólio na formação de um professor?

Tais questionamentos são relevantes e devem ser tomados como pontos de partida para que ultrapassemos o uso modístico dos mesmos e passemos a utilizá-los de forma amadurecida.

Dessa forma, procuramos  trabalhar a idéia de Portfólio na visão reflexiva, seguindo as idéia de ALARCÃO (2003), como um conjunto coerente de documentação refletidamente selecionada, significativamente comentada e sistematicamente organizada e contextualizada no tempo, reveladora do percurso profissional.

Essa concepção de portfólio, vai ao encontro do movimento dentro da Educação denominado de  pesquisa-ação, calcado nas idéias de ELLIOTT (1993). Segundo essa nova forma de pesquisar, a pesquisa-ação toma como base para melhora da ação prática, a característica de ser um processo que se modifica continuamente em espirais de reflexão e ação, em que cada espiral inclui: aclarar e diagnosticar uma situação prática ou um problema prático que se quer melhorar ou resolver; formular estratégias de ação; desenvolver essas estratégias e avaliar sua eficiência; ampliar a compreensão da nova situação (situação resultante) e proceder aos mesmos passos para a nova situação prática.

A pesquisa-ação vai ao encontro à construção do conhecimento em Educação enraizado na prática do cotidiano do professor, sendo uma teoria muito propícia para a formação do professor reflexivo, sempre preocupado com o cotidiano o qual está envolvido – o educacional. Destacamos que esta teoria também auxilia a formação dos indivíduos envolvidos nelas, centra-se em situações históricas e sociais que são percebidas pelos professores como problemáticas passíveis de mudanças e propicia a compreensão do ocorrido a partir da perspectiva dos implicados no processo: professores, alunos, pais e direção

Reafirmamos a necessidade de os professores, na sua reflexão, atenderem aos degraus que vão do senso comum ao contexto científico. As informações são, sem dúvida, muito importantes, mas o conhecimento que resulta da sua compreensão e interpretação permite a visão e a sabedoria necessárias para mudar a educação.

2.  A construção do método: encaminhamentos tomados

Essa vivência foi muito rica, pois nos possibilitou um crescimento intelectual intimamente relacionado com a problemática vivida no cotidiano da sala de aula, que quase todos os alunos e alunas eram professores em exercícios de suas respectivas redes oficiais de ensino, o que nos propiciou e norteou para um trabalho de orientação baseado nessas ricas experiências.

A orientação foi estruturada em encontros quinzenais com 1 hora de duração para aluno(a)s de Educação Infantil e para Ensino Fundamental I, sendo alterada em alguns momentos de encerramento do portfólio e de TCC (quando passamos a nos reunir de forma mais direcionada por temas específicos) e textos de apoio. Destacamos que tivemos um grupo que se alterou muito pouco ao longo dos dois anos de trabalho, cerca de 90% dos orientando(a)s se mantiveram facilitando o contato com suas experiências e expectativas em relação ao curso. 

O caminho metodológico adotado pelo portfólio compunha-se de dois momentos: o primeiro era o momento de discussão sobre a inserção de cada indivíduo no processo educacional, incluindo a história de vida de cada aluno(a), reflexões sobre o ambiente de trabalho, o entendimento do entorno da unidade educacional, levantamento de temas e reflexões que despertaram interesses dos aluno(a)s no curso realizado no CUFSA e no cotidiano de trabalho. Nesse primeiro momento o uso do diário como instrumento de acompanhamento e registro, e sua leitura constante, foi um momento de intenso diálogo com os orientandos, em que os registros denunciavam saborosas surpresas do cotidiano da prática escolar desses discentes. O segundo momento foi o desenvolvimento de um tema escolhido pelo orientando que emergiu como fruto de sua preocupação e inquietação em relação ao mundo da educação em seu processo formativo. Nesse momento foi necessário o desenvolvimento do tema escolhido, por meio de um diálogo com autores que discutem o mesmo assunto, aplicação de uma prática pedagógica e sua reflexão.

 O caminho metodológico adotado estava preso ao cotidiano do aluno. Iniciava-se na vivência de cada indivíduo, expressa por meio de sua história de vida e suas reflexões e atitudes tomadas no ambiente escolar. Já o tema escolhido foi delimitado por um objetivo a alcançar nesse trabalho educacional. O diálogo com os autores evidencia a busca por diversas visões sobre o tema, no intuito de detalhá-lo e aproximá-lo da teoria para refletir a sua práxis em cima da prática pedagógica efetivada. Já nas considerações finais, foi o momento reflexivo do pesquisador no ato de verificar o resultado de suas indagações. 

3. O portfólio visto pelos alunos do curso FEP/CUFSA

A contrapartida sobre a efetivação do portfólio se deu nos relatos sobre a avaliação do portfólio feita pelos alunos do curso. Destacamos alguns fragmentos dos relatos e elementos dessa narrativa que caracterizam o processo de construção do portfólio.

“O Portfólio foi uma das construções mais importantes do curso, pois, através deste, pude refletir sobre todo o processo de formação pelo qual passei durante o primeiro ano do curso, bem como os avanços que obtive ao desenrolar de cada módulo ... Este, também é a forma mais autêntica de representação do processo de evolução  do aluno, e, nenhum outro tipo de avaliação obteria os mesmos resultados que o Portfólio acaba de demonstrar”. A. M. P.

Neste relato, temos como destaque a relevância do portfólio como instrumento de maturação e amadurecimento de idéias e também esclarecedor de questionamentos ao longo do curso especial de formação de professores do CUFSA. Outro elemento de destaque foi o resgate profissional como ponto de partida de uma reflexão mais aprofundada sobre o ato de ser professor, como o relato a seguir nos mostra:

“A elaboração do Portfólio foi muito significativa para mim, pois a partir da realização dos textos solicitados pelo orientador, pude resgatar alguns aspectos da minha trajetória profissional, que me fizeram refletir e valorizar, ainda mais o meu trabalho enquanto educadora”. K. M. M.

Outro elemento fundamental é a descoberta da importância metodológica do ato de observar, registrar e refletir.

 “A releitura dos textos que hoje compõem meu Portfólio me proporcionou uma visão apurada dos mesmos em relação ao momento em que foram realizados”. K. M. M.

“Dentro de todos esses acontecimentos achei de suma importância à realização de um diário para registro de práticas pedagógicas. Ele sempre era visto pela orientadora e colocado comentários a respeito do que se estava escrito. Descobri com ele o mérito de se registrar a prática nessa profissão. Para o TCC o diário ainda me será útil como registro de dois estudos de casos”. M. R. B.

Essas avaliações do portfólio também registraram as dificuldades e conflitos vivenciados pelo curso e pelo próprio desafio de estruturar e pôr em prática o Portfólio, como podemos verificar no relato a seguir:

 “Minha maior dificuldade foi à elaboração do trabalho do 4º Módulo, que também comporia a pasta de Portfólio, pois, por mais que eu tentasse , não conseguia fazer uma boa produção que obedecesse aos quesitos solicitados pela Faculdade, pois além dos conflitos que estávamos vivendo na Faculdade, havia os cansaços físico e emocional, próprios de final de ano” A. M. P. 

A maioria dos alunos apesar da dificuldade inicial de organizar e estruturar o portfólio, reconheceram-no como importante instrumento reflexivo, não só para o professor avaliar o aluno, mas, principalmente, para a formação do aluno. Destacamos que a maioria dos alunos retomou o tema trabalhado no Portfólio em seus Trabalhos de Conclusão de Cursos (TCCs), caracterizando seu papel de destaque no amadurecimento reflexivo no contexto escolar e proporcionando uma discussão mais aprofundada nos trabalhos de encerramento de curso, pautados acima de tudo no cotidiano de cada professor pesquisador.

Considerando alguns pontos

O professor não pode deixar de ensinar, mas também não deveria furtar-se à realização de trabalhos de pesquisa. É, exatamente,  nesse encontro que se dá à possibilidade de executar um trabalho como o que foi realizado do portfólio ao TCC, sem a separação entre prática e teoria. Acreditamos que é no trabalho conjunto de produção científica que se encontra o real significado de uma proposta metodológica que defende o ensino ativo e o papel do professor reflexivo.

Experiências como essas vivenciadas nesse curso de formação especial de professores efetivos das redes municipais, infelizmente ainda isoladas, têm demonstrado que se tornam estimulantes para esses alunos sentirem-se participantes da construção do conhecimento, principalmente quando os temas de reflexão são frutos de suas experiências do cotidiano da sala-de-aula, temas esses que sempre se defrontam, sem oportunidades para refletirem e pesquisarem essas questões. Mas, sobretudo, a motivação e a satisfação do grupo de assumir-se como professor(a)-pesquisador(a) ativo(a) no processo de construção de conhecimento escolar.

Agradecimentos

Agradeço a oportunidade de participar desse curso de formação especial de professores propiciada pelas Profas. Dras. Marilena Nakano e Ivete Pelegrino Rosa no primeiro momento do curso, aos alunos(as) do curso que compartilharam suas ricas experiências do cotidiano escolar nas atividades de portfólio e TCC; e o convite da Profa. Ms. Maria de Fátima Moreira para participar dessa coletânea.

Referências

ALARCÃO, Isabel. Professores Reflexivos em uma Escola Reflexiva. 2ª ed. São Paulo: Cortez, 2003 (Coleção questões da Nossa Época: 103). 102p.

ELLIOTT, J. El cambio educativo desde la investigación-acción. Madri: Morata, 1993. 250p.

FREIRE, Madalena (Org.) Observação, Registro, Reflexão: instrumentos metodológicos I. 2ª ed. São Paulo: Espaço Pedagógico, 1996. 68p.

GERALDI, Corinta M. G; FIORENTINI, Dário; PEREIRA, Elisabete M. A. (Orgs.) Cartografias do trabalho docente: professor(a)-pesquisador(a). Campinas: Mercado de Letras/Associação de Leitura do Brasil, 1998 (coleção Leituras do Brasil). 320p.

IMBERNÓN, Francisco. Formação docente e profissional. São Paulo: Cortez, 2000 (Coleção questões de Nossa Época: 77). 120p.

 

 

Clézio Santos é professor orientador de portfólio e TCC dos Cursos Especiais de Formação de Professores do FAFIL/CUFSA. Bacharel e Licenciado em Geografia USP, membro do Colegiado de Geografia da FAFIL/CUFSA, mestre em Geografia Humana FFLCH/USP, mestre e doutorando em Geociências e Ensino IG/UNICAMP; e autor de inúmeros trabalhos na área de Geografia, Educação e Turismo. clezio@fsa.br

 


 

© copyright Revista P@rtes 2000-2006
Editor: Gilberto da Silva (Mtb 16.278)
São Paulo - Brasil