Ao situar a Educação no contexto da pesquisa realiza-se uma
reflexão bastante recente, pois esta ganhou foco há pouco tempo em
relação aos estudos que vem sendo realizados na área das ciências
naturais. Assim sendo, não é em vão que as questões referentes à
melhora da qualidade dos meios sociais e educacionais caminham tão
lentamente, e são colocados em segundo plano pelas autoridades do
nosso país, bem como o financiamento de estudos referentes a esse
âmbito.
Nesse
sentido, as angústias e inquietações surgem devido à consciência de
profissionais que atuam no contexto social e compreendem a
importância da pesquisa para a formação dos alunos e o
desenvolvimento profissional dos docentes. Complementando essa
idéia, Nóvoa (apud LÜDKE, 1995) defende que a pesquisa na atividade
do professor precisa transformar não só sua prática, mas também o
seu contexto. Para se atingir tais objetivos, tornam-se importante
constituir-se como um profissional reflexivo, que reflete antes,
durante e após sua atuação, buscando avaliar sua própria prática
(PÉREZ GÓMEZ apud LÜDKE, 1995).
Comprometida com essas questões instigantes, Gatti (2002) relata que
a pesquisa pode ser realizada de forma simples em nosso cotidiano,
quando pesquisamos uma palavra no dicionário ou tentamos descobrir o
melhor tempero para temperar determinada comida. Porém, quando
buscamos ultrapassar a compreensão imediata de certo conhecimento,
que pode até mesmo negar o entendido anteriormente, procurando ir
além dos fatos e descobrir o que está implícito, tendo como base um
referencial teórico, estaremos fazendo pesquisa científica.
Dessa forma, segue a compreensão da autora, percorremos
certos caminhos que nos dão certa segurança, porque não há
conhecimento absoluto e definitivo, eles são sempre relativizados
sintetizados sob certas condições, dependendo das teorias e métodos
que o pesquisador escolhe, devendo essas ter coerência entre si.
Fazer pesquisa é fazer escolhas. Não há um modelo de pesquisa
científica, nem o método científico, há sim caminhos já trilhados
por pesquisadores experientes que nos ajudam a trilhar os nossos com
maior segurança. Tendo em vista que o próprio pesquisador apresenta
em seu trabalho comportamentos e visões peculiares. Assim, o
conhecimento obtido pela pesquisa é um conhecimento situado –
através de momentos históricos e das escolhas e olhares do
pesquisador, qualquer que seja a natureza desses dados.
Diante disso, o aluno ao ingressar na universidade
depara-se com duas situações: ser acadêmico e ter que fazer ciência
(DALAROSA, 2000). Sendo que, o conhecimento nesta instituição não
pode ficar restrito ao senso comum, pois para tudo que fazemos é
necessário determinado método, e em se tratando de ciência esse
método deve ser científico (BONIN, 2006). Dalarosa (2000) diz que se
não exercitarmos a pesquisa científica na universidade, corremos o
risco de não termos contato com esta ao longo de nossa vida. Uma
questão complicada é o resultado de três aspectos relevantes que
abordam esse contexto: a concepção de que uma “certa ciência” é a
dona da verdade; de que a pesquisa é tida como algo a par do
contexto do currículo e das disciplinas e; a concepção equivocada de
que metodologia é um mero caminho técnico para ser seguido em uma
investigação.
Assim, a pesquisa precisa ser contemplada como definição
inerente à prática pedagógica, consistindo-se num compromisso
intrínseco ao ofício de mestre, já que se entende que “o professor
que não constrói conhecimento, como atitude cotidiana, nunca foi.
Quem pesquisa, teria o que transmitir. Quem não pesquisa, sequer
para transmitir serve, pois não vai além da cópia da cópia” (DEMO,
1994, p.34).
Dessa forma, segundo Dalarosa (2000) a ciência representa o
resultado do processo de elaboração do conhecimento científico
exercida pelo ser humano, podendo estar marcada de riquezas e
precariedades inerentes ao seu pesquisador. Ela constitui um mundo a
construir, parte de uma realidade e de um questionamento. Para o
autor a pesquisa como um meio de construir conhecimento, uma
investigação para solucionar um problema, sendo que existe uma ordem
na elaboração e no seu desenvolvimento, pois se faz ciência (fim)
através da pesquisa (processo) e com a utilização da metodologia
(caminhos). Tendo em vista esse processo de complexo de construção,
pesquisar em Educação requer comprometimento, já que “significa
trabalhar com algo relativo a seres humanos ou eles mesmos” (GATTI,
2002, p.12).
No contexto educativo geralmente desenvolvem-se pesquisas
qualitativas, sendo que segundo Gamboa (1995, p.61) esta
“proporciona a busca de novas alternativas para o conhecimento de
uma realidade tão dinâmica e polifacética como a problemática
estudada”.
Santos (2006) se une a esse pensamento ao dizer que a pesquisa
qualitativa ao estar inserida nas ciências sociais será sempre
subjetiva, imbricada na busca de compreender fenômenos sociais a
partir de atitudes e sentidos que os agentes conferem as suas ações,
com vista a construir um conhecimento intersubjetivo, descritivo e
compreensivo.
Em busca de transformar essa realidade, a partir dos anos 90
começa-se a pensar no professor que ensina e ao mesmo tempo faz
pesquisa, como forma deste profissional formar-se enquanto
investigador da sua própria prática e reconstruir constantemente sua
atividade e seus saberes docentes. Sendo que, “a formação do
professor começa antes mesmo de sua formação acadêmica e prossegue
durante toda a vida profissional” (SANTOS APUD PEREIRA, 2000, p.49).
Diante disso, cada vez mais se pesquisa em Educação, tendo em vista
a necessidade de se responder às angústias e indagações que a
sociedade a todo o momento nos faz. Além da tentativa de se promover
uma Educação que acompanhe aos novos desafios da sociedade moderna.
É importante destacar que, se parece inviável conquistarmos grandes
resultados no âmbito educacional, existe sim, a possibilidade de
interferimos e desequilibrarmos o tradicional, o instituído, o
hegemônico, através da atuação docente e da gestão escolar, pois,
dessa forma estaremos contribuindo com as armas que ainda nos
permitem utilizar.
REFERÊNCIAS
BONIN, Joana Adriana. Nos bastidores da pesquisa: a instância
metodológica experenciada nos fazeres e nas processualidades de
construção de um projeto. In: Metodologias de pesquisa em
comunicação: olhares, trilhas e processos. Porto Alegre: Editora
Sulina, 2006.
DEMO, Pedro.
Pesquisa e Construção do conhecimento.
Rio de Janeiro: Templo Brasileiro, 1994.
DALAROSA, Adair Ângelo. Ciência, Pesquisa e Metodologia na
Universidade.
In: LOMBARDI, José Claudinei (Org.).
Pesquisa em educação:
história, filosofia e temas transversais. 2ed. Campinas: Autores
Associados/Caçador: HISTERDBR-UnC, p.95-104, 2000.
GAMBOA, Sílvio Sanches (Org.). Pesquisa educacional:
quantidade-qualidade. São Paulo: Cortez, 1995.
GATTI, Bernadetti. A construção da pesquisa em educação no Brasil.
Brasília: Plano Editora, 2002.
LÜDKE, Menga. A pesquisa na formação do professor. In: FAZENDA,
Ivani. (Org.) A pesquisa em educação e as transformações do
conhecimento. 7ed. Campinas: Papirus, p.111-119, 1995.
PEREIRA,
Júlio Emílio Diniz.
Formação de professores: pesquisas, representações e poder.
Belo Horizonte: Autêntica, 2000.
SANTOS, Boa Ventura de Souza. Um discurso sobre as ciências.
4ed. São Paulo: Cortez, 2006.