RESUMO
Este artigo visa a
defender a relação intrínseca entre as concepções de práxis
educativa e trabalho dos professores, refletindo sobre elas a
partir da concepção de professores-pesquisadores, de teoria
imbricada na prática. A fim de esclarecer tal entendimento,
realiza-se inicialmente uma caracterização da pesquisa educacional
na escola para que se entenda os professores como profissionais
que só se constituem como tal na interface
professores-pesquisadores, realizando sua práxis. Finalmente, é
ressaltada a necessidade de refletir sobre a práxis educativa e o
trabalho dos professores que, se pesquisadores, elaboram condições
fundamentais para que restituam sua condição de sujeito de seu
trabalho e transformem a realidade.
PALAVRAS-CHAVE: práxis
educativa; trabalho; pesquisa; professores.
Introdução
Em seus discursos
cotidianos, sobretudo entre seus pares, ao avaliarem negativamente
a práxis pedagógica de um professor/professora, principalmente na
academia, é comum ouvir-se algo como: “Ele/ela é
pesquisadora/pesquisador, mas não serve para
professora/professor”. Na escola, por outro lado, dificilmente se
escuta tal comentário, pois se considera que os professores não
realizam pesquisa. Essas rápidas considerações tornam possível
vislumbrar duas concepções vigentes sobre pesquisa em educação que
precisam necessariamente ser desconstruídas, para que a ação de
pesquisar seja bem-sucedida. A principal delas é a idéia de que os
papéis de professor e pesquisador podem ser dissociados. A outra,
implicada na anterior, é que existe uma separação entre teoria e
prática, ou seja, haveria aqueles que pensam a educação e outros
que a executam.
Para refletir sobre
essas questões, inicialmente, buscar-se-á mostrar o que é pesquisa
educacional, a fim de perceber a inseparável relação entre as
concepções de professores e pesquisadores referindo-se ao sentido
do sentido do trabalho. Em seguida, será discutida a relação
intrínseca entre teoria e prática, ou seja, a práxis, na pesquisa
em educação. Finalmente, mostrar-se-ão as condições que geram tais
dualidades e como elas afetam e são afetadas pelo trabalho dos
professores em sua práxis cotidiana. Para isso, far-se-ão
abordagens sobre percepções acerca do percurso de pesquisa com o
intuito de ilustrar que a investigação sistemática em educação
pode ocorrer na e a favor da escola, em um processo de
reflexão-ação em contínuo, por professores que só se constituem
como tais na sua interface dialética professores-pesquisadores, em
sua práxis.
O objetivo central é
propor uma reflexão sobre a relação intrínseca entre as concepções
de práxis educativa dos professores, refletindo sobre elas a
partir do entendimento de professores-pesquisadores, de teoria
imbricada na prática, constituindo a práxis.
METODOLOGIA
Escolheu-se a pesquisa
qualitativa, que se apresenta como uma abordagem própria para os
estudos em educação, tendo em vista que propicia uma maior
interação entre pesquisadores e os temas abordados, na medida que
não se pauta por um rigor cartesiano absoluto. Ao contraio,
permite ser modificada no percurso da pesquisa, garantindo que os
sujeitos tenham primazia no desenvolvimento do trabalho.
O artigo foi elaborado
com base em um procedimento de pesquisa bibliográfica, entendido
como uma sistemática de produção de conhecimento. Criou-se uma
sequência de fases, quais sejam: seleção do material mediante o
critério da abordagem do tema em consonância com a perspectiva
teórica escolhida, centrada em estudos relativos ao trabalho;
leitura inicial com fichamento de idéias centrais; análise das
categorias (palavras-chave) no material fichado; aprofundamento
dos temas em novas leituras; e, por último, sistematização
entremeando os estudos realizados com as descobertas e análises
dos autores.
Como técnica de análise
dos dados, utilizou-se a Análise de Conteúdo, com base em Bardin
(2006). Isso exigiu uma elaboração de categorias a priori e
a análise delas lidas no material bibliográfico,
Tal metodologia visou a
impregnar nesta investigação um rigor científico marcado pela
atenção aos detalhes, análise acurada das categorias e
sistematização embasada nos estudos realizados até então.
RESULTADOS E
DISCUSSÕES
A função social da
instituição escolar nos tempos atuais é dúbia: por um lado ela
parece querer continuar sua tradicional ação de perpetuar e
divulgar conhecimentos; por outro, apresenta-se como espaço para
convivência; ainda, há a tão propalada ação escolar propedêutica,
dedicada a uma instrumentalização para a continuidade dos estudos.
Vale dizer, à escola caberia, assim, efetivamente, a função de
permitir que os sujeitos, professores e estudantes, passassem a
realizar a leitura e interpretação de sua realidade. Para tanto, é
preciso que essa realidade seja inserida em uma proposta
pedagógica não como adereço, complemento, mas como tema basilar.
Em torno deste tema, elabora-se o diálogo sobre o real, a partir
das inúmeras fontes hoje disponíveis. Com base neste diálogo, é
possível oportunizar-se atuações para o entendimento do real. Para
tanto, impõe-se um compromisso ético da Escola: tornar-se
acessível a todos, revelar crenças e gerar ações políticas que
garantam uma efetiva produção do conhecimento, deixando de ser,
enfim, em qualquer perspectiva, um espaço restritivo e limitador.
Todas estas atribuições da escola surgem de uma vinculação a um
projeto histórico e social mais amplo, oriundo das demandas
sociais e da leitura que se faz destas demandas.
É nessa perspectiva que
se pensa a pesquisa enquanto geradora não só de espaços
interativos para produção do conhecimento, mas da preocupação dos
professores em produzir seu próprio conhecimento, em sua práxis
cotidiana. Não é, com certeza, um esforço simples. Ao contrário,
implica a reelaboração dos pressupostos que têm orientado até hoje
a aula e a prática pedagógica escolar. Neste afã, há a revisão da
crença no ensinar e a passagem para a realização de aprender.
Passa-se do “dar aula” para interagir na produção de
conhecimentos. E lembrando a herança tradicional ainda bastante
presente na educação escolar brasileira, faz-se necessário, para
tanto, superá-la, o que exige trabalho coletivo, vontade,
humildade e muito estudo.
Assim, se a escola for
considerada como uma instituição pautada por sua intencionalidade,
reagindo a orientações do modelo social em que se insere, pode-se
entender a pesquisa como uma forma de os professores e os
estudantes encontrarem novos e renovados sentidos para o
conhecimento (e, em decorrência, para o conhecimento escolar),
atribuindo-lhe sentidos mais em acordo com o que vivem do que com
o que lhes é exigido pensar. Dessa forma, há, na pesquisa, uma
possibilidade emancipatória, capaz de permitir aos sujeitos
atribuírem sentidos ao seu fazer, à sua cultura, intervindo em seu
grupo, contribuindo para que este grupo redefina seus próprios
sentidos. Em síntese, essa é a centralidade da práxis pedagógica
que caracteriza o trabalho dos professores.
Apesar da extrema
importância de os professores realizarem pesquisa sobre e na sua
prática, a sobrecarga de trabalho que lhe é atribuída
cotidianamente o destitui de possibilidades de reflexão Aliado ao
excesso de atividades, eles se submetem a condições de trabalho
historicamente desfavoráveis, como a desvalorização da classe
profissional, materializada em péssimos salários e na indisciplina
dos estudantes em sala de aula, por exemplo. Como resultado, os
professores tornam-se cumpridores de tarefas, desconhecendo-se
como profissionais que pensam a realidade e agem a fim de
favorecê-la.
Ventorim (2005) concebe
a formação dos professores-pesquisadores como um movimento
contra-hegemônico, na medida em que pode contribuir para a
construção de alternativas críticas na formação, redimensionando o
papel político-pedagógico dos professores, da educação e da
escola. É extremamente desejável que os professores tenham a
disposição em enfrentar dilemas profissionais e repensar seus
próprios pontos de vista, promovendo uma análise mais profunda das
situações e elaborando novos modos de pensar e fazer seu trabalho,
além de meios para melhorar seu reconhecimento social.
Pensa-se que o trabalho
dos professores seja a produção da aula, um tempo e um espaço em
que necessariamente precisa acontecer a produção do conhecimento
sua e dos estudantes. Por isso, é uma práxis na medida em que ao
realizá-lo evidencia crenças elaboradas a partir da reflexão sobre
suas práticas, de modo indissociado.
Reitera-se que, ao se
pensar em pesquisa, antes, precisa-se lembrar que a função da
escola, diferentemente de outras épocas, não é informar, não é
transmitir conhecimentos, pois estes assumem proporções espantosas
a todo o momento. Uma de suas funções é inserir o estudante em uma
dinâmica de aprender, incentivando a autonomia capaz de lhe
permitir envidar esforços constantes em prol de sua singular
produção de saberes. Desse modo, poderá atribuir sentidos
permitidos pelas referências que o orientam, elas próprias em
constante ressignificação. É uma produção de conhecimento
cotidiana, reelaborada e ampliada conforme as experiências
anteriores, significativa e significante. Somente nestas condições
se pode falar em produção de saberes: desde que se constitua uma
escola que abandona a reprodução de conhecimentos e passa a os
questionar, problematizar, produzir. Desempenhando essa função, em
um ambiente que se queira alfabetizador, no sentido de permitir
conhecer e capaz de re-elaborar o conhecido, a escola pode
contribuir efetivamente para a educação de pessoas críticas e
criativas, capazes de agir no mundo, torná-lo melhor, e capazes de
inserirem-se em um trabalho, uma prática social de caráter
emancipatório.
Com base nessas
reflexões, percebe-se que não existem modelos prontos para
encaminhar a pesquisa, nem a práxis educativa dos professores. Até
porque se existissem, novamente, agir-se-ia com base em modelos
superados, paternalistas, autoritários que impedem o diálogo.
Assim, podem-se criar modelos tornando-os condizentes com a
leitura feita da realidade, considerando os interesses de grupos
de trabalho. Essas criações, organizadas em projeto pedagógico,
vão elaborando a escola que se almeja e tornando-se reais a cada
passo dado com ousadia e amparado no coletivo. A propósito, os
professores, no momento em que se voltam para a compreensão da
realidade, da escola, da práxis educativa que está sendo
encaminhada, já estão pesquisando.
CONCLUSÕES
Pelas breves
considerações aqui assumidas, pode ser pleonasmo falar em
professores-pesquisadores como se fosse necessário o adjetivo
“pesquisadores” para expressar o sentido de ser professores. Da
mesma forma, o designativo “professores” carrega intrínseco a
pesquisa, a reflexão, a crítica. Pesquisa e reflexão são inerentes
ao ser professor pela própria natureza do seu fazer.
No entanto, devemos nos
preocupar não só em desconstruir falsas concepções, mas também
lutar contra as condições concretas que as geram, tais quais a
situação deficitária da docência, a crise pela qual passa o
trabalho dos professores, de suas profissionalidade e formação.
A fim de fortalecer a
práxis educativa, é preciso criar mecanismos que garantam aos
professores maior autonomia (individual e coletiva), espaço para
investir em novos modos de pensar e fazer seu trabalho e meios de
melhorar seu reconhecimento social. Para isso, é preciso haver
problematização e reflexão sobre a realidade. Todavia, acredita-se
que essas devem estar embasadas em pressupostos e referenciais
teóricos pertinentes, para que esse discurso não seja esvaziado de
sentido.
A sugestão é que os
professores atuem na perspectiva de pesquisa e reflexão. Embora,
neste breve artigo, tenham sido esboçadas concepções sobre essas
instâncias, servem aquelas utilizadas no cotidiano, desde que
submetidas a um exercício lógico e disciplinado de pensamento.
Essa recomendação se baseia no entendimento de que há aspectos
comuns entre essas acepções, na medida em que ambas devam tomar a
realidade como base para racionalizações e críticas e não
simplesmente sugerir modelos teóricos supostamente válidos em
qualquer circunstância.
Da mesma maneira,
pesquisa e reflexão devem considerar a práxis não como um fim
pedagógico, mas como meio de transformação da realidade por meio
de exame crítico, da análise, portanto, da ressignificação. Apenas
apresentar idéias não é suficiente. É preciso haver diálogo entre
pontos de vista, é necessário relativizar idéias, problematizando
leituras supostamente corretas da realidade, atribuindo novos
sentidos ao trabalho dos professores a partir da pesquisa.
REFERÊNCIAS
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Edições 70, 2006.
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FERREIRA, L. S. Gestão do
pedagógico: de qual pedagógico se fala?. In: Currículo sem
Fronteiras, Currículo sem Fronteiras,
v.8, n.2, pp.176-189, Jul/Dez 2008.
ISSN
1645-1384
VENTORIM, S. A Formação
do professor pesquisador na produção científica dos encontros de
Didática e Prática de Ensino: 1994-2000. Tese de
Doutorado, UFMG, 2005, 346 p.