À vó Tetê, com todo meu
amor de neta
Quantas vezes vimos a
mulher negra representada no cinema? Negra, pobre e gorda então? Não
só no cinema, vamos agora ampliar o enfoque à televisão brasileira,
às revistas, aos livrinhos da Avon e suas imagens de mulheres
lindas? Pensemos em catálogos de lojas e produtos de beleza? Onde
está a mulher negra?
É pensando neste contexto
e na amplitude que uma arte como o cinema tem, embora para mim ainda
atingindo uma parcela muito singela da população brasileira, se
pensarmos no quão é caro ir ao cinema no Brasil, que destaco o filme
invocado no título da resenha: “Preciosa - Uma História de
Esperança.”
Gabourey Sidibe
rouba a cena com a personagem Preciosa. Vítima dos piores de
violência: social, racial, psicológica, sexual, ela persiste indo à
escola. Ainda que não fale, que não tenha amigos na escola, ou mesmo
que o menino bonito não a olhe. Seu gosto por matemática se
sobressai, de alguma maneira uma forma de ludibriar a aspereza
cotidiana.
Para PINTO (2010, p. 7):
“Um êxito tipo século 21, politicamente correto: uma atriz
estreante, negra e imensamente gorda; um filme sobre pobreza em
todos os seus sentidos, econômica, afetiva, de caráter.”

Preciosa surpreende
por ter ganhado o Prêmio da Academia? A mim, sim. Quando convidei
uma amiga para ir comigo ao cinema, ao ser questionada por ela se o
filme ia lotar, brinquei: “-Quem além de nós irá ver essa
representação no cinema?” Eu, obviamente, mulher negra e
pesquisadora do assunto há alguns anos. Ela, pela humanidade e
interesse no filme, já que trabalhamos no mesmo espaço: a escola.
Agradável surpresa a
minha: sala lotadíssima, público de idade variada, antes ainda de
sair o resultado da premiação. Preciosa já deixava as suas
marcas. A história da adolescente negra estuprada e engravidada pelo
pai, sob o cúmplice olhar da mãe, faz-nos chorar: revela traços da
sociedade que muitas vezes não presenciamos. A protagonista não tem
os rostos que costumamos ver no telão, tem pele, cor, cabelo de
negro. Sonha em ser outra, mas a realidade não parece muito
promissora.
Na escola há a preocupação
por outra gravidez na adolescência: é ocultado que o pai dos seus
filhos seja seu próprio pai. Sua filha mais velha é portadora de
síndrome de Down e afastada de Preciosa, mora com a avó.
Filme rico de elementos a serem discutidos em uma sala de aula, seja
com adolescentes ou adultos.
Para PINTO (2010, p.7):
“Ou seja, um balaio de emoções que, certamente, deixou os membros da
Academia de Hollywood gratificados por terem a oportunidade de se
mostrarem tão conformes com as questões de nossa época.”

Confesso, apesar de
assistir muitos filmes premiados ou não, estar ainda surpresa com o
prêmio. Realmente não esperava, embora torcesse de coração.
Preciosa merece aplausos em pé. História que gostaríamos que
jamais tivesse acontecido, mas que pode acontecer todo o tempo e não
nos damos conta. Estou mais entusiasmada com os prêmios. A partir
deste ano, já os começo a olhar de outra maneira.
Os filmes de outros anos
costumavam não me agradar, obrigando-me a optar por um cinema mais
alternativo. O filme em questão veio mostrando que, podemos nos
surpreender e para melhor. Nem só protagonistas e coadjuvantes
loiras e brancas fazem bons filmes. Há também outros atores e
atrizes na espera de mostrar um bom trabalho. E que todos possam
conquistar seus espaços nesse mundo cada vez mais colorido e
heterogêneo. Parabéns Preciosa!
Referência Bibliográfica
PINTO, Céli Regina Jardim.
Direito à fala: O filme “Preciosa” trata de uma questão
decisiva da modernidade, a possibilidade de ouvirmos uns aos outros.
Jornal Zero Hora, sábado, 13 de março de 2010.
Preciosa
(Precious: Based on the Book “Push” by Sapphire)
Elenco: Mo'Nique , Paula Patton, Mariah Carey, Gabourey Sidibe,
Sherri Shepherd, Lenny Kravitz, Chyna Layne.
Direção: Lee Daniels
Gênero: Drama
Duração: 109 min.
Distribuidora: Playarte Pictures