Resumo: Esse artigo
evidencia caminhos históricos da educação especial no Brasil
atravessados por processos políticos e sociais. Nesse sentido,
coube remontar o passado da educação especial, perpassando pela
evolução histórica das políticas públicas inclusivas. Nessa
direção tomam-se posicionamentos frente aos processos de inclusão
educacional, bem como sua efetivação no ensino regular.
Palavras chaves:
educação especial, inclusão, políticas públicas.
Abstract: This paper
shows historical paths of special education in Brazil through
political and social processes. In this context, the past of
special education was reassembled considering the historical
development of inclusive public policies. Along with these lines,
positions are taken in relation to of these inclusion processes,
as well as its implementation in mainstream education.
Keywords: special
education, inclusion, public policy.
Para começar
Existe um espectro
segregacionista que vem sendo camuflado desde os séculos passados,
quando o deficiente era visto como um ser maléfico. Na Grécia, as
crianças com deficiência eram abandonadas como forma de excluí-las
da sociedade. Já na idade média, essas pessoas eram vistas de
forma ambígua pela sociedade, que por um lado condenava o
deficiente ao sacrifício como forma de purgação dos pecados de
seus semelhantes e por outro adotavam a imagem de seres divinos (CASARIN,
1997).
O Cristianismo foi uma
das primeiras correntes a modificar essa imagem e considerar o
deficiente como “[...] criatura de Deus” (CASARIN, 1997, p. 215).
Porém, mesmo estimulando a criação de lugares específicos para
instalar essas pessoas, conhecidos mais diretamente como depósitos
humanos, não lhes garantia uma educação especializada ou uma
preocupação efetiva com seu desenvolvimento. Sassaki lembra que:
Se algumas culturas simplesmente eliminavam as pessoas
deficientes, outras adotaram a prática de interná-las em grandes
instituições de caridade, junto com doentes e idosos. Essas
instituições eram em geral muito grandes e serviam basicamente
para dar abrigo, alimento, medicamento e alguma atividade para
ocupar o tempo ocioso (1997, p. 10).
Influenciados por
Portugal, no século XVI, o Brasil passou a voltar sua atenção ao
atendimento para deficientes através do desenvolvimento de
trabalhos realizados pelas Santas Casas de Misericórdia,
espalhadas por todo país (JANNUZZI, 2004). No entanto, o
atendimento incluía, além de deficientes físicos e mentais,
pessoas doentes e sem recursos financeiros, destacando o caráter
assistencialista voltado à caridade e ignorando um atendimento
especificamente educacional.
Até o Século VIII, a
concepção de deficiência ainda estava ligada ao misticismo e
ocultismo, porém já no século XIX, dava-se início a um trabalho
mais restrito e direcionado ao deficiente, ainda que
especificamente a cegos e surdos. Em 1854, mantidos pelo poder
central, o governo criou o Imperial dos Meninos Cegos e mais tarde
o Instituto dos Surdos-Mudos na cidade do Rio de Janeiro (JANNUZI,
2004). Mesmo sendo uma instituição com fins políticos, a fim de
atender os interesses sociais da alta burguesia, deve-se
considerar um avanço significativo e propulsor de uma educação
especializada no país.
Paradigmas da
educação especial
Durante muito tempo os
atendimentos as pessoas com necessidades especiais eram realizados
em hospitais psiquiátricos. Segundo Jiménez (1997), Nessa fase, a
deficiência era tida como uma patologia, trazendo assim a
concepção de cura do sujeito. Esse era o modelo médico da
deficiência, com o intuito de adequar o sujeito à sociedade para
assim ser incluído. Essa concepção clínica sob a educação do
deficiente teve tal influência devido a atuação de médicos como
diretores e professores nessas instituições. Esse modelo exigia a
adaptação do deficiente a um mundo normalizado, sendo preciso
“[...] ser mudado por profissionais através da reabilitação ou
cura” (FLETCHER, 1996, p. 25).
Mais tarde a deficiência
passou a ser vista pela medicina como doença incurável surgindo
então o paradigma da institucionalização que visava o atendimento
de pessoas com deficiência em ambientes especializados onde os
deficientes muitas vezes eram “depositados” e esquecidos pela
sociedade. A partir de 1930, começou uma mobilização social mais
engajada pela situação do deficiente no País. Com isso, o governo
brasileiro estimulou ações que visavam a garantia da educação
especializada para deficientes, criando com isso escolas especiais
em conjunto a hospitais e instituições de caráter filantrópico (JANNUZI,
2004). Segundo Sassaki (1997, p.31) “[...] a década de 60, por
exemplo, testemunhou um boom de instituições
especializadas, tais como: escolas especiais, centros de
habilitação, centros de reabilitação [...]”
Movidos pela idéia de
igualdade estabelecida na Declaração Universal dos Direitos
Humanos em 1948, o governo passou a se mobilizar e implementar
serviços de reabilitação profissional visando prepara os
deficientes para a integração ou reintegração na sociedade (SASSAKI,
1997).
Durante a fase de
integração social, desde a década de 50 e ao longo da década de
70, as pessoas com deficiência eram atendidas apenas em escolas
especiais e, a partir daí, “inseridas” na sociedade. Porém,
segundo Sassaki, (1997, p. 34) isso só aconteceria se o aluno em
questão alcançasse “[...] um nível de competência compatível com
os padrões sociais vigentes”.
Efetivava-se então a
idéia de normalizar o sujeito que segundo Mantoan (1997b, p. 120)
“[...] visa tornar acessível às pessoas socialmente desvalorizadas
condições e modelos de vida análogos aos que são disponíveis de um
modo geral ao conjunto de pessoas de um dado meio social”. Essa
fase constituiu-se com o paradigma de serviço, tendo como método a
utilização de serviços profissionais diferenciados para modificar
o indivíduo e adequá-lo a sociedade podendo somente assim serem
inseridos nesse meio.
Essa concepção de
integrar o deficiente à sociedade começou a ser revista e
repensada no final da década de 80, tendo em vista que esse modelo
não contemplava “[...] plenamente os direitos de todas as pessoas
com deficiência, pois a integração pouco ou nada exige da
sociedade em termos de modificação de atitudes [...]” (SASSAKI,
1997, p.35).
E se consolida um
novo paradigma político educacional
Em 1990 começou então a
se estruturar um movimento mundial na busca da educação para
todos, quando o Brasil participou do encontro na Tailândia,
denominado de Declaração de Jomtien. Com isso começou a idéia da
construção de espaços inclusivos para deficientes e com ele o
surgimento do paradigma de suporte que propunha uma concepção mais
coerente da proposta inclusiva, tendo em vista o caráter de
modificação e adaptação social para o portador de necessidades
especiais. Quatro anos mais tarde uma nova reunião entre alguns
países dava continuidade à idéia de Educação para Todos com a
Conferência Mundial sobre Necessidades Educacionais Especiais,
denominada Declaração de Salamanca. Nessa conferência o Brasil se
comprometeu a transformar os sistemas de educação em espaços
inclusivos. Destacam-se alguns trechos dessa conferência, onde são
expostas as principais referências às ações governamentais:
Capacitar escolas inclusivas comuns para atender todos os alunos,
em particular aqueles que são portadores de necessidades especiais
(...). Caminhar rumo a escola para todos – um lugar que inclua
todos os alunos, celebre a diferença, apóie a aprendizagem e
responda às necessidade individuais (1994, p. iii,).
Nesse mesmo ano, foi
publicada a Política Nacional de Educação
Especial (1994, p.19) que sugere o acesso às escolas inclusivas
àqueles que ““ [...] possuem
condições de acompanhar e desenvolver as atividades curriculares
programadas do ensino comum, no mesmo ritmo que os alunos ditos
normais”. Essa política ressalta a importância de não generalizar
ou homogeneizar de forma “abrupta” o ensino a esses alunos, no
entanto pode com isso desvalorizar uma potencialidade individual
do aluno, procurando adequá-lo às atividade curriculares.
Mais tarde, em 1996, foi
publicada a nova lei de Diretrizes e Bases
da Educação Nacional 9.394/96, trazendo também no capítulo V,
inovações para a Educação Especial, garantindo a inclusão de
“deficientes” na rede regular de ensino desde a educação infantil.
Art. 58. Entende-se por educação especial, para os efeitos desta
Lei, a modalidade de educação escolar, oferecida preferencialmente
na rede regular de ensino, para educandos portadores de
necessidades especiais.
§
1º. Haverá, quando necessário, serviços de apoio especializado, na
escola regular, para atender às peculiaridades da clientela de
educação especial.
§
3º. A oferta de educação especial, dever constitucional do Estado,
tem início na faixa etária de zero a seis anos, durante a educação
infantil.
Em
2001 instituiu-se, na resolução CNE/CEB nº
2/2001, as Diretrizes Nacionais para a Educação Especial na
Educação Básica, que manifesta o compromisso do país em construir
coletivamente condições para atender a diversidade de seus alunos.
Também em 2001, o Plano
Nacional de Educação comenta na lei nº 10,172 (2001, p.3) que
“o grande avanço que a década da educação
deveria produzir seria a construção de uma escola inclusiva que
garanta o atendimento à diversidade humana”.
A
Convenção da Guatemala (1999), promulgada no Brasil pelo Decreto
nº 3.956/2001, aponta aspectos relevantes sobre a exclusão dos
alunos com necessidades educacionais especiais, definindo como
discriminação qualquer ato que impeça essa pessoa no seu exercício
de liberdade social. A repercussão desse decreto exigiu que a
educação especial colocasse em foco aspectos relativos a
diferenciação, evitando assim qualquer barreira para efetivar a
inclusão desse alunos.
Com esse atual paradigma
da inclusão, a escola tem o dever de adequar-se as necessidades do
aluno e respeitá-lo em sua diferença (SASSAKI, 1997).
Surge então uma
problemática em torno da efetivação da inclusão sob um ponto de
vista negativo. Isso se reflete no despreparo de muitas escolas
ditas inclusivas, sendo que um dos aspectos mais importantes
destacados pelas políticas públicas é a necessidade de habilitar
profissionalmente e estruturar o espaço físico dessas escolas.
Mergulha-los em um meio normal sem as devidas precauções,
testemunha uma ignorância grave dos mecanismos de aprendizagem
destes sujeitos que podem ter uma conseqüência grave, ou seja, o
crescimento do retardo (IDE, 1997, p. 212).
O sucesso da efetivação
das políticas públicas inclusivas no ambiente escolar depende
essencialmente do processo de gestão promovido dentro das escolas,
buscando uma sensibilização e estimulando a formação continuada a
fim de capacitar principalmente profissional para o trabalho
inclusivo.
No entanto, é preciso
compreender, que muitos professores não habilitados e
despreparados para esse trabalho poderão sofrer um desgaste
profissional, prejudicando principalmente o aluno incluído.
Por isso, evidencia-se
que a “[...] inclusão é um processo que não vai ocorrer por
decreto de legisladores!” (CARVALHO, 1997, p. 204), dependerá sim
de um conjunto de fatores, comunitários, escolares e familiares,
não podendo ser vista apenas como um problema governamental.
Conclusões: Para
refletir
De qualquer forma, as
leis estão postas e evidentemente sendo implementadas. No entanto,
a sociedade não pode, obrigatoriamente, aprender a gostar e
aceitar dos deficientes apenas por uma imposição política (GLAT,
1995). Os alunos com necessidades especiais não podem arriscar-se
a passar por situações de exclusão, por isso, o processo inclusivo
deve ser minucioso e com garantia de sucesso.
Figueiredo (2002, p.68) destaca que “[...]
Inserir na escola aqueles que dela foram
excluídos, sem que esta seja redimensionada dentro de um novo
paradigma, é dar continuidade ao movimento de exclusão.” Com isso,
mesmo considerando as diretrizes e políticas educacionais, o
processo de gestão das escolas especiais deve ser dinâmico e
flexível, proporcionando sobre tudo o desenvolvimento educacional
do aluno.
Lück (2006, p.111) defende que o processo de gestão deve ser
estabelecido “[...] com métodos que
organizem e criem condições para um ambiente educacional
autônomo”. É a partir disso que se questionam aspectos da Política
Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva
(2008), que em sua proposta generaliza a
inclusão exigindo que todos os alunos, independente de seu nível
ou grau de comprometimento, sejam incluídos no ensino comum. O
objetivo principal desse regimento é
Assegurar a inclusão escolar de alunos com deficiência,
transtornos globais do desenvolvimento e altas habilidades/superdotação,
orientando os sistemas de ensino para garantir: acesso ao ensino
regular, com participação, aprendizagem e continuidade nos níveis
mais elevados do ensino; transversalidade da modalidade de
educação especial desde a educação infantil até a educação
superior; oferta do atendimento educacional especializado;
formação de professores para o atendimento educacional
especializado e demais profissionais da educação para a inclusão;
participação da família e da comunidade; acessibilidade
arquitetônica, nos transportes, nos mobiliários, nas comunicações
e informação; e articulação intersetorial na implementação das
políticas públicas (2008, cap. IV)
No
entanto, evidencia-se que o processo de inclusão deve ser além de
numericamente garantido por lei, efetivo para todos os alunos,
apoiado em uma estrutura que tenha por base profissionais
competentes os quais possam garantir a consolidação da proposta
inclusiva. “A inclusão é, pois, um motivo para que as escolas se
modernizem e os professores aperfeiçoem suas práticas [...]”
(MANTOAN, 1997, p.120).
Assim, não há chances para erros, pois os alunos não podem ser
cobaias de uma experiência que pode não ser exitosa. Precisamos
entender que a “Inclusão não é apenas colocar uma criança
deficiente em uma sala de aula ou em uma escola. Esta é a menor
peça do quebra cabeça” (FOREST & PEARPOINT, 1997, p.138).
O
processo de inclusão ainda é muito discutido e questionado,
considerando a falta de estrutura pedagógica de muitas escolas
ditas inclusivas. A educação, considerada para todos, vem muitas
vezes ao desencontro de nossa realidade, “[...]
a idéia é muito mais ampla do que
simplesmente inserir no ensino regular a criança com deficiência”
(FIGUEIREDO, 2002, p. 67).
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