RESUMO:
O processo de leitura é um processo complexo que transcende
a simples decodificação da língua escrita. Desse modo é pertinente
considerarmos a amplitude desse processo bem como destacar que
este se configura desde tempos remotos como ato social. Em outras
palavras o processo de lecto-escrita por muito tempo esteve
atrelado a uma condição de poder exercida por grupos hegemônicos.
A compreensão desse processo,
sua historicidade nos permite traçar novos discurso a cerca
da importância do ato de ler para processo de ensino-aprendizagem
nos dias de hoje.
INTRODUÇÃO:
A prática da
leitura é um processo que transcende a uma decodificação do código
escrito da língua. Em outras palavras, o ato de ler conduz a
estruturas diferenciadas e organização lexical que provém do
contexto e está diretamente relacionada com contexto pelo qual a
mensagem se torna significante
em dado momento para os indivíduos que a ela tem contato.
Dessa forma o presente artigo visa promover uma discussão e
conduzir a uma reflexão sobre esse processo e sua importância
deste desde seu processo histórico de evolução.
Para que
consigamos conceituar o processo de leitura, devemos compreender o
processo de linguagem escrita em toda sua complexidade. Isto é, em
sua caracterização visual, como ocorre esse processo, também o
signo de poder que a linguagem escrita representa e representou
com o passar dos anos. Diante dessa perspectiva, procuro
demonstrar com embasamento teórico de Jorm (1985), Focaumbert
(1994) e Lodi (2004), Orlandi (2006) minha posição frente à
referida temática.
Segundo Jorm
(1985), o processo de leitura dá-se da seguinte forma: a leitura é
vista como um processo de cima para baixo, dessa forma, o leitor é
guiado pela expectativa do que está impresso na página. O leitor
utiliza seu conhecimento de mundo, seu conhecimento da linguagem e
seu conhecimento dos sinais, para prever quais informações estão
contidas na página a ser lida.
Desta forma, o leitor testa a informação da página, em vez de
processar letra por letra e palavra por palavra, ele é capaz de
selecionar apenas a informação relativa às suas expectativas. O
leitor se fixa na mensagem que o texto traz, e não somente na
codificação de símbolos. Portanto, o objetivo final da leitura é
determinar o significado do texto que está sendo lido.
Um segundo
mecanismo que utilizamos para o processo de leitura é o uso da
informação visual da palavra impressa para obter sua pronúncia,
talvez utilizando algum tipo de regra para relacionar as letras
aos seus sons, usando a pronúncia para chegar ao significado
léxico mental. Assim, primeiro se tem a codificação do símbolo
para depois se ter um significado. Por isso dizemos que a
linguagem é complexa, pois ela atinge diversas áreas cerebrais.
Dessa forma, este processo de repetição da palavra da palavra que
não é conhecida em voz alta serve como memória auditiva. Em outras
palavras, isso significa que toda vez que a palavra for solicitada
logo chegará à memória do som que a mesma possui e se associará ao
significado correspondente.
A leitura em
sua complexidade não está limitada apenas ao processo de
decodificação de uma língua, mas sim ao contexto a qual nos
referimos ao ler. Segundo Jean Foucambert, entre 1960 e 1970, a escola
confrontou-se com um problema de leitura que não conseguiu
superar. Até essa data, o saber ler era confundido com a
possibilidade de se atribuir um significado ao escrito,
transformando-o em oral. Em outras palavras, a leitura não está
além da decifração, ela tem outro sentido. Este sentido se refere
ao contexto cultural o qual estamos inseridos, ou seja, o ato de
ler nos remete a um mundo desconhecido, bem como a
posicionamentos diferenciados. Em suma, este ato sim nos mostrará
a importância da leitura no contexto cultural a qual estamos
inseridos.
Por
conseguinte, ler também significa ser questionado pelo mundo e por
si mesmo. Isso quer dizer que certas respostas podem ser
encontradas na escrita, signiica, também, a construção e uma
resposta que integre partes de novas informações ao que já se é (Foucambert,
1994). Enfim, o ato de ler nos remete à descoberta de um mundo que
antes não havíamos conhecido, é questionar, é emocionar-se com o
que representa o mundo do autor. Uma vez que a leitura nos permite
uma das melhores formas de interação com o mundo.
Em outras
palavras, é um processo que leva à compreensão que há diversidade
de idéias e pensamentos, também, através da leitura que podemos
mudar nosso pensamento e compreender o pensamento do outro. Neste
contexto, controlar a leitura significa obter informação sobre o
questionamento inicial, discutir as estratégias de exploração. Por
conseguinte, medir o caminho percorrido; significa também formular
um juízo sobre o escrito.
Em acordo
com Foucambert (1994), o ato dele não consiste em encontrar o oral
no escrito. A correspondência aproximativa com o oral é uma
característica suplementar, que não afeta, porém, os processos de
leitura. A escola, ainda, prefere explorar a língua escrita sem
apelar para memória visual, concentrando fogo no domínio de um
código de correspondência muito aproximativo; depois se lamenta
pelo fato das crianças não saberem ler e cometerem erros de
ortografia. Ainda se confunde oralização, leitura e leitura em voz
alta (ORLANDI, 2006).
A oralização
é a atividade que permite construir uma cadeia oral a partir do
escrito. A leitura é atribuição de um significado ao texto
escrito: 20¢ de informações visuais, provenientes do texto; 80% de
informações que provém do leitor, o resto é informação sonora.
Segundo Foucambert (1994) a leitura em voz alta é um comportamento
enxertado à leitura, defasado em alguns segundos: é a opção de
traduzir oralmente o que já foi compreendido na leitura.
Na história
da escrita e sua evolução, atribuíram a este termo um significado
que não condizia coma realidade. Com relação ao contexto histórico
o qual a linguagem se insere, segundo Barchês & Mauriés (apud LODI,
2002, p. 19), por dois milênios a escrita esteve ligada a uma
casta de funcionários ligada ao poder. Ela chegou ao mundo laico
apenas no século XIII, determinando o surgimento de uma corporação
de escritores dotados de privilégios. Assim, com expansão dos
conhecimentos da linguagem escrita, a leitura silenciosa, antes da
escrita aos escribas monásticos, chegou a universidade a tal
prática estendeu-se, principalmente no século XIV, aos cortesãos
aristocratas (LODI, 2004).
Neste
contexto, a difusão da prática da leitura silenciosa permitiu o
estabelecimento de uma relação com a leitura mais íntima e mais
reservada, uma leitura rápida e especializada; conseqüentemente
passou-se a ler mais na medida em que esta ocorria mais
rapidamente. No entanto, essa prática ainda era restrita a uma
minoria de privilegiados da aristocracia européia; poucos tinham
acesso a ela e dela faziam uso.
Na época da
descoberta dos povos latinos, pelos europeus, a escrita começa a
ganhar prestígio em nossas terras, pois, a fim de consolidar a
nova ordem política, era necessário que os atos de fundação e as
escrituras de posse de terras fossem registrados. Dado o caráter
permanente da escrita, esse material ganharia certa autonomia e
manter-se-ia livre das vicissitudes das metamorfoses da história (LODI,
2004).
Paralelamente ao projeto de evangelização dos nativos, cabia
também aos jesuítas atender ás necessidades de outra parcela da
população que aumentava de forma considerável a dos brancos
nascidos na nova terra, tidos como aqueles que possuíam maior
facilidade e aptidão para a escrita e que representavam as classes
de poder. Esse projeto contribui para a formação de um pequeno e
novo grupo que, em subordinação direta à metrópole, tornou-s
especialista na manipulação da linguagem escrita, passando a
desempenhar papel de destaque na administração colonial. Rama
(1996) chamou esse novo grupo social que se constituía de cidade
letrada. No centro de cada cidade havia uma versão da cidade
letrada, cuja função era tratar e cuidar dos mecanismos políticos
de poder (LODI, 2004).
As diversas
linguagens sociais em circulação em todas as esferas, embora
resistissem e fizessem oposição às forças de unificação
lingüística e cultural, num processo contínuo de desunificação e
de descentralização lingüística e ideológica, eram tidas como
inferiores e, portanto, funcionavam como uma forma de exclusão
social, pois a hierarquia cristalizada pela língua servia aos
processos de centralização sociopolítico e cultural, como forma de
perpetuação da ideologia dominante.
No entanto,
absorvendo todos os tipos de contribuições e apesar das
resistências dos letrados crescia se desenvolvia uma miríade de
variações regionais, uma linguagem própria, nascida nas diversas
regiões e países do Continente Americano, aquela da maioria da
população. Desse modo, a cidade letrada manteve-se, assim,
inalterável quanto á sua posição social, contrariando o
desenvolvimento das cidades, cuja existência histórica permitia
transformações sociais. Os conflitos entre as duas eram
inevitáveis e, dados os conhecimentos adquiridos e transmitidos
por seus antecessores pela escrita, os letrados desenvolveram
formas de adaptação às transformações sociais, tornando-se uma
classe cada vez mais independente. Essa independência deveu-se,
principalmente, a dois fatores: ao alto grau de autonomia
conseguindo dentro da grande estrutura do poder e sua avaliação
intelectual frente às transformações que a ameaçavam; e à
percepção quanto às limitações de suas ações associadas à sua
dependência ao poder real na regulagem de ordem social hierárquica
(LODI, 2004).
Nos dias de
hoje, nossas escolas muitas vezes monopolizam ato de ler, ao não
conscientizarem seus alunos da importância que este ato tem em
suas vidas. Desde pegar um ônibus ao ir ao supermercado, a leitura
é importante. Não para decorar códigos, mas sim para que se tenha
inteira compreensão do mundo letrado que a sociedade globalizada
se encontra. Por fim, a leitura não pode ser confundida como foi
no passado, nem usada como símbolo de poder. Mas
sim deve ser utilizada como veículo para levar informação em todos
os cantos do globo. Tornado os indivíduos conscientes de seu papel
em sociedade e agentes construtores de seus processos de
aprendizagem.
Ao
compreendermos todo processo que demanda o ato de ler e sua
significância nos diferentes contextos históricos podemos lançar
ancoras a compreensão da amplitude desse ato para práticas
educacionais da atualidade. Assim considerando não mais a leitura
e escrita como processo de privilégio de uma minoria que detém o
poder, mas sim como direito de todos os sujeitos indistintamente.
As práticas educacionais da atualidade devem proporcionar a aos
educando meios eficazes para que se tornem agentes construtores de
suas aprendizagens, enfim, conduzi-los a descobrir na leitura um
novo mundo repleto de significações antes nunca descobertas.
Em outras
palavras ao compreender o mundo os sujeitos tornam-se condutores
de informações fruto de uma construção sadia que permeia as
construções do imaginário. Ao compreender essa premissa e
considerar o processo histórico que o ato de ler abrangeu para a
evolução da humanidade, os educadores podem desenvolver novas
reflexões a cerca de sua prática educacional e buscar novos
discursos, novos conceitos que expliquem, abarque, compreenda esse
fenômeno pelo fato de transcender a decodificação de uma língua,
ou seja, um processo complexo que conduz ao ato de ler.
REFERENCIAS
ORLANDI, E. Discurso e
textualidade. Org. Suzi Lagazzi-Rodrigues. Campinas: Pontes,
2006.
FOUCAMBERT, J. A leitura em
questão. Trad. Bruno Charles Magne. Porto Alegre: Artmed,
1994, p. 03-27.
LODI, A. C. B. O poder da
escrita e a escrita do poder. Lodi ET AL. Leitura e escrita: no
contexto da diversidade. Porto Alegre: Mediação, 2004, p.
19-26.
JORM, A.F. Psicologia das
dificuldades em leitura e ortografia. Trad. Maria Cristina R.
Gulart. Porto alegre: Artes Médicas, 1985.