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O
ato de escrever torna-se bastante difícil para os alunos de língua estrangeira
quando não orientados adequadamente pelo material didático escolhido e,
principalmente, pelo professor. O material didático, por ser elaborado com a
finalidade de atender a um público bastante complexo, muitas vezes não atende às
necessidades específicas de nossos alunos. Nós, profissionais da área, estamos
ali como facilitadores do processo de aprendizagem, tendo o dever, portanto, de
atender às necessidades de nossos alunos.
Por ter sido por um longo período de tempo deixada de
lado em prol de habilidades como a fala e a compreensão oral, a escrita,
juntamente com a leitura, é considerada maçante por alunos que dizem não saber o
que colocar no papel e por professores que torcem o nariz ao ver aquela pilha de
composições para corrigir.
Hoje, com a Internet, a necessidade de comunicação
em língua estrangeira vem requisitando cada vez mais a escrita. Não podemos
dizer que a comunicação através de bate-papos e e-mails é oral. Ela é escrita,
apenas um pouco diferente das propostas tradicionais. O aluno de língua
estrangeira passa a “conversar” através do texto escrito, maravilhando-se diante
dessa forma de interação.
Diante da necessidade do aluno de desenvolver a escrita, deve-se adotar uma
postura mais interativa quanto às correções e feedback dos textos escritos de
nossos alunos, tornando-os um processo ativo e não passivo, um processo de
interação e não de risca-risca, quando os trabalhos dos alunos voltam a eles
cobertos de tinta vermelha sem justificativa alguma.
O Papel do Professor
No
afã de termos os nossos alunos escrevendo “corretamente” em língua estrangeira,
assumimos a posição de caçadores de erros todas as vezes que temos em nossas
mãos textos produzidos por eles. Passamos a retornar os trabalhos de nossos
alunos de uma maneira mecânica, tendo em mãos apenas a velha caneta vermelha e
na cabeça a convicção de ser o especialista em língua estrangeira, rabiscando e
cortando palavras, mecanicamente, colocando a resposta certa (como se só
houvesse aquela), alterando a produção escrita de nossos alunos, como se fosse
nosso o texto. Agimos como se estivéssemos lendo um rascunho nosso, alterando e
“melhorando” o texto, usando marcas que nos são conhecidas. Mas e o nosso aluno,
aquele que receberá de volta o seu texto?
A grande maioria não volta a olhar para ele, pois se
já está totalmente refeito e “correto” não há o menor motivo para revê-lo.
Refazê-lo da maneira que se encontra seria fazer uma cópia e não uma reflexão de
seu trabalho escrito.
O’Muircheartaigh, em seu artigo intitulado
Giving Feedback On Students Work (Dando retorno às atividades
escritas dos alunos),
diz serem três os papéis do professor ao avaliar os textos escritos de seus
alunos: o de leitor, professor de escrita e especialista na língua estrangeira.
O leitor interage com a produção escrita dos alunos e
expressa a sua opinião diante das idéias colocadas no papel através de
comentários do tipo “Eu vi esse filme e também não gostei”
ou algo que faça com que o aluno sinta que está interagindo com você, o leitor
de sua produção escrita.
O professor de escrita ajuda o aluno com a escrita,
vendo o texto como um todo. A análise vai dos elementos estruturais à
organização textual, coerência, às marcas discursivas, etc. Também de muita
importância, levando-se em conta que os alunos muitas vezes têm dificuldades de
escrever até mesmo em sua língua materna.
O perito na língua estrangeira analisa o texto quanto aos erros
de ortografia, gramática e problemas afins, sem relacioná-los ao texto como um
todo, ou seja, no estilo tradicional, seguido pela maioria.
São papéis importantíssimos esses que o professor desempenha ao
ler cada texto de seus alunos, pois os mesmos retornarão às mãos deles, e quanto
mais interação professor-aluno, melhor será o desempenho do aluno em sua
produção.
Portanto, depende em grande parte do professor a revisão dos
trabalhos escritos de seus alunos. Cabe a ele desenvolver (com a colaboração do
aluno, é claro) a habilidade da escrita de forma clara, com um feedback também
claro, objetivo e, acima de tudo, interativo.
As Diversas Formas de Correção e Feedback
Formas de correção e feedback não faltam. São
inúmeras por serem inúmeros os tipos de aprendizes que temos, com diferentes
capacidades, diferentes estratégias de aprendizagem. Temos técnicas, estratégias
e dicas que vão desde a mais pura lingüística estrutural até a mais lúdica e
interativa. Toda sugestão é válida, desde que se observe o perfil de cada aluno.
Abaixo seguem algumas das técnicas, citadas por O’Muircheartaigh (2003):
a) Correção por códigos. O aluno escreve o seu texto em linhas
alternadas, deixando uma linha para o professor usar o código abaixo do que se
pretende questionar. O professor, depois de avaliar o texto, baseando-se nos
códigos previamente entregues ao aluno, devolve o texto para que o aluno o
refaça e o entregue novamente.
Há quem acredite que é a técnica que mais se aplica, por ter o
aluno procurando a forma adequada, aprendendo com os seus erros, baseado na
orientação dada pelo professor em códigos. Vejo várias limitações quanto ao uso
da técnica isoladamente, pois leva o aluno a perder a noção da coerência textual
em busca de erros estruturais, apenas.
b) Quadros de Marcar. Os quadros de marcar levam o aluno a uma
reflexão um pouco mais profunda de seu texto, sozinho ou com a presença do
professor. O aluno deve marcar num quadro previamente elaborado pelo professor
os conceitos ‘excelente’, ‘bom’, ‘adequado’ e ‘inadequado’ para cada um dos
pontos sugeridos, relacionados ao seu texto.
c) Conferências Individuais. As conferências individuais envolvem
interação direta, cara-a-cara. O professor dá ao aluno algumas perguntas para
que o aluno reflita (geralmente pontos relevantes para seu texto escrito),
considerando suas idéias e a organização textual. Após o encontro com o
professor, o seu texto é refeito e entregue novamente.
d) Troca de Textos escritos. A troca de textos escritos entre
alunos permite que um aluno comente o texto do outro. Os alunos podem ser
direcionados pelo professor através do preenchimento de um questionário, usado
como base para os comentários a serem feitos sobre o texto dos colegas. Depois,
havendo tempo, os alunos refazem os textos baseados nos comentários que julgarem
relevantes.
e) Comentários por escrito. Os comentários por escrito envolvem
uma reflexão do professor sobre o texto de seu aluno. Devem ser claros e
interativos, como já mencionado acima. O aluno deve ter a sensação de que está
realmente se comunicando com o professor, que o feedback que está sendo dado é
de todo o texto, incluindo da organização das idéias à ortografia das palavras.
Ravichandran (2002) divide os comentários feitos pelo professor
em direcionados e facilitativos. Os direcionados funcionam através de
comentários que julgam a competência dos alunos para a escrita, que os levam a
mudar o seu texto, que procuram por informações adicionais. Os facilitativos
expressam as sugestões e idéias do professor, assim como encorajam o aluno
através de elogios aos pontos fortes de sua competência escrita. Enquanto um
comentário direcionado seria “não use primeira pessoa na sua conclusão”, o
facilitativo seria: “Eu acho que seria melhor se você usasse terceira pessoa na
sua conclusão”.
f) Gravação dos comentários em fita cassete. Uma variação
bastante interativa, mas que exige recursos, é a gravação dos comentários em
fita cassete, entregando-a ao aluno. Dessa forma, a interação se dá através da
própria voz do professor, ajudando o aluno, inclusive, na compreensão oral.
g) O auto-monitoramento é também citado por alguns autores, que
diferem na forma de aplicação. À medida que surgem dificuldades durante a
composição do texto, o aluno escreve e numera a estrutura ou parte do texto que
o faz sentir-se inseguro quanto ao uso, ou até mesmo quanto à organização
textual, detalhando no final da página a sua dúvida. O professor responde a
todas as dúvidas, incluindo os comentários que achar necessários.
Uma Experiência de Sala de Aula
Diante das várias opções de correção e feedback
sugeridas pela literatura em geral, coloco-me entre a caneta e (por que não?) o
computador. Gosto muito de variar, e claro, procuro conhecer o meu aluno e suas
estratégias de aprendizagem.
Por ter certas restrições quanto ao uso de códigos
para corrigir os trabalhos escritos dos meus alunos, procuro integrá-los às
diversas técnicas, nunca usando-as isoladamente. Como já salientei, acredito ser
bastante restrita a avaliação, pois, por ela, não se tem condições de
transformar toda a reflexão do texto em forma de códigos, acabando por
transformá-la em mera correção estrutural e ortográfica.
As variações incluem uma mistura de técnicas, de modo
a me deixar inteiramente à disposição para qualquer tipo de esclarecimento sobre
as idéias que tenho a respeito dos trabalhos escritos, não esquecendo jamais o
meu papel enquanto leitora, professora de escrita e especialista. Seja qual for
a forma usada, procuro desempenhar os três papéis, fazendo o retorno ao trabalho
escrito o mais interativo possível. Se for o caso de riscar demais o trabalho do
aluno, o que muitas vezes não é aconselhável, pois deixa o aluno frustrado assim
que o recebe, entrego o trabalho junto com uma carta, contendo os comentários
sobre seu trabalho.
O retorno é geralmente muito bom, pois os alunos refazem o
trabalho, muitas vezes me procurando para esclarecer dúvidas e discutir alguns
pontos, o que considero bastante motivador.
Uma dessas misturas e variações me levaram a tentar algo bastante
inusitado. Certa vez, em que corrigia composições de alunos de uma turma, me
ocorreu que o retorno poderia ser bastante diferente dos que já havíamos tentado
em sala. Fiz cópias de todos os trabalhos e, na aula seguinte à correção,
convidei os meus alunos a terem o retorno escrito de seus trabalhos através do
ICQ, um programa de bate-papo. A tecnologia me ajudou a tornar diferente o
retorno individual aos meus alunos.
Conclusão
O feedback dado aos nossos alunos em seus trabalhos
escritos é de suma importância para o desenvolvimento de sua competência
escrita, pois somos nós os facilitadores institucionais.
Deixando de ser mecânico para ser interativo, o trabalho do aluno
é valorizado, ao invés de subjugado à perícia do especialista em língua
estrangeira, que tudo sabe, tudo vê. O ato de refazer o trabalho já é um sinal
de interação, desde que não seja através da cópia do próprio trabalho,
completamente alterado pelo professor.
Existe um leque de opções para que motivemos os nossos alunos a
escrever. Cabe a nós conhecer as estratégias de aprendizagem de nossos alunos e
levar até eles um pouco da nossa experiência enquanto leitores e escritores de
língua estrangeira.
Deixo aqui a sugestão de irmos à caça, não de erros, mas de
talentos. Vamos descobrir em nossos alunos os pontos fracos para que possamos
trabalhá-los e os pontos fortes, para que possamos estimulá-los, tornando o
processo da escrita uma fonte de comunicação e interação, fazendo o envolvimento
do aluno cada vez mais parte fundamental no processo.
Referências Bibliográficas
Ravinchandran, V.
(2002). Responding to Student Writing: Motivate, Not Criticize. Online
Journal of Language Studies. Current Issue – Vol.
2. Universiti Kebangsaan Malaysia.
Zeny, M.E. (2002)
Feedback on written production: a discussion. New Routes #17. Disal.
O’Muircheartaigh. S.
Giving Feedback on Students’ Work – seminar notes. Developing
Teachers.com. <http://linguaestrangeira.pro.br/artigos_papers/melhor_professor.htm>.
Online. 29 de abril de 2003.
Porte, G. K. (1993) Mistakes, Errors, and
Blank Checks. Forum – Vol. 31
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