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ISSN 1678-8419         última atualização em: quinta-feira, 06 de setembro de 2012 20:44:33                                               

 
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EDUCAÇÃO
A construção da profissão docente: processo que perpassa desafios pessoais e profissionais e dimensões individuais e coletivas.[*]    

Jamily Charão Vargas

publicado em 01/10/2008

          

As leituras, discussões e estudos que resultaram na elaboração deste artigo trazem inquietações atuais referentes à profissão docente e oportunizam uma reflexão sobre a construção do “ser docente” e os desafios mais recentes que implicam a profissão professor. Dessa forma, a partir desta escrita, busco dialogar com alguns autores elaborando uma sistematização de suas idéias e contribuições frente à temática, bem como construindo algumas considerações. Quando falo em construção da profissão docente, volto o olhar para um processo que vem sendo vivenciado ao longo de trajetórias pessoais e profissionais, abarcando dimensões individuais e coletivas dos professores. Acredito que falar deste processo complexo requer, primeiramente, entender como a nossa própria docência é construída, conhecer e compreender o que pode estar implicado nesta construção. Dessa forma, ao iniciar destaco aspectos que influenciam a construção da profissão docente e que podem ser valorizados a partir da reflexão do professor.

 

 Refletir uma trajetória de vida a fim conhecer elementos importantes para a construção da profissão requer rever os caminhos percorridos até o momento, enfatizando que o próprio indivíduo constrói a sua identidade profissional.

 

La referencia al SER no es aleatoria. Sintetiza aquello que nos proponemos destacar, en tanto la docencia amén de una función constituye en su forma encarnada una producción subjetiva y subjetivante. Ser docente es un modo de ser-siendo, un versión identitaria. (Kachinovsky, 2005, p. 52)

 

 

         Mais do que uma função ou uma profissão apreendida na formação inicial e desenvolvida na carreira docente, o “ser docente” é uma construção contínua, pois tornar-se professor depende de uma produção subjetiva e conjunta ao longo do tempo, produção esta que ocorre a partir de estudos teóricos, da troca de experiências, das práticas vivenciadas na profissão, etc. Nesse sentido, o “ser docente” implica uma contínua construção de novos conhecimentos e a ampliação de saberes durante toda a trajetória de vida.          

 

Segundo Kachinovsky (2005) há quatro categorias que podem ser consideradas os modos de ser dos professores, as quais ajudam no processo de reflexão docente: as “in-versiones” - lado escuro do professor, que o afasta de seu ideal; as “con-versiones” - aproximam o docente de seu ideal; as “per-versiones” - consideram o fato das instituições educativas não terem “anticorpos”; e as “di-versiones” - aproximam das percepções agradáveis da profissão. Essas quatro dimensões apontadas colaboraram para a reflexão dos professores, pois possibilitam classificar alguns elementos relevantes do processo de construção da profissão docente que se encaixam em cada uma dessas categorias. Dos muitos fatos que marcam a história de vida, tanto pessoal como profissional, alguns se tornam determinantes para a construção da identidade docente. Não é apenas o conteúdo da grade curricular na condição de aluno que se aprende, os conhecimentos são construídos também fora das salas de aulas, nas maneiras de agir e de se portar; não apenas nos livros, nas “matérias”, mas também nas vivências, nos acontecimentos que não se apagam da memória. 

 

 

A qualquer momento, o professor pode começar a se dar conta de muitos fatos que antes passavam despercebidos, como dificuldades em áreas específicas, problemas de relacionamentos com colegas e professores, experiências fracassadas no cotidiano de aluno e/ou de professor, fatos estes ele conseguiu superar. Estes fatos, segundo as categorias de Kichinovsky (2005), são classificados como “con-versiones”, pois não são fáceis de ser reconhecidos, mas aproximam dos ideais do docente no momento em que fazem perceber que ser docente é enfrentar desafios, fazer renúncias e escolhas, cumprir princípios, pois é buscar o novo, o desconhecido. Como aponta Kachinovsky (2005, p. 56) “La incursión en lo desconocido -si de eso se trata- no comulga en tiempos de certidumbres y aburrida calma”. O desafio é promotor de buscas, idéias, inovações, reflexões, humildade e coragem, virtudes estas que julgo necessárias para a profissão docente.  

 

Trouxe aqui alguns aspectos importantes sobre o processo de reflexão docente, pois acredito na relevância dos professores realizarem a auto-reflexão, sendo que esta atividade ajuda a entender a construção da profissão. Mesmo que infinitos fatos tenham ocorrido no decorrer da vida docente, são poucos os recordados e repletos de significados. Buscar a reflexão sobre as trajetórias de vida, enfatizando-a como um processo de construção contínua requer falar do professor como um sujeito em constante formação. Nesse sentido, concordo com Isaia; Bolzan (2007, p. 164), ao reportarem-se ao professor como “sujeito de sua própria vida e do processo formativo do qual é um dos participantes”. Ser professor requer artifícios singulares, pois para que a professoralidade[†] ocorra de forma completa é essencial que o docente se envolva em atividades de auto-formação.  

  

É fundamental perceber também que a formação de professores e o desenvolvimento profissional docente estão entrelaçados neste complexo processo de construção profissional. Dessa maneira, o professor deixa de ser apenas o profissional especialista de uma disciplina e volta sua atenção para a construção pedagógica, para a sua forma de ensinar, envolvendo em sua formação, além dos conhecimentos específicos da sua área, os conhecimentos pedagógicos necessários para que ocorra a articulação entre teoria/prática, ensino/pesquisa na universidade. Também o trabalho em conjunto tem muita relevância quando falamos da construção da profissão docente, pois permite a interação entre instituição e docentes na implementação de seus ideais. Acredito que um trabalho elaborado e executado com engajamento destes dois elementos, escola e professores, será bastante produtivo e permite um desenvolvimento profissional e uma formação de melhor qualidade ao corpo docente. Assim, estará se valorizando tanto os aspectos individuais e subjetivos da construção do professor por meio de sua auto-reflexão, como também os aspectos coletivos e grupais por meio do trabalho em conjunto. 

 

 

Percebo que a profissão docente abrange diferentes papéis para a figura do professor, muitos fazeres e saberes fazem parte do universo docente, o que leva alguns professores a perderem sua identidade como profissionais e mesmo como pessoas, não encontrando o caminho mais indicado, o rumo a tomar em sua profissão e sua vida. Nesse sentido, Abraham (1986) refere-se ao “labirinto” que se configura ao redor destes professores, labirinto que ilustra os caminhos difíceis que os docentes têm de percorrer, algumas vezes com vários rumos para escolher, em outras sem perspectiva alguma de rumo a tomar. Esta analogia com o labirinto demonstra o universo de docentes com dificuldade de mudar as situações em que se encontram, pois segundo Abraham (1986) eles entram em becos sem saída e não percebem que poderiam tomar novos rumos. Podem-se perceber, também, a partir dessa analogia, os docentes que, embora saibam da necessidade de transformação de suas práticas, sentem-se perdidos no labirinto e não conseguem escolher o melhor rumo para chegar a seu objetivo. Há, por último, aqueles que preferem cruzar o labirinto em linha reta, mascarando-se frente aos problemas, dificuldades, desejos e anseios que possuem.

 

  

Segundo Abraham (1986) há dois componentes nesse labirinto: o “sí-mismo individual” e o “si mismo grupal/coletivo”. No primeiro encontra-se a relação dos indivíduos consigo mesmo e com os demais significantes do campo educacional, no segundo encontram-se as dimensões sociais, havendo um combate entre o consciente e o inconsciente. A relação entre estas duas dimensões é muito complexa, tanto quanto esta situação labiríntica em que se encontram alguns docentes atualmente. É importante destacar o “si-mismo verdadeiro”, que segundo Abraham (1986, p. 29) “és ese potencial vivo que da a la persona el sentimeinto de que realmente existe em su cuerpo; ese sí-mismo és el que lê da seguridad de su diferenciación, de su permanebcia, de su unicidad.” Esta dimensão do professor é o “monstro” que se esconde em cada um de nós, aquele eu verdadeiro e autêntico, que nem sempre pode ser mostrado a todos. O labirinto deve ocultar, de certa forma, esse si-mismo verdadeiro, para defendê-lo das ameaças de destruição. Isso é feito através das “máscaras” que todos os professores utilizam em determinados momentos de suas ações.

 

 

 

Toda esta situação traz dúvidas e desconfortos aos docentes, que muitas vezes já não sabem quem realmente são em suas trajetórias pessoais e profissionais. Cobra-se muito dos professores: para que sejam inovadores, críticos de seu próprio trabalho, reflexivos, metodologicamente inteligentes, etc. Mas esquece-se que, como aponta Arroyo (2000, p. 52), a maior parte dos professores “foram formados (as) para ser ensinantes, para transmitir conteúdos, programas, áreas e disciplinas de ensino”. Sabendo dessas diversas dificuldades que perpassam a profissão docente hoje, considero ser professor um desafio a ser desempenhado por pessoas comprometidas e preparadas. Não basta aos docentes, serem especialistas em determinada área do conhecimento, autoridades respeitadas frente aos alunos e as instituições, saberem os melhores métodos, técnicas e estratégias para dar aulas. Ser professor requer mais que estas considerações acima, requer comprometimento com a educação, a cidadania, o contexto e a realidade de nossos alunos, requer mais que ensinar, requer educar, respeitar diferenças, possibilitar produção de novos conhecimentos, sonhos e esperanças nos educandos.

  

 

O professor tem muito poder em seu ofício, é portador de importantes ferramentas para a promoção de mudanças significativas na educação. Segundo Arroyo (2000, p.71) “Somos o que ensinamos. Nossa auto-imagem está calada aos conteúdos do nosso magistério. Essa imagem será mais fechada se os conteúdos se fecham, será mais aberta se os conteúdos se abrem”. Então, o grande desafio, segundo o autor, é abrirmos as salas de aula para assuntos que interessem os alunos, não é questão de deixar de lado os conteúdos da grade curricular, mas conseguir fazer da docência uma “humana docência”, que desenvolve nos alunos uma motivação humana para aprender, para a curiosidade em saber cada vez mais.

 

Descobrimos os educandos, as crianças, adolescentes e jovens como gente e não apenas como alunos. Mais do que contas bancárias onde depositamos nossos conteúdos. Vendo os alunos como gente fomos redescobrindo-nos também como gente, humanos, ensinantes de algo mais do que nossa matéria. (Arroyo, 2000, p.53)

 

 

Não há possibilidade de ensinar quando não há interesse em aprender, e isso é o que vem acontecendo nas salas de aula. Os alunos querem apenas passar de ano e isso obriga o sistema escolar a ser cada vez mais rígido nas questões de reprovações, o que obriga os educandos a estudar. Mas o grande impasse é que não há possibilidade de aprender quando não há interesse no que é ensinado.

 

Referências Bibliográficas: 

ABRAHAM, Ada. El universo profesional del enseñante: um labirinto bien organizado. In.: ABRAHAM, Ada. El enseñante es tambien uma persona. Barcelona: Gedisa, 1986. 

ABRAHAM, Ada. El enseñante ese desconocido. In.: ABRAHAM, Ada. El mundo interior de los enseñantes. Barcelona: Gedisa, 1987.

ARROYO, Miguel. A humana docência. In.: ARROYO, Miguel. Ofício de Mestre: imagens e auto-imagens. Petrópolis: Vozes, 2002. 

ARROYO, Miguel. Conteúdos da humana docência. In.: ARROYO, Miguel. Ofício de Mestre: imagens e auto-imagens. Petrópolis: Vozes, 2002. 

ISAIA, Silvia M. A.; BOLZAN, Dóris P. V. Construção da profissão docente/professoralidade em debate: desafios para a educação superior. In.: CINHA, Maria Isabel da (org.). Reflexões e práticas em pedagogia universitária. Campinas, SP: Papirus, 2007.  

KACHIOVSKY, Alicia. A cerca de ser docente. In.: GATTI, E.; KACHNOVISKY, A. Entre el placer de enseñar y el deseo de aprender. Montevideo, Editorial Psicolibros, 2005.


 

[*] Jamily Charão Vargas

[†] Expressão utilizada por Isaia; Bolzan (2007), referindo-se ao processo de construção da profissão docente, a partir do entrelaçar entre formação e desenvolvimento profissional.   

 

 

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