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Divulga-se hoje que
Michael Faraday, um dos maiores pesquisadores da história da ciência,
foi “nomeado” técnico de um importante laboratório inglês. O que não se
divulga, entretanto, é que Faraday não tinha sequer Curso Superior. Sua
devoção aos estudos vinha de uma motivação criada quando trabalhava como
ajudante em uma loja que vendia livros. Conta-se que Faraday passou a
devorar muitos deles nesse tempo, apaixonando-se por duas áreas das
ciências: química e física. Em 1912, após assistir a uma palestra de um
químico famoso,
sir
Humphry Davy,
presidente da
Royal Society
entre
1820 e
1827,
Faraday organizou anotações e as enviou posteriormente ao próprio
Professor Davy. Este, por sua vez, o recomendou ao renomado laboratório
da Royal Institution, que acabou recebendo Faraday em 1913. Suas
contribuições à humanidade são encontradas até hoje nos livros atuais de
Ciências.
Essa não é uma
história isolada. Temos evidências de que muitos cientistas foram
atraídos para as ciências devido a motivações causadas por ambientes
favoráveis ao desenvolvimento de reflexões sobre a vida, valores
sociais, ações políticas, paradigmas, estética das ciências etc.
Como ambiente
favorável, entendemos qualquer motivação causada pelo que está a nossa
volta, como, por exemplo, pessoas (professores, amigos, pais, parentes
...) e objetos (quadros, livros, jogos, salas devidamente decoradas
...).
Nesse sentido,
extraordinários investigadores como Einstein, Freud, Darwin, Copérnico,
Galileu, só para citar alguns, foram seduzidos impiedosamente ora por
pais, ora por parentes, amigos ou professores, para uma eterna reflexão
sobre um possível mundo inteligível. Eles ajudaram-nos a compreender
melhor a natureza e suas especificidades, pois seus pensamentos formam,
hoje, ao lado de muitos outros que contribuíram tanto quanto esses
cientistas, artistas, músicos, a base da cultura contemporânea mundial.
Esse foi um dos
resultados de um projeto de pesquisa desenvolvido na Universidade
Estadual do Mato Grosso do Sul, que tinha o objetivo de investigar a
influência de um Complexo Científico (grosso modo, pode ser definido
como ambiente favorável à criação de um motivo para estudos mais
aprofundados) nos famosos cientistas que fizeram história.
Em particular, a
maioria dos cientistas que fizeram parte de nosso estudo, foi motivada à
aprendizagem por ex-professores, às vezes do Ensino Básico, às vezes da
universidade.
Através desse olhar
biográfico de pessoas que, guiados por forças criadas por motivações
externas originadas na relação entre professor e aluno, legitimaram uma
busca para dar uma lógica aos fenômenos do universo natural, e fizeram
brilhantemente seus trabalhos, deixando-nos paradigmas e experiências
exemplares, buscamos lamentar que hoje, depois de tantos projetos em
ensino, não só no Brasil, mas no mundo, ainda há profissionais em
exercício que acham que o trabalho que visa contemplar um ensino de
qualidade movido por diferenciadas teorias pedagógicas, quando não tem
seus objetivos completamente atingidos, fracassa devido à inviabilidade
de aplicação das teorias, dos métodos, da incapacidade de aceitação do
sistema, e o que é pior, dos alunos. Mas nunca um trabalho que precisa
cada vez mais, num mundo fortemente capitalista e como nunca,
influenciado pelas mídias, de profissionais capacitados, que estejam em
permanente formação e que saibam aplicar as teorias, depois de muitos
erros e acertos, idas e vindas, num processo contínuo de reformulação
dos métodos.
Claro que há problemas
sociais, políticos, econômicos, que influenciam diretamente a vida dos
alunos. E é exatamente por isso que se faz necessário repensar as
estratégias didáticas, os modelos pedagógicos, as novas propostas de
ensino. Por exemplo, há trabalhos inspirados em analogias entre o
trabalho do psicanalista e dos professores, que sugerem conquistar
alunos, mostrando que na escola também há coisas interessantes, e que
ela pode oferecer um futuro cheio de vitórias. Nesse sentido, é preciso
sensibilizá-los através do compromisso que temos com eles.
Podemos já contar com
um bom número de trabalhos, teses e dissertações que se usaram de
teorias da personalidade para planejamentos didático-pedagógicos. Há
inúmeras publicações em revistas nacionais e internacionais que relatam
experiências promissoras de uso de sistemas inovadores na prática do
professor, que deram aos aprendizes, suporte teórico e motivacional para
prosseguimento em estudos mais avançados.
São nos cursos de
Formação Continuada que esses resultados são divulgados. Há inclusive
cursos que oferecem bolsas para professores em exercício, como acontece,
por exemplo, em um Projeto coordenado pelos professores Alberto Villani
e Jesuína Lopes de Almeida Pacca, na Universidade de São Paulo.
Através de eventos e
congressos de extensão, como o Congresso Brasileiro de Extensão
Universitária (CBEU) – que aconteceu na UFSC, em 2006 – e o
Seminário de Extensão Universitário da Região
Centro-Oeste (SEREX-CO) – que aconteceu na UFMS, em Campo Grande, nesse
ano, também são divulgados trabalhos de inovações tecnológicas,
didáticas e pedagógicas; experiências de ensino que se mostraram
potencialmente hábeis em provocar mudança no perfil cognitivo do
aprendente.
A
própria Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência – SBPC- tem
como objetivo divulgar a ciência, para mostrar que vale a pena investir
no pesquisador; neste caso específico, no pesquisador em Ensino ou da
Educação. O fato é que muitos educadores não sabem que há pesquisadores
em Ensino. Acham que ensino é para sala de aula, e só. Que não há
necessidade de um trabalho maior de contemplação das teorias, dos
estudantes, do mundo; a sala de aula é parte desse todo.
Ensinar não é para todos, apenas porque resolveram se tornar
professores. Ensinar é para quem desenvolveu no seu íntimo um
compromisso com a arte de educar, com a arte de escapar de subjetivações
sempre inerentes a esse processo, considerando-as na ótica de teorias
aceitas pelas sociedades científicas ou em processo de análise (quando
há revoluções científicas).
Como
demonstrou Faraday, não é preciso de diploma para que seja um bom
cientista. Na educação não pode ser diferente. O mais importante é a
leitura atenta de referenciais teóricos que dão suporte ao trabalho como
docente, em qualquer nível de ensino. Não podemos achar que nossas
experiências cotidianas como ex-alunos, são suficientes para que sejamos
bons professores. Precisamos conhecer nossos alunos, novas propostas de
estratégias de ensino, novos paradigmas da educação, relatos de
experiência de professores; precisamos participar de eventos, contribuir
com novos resultados, trabalhar em conjunto. Precisamos, pois, ler,
estudar ..., e sempre.
No
entanto, acima de tudo, a relação entre professor e alunos deve ser
sempre guiada por boa relação afetiva. Nenhum método pode dar certo
quando inserido numa relação desgastada, sem boa afetividade. Um método
pode ser potencialmente aplicável quando os indivíduos nele inseridos
não possuem desgaste emocional com as relações entre as pessoas desse
meio, pois caso contrário, poderá haver demasiado consumo de energia em
processos subjetivos, pelos aprendizes, que poderia ser usada pela
cognição.
Essa
semana,
a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE)
divulgou o resultado do
Programa Internacional de Avaliação de Alunos (PISA), no qual consta que
o Brasil, em meio a cinqüenta e sete países, está entre os piores do
mundo em educação. Este é o reflexo de falta de investimento sério, por
parte dos vários governos que tivemos, no qual se inclui sem dúvida
alguma, melhores salários. Nos países que se encontram nos primeiros
lugares, professores têm salários dignos e são “milagrosamente”
respeitados pela população.
Portanto, não são as teorias pedagógicas ou metodologias de ensino
que não funcionam. É a falta de seriedade, aliada à falta de
competência, de formação adequada, de formação continuada.
Claro
que há muitos educadores sérios, compromissados, que fazem leitura
corretamente contextualizada da educação no Brasil. Somos a resistência
do descaso.
Afinal, quando algo não vai bem, trabalhamos para melhorá-lo e lutamos
por mudança, ..., ou deixamos de fazer nossa parte?
Contudo, inspirados na leitura da pesquisadora e psicanalista, Leny
Magalhães Mrech (através de artigos e livros), percebemos que há dois
tipos de profissionais: aquele que “não sabe e tem raiva de quem sabe”,
ou seja, aquele que desconhece o próprio conteúdo que deveria ensinar em
meio a um processo pedagógico, e aquele que “sabe que não sabe”, ou
seja, o professor que percebe que precisa estudar mais, ler mais, para
mudar, sempre freqüentando cursos e atualizando seus conhecimentos,
contemplando o que um exemplar professor da Sorbonne já dizia:
“professor sempre tem que voltar à escola” (Bachelard). É interessante
lembrar que, apesar de ser conhecido como professor da famosa
Universidade de Paris, Bachelard foi professor no Ensino Básico por
vinte anos.
A
escola de Bachelard, para a qual o professor tem que voltar, é a escola
da inovação. A ludicidade e o uso de recursos multimídia em sala de
aula, por exemplo, são propostas que demonstraram, quando aplicados em
sala de aula, os melhores resultados com relação à aprendizagem e certa
mudança cognitiva nos alunos. Muitas outras sugestões foram nos últimos
anos, principalmente nesta década, publicadas em anais de congressos,
revistas especializadas ou divulgadas em cursos de extensão.
Portanto, para conhecê-las, é preciso, de fato, retornar à universidade,
à sala de aula. Pois nosso maior instrumento de trabalho, é a reflexão,
o pensamento, o uso de nossa capacidade de imaginar relações, de
divagar, de devanear. A experiência, mesmo que muitas vezes amarga, deve
ser fonte, e não ausência de possíveis interpretações pedagógicas.
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