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Resumo:
Este ensaio apresenta um convite à
reflexão a professores e leitores em
geral, a perceber a fala de uma aluna,
após o retorno das férias em uma escola
periférica.
Descorre-se, na obra, sobre suas falas e
a importância da Família e Escola como
Representações Sociais, assim como uma
observação psicoeducativa da
pesquisadora em questão, em suas
práticas em sala de aula.
Adverte-se, também, a necessidade de
sensibilização e o auscultar as falas
dos educandos, pois é partir de tais
linguagens que se objetiva uma abordagem
em torno da Escola e Família em suas
representações sociais.
Palavras-chave: Representação
Social – Família – Escola
1. O retorno das práticas Pedagógicas: O
inusitado
Volto às aulas em um colégio público e
ouço: “Que bom! Estamos de volta, estava
cansada de ficar em casa”.Ao ouvir esta
fala que foi pronunciada de forma tão
singela, mas, sobremaneira, sincera,
fez-me, relembrar um poema de Paulo
Freire – A Escola, o qual reescrevo:
“Escola é,
sobretudo, gente, gente que trabalha,
que estuda, que se alegra, se conhece,
se estima. O diretor é gente,o
coordenador é gente, o aluno é
gente,cada funcionário é gente. E a
escola será, cada vez melhor na medida
em que cada um se comporte como colega,
amigo, irmão. Nada de “ilha cercada de
gente por todos os lados (...)”.
Senti que
este poema estava ali, perto de mim,
vivo, suas palavras tomaram forma e
cores, através do dizer desta aluna. Ela
gosta de estar na escola, ela se sente
bem e por isso sentiu saudades. A escola
representa o seu mundo e ela deve levar
o mundo para todos os alunos, a escola
não pode perder um dos seus pontos
principais, que é apresentar o mundo
para o seu aluno, infelizmente algumas
escolas estão esquecendo deste ponto
primordial.
A fala desta aluna trouxe a memória mais
uma vez o pensamento do grande pedagogo
Paulo Freire que propôs uma escola que
respeita e incentiva as capacidades de
criação e não espera que todos tenham a
mesma resposta, pois é através do errar
e acertar que construímos o saber.
Ao ouvir a resposta da aluna, penso
também nas múltiplas linguagens, na
questão familiar, pois penso também que
além da escola, que é um espaço
político, a família se faz oportuna para
exercer e veicular organicamente sua
estrutura.
No entanto, em uma pesquisa mais
elaborada em relação à fala da aluna
entendi que ela sentia a falta da
família, pois sabemos que se faz
necessário que os pais permaneçam grande
parte do dia fora do lar trabalhando
para manter este aluno na escola e com
isso muitos deles ficam sozinhos em casa
e alguns tomam conta dos irmãos menores.
O que se supõe, e isto me dá a certeza
do exato, é que a escola não significa o
abandono de sua dimensão ideológica
específica, nem tão pouco a família.
De acordo com a especificidade e
complexidade da questão percebo que o
retorno à escola ameniza a solidão e
eles podem estar juntos com outros
companheiros e colegas da mesma faixa
etária e a partir deste convívio com os
outros amigos de turma, compartilham
experiências e vivenciam outras.
2. Escola e Família. Um casamento
perfeito.
A família, sem sombra de dúvidas, é a
principal responsável, além da escola,
sobre a construção da cidadania do
aluno. Em uma pesquisa realizada em 2004
pela Unesco cujo o título era – O Perfil
dos Professores Brasileiros: O que
fazem, o que pensam, o que
almejam...constatou-se que 78,3% acha
que a atenção e o apoio da família são
os fatores que mais influenciam a
aprendizagem. Percebemos, no entanto,
que devemos repensar as atribuições e
responsabilidades da família neste
processo. Mais do que esperar que a
família seja a continuação da escola, é
desejável que sua participação, mesmo
que ausente pelo mundo globalizado, seja
efetivamente compromissada com a
construção da identidade daquele que
trabalhamos em sala de aula.
A experiência como pesquisadora e
professora, conduziu-me, depois de
inúmeras visitas a pais e responsáveis
de alunos, através de almoços de
homenagem, conselho de classe ou até
mesmo a presença dos pais e ou
responsáveis somente para constatar a
presença, assiduidade e participação do
aluno em classe, faz-me crer que a
família tem uma contribuição
significativa no aprendizado do
educando.
A esse respeito, vale contextualizar a
narrativa da obra com a teoria de
Orsolon (2003, p.180-182)
Compreender as diferenças configurações
familiares e relacionar-se com elas sem
preconceito é conhecer o lugar social
das famílias e alunos. Identificar os
modelos educativos e socializar com a
família são as noções que norteiam a
aprendizagem.
De tal maneira, a compreender a dinâmica
da citação, é importante reconhecermos
que família e escola são instituições,
que no mínimo, se contextualizam com as
representações sociais.
Defendemos, portanto, a dimensão
dialógica nestas representações sociais,
por acreditar que tais instituições, em
sua autonomia favorecem que os alunos,
em suas falas, queiram transmitir que a
volta às aulas se fazia premente, por
conseguinte, ao final do ano letivo, a
volta às férias, também se faz
importante.
De acordo com o nosso ponto de vista a
volta à escola assim como a volta ao lar
constitui, nesse sentido, formar o
cidadão com uma compreensão que supere o
reconhecimento dos direitos e deveres e
que se fundamente no compromisso com uma
sociedade verdadeiramente democrática. É
isto que os operários, em suas práticas,
pensam, é exatamente isto, em suas
relações que os alunos buscam.
Posso afirmar que em poucos minutos após
ouvir a fala mencionada no começo desta
obra que sobressaiu entre as outras que
também concordavam com ela sobre a
vontade de voltar às aulas, fez-me mais
reflexiva e crítica quanto as minhas
práticas pedagógicas e perceber que esta
aluna junta com ou outros da turma têm
desenvolvido o senso crítico(ainda não
perceberam por serem muito novos) e além
de tudo a escola tem proporcionado a
estes alunos momentos significativos,
haja vista a vontade deles de
retornarem, pois é na escola que eles
sentem-se bem.
Nesse sentido, de acordo com Gentili e
Alencar (2001, p.92-95), reconhecemos e
pontuamos que escola e família como
instituições onde se põem em práticas
valores, normas e direitos, são
importantes para a relação que se
efetiva nestes espaços sociais.
Temos indicado ao longo da narrativa, a
importância destas duas instituições na
construção da identidade do educando.
Vale ressaltar, entretanto que a
formação de valores, assim como, a
educação da sensibilidade nasce,
entretanto, na formação dessas relações
sociais: Escola e Família.
A esse respeito é coerente como função
de escola e família resgatar tais
discursos a partir dos pressupostos
filosóficos e educacionais de Foucault:
A
troca e a comunicação são figuras
positivas que atuam no interior de
sistemas complexos, e sem dúvida não
poderiam funcionar sem estes. A forma
mais superficial e visível desses
sistemas de restrição é constituída pelo
que pode se agrupar sob o nome de
ritual; o ritual define qualidades que
devem possuir os indivíduos que falam,
definem gestos, os comportamentos, as
circunstâncias e todo o conjunto de
signos que devem acompanhar o discurso
(FOUCAULT, 2002, p.38-39)
É pertinente, sem o aprofundamento que
se faz necessário, pensar na escola e
família como uma oficina de formação
humana onde o processo educativo e de
desenvolvimento humano seja de modo
intencionalmente planejado e conduzido
para a reflexão. Esta lógica, também,
nos propõe a repensar as práticas destas
duas dimensões de representações
sociais, para que estas têm valor de
ocupação pedagógica na agenda escolar.
Pois em uma escola e em uma família onde
as relações sociais e humanas são
hegemônicas, tanto o pedagógico quanto a
relação humana e do humano pertencem a
uma dimensão que trabalhe com as
relações sociais, com o cotidiano, com a
sensibilidade, lealdade e companheirismo
onde a identidade se faz e produz.
Reafirmo que a Família e Escola como
iniciação da educação não se esgotam na
transmissão de saberes, na apropriação
semântica e principalmente na
experiência e socialização das
identidades construídas e constituídas
nestes espaços. A reflexão centrada na
temática da obra é tão somente para que
este pesquisador e o público leitor
percebam que os cômodos mais longínquos
e menos favorecidos das populações
brasileiras também falam e dialogam por
si só, pois Bourdieu afirma que
O habitus adquirido na família está no
princípio da estruturação das
experiências escolares, o habitus
transformado pela escola, ele mesmo
diversificado, estando por sua vez no
princípio da estruturação de todas as
experiências ulteriores” ( BOURDIEU,
1994, p.18).
Foi com essa perspectiva que os
conceitos de família e escola foram
tomados neste estudo e observação, de
modo a oferecerem, complementarmente,
suporte às análises sobre a questão da
Escola e Família.
3. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Diante de uma certa crise social da
escola e família, produziu-se uma certa
receptividade na fala da aluna referida
no início deste ensaio. Por isso,
constituindo este idéia, não devemos
esquecer que apesar de todas as
resistências ideológicas, pretendeu-se,
resgatar aqui, memórias de um retorno de
férias na escola Alice Pacinni Gélio,
localizada em uma zona periférica e sem
recursos da Baixada Fluminense onde são
verificados que o espaço de pouso e
descanso desta comunidade , por vezes,
se dão em ambientes menores que um
quadro negro escolar.
Pretendeu-se numa visão rápida, porém
não ingênua, abordar a questão da
Família e Escola como eixos norteadores
da construção da Identidade do Educando.
Esta construção se dá, não tão somente
em harmonia, mas numa inter-relação
educacional de um movimento de
integração que tem como base acreditar
nas instituições escolares e familiares
e na aquisição de novas habilidades e de
conhecimento para fazer frente a novos
problemas que, por ventura aparecerem.
Cabe ressaltar na finalização deste
ensaio que as falas e memórias
registradas nesta obra indica que não
devemos confundir as Instituições
legitimadas como Escola e Família, mas
compreendê-las cada qual com suas
funções e considerações que lhes são
próprias para fomentar no educando os
diferentes significados e necessidades
que cada uma tem.
Entretanto, ao pensar na possibilidade
de decodificar linguagens, lembro-me do
caminho do
pensar-ouvir-decodificar-recriar. A
partir desses elementos podemos
responder às questões relativas as
Representações Sociais e os leques de
possibilidades de compreendê-las sem os
ruídos de qualquer natureza.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ALENCAR, C. Educar na esperança em
tempos de desencanto. Petrópolis,
Vozes, 2001.
BOURDIEU, P. Esboço de uma teoria da
prática. São Paulo. Coleção Grandes
Cientistas Sociais, 1994.
FOUCAULT, Michel. A ordem do Discurso.
Leituras Filosóficas. São Paulo, Edições
Loyola, 2002.
GENTIL, P. Pedagogia da Exclusão: o
neoliberalismo e a crise da escola
pública. Petrópolis, Vozes, 1995.
ORSOLON, L. A. M. Trabalhar com
famílias: uma das tarefas da
coordenação: In: PLACCO, V. M. N. S;
O coordenador pedagógico e o cotidiano
da escola. São Paulo, Edições Loyola,
2003.
REVISTA NOVA ESCOLA. Junho e Julho de
2003
REVISTA NOVA ESCOLA. Janeiro e Fevereiro
de 2006 |