Considerações introdutórias
O
início do Século XXI está envolto por grandes temas que incitam
novos desafios para o campo das ciências. O cenário mundial toma
novas dimensões. Vivemos a revolução microeletrônica superando os
modos de produção industrial. É a chamada era pós-industrial. É um
processo que altera as relações do homem com o mundo do trabalho e
com a sociedade. O tempo passa a ser o fio condutor dessa nova
dinâmica cada vez mais pautada na superficialidade e simultaneidade
decorrentes dos modos de produção capitalista e das revoluções
tecnológicas contemporâneas.
A
democracia perpassa todas as latitudes do planeta. Tornou-se a
linguagem comum entre os povos e passou a ser a força
metamorfoseadora das esferas que regem os destinos da humanidade. Na
esfera pública ela abre espaços de incremento da participação,
autonomia, descentralização e impulsiona a criação de instrumentos
de controle social.
O Século XX foi o impulsionador do debate acerca da democracia e o
precursor na reinvenção da democracia participativa. Disseminado no
contexto político, restrito no campo social, este sistema não está
alcançando as proporções desejadas. Ecoam os diferentes clamores dos
silenciados, menorizados e marginalizados nas sociedades de classe.
As promessas de equidade social não foram atendidas e estão a cada
dia mais aquém do limite desejado.
A
democracia, o conhecimento e a cidadania fazem parte da agenda
mundial. São temas que se entrelaçam e são indispensáveis para o
desenvolvimento humano sustentável. Frente a isso, ratificam-se,
portanto, as demandas sociais. No espaço da educação, a gestão,
constituída de uma função pública, abarca o compromisso de promover
uma cidadania comprometida com a consolidação de uma sociedade
verdadeiramente democrática e passa a ser desafiada a construir
saberes mais amplos, plurais e híbridos. O conhecimento aliado a
este processo deve ter como fundamento principal a construção de uma
sociedade mais justa sob o ponto de vista social e econômico. Para
isso, a escola, ao cumprir a sua função de socializadora de
conhecimentos, deve pautar-se na valorização de diferentes formas de
conhecimento a fim de trazer à tona os saberes silenciados pela
racionalidade científica que resguardam um potencial criativo de
emancipação (Santos, 2000, Morin, 2004).
Diante deste quadro social que apresenta dinamismos em sua
configuração e nos surpreende a cada dia, cabe perguntar, por
exemplo, até que ponto os processos de gestão democrática têm
contribuído para repensar as situações de crise em relação à
construção de espaços de democracia e recuperação da dignidade
humana.
Neste artigo, pretendemos discutir alguns fatores que atuam como
entraves à construção da gestão democrática em instituições
educacionais, identificados a partir de uma pesquisa qualitativa em
espaços responsáveis pelo debate em torno da democratização da
gestão, tendo os estudos já realizados na área como suporte para
esta discussão. Por fim, fazemos algumas considerações, tendo como
base elementos da teoria sociológica de Boaventura de Sousa Santos,
que se apresentam como possibilidades para a viabilização da gestão
democrática na escola.
Refletindo sobre alguns entraves à democratização no âmbito escolar
O
campo da gestão, em função de seu caráter político e cultural, de
sua aproximação ao conceito de governabilidade (SANDER, 2005)
e da totalidade de relações que ocorrem no interior das instituições
em geral, em particular a gestão democrática do ensino, sofre
interferências dos mais diferentes setores devido aos interesses que
a atual sociedade prioriza, o que acaba, muitas vezes, por
desvirtuar o seu significado. Como conseqüência, instaura-se a
prevalência de estruturas sociais negadoras da dignidade,
naturalizando as patologias como formas “normais” transportadas para
o senso comum.
A
atual configuração da sociedade, que tem por base o capital humano,
defende práticas que valorizam a eficiência, a produtividade, a
competição e comportamentos clientelistas e consumistas, reafirmando
os interesses dominantes. Estas práticas brotam dos modelos de uma
racionalidade instrumental que sobrepõe os interesses econômicos aos
interesses do mundo da vida, acarretando prejuízos à construção de
uma cidadania cosmopolita, que não está ligada apenas à conquista da
igualdade de direitos, mas acima da tudo à conquista das condições
necessárias a uma vida digna.
Da mesma forma, a estrutura do sistema educacional brasileiro,
organizada de forma hierárquica e centralizada, entra em conflito
com os princípios de gestão democrática. Conforme afirma Bastos
(2001, p.08), a mudança no regime político governamental não alterou
o regime de correlação de forças desiguais entre os órgãos do
sistema educacional, o qual continua se explicitando de diferentes
formas, “ora pela imposição de processos e técnicas de gestão, ora
pelo controle do conhecimento da escola, ora pelo arrocho salarial
dos professores e funcionários, ora pelo sucateamento dos
equipamentos da escola”.
Percebendo estas formas de desvirtuamento nos espaços de construção
de práticas democráticas, sentimos a necessidade de um
aprofundamento e ressignificação dos princípios e valores que
norteiam os processos de gestão na escola. Em vista disso,
iniciou-se, no ano de 2005, uma pesquisa intitulada “Percursos e
Tendências da Gestão Democrática no Ensino Público: novos desafios
às ciências sociais”, tendo como objetivo ressignificar os conceitos
e práticas que se relacionam à gestão da educação, que se encontram
envoltos pela racionalidade instrumental, a fim de visualizar
caminhos para a construção de uma razão cosmopolita.
Para Boaventura de Sousa Santos, sociólogo português, a razão
cosmopolita, permeando a reflexão acerca dos princípios e práticas
da gestão democrática, abre possibilidades de estabelecer uma
compreensão profunda e crítica, desvelando as alternativas credíveis
à intensificação do processo democrático na escola. Esta
possibilidade está assentada na idéia de que este modelo de
racionalidade não tem como fundamento identificar novas totalidades
ou novos sentidos de transformação social, e sim “propor novas
formas de pensar estas totalidades e de conceber esses sentidos”
(SANTOS, 2002b p.261), através de um processo que leve em
consideração os diferentes saberes e experiências locais.
Em vista do objetivo da investigação, utilizamo-nos dos instrumentos
de pesquisas qualitativas em educação, amparando-nos em estudos
bibliográficos acerca da temática e na busca de materiais junto a
Coordenadorias Regionais de Educação – RS e Secretaria de Município
da Educação de Santa Maria.
Na
busca de materiais que fundamentam a discussão acerca do
fortalecimento desta nova concepção de gestão do ensino público,
percebemos que as iniciativas de articulação entre as esferas
educacionais são restritas – quase nulas – e ainda não encontram
livre fluxo entre os espaços – nacional, estadual, municipal e
local. Desta forma, com a obstrução dos canais de comunicação
obstruem-se, também, as possibilidades oriundas de uma nova
racionalidade. As iniciativas de mudanças ficam represadas em
compartimentos onde os próprios processos do conhecimento redundam
em críticas assentadas em percepções que, quando não defasadas, são
detentoras de interesses que normatizam previamente as finalidades.
Nas raras tentativas de promoção de espaços de comunicação
promovidas pelo Estado há uma resistência por parte das instituições
educacionais em “abrir-se” ao diálogo, quem sabe ainda frutos dos
processos históricos de imposições autoritárias e da manutenção das
correlações de forças de poder. Por outro lado, a iniciativas de
diálogo por parte das instâncias públicas governamentais
encontram-se reduzidas em função do caráter economicista, resultante
da intensificação do sistema capitalista que apresenta como aliado a
ideologia do capital financeiro e a globalização.
Estas relações confluem para uma distorção dos conceitos de
autonomia e soberania, gerando o que Santos (2002b) denomina de uma
razão arrogante, a qual traduz-se na não “necessidade de exercer-se
porque se imagina incondicionalmente livre e, por conseguinte, livre
da necessidade de demonstrar a sua própria liberdade” (p. 240). As
escolas, em nome da autonomia, julgam-se livres nas suas
determinações e detentoras de um poder de decisão que não está
sujeito a ninguém e está livre de toda forma de controle,
atribuindo-se direitos e deveres soberanos. O Estado, por sua vez,
atento aos interesses capitalistas acaba por recuar na sua
substantividade democrática. Esta arrogância, enraizada no campo de
construção de novos rumos para a educação, reduz a função pública do
Estado e de suas instituições destinada a responder as demandas de
grupos e indivíduos concretos, impedindo o avanço de políticas
públicas de alcance social.
Considerando que o Estado de Direito Democrático tem a tarefa de
orientar as políticas públicas socializantes com vistas a recriar
uma nova relação Estado-Sociedade, no caso da política de
democratização da gestão do ensino público, a ausência desse debate
inviabiliza a construção desta nova proposta para a educação. Ao
mesmo tempo em que o Estado delega mudanças no processo de gestão,
retira-se da cena pública transformando estas lacunas em déficit
para o conjunto da sociedade civil.
A democratização da gestão do ensino público não tem a capacidade de
resolver todos os problemas da escola, mas tem a potencialidade de
incrementar novos elementos à cultura escolar: a politização, o
debate, a organização coletiva e a construção de consciências
democráticas atuando no fortalecimento da sociedade civil frente aos
processos de decisão políticas e lutas sociais. Em razão da
potencialidade de mudança social que este processo representa,
ressalta-se a importância do aproveitamento de lacunas credíveis a
construção de alternativas possíveis a sua concretização.
Tecendo possibilidades cosmopolitas
Percorrendo a trajetória que a gestão democrática assumiu
desde a sua aprovação, percebe-se um caminho permeado por forças
antagônicas que se cruzam e tentam se sobrepor. Impulsionada por
forças civis democráticas, a democratização no espaço educacional
encontra os entraves de uma racionalidade instrumental conduzida por
forças produtivistas interligadas à ideologia capitalista e
neoliberal.
No
percurso de construção desta nova proposta de reorganização das
instituições educacionais a partir da gestão democrática, a
racionalidade instrumental atravanca os processos de mudanças que a
democracia exige, pois atua na imposição de novas formas de controle
do social e na resistência frente às mudanças advindas das forças
antagônicas. O avanço das propostas provenientes de forças que atuam
na democratização é compelido pela interferência desta racionalidade
que se impõe como única e verdadeira, não levando em conta as
experiências, a subjetividade, o cotidiano, os clamores e as
demandas sociais.
Dessa
forma, impulsionar o debate e a construção de práticas democráticas
implica, conseqüentemente, na diminuição dos espaços de domínio da
razão instrumental e promoção dos princípios de uma nova forma de
racionalidade: a razão cosmopolita (SANTOS, 2002b). Este tipo de
razão aponta para a possibilidade de avanço democrático à medida que
anuncia a superação de modelos até então considerados como verdades
únicas, abrindo espaços para a valorização de saberes e experiências
que iluminem alternativas à construção de práticas
democráticas e emancipatórias.
A
razão cosmopolita permeando os processos de democratização da gestão
apresenta, alguns procedimentos com vistas a vislumbrar caminhos que
levem à democratização do saber e dos poderes de decisão. Dentre
eles destacamos: a valorização das experiências, saberes e
peculiaridades locais.
Resgatar o local justifica-se à medida que tal processo possibilita
ensejar condições para abrir possibilidades de ação. É pensar,
dialogar, construir tendo em vista uma realidade com suas
peculiaridades sociais, econômicas, culturais, políticas e
históricas. Trata-se também da valorização do local como uma fonte
de conhecimento, contrariamente à hierarquização e ao reducionismo
do conhecimento (SANTOS, 1987).
Abrir possibilidades de ação a partir de um espaço-tempo local
implica romper com uma racionalidade de parcelização do
conhecimento, a qual “segrega uma organização do saber orientada
para policiar fronteiras entre as disciplinas e reprimir as que
quiserem transpor” (SANTOS p.46, 1987). Trata-se de encarar o
conhecimento como total e local. É local à medida que é adotado por
grupos, constituindo-se em projetos de vida locais, como a
construção e uso de tecnologias que atendam às necessidades locais.
Da mesma forma, o conhecimento pode se tornar total à medida que
conceitos e teorias elaborados localmente são impulsionados para
outros contextos, a fim de serem socializados e utilizados fora de
seu contexto de origem.
Resgatar o local significa também construir políticas educacionais
que se sobreponham àquelas que descaracterizam a identidade local,
ao impor mascaradamente a identidade de outros locais. Trata-se de
se opor a processos de localismos globalizados, através dos
quais um grupo, uma entidade, um sistema, uma nação impõem
arbitrariamente, através da globalização de um fenômeno local, sua
cultura, seus valores, suas leis, suas políticas, seus ideais, sua
ideologia.
Na perspectiva da Sociologia das ausências, proposta por
Santos (2002b), tomar o local como ponto de partida é valorizar o
conhecimento local através do não desperdício das experiências
sociais. Centrada no princípio de que “não há ignorância em geral,
nem saber em geral” e, portanto “toda ignorância é ignorante de um
certo saber e todo o saber é a superação de uma ignorância
particular” (SANTOS, 2002b p. 250), a Sociologia das ausências
busca, através da expansão do presente, resgatar as experiências
sociais convertidas em ausências pela racionalidade instrumental, à
medida que expande o presente.
Por fim, voltando-se para um processo de democratização
a
possibilidade de uma sustentável e justa construção democrática
começa em nível local. Este tipo de desenvolvimento acena fortemente
para a liberdade, pois tende a propiciar a autonomia, a consciência
e a participação cooperativa da maioria. Trata-se do envolvimento
num processo que poderá ser em longo prazo um conjunto de estruturas
e experiências locais para, então, produzir possíveis alternativas
como possibilidades de ampliação frente aos receituários impostos em
nome da democracia (MOUSQUER, 2004, p.203).
A
valorização do local, enquanto expansão das falas dos diferentes
atores sociais e socialização de suas experiências e saberes,
contribui para a formação de decisões coletivas, condição básica
para o exercício da cidadania. Este procedimento viabiliza a
expansão do debate acerca da democracia para além dos muros da
escola, à medida que abre espaço para as diferentes e discordantes
vozes, promovendo a construção de relações mais democráticas que
conduzem a um compromisso efetivo por parte dos envolvidos. Dessa
forma, alargam-se as possibilidades de sucesso na tradução de
políticas públicas, como a Lei de Gestão Democrática, para
realidades concretas.
Considerações finais
A tarefa da gestão democrática não pode ser delegada à
escola como algo pronto, já que se caracteriza como um trabalho
árduo, construído coletivamente e que requer resistência a todas as
formas de poder. Ela se caracteriza pela conjugação de diferentes
formas de conceber e distribuir o poder frente ao poder autoritário
que historicamente caracterizou as instituições públicas da
sociedade brasileira.
Como um processo que pretende desconstruir as práticas
autoritárias e centralizadoras do poder que representam as bases das
relações edificadas nos espaços públicos, a construção da gestão
democrática nestes espaços exige o constante esforço de
ressignificação dos conceitos e práticas que a ela se relacionam.
Este esforço permite identificar até que ponto esta nova proposta
vem avançando em direção à construção de novos alicerces que
possibilitam a expansão do processo democratização e a construção de
alternativas emancipatórias frente aos receituários impostos pela
racionalidade instrumental.
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