A
presente resenha é fruto da leitura da obra Preconceito
lingüístico: o que é, como se faz, do autor Marcos Magno,
sendo a obra uma das primeiras leituras exigidas pelo Curso de
Letras, da Universidade Alto Vale do Rio do Peixe e propositiva na
formação de lingüistas. Trabalharei a resenha pelos capítulos do
livro.
A
mitologia do preconceito linguístico faz uma comparação pela luta
constante dos tipos diversos preconceito, alegando que os mesmos não
tem fundamentação racional, sendo que um dos preconceitos mais
comuns é o linguístico, forma que está explícita nos mais variados
meios de comunicação, e também, nos manuais de gramática, livros
didáticos e gramáticas normativas. Em nosso país, há falta de uma
política linguística oficial, que se preocupe com os direitos
linguísticos dos falantes de línguas minoritárias, com um
planejamento, fundamentação para que haja defesa e valorização da
diversidade linguística do português brasileiro, inclusive no
ambiente educacional, para que haja uma adequação do falante às
variações linguísticas, a fim de que haja erradicação dos defensores
da “língua pura” e da política linguística difusa, no âmbito social,
onde não há conhecimento científico suficiente na sociedade,
cometendo então, equívocos preconceituosos em relação à língua
falada pelo brasileiro. Vejamos a seguir, os oito mitos do
preconceito linguístico.
Mito nº 1: “O Português do Brasil apresenta uma
unidade surpreendente”
A ciência linguística prova que, no mundo, não existe
nenhuma língua uniforme e homogênea, mas sim, uma língua viva,
heterogênea, com variações em todos os níveis estruturais
(fonologia, morfologia, sintaxe, léxico) e em seu uso social. Nosso
português brasileiro, apresenta então, grande variabilidade e
diversidade, sendo em torno de 200 línguas diferentes faladas no
país, fato que se dá pela grande extensão territorial, gerando
diferenças regionais, e principalmente pela desigualdade social, que
gera um abismo linguístico entre as diversas classes sociais
existentes em nosso país. Como consequência, a educação no Brasil
sofre com a imposição de uma norma linguística, como se tal fosse
padrão entre os falantes do país, prejudicando diretamente os alunos
que não compreendem o que vem sendo ensinado nas escolas. Outro
exemplo são as camadas menos favorecidas, que não tem acesso à
“língua” utilizada em órgãos públicos, deixando assim de usufruir de
vários serviços que são de seu direito, simplesmente pelo fato de
não compreenderam a linguagem utilizada.
Mito nº2: “Brasileiro não sabe português/Só em
Portugal se fala bem português”
O esclarecimento desse mito é muito simples: o
português falado em Portugal, é diferente do português falado no
Brasil. O que acontece é que fomos colonizados por Portugal, então
por comodidade falamos “português”, e atualmente, vem sendo dito
“português brasileiro”, sendo que já possuímos nossa gramática, a
qual possui uma grande diferenciação da gramática de Portugal. Essas
diferenças ficam mais evidentes no que diz respeito à língua falada,
que muitas vezes, se torna incompreensível.
Mito nº3: “Português é muito difícil”
Esse mito baseia-se no fato de que, nossas regras
gramaticais fundamentam-se na norma gramatical literária de
Portugal, ocasionando então, um aprendizado de regras que não
correspondem ao que realmente falamos e escrevemos no Brasil. A
partir desse pressuposto, concluímos que o Português só se torna
“difícil” por aprendermos algo que não tem significado algum para
nosso uso. Todo falante nativo de uma língua, sabe como empregá-la
com habilidade em seu cotidiano. Um exemplo claro disso é uma
criança de 5-6 anos, que já sabe se comunicar com eficiência, sem ao
menos ter frequentado um banco de escola. Isso se dá por estarmos
rodeados pela língua! Então não existe língua difícil, todas as
línguas são passíveis de aprendizado se o falante estiver
contextualizado com ela.
Mito nº4: “As pessoas sem instrução falam tudo
errado”
Pela visão do preconceito linguístico, qualquer
manifestação da língua fora do triângulo escola-gramática-dicionário
é considerada errada. Mas existem alguns fenômenos linguísticos a
serem considerados na fala, como por exemplo, a transformação do L
em R nos encontros consonantais como “praca”, “pranta”. Observe as
palavras: “prata”, “praga”. A etimologia delas é “plata”, “plaga”.
Conclui-se então, que a própria origem das palavras explica esses
fenômenos que muitas vezes são ridicularizados. Existem pessoas,
tanto das classes sociais menos favorecidas, como das classes de
prestígio, que tem dificuldade na pronúncia de algumas palavras, e
isso acontece devido a problemas articulatórios que pode ser
resolvido com assistência médica.
Mito nº5: “O lugar onde melhor se fala português
no Brasil é o Maranhão”
Como diz o autor “não sei quem proferiu essa grande
bobagem”, e na verdade, não passa de um mito sem fundamentação
científica. O que acontece no Maranhão é a utilização do pronome tu,
seguido do verbo –s (tu vais, tu queres), mas isso não dá
sustentação suficiente a esse mito devido a outras variações que
acontece no Maranhão. Mas o que acontece com o português do
Maranhão, é basicamente que não há uma variedade nacional que seja
mais pura do que a outra, e sim, uma variedade que atende às
necessidades dos falantes de sua determinada região. Levando em
consideração, que a variação também depende de um contexto histórico
dessa região.
Mito nº6: “O certo é falar assim porque se escreve
assim”
Devido à variação que acontece em toda comunidade
linguística, toda língua não é falada do mesmo jeito em todos os
lugares, e nem do mesmo jeito o tempo todo. Existem os sotaques da
cada região que permitem que a mesma palavra falada em todo o Brasil
possa ser pronunciada de forma diferente devido a esse fenômeno. É
importante ensinar aos alunos a escrita de acordo com a ortografia
oficial, a fim de que haja padronização na escrita para que todos
que leiam possam compreender. Infelizmente é comum no ensino de uma
língua ler como se escreve, porém acaba não condizendo com a
realidade.
Mito nº7: “É preciso saber gramática para falar e
escrever bem”
Essa afirmação é comum entre professores de
português, e também divulgada em gramáticas normativas, porém não
condiz com a realidade. Um exemplo disso são os grandes escritores
que não tem domínio da gramática normativa, e afirmam tal fato,
assim como os gramáticos não são necessariamente bons escritores. O
que leva a uma boa prática escrita são a leitura e escrita por parte
do aluno, a fim de formar um ser letrado para a sociedade
contemporânea. Há registros históricos de literatura muito antes de
serem criadas as gramáticas normativas. A língua sofre mudanças a
todo tempo, é como um rio corrente; já a gramática é como um lago,
parado, sem correnteza. Ou seja, a gramática está submissa à língua
que é cheia de fenômenos e vive se renovando, enquanto a gramática
não sofre tais alterações.
Mito nº8: “O domínio da norma-padrão é um
instrumento de ascensão social”
Se realmente a norma-padrão fosse responsável pela
ascensão social, ocupantes do topo da pirâmide social, econômica e
política, seriam os professores de português, afinal, quem tem mais
domínio da norma-padrão do que eles? Outro exemplo que se contradiz
ao mito: um grande fazendeiro, praticamente analfabeto, mas dono de
milhares de cabeças de gado, indústrias agrícolas, e influente na
política de sua região, pode falar naturalmente sem dominar a
norma-padrão, que terá um prestígio muito maior na hierarquia
social. Então de que adianta o domínio da norma padrão, se ao menos
o cidadão não tem acesso á água encanada, rede de esgoto, luz
elétrica e um lugar decente para morar? É necessário acesso à
educação no âmbito geral, e condição de uma vida digna de um cidadão
merecedor de todo respeito.
i Acadêmico do Curso de
Letras Trilíngue – Português, espanhol e inglês, pela Universidade
Alto Vale do Rio do Peixe (UNIARP), em Caçador/SC.