“Ah! Se lhe contasse
tudo o que imaginei nas lindas noites dos campos do Paraná”
(DEL PRIORE, 2008, p. 215), escreveu D. Pedro II em carta à
Condessa de Barral. O imperador se referia à viagem que realizou à
província do Paraná no ano de 1880. “Em um momento crítico de
seu governo – a década de 1880 assistirá ao recrudescimento das
forças contrárias ao regime até seu esgotamento final em 1889
(...)” (PIRES, p.1). Os diários de D. Pedro II constituem um
documento de grande importância:
O imperador manteve
durante toda a vida o hábito de registrar suas atividades, afora
em alguns momentos esparsos. O texto de orelha assinado por Miguel
Sanches Neto afirma que o registro da visita de Pedro II ao Paraná
se trata de um importante documento de identidade do Estado. O
pequeno relato escrito pelo monarca constitui oportunidade de um
recorte diferente para a história paranaense, o Paraná visto por
D. Pedro II.
Entre as cidades
visitadas pelo imperador estavam Paranaguá, Curitiba, Campo Largo,
Palmeira, Castro e Ponta Grossa. O estilo de escrita do imperador
é telegráfico. Apenas esporadicamente brota uma anotação menos
técnica, uma observação aguda, um comentário interessante, uma
expressão de sentimento (...) (CARVALHO, 2007, p. 77). Um
relato das atividades diárias que envolvia recepções, visitas à
escolas, onde por vezes costumava sabatinar os alunos, repartições
públicas e padrões métricos dos prédios, observações sobre as
potencialidades econômicas da província e impressões sobre alguns
anfitriões. O prefácio de Francisco Marques dos Santos, realizado
para a edição de 1959, enfatiza o aspecto abnegado do imperador
que suportou as agruras da viagem muito melhor que os jornalistas
bem mais jovens que acompanhavam a comitiva.
Vejamos algumas
impressões do imperador e por onde passou. Em seus diários chama a
atenção em especial o interesse de D. Pedro II pela educação. O
imperador fazia questão de vistoriar as escolas e assistir aulas.
Em Paranaguá: “(...) 19 de maio – As casas das escolas que vi
não são más. Os professores bons. Das três professoras só regia
uma substituta. Os alunos que interroguei por serem os melhores
dos presentes responderam muito bem sobretudo um fulano Maravalha”(p.
12).
[Em Curitiba no dia 22 de maio] (...) Instituto Paranaense que
ensina os preparatórios. Os estudantes – são poucos – responderam
sofrivelmente. Casa pequena, e é ainda externato. As aulas de
primeiras letras depõem contra o estado da instrução primária em
Curitiba. Casas acanhadas para 120 alunos numa a duas – atraso no
ensino e falta quase absoluta de doutrina religiosa
(p. 17).
Em Campo Largo 24 de
maio, “Aulas, uma de meninas e outra de meninos, não me
agradaram” (p. 22).
[Em Palmeira 26 de maio:] A de meninos num corredor da matriz,
onde se acham os padrões métricos mal conservados até por ser o
lugar úmido. (...) A aula de meninas em casa pequena da
professora, irmã do professor. Interroguei um aluno e uma aluna,
ambos bastante inteligentes, que mostraram saber doutrina
religiosa como nenhum outro da província (p. 25).
Em Ponta Grossa 27 de
maio: “Aulas – não gostei. Nada de meninos até o decurião não
soube fazer uma operação de dividir” (p. 28).
[Em Castro 29 de maio:] Às 7 horas estava na aula noturna de
adultos. O mais velho tem 60 anos e o mais moço tem 13 anos. Notei
que o professor que também o é da diurna de meninos não tinha já
ensinado o indispensável da doutrina religiosa. O que interroguei
somente sabia ler mal e somar assim como recitar muito mal o Credo
e o Padre-Nosso. Não tinha escrita na aula. Animei o inspetor juiz
de Direito Vasconcelos agenciar a subscrição para a casa de aulas.
Ouvi-lhe que são duas bandas de música da cidade. [Em 30 de maio:]
Dona Emilia Ericsen pareceu-me muito boa professora, contudo não
ensinara ainda a doutrina ás meninas. O netinho dela leu bem, para
o que estava preparado aliás, apesar de muito vivo. Os meninos
mostraram pouco adiantamento; um, contudo, resolveu um problema de
juros simples (p.33).
Lapa 31 de maio: “Aulas
acanhadas. Na de meninas uma delas respondeu bem. O mesmo não
sucedeu na de meninos – há duas - que visitei, regida pelo filho
do secretário da câmara, aliás, bom professor” (p 38).
E por fim, Antonina em 7 de junho: “Os professores e professora
das aulas que o inspetor designou-me como melhores pareceram-me
bons. Os chamados como melhores, embora recitem orações, não sabem
explicá-las” (p. 46-47).
É de se notar o rigor
com que o imperador cumpria suas obrigações e a atenção especial
que dedicava à instrução. Considerando a formação rigorosa que
teve em sua infância e a afeição que desenvolveu aos estudos é
fácil compreender o interesse pela educação. “Mais do que
hábito, a leitura, e estudo transformaram-se numa de suas paixões.
Enfurnado no Palácio, longe dos pais, educado por estranhos (...)
fez dos livros um mundo à parte em que podia isolar-se e
proteger-se” (CARVALHO, 2007, p. 29). Ainda conforme José
Murilo de Carvalho:
Pedro devia levantar-se
todos os dias às 7 horas da manhã. O almoço seria as oito (...).
Das nove às onze e meia devia estudar e então divertia-se até a
uma e meia. O jantar era às duas da tarde (...). A conversa só
poderia versar sobre assuntos científicos e de beneficência (...).
O tutor preparou ainda (...) instruções a ser observadas pelos
mestres (...). Era uma mistura de iluminismo, humanismo e
moralismo (...) (CARVALHO, 2007, p. 26-27).
Dos três elementos
elencados por Carvalho, podemos observar a saliência do moralismo.
Ao que parece, como podemos depreender das citações, o imperador
acreditava que a instrução religiosa, nesse caso cristã católica,
era parte importante na formação do caráter dos jovens. Se o amor
ao conhecimento e aos livros fazia parte da personalidade de D.
Pedro II devido à sua formação, a importância acentuada à doutrina
religiosa também tinha lugar cativo nas prioridades do monarca.
Diante desse elemento, poderíamos nos sentir tentados a acreditar
que o fato de que, nos dias atuais, a disciplina de ensino
religioso grassar em escolas laicas é um fenômeno com longas
raízes, mas a defesa de um argumento nesse sentido demanda tempo
que não temos.
Alguns episódios
políticos também ajudam a entender o fato de o imperador dar
bastante importância à instrução. No seu retorno da Europa em 1877
o imperador conviveu com o dilema de como se daria a representação
política do país. Uma série de alterações das regras eleitorais,
seguidas de trocas de ministérios acabou, por final, a solapar o
voto da maioria da população analfabeta. Ciente de que as eleições
não refletiam a vontade do povo, a opinião do imperador era que o
problema só se resolveria com a educação. Na sua visão o ensino
primário devia ser obrigatório e generalizado.
Num período em que
outros países já se preocupavam com a universalização da educação,
no Brasil nenhuma iniciativa consistente nessa direção era tomada.
O testemunho do imperador, então chefe de estado, em seu diário
serve para corroborar essa afirmativa. Nove anos depois da vinda
de Pedro II ao Paraná o Brasil se tornou ma república e políticas
de universalização do da educação só foram tomadas no Brasil após
a década de 1930 com Getúlio Vargas.
Destacamos apenas esse
aspecto em prejuízo de tantos outros que bem podem ser explorados
no diário de visita ao Paraná. Um texto que suscita várias
questões dignas de serem respondidas. Qual tipo de narrativa que o
imperador utiliza? A quem faz menção nos seus relatos e quais são
implicações dessas pessoas figurarem no seu diário? Qual o sentido
para a então província e para o Império da visita do imperador? E,
talvez principalmente, como era o Paraná visto por D. Pedro II?
REFERÊNCIAS