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ISSN 1678-8419         última atualização em: segunda-feira, 02 de junho de 2008 21:46:18                                               

 
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EDUCAÇÃO

Algumas anotações sobre o Riso e o risível na Educação e o pensamento de Mikhail Bakhtin sobre cultura popular

   

Anelice Ribetto

publicado em 19/05/2008

O verdadeiro riso, ambivalente e universal,

 Não recusa o serio, ele purifica-o e completa-o.

 Purifica-o do dogmatismo,

 Do caráter unilateral, da esclerose, do fanatismo e do espírito categórico.

Dos elementos do medo ou intimidação,

 Do didatismo, da ingenuidade e das ilusões,

 De uma nefasta fixação sobre um plano único,

 Do esgotamento estúpido.

 O riso impede que o sério se fixe e se isole da integridade inacabada da existência cotidiana.

 Ele restabelece essa integridade ambivalente.

 Mikhail Bakhtin

 

Risos desgovernados. Saberes que irrompem mal-educadamente nos espaços reservados à seriedade do ensino. 

O que sabe quem ri?

Do que ri quem sabe?

Essas perguntas investem o corpo da minha pesquisa de doutorado.

Inicialmente o que me moveu a apresentar esse projeto no doutorado em educação foi a experiência de ter participado como psicóloga-professora da organização de certos rituais festivos –oficiais- na escola. Trabalhei oito anos em duas escolas da rede pública argentina e me inquietava muito a maneira como essas comemorações aconteciam: paralelamente à comemoração oficial de algum fato como “O Dia do Professor” era, frequentemente organizado –nas margens- um ritual não oficial: a festa.  Como nos ensina Bakthin (1993) as festas ditas populares têm “uma diferença de princípio em relação às cerimônias oficiais sérias [pois] oferecem uma visão do mundo, do homem e das relações humanas totalmente diferentes, deliberadamente não-oficiais” (p.5).

Nas escolas, para além dos rituais sérios, existe uma outra organização ritual, de tipo festivo. É a organização não oficial dos rituais acadêmicos ou educativos.

Assim, esse espaço e tempo (ritual) transitado tem seus próprios modos de fazer (CERTEAU, 1994) e produz diferentes representações das relações humanas e do mundo. Os praticantes assumem coletivamente a responsabilidade do acontecer da outra festa.

Além desses rituais festivos comecei a me perguntar pelo riso como acontecimento na educação e pela relação do riso com a produção do conhecimento. As relações que o riso poderia ter com o pensamento.

Os saberes que são saberes risíveis...

Seguindo o pensamento de Bakhtin compreendo que força do riso está no questionamento do poder que alguns acontecimentos investem: o riso libera o mais comum dos sujeitos humanos do medo do castigo e do diabo porque nas festas não oficiais também o diabo é um sujeito amais: aparece como pobre tolo e contraditório.   Seguindo a revisão bibliográfica necessária encontrei que o riso é quase totalmente desconsiderado como saber na educação, muito embora esteja o tempo todo acontecendo. Acaso existe um currículo que considere o risível? É possível pensar que esse “humor humano” entranha saberes sobre as coisas do mundo?

As pessoas riem para banalizar o medo.

Lembro de “O nome da rosa” de Humberto Eco, aonde o livro proibido pela Igreja é aquele que valora o riso como modo de expressão que corresponde a uma possível verdade. O que significaria pensar nisso? Significaria, talvez, perder o poder que tem a enunciação do diabo (do castigo, da punição, da nota, do ridículo, da expulsão, etc.) e, justificar a possibilidade de que a linguagem popular –geralmente grotesca- é portadora de algum saber.

É essa ambigüidade que entranha esse produto coletivo chamado RISO - como acontecimento múltiplo e plural que irrompe no cotidiano da educação e provoca, com essa irrupção, a interrupção ou suspensão momentânea dos saberes e poderes oficiais - o que desejo pesquisar no processo de doutorado.

O riso não só como gesto de diversão, mais como desafio ao saber sério do mundo oficial, tido como verdade absoluta.

Pesquisar questionando também a limitada literatura disponível sobre esse acontecimento. Considero essa falta como indicio não só da omissão do campo das ciências daqueles temas considerados banais senão, o quê essa omissão -como ausência- está colocando como presença. Imbuir-me do incômodo e perigo que uma gargalhada provoca e que, às vezes, gera todo tipo de práticas de vigilância que tentam matizar, controlar didaticamente como atividades de tempo-livre, defini-la como conduta potencial de resiliência, modo de amenizar a relação professor-aluno, etc. sem a possibilidade do questionamento desse incômodo como indicio da trama paradigmática na que estamos submersos.   

Jorge Larrosa (2002) no artigo “O elogio do riso” me ajuda na escrita sobre essa carência ou omissão política e na justificativa dessa minha pesquisa. Por que falar do riso? “Primeiro, porque em pedagogia se ri pouco (...). Talvez meu principal interesse em falar do riso seja a convicção de que o riso está proibido (...) e são as proibições e as omissões que melhor podem dar conta da estrutura de um campo, das regras que o constituem da sua gramática profunda” (p.170/71).

Mikhail Bakthin é uma das referências teóricas que evoco para situar historicamente, as formas como o riso e o risível têm sido considerados.

Bakhtin traz ao centro da discussão a questão da cultura popular quando investiga esse assunto com pretensão de achar nele, pistas sobre da obra do escritor francês François Rabeleis. Bakhtin tenta criar uma teorização do grotesco e da cultura carnavalesca, considerando-os peças chaves para a compreensão da cultura cômica popular da idade média e do renascimento. Escreve que o riso popular é um dos aspectos mais importantes no que diz ao conjunto das criações populares, mas que a despeito disto, ele é um dos itens menos estudados. Bakhtin nos ensina que o aspecto jocoso das manifestações tinha a capacidade de produzir uma espécie de duplicidade do real, ou ainda a existência de uma dupla visão do mundo no médioevo: uma visão séria ou oficial, que é a das autoridades, e a visão cômica, não-oficial, que é do povo. A visão cômica é excluída deliberadamente do domínio do sagrado e se torna a característica essencial da cultura popular. “Essa visão se cria fora do controle das autoridades, aparecendo principalmente de três maneiras: ritos e espetáculos, tais como o Carnaval; obras cômicas verbais e, criação de um vocabulário familiar e grosseiro” (BAKHTIN, op.cit: 45)

Para Bakhtin as festas populares permitem a liberação temporal de regras, valores, tabus e hierarquias. O riso teria então um valor de subversão da ordem social oficial, principal característica das festas carnavalescas. Por outro lado, o que dá um caráter cômico ao mundo é o que o autor denomina “realismo grotesco”, que é a “maneira lógica e simbólica” (p.17) predominante nesse tipo de festividade.

 

Todas as lógicas e símbolos da linguagem carnavalesca estão impregnados do lirismo da alternância e da renovação, da consciência da alegre relatividade das verdades e autoridades no poder. Ela caracteriza-se principalmente, pela lógica original das coisas “ao avesso”, “ao contrario”, das permutações constantes do alto e do baixo, da face e do traseiro, e pelas diversas formas de parodias, travestis, degradações, profanações, coroamentos e destronamentos bufões (...). O mundo todo parece cômico e é percebido e considerado no seu aspecto jocoso, no seu alegre relativismo. Esse riso é “ambivalente”: alegre e cheio de alvoroço, mas ao mesmo tempo burlador e sarcástico, nega e afirma, amortalham e ressuscitam simultaneamente (BAKTHIN, op.cit: 10)

 

O traço marcante do grotesco é o rebaixamento, ou seja, “a transferência de tudo o que é elevado, espiritual, ideal e abstrato para o plano material e corporal, aquele da terra e do corpo” (MINOIS, 2003:158)

Por isso, o cômico popular vai-se identificar no “baixo”: comer, excretar, ter sexo, o parto, a menstruação, os odores e os ruídos ligados ao ventre.

E também vai se identificar com o diabo.

A associação do diabo com o riso parece ser tão antiga como o próprio cristianismo. Desde os tempos antigos, segundo Bakhtin, o cristianismo caracterizou Deus como alguém que não ri, e condenou o riso como atributo de seu inimigo: o cristão deve conservar uma seriedade constante como arrependimento e a dor em expiação dos seus pecados. (BAKHTIN, op. cit: 63)

Se, por uma parte Deus não ri, por outra, porém, certo é que ser humano, sua mais nobre criatura, não se priva dessa faculdade. Textos de autoria do clero da Idade Média afirmam que o riso, definido por Aristóteles como o “próprio do homem”, é aquilo que o distingue tanto de Deus como dos animais. Mas, ao dar-lhe a capacidade de rir, Deus não permitiria ao homem gozá-la livremente. O riso permaneceria condenado e associado ao pecado, posto que Jesus nunca teria rido durante sua existência na terra.

A Igreja, especialmente na Idade Média e no Renascimento, foi marcada por uma postura ambígua em relação ao tema: para além de seus debates internos, tanto a instituição quanto seus membros conviveram com ritos e festejos cômicos que parodiavam inclusive a própria religião (BAKHTIN, op.cit.) Os clérigos de baixa e média condição, os escolares, os estudantes, os membros das corporações e finalmente os diversos e numerosos elementos instáveis, situados fora dos estratos sociais, eram os que participavam mais ativamente nas festas populares. No entanto, a cultura cômica da Idade Média pertencia de fato ao conjunto do povo. A verdade do riso englobava e arrastava a todos, de tal maneira que ninguém podia resistir-lhe. (BAKHTIN, op.cit: 71)

Os opositores do riso, no entanto, acusavam-no por sua terrível capacidade de libertar do medo o povo cristão que deveria ser temente a Deus e submisso às ordens de seus pastores. Para eles, o riso teria um caráter subversivo, enchendo suas mentes com imagens de um mundo alegre de abundância e fecundidade para o povo, sem as restrições e as culpas que a religião lhes infligia. Deveria, portanto, ser evitado e condenado, como defende um personagem do romance de Eco: “O riso distrai, por alguns instantes, o aldeão do medo. Mas a lei é imposta pelo medo, cujo nome verdadeiro é temor a Deus [...] E o que seremos nós, criaturas pecadoras, sem o medo, talvez o mais benéfico e afetuoso dos dons divinos?” (ECO, 1986:533) O riso, nesse sentido, seria contra a Igreja e contra Deus. Logo, numa associação rápida, a favor do Diabo. A teologia cristã, que dividiu o mundo entre o Bem e o Mal, traduziu no pensamento sobre o riso essa oposição fundamental: diabólicas seriam todas as formas do riso desafiador ligadas ao mundo terreno. Riso imoderado, obsceno, festivo, jocoso, zombador, paródico e rebaixador. 

Humores que são saberes.

Saberes do baixo.

Impuros, sujos, risíveis, esses humores e saberes devem ser interditados e restringidos a partir do medo e da intimação do “saber sério”

Interditados e restringidos pelas regras da “Boa Educação”.

 

Referencias Bibliográficas.

BAKHTIN, M.. A cultura popular na Idade Media e no renascimento. Ed. UNB e HUCITEC: S.P, 1993;

CERTEAU, Michael. A invenção do cotidiano I. Petrópolis: Ed. Vozes, 1994;

ECO, Umberto. O nome da rosa. Rio de Janeiro: Record, 1986.

LARROSA, J. Elogio do riso. IN: LARROSA, Jorge. Pedagogia profana. Danças, piruetas e mascaradas. Autêntica: B.H., 2000;

MINOIS, George. História do Riso e do Escárnio. São Paulo: Ed. Unesp, 2003.

 

 

 
  

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::sobre o autor::

Anelice Ribetto é DOUTORANDA em EDUCAÇÃO da Universidade Federal Fluminense (Nome da Pesquisa: A ma educação. Orientadores: Regina Leite García. Possível co-orientação dos professores Jorge Larrosa e Carlos Skliar). É MESTRE EM EDUCAÇÃO pela mesma instituição. É bolsista da CNPq. Foi orientada pela Drª. Prfª. Regina Leite García na pesquisa "Das diferenças e outros demônios: o realismo mágico da alteridade na educação". Realizou estágio de Mestrado na Universidad de Barcelona (Espanha) com o Pf. Dr. Jorge Larrosa e no IEC (Universidade do Minho, Portugal) e na Escola da Ponte (Portugal) desde outubro de 2005 até fevereiro de 2006. Graduada em PSICOLOGÍA pela Universidade Nacional de Córdoba, Argentina em 1991. Concluiu a Especialização em "Psicopatología Clínica" no Hospital Neuropsiquiátrico de Córdoba em 1992 e a Especialização em "Psicoterapia Familiar Sistêmica" em 1994. Membro da equipe interdisciplinar de duas escolas públicas na Argentina (Escuela Especial J. Luis de Cabrera, Argentina até 2005), do Hospital da Comunidad e de um Centro Interdisciplinar Psicopedagógico.Pesquisadora convidada pela Casa da Ciência da UFRJ como colaboradora nas atividades desse centro universitário desde 2003 até 2007. Participa do "GRUPALFA" da UFF. Coordena projetos de formação de professores em educação e diferenças e é formadora da Fundação Darcy Ribeiro (FUNDAR, RJ) no Programa de Inclusão de Jovens (Projovem).

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