O verdadeiro
riso, ambivalente e universal,
Não recusa o
serio, ele purifica-o e completa-o.
Purifica-o do
dogmatismo,
Do caráter
unilateral, da esclerose, do fanatismo e do espírito categórico.
Dos elementos
do medo ou intimidação,
Do didatismo,
da ingenuidade e das ilusões,
De uma
nefasta fixação sobre um plano único,
Do
esgotamento estúpido.
O riso impede
que o sério se fixe e se isole da integridade inacabada da
existência cotidiana.
Ele
restabelece essa integridade ambivalente.
Mikhail Bakhtin
Risos desgovernados. Saberes que irrompem
mal-educadamente nos espaços reservados à seriedade do ensino.
O que sabe quem ri?
Do que ri quem sabe?
Essas perguntas investem o corpo da minha pesquisa de
doutorado.
Inicialmente o que me moveu a apresentar esse projeto
no doutorado em educação foi a experiência de ter participado como
psicóloga-professora da organização de certos rituais festivos
–oficiais- na escola. Trabalhei oito anos em duas escolas da rede
pública argentina e me inquietava muito a maneira como essas
comemorações aconteciam: paralelamente à comemoração oficial de
algum fato como “O Dia do Professor” era, frequentemente organizado
–nas margens- um ritual não oficial: a festa. Como nos ensina
Bakthin (1993) as festas ditas populares têm “uma diferença de
princípio em relação às cerimônias oficiais sérias [pois]
oferecem uma visão do mundo, do homem e das relações humanas
totalmente diferentes, deliberadamente não-oficiais” (p.5).
Nas escolas, para além dos rituais sérios,
existe uma outra organização ritual, de tipo festivo. É a
organização não oficial dos rituais acadêmicos ou educativos.
Assim, esse espaço e tempo (ritual) transitado
tem seus próprios modos de fazer (CERTEAU, 1994) e
produz diferentes representações das relações humanas e do mundo. Os
praticantes assumem coletivamente a responsabilidade do
acontecer da outra festa.
Além desses rituais festivos comecei a me perguntar
pelo riso como acontecimento na educação e pela relação do riso com
a produção do conhecimento. As relações que o riso poderia ter com o
pensamento.
Os saberes que são saberes risíveis...
Seguindo o pensamento de Bakhtin compreendo que força
do riso está no questionamento do poder que alguns acontecimentos
investem: o riso libera o mais comum dos sujeitos humanos do medo do
castigo e do diabo porque nas festas não oficiais também o diabo é
um sujeito amais: aparece como pobre tolo e contraditório.
Seguindo a revisão bibliográfica necessária encontrei que o riso é
quase totalmente desconsiderado como saber na educação, muito embora
esteja o tempo todo acontecendo. Acaso existe um currículo que
considere o risível? É possível pensar que esse “humor
humano” entranha saberes sobre as coisas do mundo?
As pessoas riem para banalizar o medo.
Lembro de “O nome da rosa” de Humberto Eco,
aonde o livro proibido pela Igreja é aquele que valora o riso como
modo de expressão que corresponde a uma possível verdade. O que
significaria pensar nisso? Significaria, talvez, perder o poder que
tem a enunciação do diabo (do castigo, da punição, da nota, do
ridículo, da expulsão, etc.) e, justificar a possibilidade de que a
linguagem popular –geralmente grotesca- é portadora de algum saber.
É essa ambigüidade que entranha esse produto coletivo
chamado RISO - como acontecimento múltiplo e plural que irrompe
no cotidiano da educação e provoca, com essa irrupção, a interrupção
ou suspensão momentânea dos saberes e poderes oficiais - o que
desejo pesquisar no processo de doutorado.
O riso não só como gesto de diversão, mais como
desafio ao saber sério do mundo oficial, tido como verdade
absoluta.
Pesquisar questionando também a limitada literatura disponível sobre
esse acontecimento. Considero essa
falta
como indicio não só da omissão do campo das ciências daqueles temas
considerados banais senão, o quê essa omissão -como ausência- está
colocando como presença. Imbuir-me do incômodo e perigo que uma
gargalhada provoca e que, às vezes, gera todo tipo de práticas de
vigilância que tentam matizar, controlar didaticamente como
atividades de tempo-livre, defini-la como conduta potencial de
resiliência, modo de amenizar a relação professor-aluno, etc. sem a
possibilidade do questionamento desse incômodo como indicio da trama
paradigmática na que estamos submersos.
Jorge Larrosa (2002) no artigo
“O elogio do riso”
me ajuda na escrita sobre essa carência ou omissão política e na
justificativa dessa minha pesquisa. Por que falar do riso?
“Primeiro, porque em pedagogia se ri pouco (...). Talvez meu
principal interesse em falar do riso seja a convicção de que o riso
está proibido (...) e são as proibições e as omissões que melhor
podem dar conta da estrutura de um campo, das regras que o
constituem da sua gramática profunda” (p.170/71).
Mikhail Bakthin é uma das referências teóricas que evoco para situar
historicamente, as formas como o riso e o risível têm sido
considerados.
Bakhtin traz ao centro da discussão a questão da
cultura popular quando investiga esse assunto com pretensão de achar
nele, pistas sobre da obra do escritor francês François Rabeleis.
Bakhtin tenta criar uma teorização do grotesco e da cultura
carnavalesca, considerando-os peças chaves para a compreensão da
cultura cômica popular da idade média e do renascimento. Escreve que
o riso popular é um dos aspectos mais importantes no que diz ao
conjunto das criações populares, mas que a despeito disto, ele é um
dos itens menos estudados. Bakhtin nos ensina que o aspecto jocoso
das manifestações tinha a capacidade de produzir uma espécie de
duplicidade do real, ou ainda a existência de uma dupla visão do
mundo no médioevo: uma visão séria ou oficial, que é a das
autoridades, e a visão cômica, não-oficial, que é do povo. A visão
cômica é excluída deliberadamente do domínio do sagrado e se torna a
característica essencial da cultura popular. “Essa visão se cria
fora do controle das autoridades, aparecendo principalmente de três
maneiras: ritos e espetáculos, tais como o Carnaval; obras cômicas
verbais e, criação de um vocabulário familiar e grosseiro”
(BAKHTIN, op.cit: 45)
Para Bakhtin as festas populares permitem a liberação
temporal de regras, valores, tabus e hierarquias. O riso teria então
um valor de subversão da ordem social oficial, principal
característica das festas carnavalescas. Por outro lado, o que dá um
caráter cômico ao mundo é o que o autor denomina “realismo
grotesco”, que é a “maneira lógica e simbólica” (p.17)
predominante nesse tipo de festividade.
Todas as
lógicas e símbolos da linguagem carnavalesca estão impregnados do
lirismo da alternância e da renovação, da consciência da alegre
relatividade das verdades e autoridades no poder. Ela caracteriza-se
principalmente, pela lógica original das coisas “ao avesso”, “ao
contrario”, das permutações constantes do alto e do baixo, da face e
do traseiro, e pelas diversas formas de parodias, travestis,
degradações, profanações, coroamentos e destronamentos bufões
(...). O
mundo todo parece cômico e é percebido e considerado no seu aspecto
jocoso, no seu alegre relativismo. Esse riso é “ambivalente”: alegre
e cheio de alvoroço, mas ao mesmo tempo burlador e sarcástico, nega
e afirma, amortalham e ressuscitam simultaneamente (BAKTHIN,
op.cit: 10)
O traço marcante do grotesco é o rebaixamento, ou
seja, “a transferência de tudo o que é elevado, espiritual, ideal
e abstrato para o plano material e corporal, aquele da terra e do
corpo” (MINOIS, 2003:158)
Por isso, o cômico popular vai-se identificar no
“baixo”: comer, excretar, ter sexo, o parto, a menstruação, os
odores e os ruídos ligados ao ventre.
E também vai se identificar com o diabo.
A associação do diabo com o riso parece ser tão
antiga como o próprio cristianismo. Desde os tempos antigos, segundo
Bakhtin, o cristianismo caracterizou Deus como alguém que não ri, e
condenou o riso como atributo de seu inimigo: o cristão deve
conservar uma seriedade constante como arrependimento e a dor em
expiação dos seus pecados. (BAKHTIN, op. cit: 63)
Se, por uma parte Deus não ri, por outra, porém,
certo é que ser humano, sua mais nobre criatura, não se priva dessa
faculdade. Textos de autoria do clero da Idade Média afirmam que o
riso, definido por Aristóteles como o “próprio do homem”, é
aquilo que o distingue tanto de Deus como dos animais. Mas, ao
dar-lhe a capacidade de rir, Deus não permitiria ao homem gozá-la
livremente. O riso permaneceria condenado e associado ao pecado,
posto que Jesus nunca teria rido durante sua existência na terra.
A Igreja, especialmente na Idade Média e no
Renascimento, foi marcada por uma postura ambígua em relação ao
tema: para além de seus debates internos, tanto a instituição quanto
seus membros conviveram com ritos e festejos cômicos que parodiavam
inclusive a própria religião (BAKHTIN, op.cit.) Os clérigos de baixa
e média condição, os escolares, os estudantes, os membros das
corporações e finalmente os diversos e numerosos elementos
instáveis, situados fora dos estratos sociais, eram os que
participavam mais ativamente nas festas populares. No entanto, a
cultura cômica da Idade Média pertencia de fato ao conjunto do povo.
A verdade do riso englobava e arrastava a todos, de tal maneira que
ninguém podia resistir-lhe. (BAKHTIN, op.cit: 71)
Os opositores do riso, no entanto, acusavam-no por
sua terrível capacidade de libertar do medo o povo cristão que
deveria ser temente a Deus e submisso às ordens de seus pastores.
Para eles, o riso teria um caráter subversivo, enchendo suas mentes
com imagens de um mundo alegre de abundância e fecundidade para o
povo, sem as restrições e as culpas que a religião lhes infligia.
Deveria, portanto, ser evitado e condenado, como defende um
personagem do romance de Eco: “O riso distrai, por alguns
instantes, o aldeão do medo. Mas a lei é imposta pelo medo, cujo
nome verdadeiro é temor a Deus [...] E o que seremos nós, criaturas
pecadoras, sem o medo, talvez o mais benéfico e afetuoso dos dons
divinos?” (ECO, 1986:533) O riso, nesse sentido, seria contra a
Igreja e contra Deus. Logo, numa associação rápida, a favor do
Diabo. A teologia cristã, que dividiu o mundo entre o Bem e o Mal,
traduziu no pensamento sobre o riso essa oposição fundamental:
diabólicas seriam todas as formas do riso desafiador ligadas ao
mundo terreno. Riso imoderado, obsceno, festivo, jocoso, zombador,
paródico e rebaixador.
Humores que são saberes.
Saberes do baixo.
Impuros, sujos, risíveis, esses humores e saberes
devem ser interditados e restringidos a partir do medo e da
intimação do “saber sério”
Interditados e restringidos pelas regras da
“Boa Educação”.
Referencias Bibliográficas.
BAKHTIN, M.. A cultura popular na Idade Media e no
renascimento. Ed. UNB e
HUCITEC: S.P, 1993;
CERTEAU, Michael. A invenção do cotidiano I.
Petrópolis: Ed. Vozes, 1994;
ECO, Umberto. O nome da rosa. Rio de
Janeiro: Record, 1986.
LARROSA, J. Elogio do riso. IN: LARROSA, Jorge.
Pedagogia profana. Danças, piruetas e mascaradas. Autêntica:
B.H., 2000;
MINOIS, George. História do Riso e do Escárnio.
São Paulo: Ed. Unesp, 2003.