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No campo da educação infantil e de suas especificidades
emerge a relevância de se compreender as singularidades de um currículo
para instituições – creches e pré-escolas, bem como os saberes
requeridos aos profissionais envolvidos nessa educação. Nesse contexto,
estamos realizando investigação sobre saberes docentes requeridos na
construção de uma proposta curricular para a educação infantil, através
de uma pesquisa-ação em uma instituição pública municipal de Ceará-Mirim/RN.
No percurso da investigação fomos percebendo a
dificuldade, manifestada pelos sujeitos da pesquisa, de sistematização
de um conceito elaborado de currículo/proposta curricular. Para Vigotski
(2005) isso se explica pelo fato de que ocorre muitas vezes uma
discrepância entre a utilização de um conceito numa situação concreta e
a sua definição verbal, mesmo no pensamento do adulto em níveis muito
avançados. Desta forma, realizamos uma primeira análise destas
entrevistas, selecionando alguns trechos que nos davam pistas de suas
concepções sobre currículo/proposta curricular. E através da realização
de seminário de estudo reflexivo analisamos estes trechos e buscamos
sistematizar o conceito de currículo/proposta curricular junto ao grupo,
tendo em vista possíveis construções e (re) construções conceituais
individuais e coletivas.
Neste artigo
abordaremos as relações entre saberes docentes relativos ao conceito de
currículo/proposta curricular e as concepções teóricas de autores como
Moreira (1999); Kramer (1999); Moreira e Silva (2005); Silva (2006);
Ribeiro (2000), entre outros, que defendem a participação de todos os
sujeitos da escola na construção e efetivação de um currículo/ proposta
curricular.
A partir da
problematização de uma análise das entrevistas com o grupo, percebemos
uma demasiada importância aos conteúdos, visto que, todas as falas das
entrevistas faziam associação entre currículo e lista de conteúdos.
Exemplificando:
[...] E a
Proposta Curricular, não seria mais pra o conteúdo aplicado em sala,
seria assim? Eu tenho muitas dúvidas sabe? O que a gente aplica na sala,
é? [...]. Seria o conteúdo que você vai aplicar, seria assim a Proposta
Curricular? [...]. (E);
[...] Proposta
Curricular, pronto é assim, é como se, é tipo assim o que vai se passar
pra criança, é... os conteúdos, eu vejo como isso, uma orientação, se
trabalhar pras crianças, em termo de conteúdo. (L).
Apenas timidamente foram considerados outros aspectos
relacionados ao currículo como a metodologia, as questões relacionadas
ao desenvolvimento e aprendizagem e a avaliação, entre outros. Na
maioria dos casos esses outros aspectos só eram lembrados quando
provocados por questões como: “Além de conteúdos, que outras coisas
precisam estar definidas na proposta curricular?” Como podemos ilustrar
a partir desse fragmento de fala: “[...] A metodologia da escola tem que
estar definida ‘né’? Na Proposta Curricular, eu acho que é isso.”(E).
Na busca de uma ressignificação e (re) construção do conceito de
currículo, realizamos estudo e discussão de textos científicos sobre a
temática. Para tanto, nos amparamos nos argumentos de Moreira (2001),
que defende que o processo de elaboração de um currículo precisa ser
pensado/discutido a partir de investigações sobre a prática curricular
com os que nela atuam.
Utilizamos para discussão em grupo os textos de Santos e Paraíso (1996);
Ribeiro (2000), que parecem ter contribuído para um exercício de (re)
elaboração do conceito de currículo/proposta curricular do grupo
pesquisado, embora reconheçamos que, partindo do pressuposto de que toda
apropriação de conhecimentos é um processo de elaboração resultante de
interações e mediações - pelos outros mais experientes e pela linguagem
(VYGOTSKY, 1997), esse processo de formação de conceitos é dinâmico, não
linear ou imediato e singular para cada um. Dessa forma, mediante as
leituras e discussões dos textos nos seminários reflexivos,
o grupo foi elaborando coletivamente e de forma oral, sínteses de
conceito de currículo/proposta curricular, citamos como exemplo dessas
elaborações:
Uma proposta com
metas e ações a serem realizadas. A partir da necessidade da criança,
uma orientação de como trabalhar, partindo do social – como a criança é
em casa/ comunidade, considerando os aspectos motores, cognitivos,
afetivos. São diretrizes que uma escola precisa ter para se desenvolver
como um todo: conteúdos, habilidades, metodologia, avaliação, objetivos,
projetos – a organização de tudo isso. Não é um documento permanente,
mas sujeito a mudanças.
As metas a serem alcançadas, a definição de como avaliar,
considerando o desenvolvimento infantil. Os conteúdos a serem aplicados,
os métodos. Uma base, uma orientação para ajudar na aprendizagem dos
alunos levando em conta a fase em que se encontram, com embasamento
teórico. Uma proposta flexível contendo conteúdos e métodos a serem
desenvolvidos no processo de ensino-aprendizagem direcionado ao
desenvolvimento cognitivo e emocional da família-escola, respeitando a
realidade de seu meio para um melhor embasamento avaliativo e produtivo.
Posteriormente, em outro seminário retomamos as discussões e os
professores fizeram registros escritos individuais de seus conceitos de
currículo até então construídos:
Currículo é um documento que auxilia a prática e
é flexível, necessitando de modificações de acordo com as mudanças que
vão surgindo. (Seminário reflexivo nº3).
É uma proposta que reorganiza e norteia todas as
ações educativas que envolvem uma escola, sejam elas no âmbito
pedagógico propriamente dito quanto as inter-relações de todos os
envolvidos neste processo. (Seminário reflexivo nº 3).
Apesar da falta de identificação nesses registros escritos individuais,
podemos perceber avanços no processo de formação de conceitos de
currículo/proposta curricular.
Mesmo compreendendo que os saberes docentes - como quaisquer outros
- são elaborados/apropriados em mediação/em relação e, portanto, não são
imediatos, levam tempo, já é possível perceber, após um período de
investigação, indícios de reelaboração/ressignificação de saberes no
coletivo, mas com repercussões individuais.
O que emerge desses achados são rupturas importantes com relação às
idéias iniciais dos professores. Na perspectiva de Kramer (apud BRASIL,
1996) entendemos que o currículo/proposta curricular
reúne tanto as bases teóricas quanto as diretrizes práticas nelas
fundamentadas, bem como aspectos de natureza técnica que viabilizam sua
concretização.
Podemos apontar essa complexidade do currículo, enquanto não apenas
“programa de conteúdos”, mas conjunto de concepções e ações que permeiam
o trabalho pedagógico da escola, como um dos principais aspectos
discutidos e envolvidos nesse processo de (re) construção conceitual
vivenciado pelo grupo
pesquisado.
Um segundo aspecto que se revela nas falas e registros dos professores,
relaciona-se a instabilidade de um currículo documentado e a relação
dialética entre documento e prática,
considerando que uma proposta curricular não é só o documento onde se
registram princípios teóricos, metas, objetivos, conteúdos, atividades a
serem desenvolvidas na escola, mas, além disso, a realização mesma
dessas definições no dia-a-dia da instituição.
Nos estudos de Moreira (1999); Moreira e Silva (2005); Silva (2006),
acerca das teorias críticas e pós-críticas do currículo, temos
discutido, para além das diferenças e debates que circundam estas
teorias, a necessidade de problematização de um currículo como
artefato cultural, isto é, como o resultado de um processo de
construção social, que se configure como instrumento de construção,
transformação de cultura e não apenas, reprodutor de cultura. Deste
modo, entendemos que sendo uma construção social,
O currículo não
pode ser compreendido sem uma análise das relações de poder que fizeram
e fazem com que tenhamos esta definição determinada de currículo e não
outra,[...] fazem com que o currículo inclua um tipo determinado de
conhecimento e não outro. (SILVA, p.135, 2005).
Nesta
perspectiva,
outros
aspectos
ainda
precisariam
ser
rompidos
junto
aos
professores,
para
que
se concretize no
cotidiano
das
escolas,
essa
autonomia
curricular de
forma
que
se configure o
global
no
local,
sem
esgotar
especificidades do
singular
no
plural.
Consideramos
que
momentos
como
os
aqui
relatados de
identificação,
discussão
e (re)
elaboração
de
saberes
docentes,
são
possíveis
na
medida
em
que
se garanta
espaços
de mediações e
interações.
Pois
entendemos
que
para
elaborar
– e,
sobretudo,
vivenciar
– uma
proposta
pedagógica
em
que
os
professores
atuem
como
sujeitos,
é requerido a
eles
saberes
próprios
sem
os
quais
não
têm
condições
de, verdadeiramente, participarem da
construção
e materialização de uma
proposta.
Desta forma, identificamos neste estudo os saberes relativos ao conceito
de currículo/proposta curricular como parte/base de um conjunto de
outros saberes, e compreendermos o saber docente como “... um saber
plural, formado pelo amálgama, mais ou menos coerente, de saberes
oriundos da formação profissional e de saberes disciplinares,
curriculares e experienciais”. (TARDIF, 2002, p.36). O saber dos
professores é plural, compósito e heterogêneo, porque envolve, no
próprio exercício do trabalho, conhecimentos e um saber-fazer bastante
diverso. Além disso, é temporal, uma vez que é adquirido no contexto de
vida e de uma história profissional. Assim, o saber não é uma coisa que
flutua no espaço: o saber dos professores é o saber deles e está
relacionado com a pessoa e a identidade deles, com as suas relações com
os alunos em sala de aula e com os outros atores na escola (Ibid.,
2002). Definimos aqui que o saber é uma relação, não há sujeito de saber
e não há saber senão em uma certa relação com o mundo - relação com o
saber, consigo mesmo, com a linguagem e com os outros (CHARLOT, 2000).
E nesta perspectiva, acreditamos na possibilidade de um trabalho de
formação de professores desenvolvido no cotidiano das escolas, que
possibilite a construção e desconstrução de propostas curriculares,
envolvendo inclusive a (re) elaboração de conceitos fundamentais, como o
de currículo, aqui desvendado, além da formação de atitudes de autonomia
frente às relações de poder, que parecem predominar na nossa sociedade
global.
Referências
BRASIL. Ministério
da Educação. Secretaria de Educação Fundamental. COEDI. Propostas
Pedagógicas e currículo
em Educação
Infantil.
Brasília: MEC/SEF/DPE/COEDI, 1996.
CHARLOT, Bernard.
Da relação com o saber: elementos para uma teoria. Tradução de
Bruno Magne. Porto Alegre : Artes Médicas Sul, 2000.
KRAMER, Sonia.
Propostas Pedagógicas ou curriculares: subsídios para uma leitura
crítica. In: MOREIRA, Antonio Flavio Barbosa. (org.). Currículo:
Políticas e práticas. Campinas, SP: Papirus, 1999. (pp. 164-182).
MOREIRA, Antonio
Flavio Barbosa. (org.). Currículo: Políticas e práticas. –
Campinas, SP: Papirus, 1999.
_____. A crise da teoria curricular crítica. In:
COSTA, Marisa Vorraber. (org.). O
currículo nos limiares do contemporâneo. 3. ed. Rio de Janeiro: DP&A,
2001. pp. 11-36.
MOREIRA, Antonio
Flavio e SILVA, Tomaz Tadeu da (orgs). Currículo, cultura e sociedade.
8. ed. São Paulo: Cortez, 2005.
OLIVEIRA, Zilma
Ramos de (org.). Educação Infantil: muitos olhares. – 6. ed. –
São Paulo: Cortez, 2004.
RIBEIRO, Márcia
Maria Gurgel. Diferentes espaços / tempos da organização curricular. In:
ALMEIDA, Maria Doninha de. (org.). Currículo como artefato social.
Natal (RN): EDUFRN – Editora da UFRN, 2000. (Coleção Pedagógica; n.2).
SANTOS, Lucíola
Licinio Paixão e PARAÍSO, Marlucy Alves. Dicionário Critico da educação.
Currículo. Revista Presença Pedagógica, v. 2, n. 7, jan/fev.
1996. (5 pp.).
SILVA, Tomaz Tadeu
da. Documentos de identidade – uma introdução as teorias do currículo.
– 2. ed. – Belo Horizonte: Autêntica, 2005.
_____. O
currículo como fetiche: a poética e a política do texto curricular.
Belo Horizonte: Autêntica, 2006. 120p.
TARDIF, Maurice.
Saberes docentes e formação profissional. Petrópolis, RJ: Vozes,
2002.
VYGOTSKY, L. S.
A formação social da mente. São Paulo: Martins Fontes, 1997.
_____.
Pensamento e linguagem. – 3. ed. – São Paulo: Martins Fontes, 2005.
– (Psicologia e pedagogia).
ANEXO 1
Tabela 1 – Quadro-síntese do conceito de currículo/proposta curricular
apreendido nas entrevistas individuais.
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Termos utilizados / Idéias apreendidas |
Frequência |
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Um guia / Orientação/ Caminho/ Norte / Direção |
09 |
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Definição de Conteúdos / Programa / O que ensinar |
16 |
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Definição de Metodologia / Objetivos / Avaliação / Como ensinar
/ Pra que ensinar |
11 |
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Informações sobre Desenvolvimento
Processo ensino / aprendizagem |
08 |
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