.ISSN 1678-8419  

Revista Partes - Ano V - 22/04/2006 22:48:25 

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Sustentabilidade na aldeia indígena: uma trajetória de impactos e resistências.
Por Genivaldo Frois Scaramuzza[1]

Resumo: A proposta do presente texto é comunicar saberes referentes aos resultados preliminares, do Projeto/PIBIC Didática Etnoambiental: Aprendendo e ensinando sustentabilidade na maloca, do Grupo de Pesquisa Educação na Amazônia/CNPq da UNIR – Campus de Ji-Paraná em Rondônia, Brasil.  Através do estudo do tipo etnográfico, apresentamos contatos iniciais com o povo indígena Gavião, evidenciando a forma como esse grupo vem construindo seus processos de sustentabilidade, por meio de múltiplas resistências diante dos impactos decorrentes do contato com a sociedade nacional. 

Palavras – chave: Povos indígenas. Sustentabilidade. Impactos. Resistências.   

      O povo indígena Gavião, habita a Terra Indígena Igarapé Lourdes, no Estado de Rondônia, município de Ji-Paraná, juntamente com o povo Arara. A extensão geográfica de sua reserva corresponde a 185.534 Hectares. A homologação de seu território se deu pelo Decreto 88.609/83. Levantamentos realizados pelo CIMI (2002) e registrados através do documento Panewa Especial, revelam que a população da etnia Gavião é de aproximadamente 587 pessoas, cuja língua pertence à família Mondé do tronco Tupi. O povo Gavião distribui-se pela reserva indígena em várias aldeias: Ikolen, Cacoal, Castanheira, Igarapé Lourdes, dentre outras.   

 Nossas primeiras visitas às aldeias indígenas Gavião, ocorreu durante o segundo semestre de 2005. O estabelecimento de nossos contatos com esse povo indígena, se deu em função de procurarmos compreender como esse grupo étnico, vem possibilitando uma prática de sustentabilidade no decorrer do tempo. Partimos da hipótese que os valores, costumes, tradições e as crenças dos povos indígenas e das populações tradicionais, podem representar importantes fontes de inspiração para que possamos enfrentar as crises ambientais, levando em conta seus modos de vida.

Ao propormos a referida pauta de estudo, adotamos a definição de desenvolvimento sustentável segundo o Relatório Brundtand – “um desenvolvimento que satisfaz as necessidades do presente, sem colocar em risco a possibilidade de satisfação das necessidades das gerações futuras” (GADOTTI, 2000, p.59).

 Os dados tem sido coletadas e analisados por meio da metodologia do estudo do tipo etnográfico, onde destaca-se a atenção no sentido de registrar a “significação que tem as ações e os eventos para pessoas ou grupos”. (ANDRÉ, 1996, p.19). 

Chegamos a aldeia por um caminho estreito, logo observamos que estava situada em uma área de pastagem. Pouco depois já avistávamos as casas indígenas, com suas coberturas de folhas de coqueiro desfiada, cuja sustentação da cobertura é feita por meio de varas dispostas paralelamente a fim de criar uma maior segurança, exibindo uma arquitetura tradicional, que se revela exuberante de cor amarela, que conforme a luminosidade, parecem transitar entre o amarelo claro e o amarelo ocre. Havia uma casa que contrastava com o restante das casas tradicionais, tratava-se de uma construção colonial recente em cor branca, coberta de telhas de barro, com uma área ao redor. Fomos informados que a casa pertence a FUNAI – Fundação Nacional do Índio, local onde são hospedados os técnicos deste órgão e demais visitantes.

Arrumamos nossas coisas e sem demorar muito fomos direto para uma escola quase no meio da aldeia. A escola deveria ter algo em torno de 80 m² aproximadamente. As carteiras eram típicas das escolas públicas que conhecemos na cidade, já o piso de cimento queimado, apresentava algumas fissuras em lugares alternados. As paredes de madeira eram pintadas de cor rosa.

Fomos recepcionados pelo professor indígena Zacarias, um jovem de cerca de trinta anos, cabelos lisos de cor bem preta, sua altura parecia medir 1,65m aproximadamente. Na ocasião fizemos nossas primeiras entrevistas com os professores indígenas sobre a existência de práticas sustentáveis na aldeia. Perguntamos aos professores que se faziam presente na reunião o que eles entendiam por sustentabilidade, nesses termos os índios não conseguiram responder, foi preciso explicar o conceito de sustentabilidade e reformular a pergunta para que tivéssemos uma possível resposta.

O Professor Zacarias que falava a frente, explicou que há algum tempo atrás, a extração de madeiras na reserva indígena era intensa, e acrescentou: Tirar as madeiras e fazer as  derrubadas ou  até mesmo as queimadas, prejudicam não só a natureza como também mandam embora os animais que habitam a região - os índios  estão  tendo uma preocupação muito maior com a natureza.

 É preciso compreender que a população indígena Gavião, sofreram e vem sofrendo grandes impactos, “este povo sofreu muito com o acelerado processo de aculturação a que foi submetido no contato com os brancos. Sua aldeia foi cortada ao meio por uma estrada que da acesso a fazendas da região”(PERDIGÃO e BASSEGIO,1992, p.23). 

Hoje, há na aldeia uma pequena criação de gado, que não foi aceita com satisfação pelos indígenas, talvez porque a pecuária não faz parte do seu universo cultural, já que os índios buscavam e ainda continuam a buscar na natureza os recursos que precisavam e precisam para sobreviver.  Como por exemplo, a caça que para os Gavião adquire um caráter mágico e único no universo.

O mundo animal tem uma importância que os habitantes da cidade teriam dificuldades de imaginar. A carne é o alimento favorito, fundamental e cobiçado (...) receber animais, caçar, ter fartura na floresta, comer carne, são dons de outro mundo pelos quais se deve agradecer (...) é preciso cultuar a provedora, evitar a destruição e o desperdício.

(MINDLIN, 2001, p.19). 

 O professor Zacarias acrescentou que, antigamente os mais velhos retiravam da natureza tudo o que precisavam para viverem e que hoje os produtos são na grande maioria industrializados, substituiu-se o paneiro - típico balaio indígena, por sacolas plásticas que levam centenas de anos para se decompor. Segundo o professor, as mudanças foram rápidas e bruscas, se deram de tal forma que atingiram as estruturas da aldeia. O lugar era uma floresta onde se encontrava tudo que precisavam, como: o tatu, a anta, a mandioca, o milho, a banana, tudo o que supria as suas necessidades.

            Em outras entrevistas com moradores e professores da aldeia, como Zaqueu e o professor indígena Roberto, foi possível constatar que apesar dos impactos que o povo Gavião vem sofrendo – contato com os não índios, algumas práticas tradicionais continuam muito presentes, como a festa do porco, do milho, a retirada de castanha - que também comercializam, a caça, a plantação de mandioca, milho e batata que cultivam em forma de rodízio, o inhame, o cará, a procura por alguns pássaros e aves, como Jacu, Mutum, a procura pelos porcos do mato. Dentre essas, há outras práticas que demonstram uma resistência aos impactos ocorridos, como a sopa de mandioca, muito apreciada por Zaqueu, que pode ser uma mistura de cará com peixe.

Os estudos preliminares, permitiram observarmos algumas mudanças culturais durante os últimos anos, principalmente em função do contato com os moradores da cidade de Ji-Paraná. O quadro possibilitou a sistematização de alguns aspectos dessa mudança, como por exemplo, aspectos referentes a alteração da alimentação e na infra-estrutura dessa sociedade indígena. Assim buscou-se fazer um agrupamento de categorias visando sistematizar o presente estudo,  onde foram observadas essas mudanças e formas de resistências e sustentabilidade.

O contato com a sociedade nacional, fez com que os indígenas passassem a mudar sua forma de viver, dentre essas, está a mudança na linguagem, forma de habitação, de vestimenta, de utilização de objetos e de alimentação do branco. Entretanto, podemos observar que ainda há um contraste entre o novo e o tradicional.

 

Casas  tradicionais

Eram cobertas e cercadas de palhas, utilizavam-se varas para propiciar a sustentação da casa, o piso era o próprio chão, contendo apenas uma entrada.

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Casas atuais

São feitas na grande maioria de madeira, cobertas de folhas de térmite, apenas algumas são cobertas de palhas, o piso é na grande maioria suspensos do chão, feitos de assoalhos, uma possível influencia dos seringueiros.

E importante, esclarecermos que mesmo com o advento do novo, e das transformações na aldeia, muitas práticas tradicionais não são esquecidas, um grande número de casas são tradicionais, e mesmo com as casas de madeiras, os índios continuam a fazer as casas tradicionais, principalmente à cozinha, quase sempre construídas ao lado das casas de madeira.   

 

 

 

Utensílio  tradicional

 

A utilização do paneiro, típico balaio indígena para o transporte de frutas, animais de caça dentre outros, sendo esse auto degradável.

 

 

Utensílio atual

 

Sacolas plásticas, sacos de linhas ou de papel, centenas de anos para se decompor.

 

Mesmo que em alguns relatos, os professores nos explicavam a substituição de alguns utensílios, como por exemplo, o paneiro por sacos plásticos ou de linha, durante nosso período em campo, observamos que o este material, ainda é utilizado em grande número, principalmente para o transporte de castanha. 

 

                                                     

 

Alimentação  tradicional

Tatu, paca, porco do mato, aves como o mutum e o pacu, peixes, castanha, pama, mandioca, batata doce, milho, cará, banana e outros.

 

Alimentação atual

Carne de gado, arroz, feijão, bolacha, doce industrializado como o de goiaba, bombom, balas, conservas e outros.

Na aldeia, nem todos têm uma fonte de renda fixa, assim, buscam o seu sustento em confecções e venda de artesanato, venda da castanha e coleta de produtos da floresta, dentre outros. Assim durante grande parte do mês a alimentação, pelo que pudemos perceber, parece ser a tradicional na maioria dos dias. 

 

Conclusões Preliminares

 

            As análises das pesquisa realizada, possibilita afirmarmos que o jeito de viver do povo indígena Gavião, certamente vem sofrendo profundas alterações no decorrer do tempo, principalmente nas últimas duas décadas, devido ao contato direto com a sociedade nacional. O modo de vida da cidade, a nosso ver, muita vezes fascina os indígenas, que se vêem atraído por supostas necessidades que chegam a aldeia através de visitantes, ou por meio de comunicação aberta, como a televisão e o rádio, que transmitem um mundo completamente diferente daquele presenciado pela população indígena Gavião e até pelo uso da língua portuguesa.

Observamos que, aparentemente, há de forma gradual uma substituição de valores, de alimentação e de moradia dentro da aldeia, fazendo com que mude a vida dentro desse universo. Entretanto, ao mesmo tempo, observamos práticas tradicionais muito presentes como por exemplo, a utilização da língua materna – elemento fundamental de revitalização cultural, a plantação do milho, mandioca e batata para fabricação da chicha – principal bebida indígena, feita a base de milho cultivada por meio de rodízio da mata – uma forma de evitar o desmatamento, que atestam a coexistência de práticas tradicionais, além de dar pistas da importância da culinária tradicional.

Em relação ao desmatamento na região, é importante ressaltar, que foi produzida por madeireiros e fazendeiros no início da década de oitenta, o que provocou entre outros danos, a fuga dos animais, que se refugiaram em lugares de mata fechada, portanto, cada vez mais longe. Daí que a instalação da aldeia Ikolen nesse lugar foi uma estratégia de ocupação dos índios para conter as invasões.

Sabemos que a cultura não é estática, ela sofre transformações, ao longo do tempo, nesta linha é que avaliamos os novos significados culturais que a etnia Gavião tem construído, levando em conta os impactos e pressões que sofrem dos não-índios, inclusive a ameaça da construção de uma barragem com possibilidade de alagamento em suas terras. Assim,  paralelamente, é possível verificar que mesmo diante destes impactos, a etnia Gavião, simultaneamente, vem elaborando formas de resistências que aliadas a práticas sustentáveis,  procuram, quem sabe, um sentido neste enigmático cenário, para suas vidas e para o futuro do seu povo.

 

Referências

 

ANDRÉ, Marli. Etnografia da Prática Escolar. São Paulo: Papirus, 1995.

 

CIMI. Conselho Indigenista Missionário. Panewa Especial. Regional Rondônia. Porto Velho, 2002.

 

GADOTTI, Moacir. Pedagogia da Terra. São Paulo: Peirópolis,  2000.

 

MINDLIN, Betty. Couro dos espíritos. São Paulo: Terceiro nome, 2001.

 

PERDIGÃO, Francinete; BASSEGIO, Luiz. Migrantes amazônicos, Rondônia: a trajetória da ilusão. São Paulo: Loyola, 1992.   


 

[1] Acadêmico do Curso de Pedagogia da Fundação Universidade Federal de Rondônia - Campus de Ji-Paraná-RO. Bolsista do PIBIC/CNPq, no Projeto Didática Etnoambiental: Aprendendo e ensinando sustentabilidade na maloca, vinculado ao Grupo de Pesquisa Educação na Amazônia. genivaldoscaramuzza@hotmail.com Artigo produzido sob a orientação da Profa Ms Josélia Gomes Neves. shiva.ro@uol.com.br Abril de 2006. 

 

Genivaldo Frois Scaramuzza é acadêmico do Curso de Pedagogia da Fundação Universidade Federal de Rondônia - Campus de Ji-Paraná-RO. Bolsista do PIBIC/CNPq, no Projeto Didática Etnoambiental: Aprendendo e ensinando sustentabilidade na maloca, vinculado ao Grupo de Pesquisa Educação na Amazônia. genivaldoscaramuzza@hotmail.com

 



 

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