|
Resumo:
A proposta do presente texto é comunicar saberes referentes
aos resultados preliminares, do Projeto/PIBIC Didática
Etnoambiental: Aprendendo e ensinando sustentabilidade na
maloca, do Grupo de Pesquisa Educação na Amazônia/CNPq da
UNIR – Campus de Ji-Paraná em Rondônia, Brasil. Através do
estudo do tipo etnográfico, apresentamos contatos iniciais
com o povo indígena Gavião, evidenciando a forma como esse
grupo vem construindo seus processos de sustentabilidade,
por meio de múltiplas resistências diante dos impactos
decorrentes do contato com a sociedade nacional.
Palavras – chave:
Povos indígenas. Sustentabilidade. Impactos. Resistências.
O
povo indígena Gavião, habita a Terra Indígena Igarapé
Lourdes, no Estado de Rondônia, município de Ji-Paraná,
juntamente com o povo Arara. A extensão geográfica de sua
reserva corresponde a 185.534 Hectares. A homologação de seu
território se deu pelo Decreto 88.609/83. Levantamentos
realizados pelo CIMI (2002) e registrados através do
documento Panewa Especial, revelam que a população da
etnia Gavião é de aproximadamente 587 pessoas, cuja língua
pertence à família Mondé do tronco Tupi. O povo Gavião
distribui-se pela reserva indígena em várias aldeias: Ikolen,
Cacoal, Castanheira, Igarapé Lourdes, dentre outras.
Nossas
primeiras visitas às aldeias indígenas Gavião, ocorreu
durante o segundo semestre de 2005. O estabelecimento de
nossos contatos com esse povo indígena, se deu em função de
procurarmos compreender como esse grupo étnico, vem
possibilitando uma prática de sustentabilidade no decorrer
do tempo. Partimos da hipótese que os valores, costumes,
tradições e as crenças dos povos indígenas e das populações
tradicionais, podem representar importantes fontes de
inspiração para que possamos enfrentar as crises ambientais,
levando em conta seus modos de vida.
Ao
propormos a referida pauta de estudo, adotamos a definição
de desenvolvimento sustentável segundo o Relatório Brundtand
– “um desenvolvimento que satisfaz as necessidades do
presente, sem colocar em risco a possibilidade de satisfação
das necessidades das gerações futuras” (GADOTTI, 2000,
p.59).
Os dados
tem sido coletadas e analisados por meio da metodologia do
estudo do tipo etnográfico, onde destaca-se a atenção no
sentido de registrar a “significação que tem as ações e
os eventos para pessoas ou grupos”. (ANDRÉ, 1996,
p.19).
Chegamos a
aldeia por um caminho estreito, logo observamos que estava
situada em uma área de pastagem. Pouco depois já avistávamos
as casas indígenas, com suas coberturas de folhas de
coqueiro desfiada, cuja sustentação da cobertura é feita por
meio de varas dispostas paralelamente a fim de criar uma
maior segurança, exibindo uma arquitetura tradicional, que
se revela exuberante de cor amarela, que conforme a
luminosidade, parecem transitar entre o amarelo claro e o
amarelo ocre. Havia uma casa que contrastava com o restante
das casas tradicionais, tratava-se de uma construção
colonial recente em cor branca, coberta de telhas de barro,
com uma área ao redor. Fomos informados que a casa pertence
a FUNAI – Fundação Nacional do Índio, local onde são
hospedados os técnicos deste órgão e demais visitantes.
Arrumamos
nossas coisas e sem demorar muito fomos direto para uma
escola quase no meio da aldeia. A escola deveria ter algo em
torno de 80 m² aproximadamente. As carteiras eram típicas
das escolas públicas que conhecemos na cidade, já o piso de
cimento queimado, apresentava algumas fissuras em lugares
alternados. As paredes de madeira eram pintadas de cor rosa.
Fomos
recepcionados pelo professor indígena Zacarias, um jovem de
cerca de trinta anos, cabelos lisos de cor bem preta, sua
altura parecia medir 1,65m aproximadamente. Na ocasião
fizemos nossas primeiras entrevistas com os professores
indígenas sobre a existência de práticas sustentáveis na
aldeia. Perguntamos aos professores que se faziam presente
na reunião o que eles entendiam por sustentabilidade, nesses
termos os índios não conseguiram responder, foi preciso
explicar o conceito de sustentabilidade e reformular a
pergunta para que tivéssemos uma possível resposta.
O
Professor Zacarias que falava a frente, explicou que há
algum tempo atrás, a extração de madeiras na reserva
indígena era intensa, e acrescentou: Tirar as madeiras e
fazer as derrubadas ou até mesmo as queimadas, prejudicam
não só a natureza como também mandam embora os animais que
habitam a região - os índios estão tendo uma
preocupação muito maior com a natureza.
É preciso
compreender que a população indígena Gavião, sofreram e vem
sofrendo grandes impactos, “este povo sofreu muito com o
acelerado processo de aculturação a que foi submetido no
contato com os brancos. Sua aldeia foi cortada ao
meio por uma estrada que da acesso a fazendas da região”(PERDIGÃO
e BASSEGIO,1992, p.23).
Hoje, há
na aldeia uma pequena criação de gado, que não foi aceita
com satisfação pelos indígenas, talvez porque a pecuária não
faz parte do seu universo cultural, já que os índios
buscavam e ainda continuam a buscar na natureza os recursos
que precisavam e precisam para sobreviver. Como por
exemplo, a caça que para os Gavião adquire um caráter mágico
e único no universo.
O mundo
animal tem uma importância que os habitantes da cidade
teriam dificuldades de imaginar. A carne é o alimento
favorito, fundamental e cobiçado (...) receber animais,
caçar, ter fartura na floresta, comer carne, são dons de
outro mundo pelos quais se deve agradecer (...) é preciso
cultuar a provedora, evitar a destruição e o desperdício.
(MINDLIN,
2001, p.19).
O
professor Zacarias acrescentou que, antigamente os mais
velhos retiravam da natureza tudo o que precisavam para
viverem e que hoje os produtos são na grande maioria
industrializados, substituiu-se o paneiro - típico balaio
indígena, por sacolas plásticas que levam centenas de anos
para se decompor. Segundo o professor, as mudanças foram
rápidas e bruscas, se deram de tal forma que atingiram as
estruturas da aldeia. O lugar era uma floresta onde se
encontrava tudo que precisavam, como: o tatu, a anta, a
mandioca, o milho, a banana, tudo o que supria as suas
necessidades.
Em outras
entrevistas com moradores e professores da aldeia, como
Zaqueu e o professor indígena Roberto, foi possível
constatar que apesar dos impactos que o povo Gavião vem
sofrendo – contato com os não índios, algumas práticas
tradicionais continuam muito presentes, como a festa do
porco, do milho, a retirada de castanha - que também
comercializam, a caça, a plantação de mandioca, milho e
batata que cultivam em forma de rodízio, o inhame, o cará, a
procura por alguns pássaros e aves, como Jacu, Mutum, a
procura pelos porcos do mato. Dentre essas, há outras
práticas que demonstram uma resistência aos impactos
ocorridos, como a sopa de mandioca, muito apreciada por
Zaqueu, que pode ser uma mistura de cará com peixe.
Os estudos preliminares, permitiram
observarmos algumas mudanças culturais durante os últimos
anos, principalmente em função do contato com os moradores
da cidade de Ji-Paraná. O quadro possibilitou a
sistematização de alguns aspectos dessa mudança, como por
exemplo, aspectos referentes a alteração da alimentação e na
infra-estrutura dessa sociedade indígena. Assim buscou-se
fazer um agrupamento de categorias visando sistematizar o
presente estudo, onde foram observadas essas mudanças e
formas de resistências e sustentabilidade.
O contato com a sociedade nacional, fez com
que os indígenas passassem a mudar sua forma de viver,
dentre essas, está a mudança na linguagem, forma de
habitação, de vestimenta, de utilização de objetos e de
alimentação do branco. Entretanto, podemos observar que
ainda há um contraste entre o novo e o tradicional.
|
Casas tradicionais
Eram cobertas e cercadas de palhas,
utilizavam-se varas para propiciar a sustentação da
casa, o piso era o próprio chão, contendo apenas uma
entrada. |
.
Casas atuais
São feitas na grande maioria de
madeira, cobertas de folhas de térmite, apenas
algumas são cobertas de palhas, o piso é na grande
maioria suspensos do chão, feitos de assoalhos, uma
possível influencia dos seringueiros. |
|
E importante, esclarecermos que mesmo com o advento
do novo, e das transformações na aldeia, muitas
práticas tradicionais não são esquecidas, um grande
número de casas são tradicionais, e mesmo com as
casas de madeiras, os índios continuam a fazer as
casas tradicionais, principalmente à cozinha, quase
sempre construídas ao lado das casas de madeira.
|
|
Utensílio tradicional
A utilização do paneiro, típico
balaio indígena para o transporte de frutas, animais
de caça dentre outros, sendo esse auto degradável.
|
Utensílio atual
Sacolas plásticas, sacos de linhas ou
de papel, centenas de anos para se decompor.
|
|
Mesmo que em alguns relatos, os professores nos
explicavam a substituição de alguns utensílios, como
por exemplo, o paneiro por sacos plásticos ou de
linha, durante nosso período em campo, observamos
que o este material, ainda é utilizado em grande
número, principalmente para o transporte de
castanha. |
|
Alimentação tradicional
Tatu, paca, porco do mato, aves como
o mutum e o pacu, peixes, castanha, pama, mandioca,
batata doce, milho, cará, banana e outros. |
Alimentação atual
Carne de gado, arroz, feijão,
bolacha, doce industrializado como o de goiaba,
bombom, balas, conservas e outros. |
|
Na aldeia, nem todos têm uma fonte de renda fixa,
assim, buscam o seu sustento em confecções e venda
de artesanato, venda da castanha e coleta de
produtos da floresta, dentre outros. Assim durante
grande parte do mês a alimentação, pelo que pudemos
perceber, parece ser a tradicional na maioria dos
dias. |
Conclusões Preliminares
As análises das pesquisa realizada,
possibilita afirmarmos que o jeito de viver do povo indígena
Gavião, certamente vem sofrendo profundas alterações no
decorrer do tempo, principalmente nas últimas duas décadas,
devido ao contato direto com a sociedade nacional. O modo de
vida da cidade, a nosso ver, muita vezes fascina os
indígenas, que se vêem atraído por supostas necessidades que
chegam a aldeia através de visitantes, ou por meio de
comunicação aberta, como a televisão e o rádio, que
transmitem um mundo completamente diferente daquele
presenciado pela população indígena Gavião e até pelo uso da
língua portuguesa.
Observamos que, aparentemente, há de forma
gradual uma substituição de valores, de alimentação e de
moradia dentro da aldeia, fazendo com que mude a vida dentro
desse universo. Entretanto, ao mesmo tempo, observamos
práticas tradicionais muito presentes como por exemplo, a
utilização da língua materna – elemento fundamental de
revitalização cultural, a plantação do milho, mandioca e
batata para fabricação da chicha – principal bebida
indígena, feita a base de milho cultivada por meio de
rodízio da mata – uma forma de evitar o desmatamento, que
atestam a coexistência de práticas tradicionais, além de dar
pistas da importância da culinária tradicional.
Em relação ao desmatamento na região, é
importante ressaltar, que foi produzida por madeireiros e
fazendeiros no início da década de oitenta, o que provocou
entre outros danos, a fuga dos animais, que se refugiaram em
lugares de mata fechada, portanto, cada vez mais longe. Daí
que a instalação da aldeia Ikolen nesse lugar foi uma
estratégia de ocupação dos índios para conter as invasões.
Sabemos que a cultura não é estática, ela
sofre transformações, ao longo do tempo, nesta linha é que
avaliamos os novos significados culturais que a etnia Gavião
tem construído, levando em conta os impactos e pressões que
sofrem dos não-índios, inclusive a ameaça da construção de
uma barragem com possibilidade de alagamento em suas terras.
Assim, paralelamente, é possível verificar que mesmo diante
destes impactos, a etnia Gavião, simultaneamente, vem
elaborando formas de resistências que aliadas a práticas
sustentáveis, procuram, quem sabe, um sentido neste
enigmático cenário, para suas vidas e para o futuro do seu
povo.
Referências
ANDRÉ,
Marli. Etnografia da Prática Escolar. São Paulo:
Papirus, 1995.
CIMI.
Conselho Indigenista Missionário. Panewa Especial.
Regional Rondônia. Porto Velho, 2002.
GADOTTI,
Moacir. Pedagogia da Terra. São Paulo: Peirópolis,
2000.
MINDLIN,
Betty. Couro dos espíritos. São Paulo: Terceiro nome,
2001.
PERDIGÃO,
Francinete; BASSEGIO, Luiz. Migrantes amazônicos,
Rondônia: a trajetória da ilusão. São Paulo: Loyola,
1992.
|