.ISSN 1678-8419  

Revista Partes - Ano V - 22/04/2006 21:49:11 

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Trajetória da Psicopedagogia no Brasil
Por Nina Rocha

 

O Projeto de Lei para a regulamentação da profissão do psicopedagogo, foi um trabalho exaustivo que contou com a colaboração de todas as seções lideradas por suas respectivas presidentes, Conselho Nacional e Nato da ABPp.

                        O início do caminho percorrido pela Associação Brasileira de Psicopedagogia, foi marcado pelo convívio com pontos polêmicos, como por exemplo, alguns questionamentos que eram formulados sobre o verdadeiro papel desta ciência. Uma das primeiras indagações neste período, seria acerca das dúvidas sobre a consistência, fortalecimento e autonomia da Psicopedagogia. - Será que esta profissão continuaria o seu trajeto por área de conhecimento “estanque” ou será que se esforçaria para articular-se em áreas afins, complementando-se e descobrindo novas “verdades”?

            Tais preocupações refletiam a temeridade de que a profissão continuasse se mantendo em competições excludentes. Ou seja, precisariam desenvolver um trabalho integrado de argumentos sólidos e eficientes, comprometido em apontar a necessidade e a relevância social e científica do Psicopedagogo.

            O desenvolvimento desse trabalho para o reconhecimento da profissão a fim de se atingir maior consistência, foi liderado do ponto de vista acadêmico, pelos Psicopedagogos e ABPp, enquanto que a liderança política, pelo Deputado Federal Barbosa Neto.

            No ano de 1995 e 1996, os Psicopedagogos elaboraram vários documentos explicitando suas atribuições, seu campo de atuação, sua área científica e seus critérios de formação acadêmica. Conteúdos estes, vistos como indissociáveis no desenvolvimento deste trabalho. Deste modo, iniciamos neste momento, um breve resgate da Psicopedagogia no Brasil.

            A ciência Psicopedagogia, apresenta um campo de atuação extremamente vasto, restando ao profissional a tarefa imensa e complexa de assumir a sua colocação com discernimento e compromisso, construídos sob uma base sólida de formações teórico-práticas.

            Segundo Bossa, o caminho da Psicopedagogia no Brasil, é árduo. O Psicopedagogo, profissional pós-graduado, precisa ser um multi-especialista em aprendizagem humana, congregando conhecimentos de diversas áreas técnicas e científicas, com o objetivo de intervir nesse processo, tanto com o intuito de potencializá-lo, quanto de tratar dificuldades, utilizando instrumentos próprios para este fim.

            A referida autora, cita que a Psicopedagogia surgiu da necessidade de atendimento às crianças com dificuldades de aprendizagem. Sendo que este problema apresentado por algumas crianças, tornavam-nas inaptas dentro do sistema convencional de educação e eram vistos como uma situação desencadeadora de outros problemas, inclusive o fracasso e a evasão escolar. O que se comprova, perante os comportamentos negativos com relação ao desenvolvimento das atividades pedagógicas.

            Uma vez estabelecido que a Psicopedagogia surgiu devido a necessidade de atender crianças com dificuldades de aprendizagem, consegue-se firmar o seu principal enfoque, ou seja, algo que se traduz em ser o seu objeto de estudo.

No início do processo histórico, já podemos observar a Psicopedagogia como uma ciência norteadora dos procedimentos necessários ao trabalho com crianças que apresentavam algum tipo de barreira intransponível à sua aprendizagem, objetivando o reconhecimento das capacidades individuais e procurando eliminar os obstáculos que a impediam de aprender.

Esta difícil tarefa, fez com que a Psicopedagogia, se unisse às demais áreas que lidam com o ser humano, procurando maiores fundamentações teórico-práticas, hoje tidas veementemente como subsídios indispensáveis à todo e qualquer tratamento Psicopedagógico.

Assim, dada a vasticidade de seu quadro teórico, a Psicopedagogia apresenta fundamentação em estudos da área da Medicina, Pedagogia, Sociologia, Filosofia, Odontologia, Fonoaudiologia, Neurologia, Psicologia e Lingüística, entre outras. Podendo ainda contar com a contribuição da epistemologia genética.

Esta fundamentação, buscada através de outras áreas do conhecimento, embasam e fortificam o corpo Psicopedagógico, que já possui a sua especificidade, tanto quanto área de estudo, como especificidade de seu objeto de estudo, constituindo uma nova área com corpo teórico próprio.

De acordo com Bossa, o objeto de estudo da Psicopedagogia é o próprio processo de aprendizagem e seu desenvolvimento normal e patológico em contexto. Sejam estes relacionados com a realidade interna ou com a realidade externa, sem deixar de lado os aspectos cognitivos, afetivos e sociais que mesmo de forma implícita, estão inseridos em tal processo do trabalho com as questões de aprendizagem.

A autora propõe que o objeto de estudo deve ser entendido a partir de dois enfoques: o enfoque de caráter preventivo, que corresponde ao ser humano em desenvolvimento e as alterações desse processo podendo esclarecer sobre as características das diferentes etapas do desenvolvimento; e o enfoque de caráter terapêutico, que é a identificação, análise e a elaboração de uma metodologia de diagnóstico e tratamento das dificuldades de aprendizagem.

Podemos perceber através do trabalho de pesquisa, que embora seja ainda um campo jovem de atuação no Brasil, a Psicopedagogia parece já possuir sua identidade como um todo.

Segundo Scoz, a identidade do psicopedagogo, muito atrelada à sua atuação, remete-se ora à identidade clínica, ora à institucional, mas explicita que ambas estão vinculadas ao processo de aprendizagem. De acordo com esse sentido, encontra-se o Psicopedagogo como sendo um profissional ligado historicamente à educação.

Segundo Moojen, ao conceituarmos a Psicopedagogia, deveremos proceder com cautela, pois um conceito teórico deve atender a determinadas características, devendo ser: dinâmico, histórico, flexível e contextualizado. Diferentemente do que ocorre na conceitualização apresentada pelo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa. Pois, segundo o dicionário, A Psicopedagogia é “a aplicação da psicologia experimental à Pedagogia”. E, segundo a autora, esta definição é restrita para a ação Psicopedagógica, mas, que foi originada como um reflexo das concepções iniciais da Psicopedagogia na década de 1950 e de 1960. Esclarecendo ainda que mesmo com a falta de nitidez conceitual e de identificação do corpo teórico psicopedagógico, encontra-se em nosso país, uma prática psicopedagógica bastante eficaz.

A Psicopedagogia é uma área de estudos preocupada em conhecer o ser que conhece e produz conhecimento e, para tal, necessita superar a visão clássica que separa o objetivo do seu meio, separa o físico do biológico, o biológico do humano, as categorias, a disciplina etc. Caracterizando com isso, a necessidade de enquadrar-se em uma totalidade que abrange todos os elos de ligação que ancoram o ser humano ao mundo.

O Objetivo da Psicopedagogia vai além de processos de aprendizagem. Refere-se a um sujeito que aprende, sendo este muito mais do que um aprendiz, um ser capaz de se conhecer e conhecer sobre o meio ambiente do qual faz parte.

Visca, 1987, foi um dos primeiros psicopedagogos que se preocupou com a epistemologia da psicopedagogia e propôs estudos baseados no que se chamou de epistemologia convergente, resultado da assimilação recíproca de conhecimentos fundamentados no construtivismo, estruturalismo construtivista e no interacionalismo. Essas contribuições influenciaram a psicopedagogia brasileira, mas diferenciam-se dependendo da região.

O autor acima citado, merece muita consideração neste trabalho, entendendo-se que a Psicopedagogia nasceu na Argentina, e que Jorge Visca é considerado pela literatura dos profissionais da área, como sendo “o Pai da Psicopedagogia”.

Moojen, 1998, escreve que a partir de trabalhos de pesquisa e da prática nas áreas clínica, institucional, preventiva ou curativa, busca-se o conceito  implícito que se delineia na teoria e na prática psicopedagógica brasileira.

Esta mesma autora, descreve uma visão evolutiva da Psicopedagogia através de três momentos históricos, sendo que justifica a pertinência das contribuições de autores de outras nacionalidades, pois conforme supracitado, a Psicopedagogia não é uma “invenção” brasileira.

A autora justifica ainda, a complexidade desta tarefa por coexistirem no Brasil diversos perfis de psicopedagogos. Sendo que isso se deve, em parte, à nossa grande extensão territorial e ao “caldeirão de culturas” em que estamos submersos. De outra parte, a formação do profissional, em nível de pós-graduação, recebe graduados de Pedagogia, Psicologia e Fonoaudiologia, além de outras áreas afins, o que acaba justificando perfis de atuação diferentes.

De acordo com Lino de Macedo, in Moojen, 1998, “a Psicopedagogia é uma descoberta invenção, como área de conhecimento, que alcançou sua especificidade (objeto, método, campos de aplicação, critérios de formação, etc.) apenas neste século. Ela reuniu e deu estatuto científico e profissional a conhecimentos antes produzidos e disseminados em muitas outras áreas”.

Com relação à citação de Moojen sobre os três momentos históricos, temos que: O primeiro momento é descrito pelo nascimento da Psicopedagogia na década de 60 na fronteira entre a Pedagogia, a Psicologia e a Medicina (mais especificamente a Neurologia) e visava ao atendimento de crianças com “distúrbios” de aprendizagem e, portanto, inaptas dentro do sistema educacional convencional. Naquela época a Psicopedagogia, síntese simplificada de múltiplos conhecimentos psicológicos, pedagógicos e neurológicos, tinha como objeto de estudo os distúrbios de aprendizagem e sua etiologia. Eram freqüentes os encaminhamentos a neurologistas, psicólogos e aos “reeducadores”, visto que o indivíduo com distúrbios poderia realizar tratamentos nessas três áreas concomitantemente. Tais distúrbios eram analisados de forma individual, com perspectiva de origem psiconeurológica, e a prática psicopedagógica, segundo Edith Rubinstein, “estava voltada para o desenvolvimento de metodologias que melhor atendessem aos portadores de dificuldades, tendo como objetivo fazer a reeducação ou remediação e desta forma promover o desaparecimento do sintoma” (Rubinstein, apud Bossa, 1994, p.9).

Com relação ao aspecto reeducativo, daquela época, retratava-se uma sobrevalorização quanto aos desenvolvimentos perceptivos e motor.

O segundo momento, nas décadas de 70 e 80, a preocupação da Psicopedagogia voltava-se para o aspecto da aprendizagem.

De acordo com Nádia Bossa, “o reconhecimento do caráter interdisciplinar significa admitir a sua especificidade, uma vez que a Psicopedagogia, na busca de conhecimentos de outros campos, cria o seu próprio objeto, condição essencial da interdisciplinariedade”. (1994, pp.5-6).

Segundo Bossa, “é uma ilusão pensar que tal processo nos conduza, a todos, a um único caminho. O tema da aprendizagem apresenta tamanha complexidade que tem a dimensão da própria natureza humana”. (1994, p.9).

Nessas décadas de 70 e 80, a prática psicopedagógica é bastante variada e depende das articulações feitas pelos psicopedagogos com as demais ciências. O resultado é o Psicopedagogo com uma visão predominantemente psicológica ou psicanalítica, o psicopedagogo com uma visão predominantemente fonoaudiológica, o psicopedagogo com uma visão predominantemente psicomotricista, o psicopedagogo especialista em Matemática, etc.

O terceiro momento, reconhecido por estar ainda bem ligado ao segundo, é marcado pela preocupação do ser em processo de construção do conhecimento.

Assim, de acordo com as pesquisas efetuadas e de acordo com estes autores que descrevem o processo histórico da ciência Psicopedagogia, podemos observar, que a interdisciplinariedade e a transdisciplinariedade, aliadas à reflexão da prática profissional, são elos que contribuem para que a Psicopedagogia se mantenha nessa caminhada junto às demais ciências.

De acordo com Maria Irene Siqueira Castanho, a Psicopedagogia como área interdisciplinar de conhecimento e de atuação prática pode posicionar-se frente à emergência de uma nova forma de enfrentamento da realidade, de integração e articulação dos diferentes tipos de conhecimentos disponíveis sobre o ensinar e o aprender. Com isso, cumpre com as prerrogativas de uma educação para o terceiro milênio, pela qual o aprender significa a integração entre o conhecer, o fazer, o conviver e o ser. Sendo que isso requer trabalho coletivo em direção à superação de leituras reduzidas e fragmentadas pela especialização. Os obstáculos a serem superados são de ordem pessoal, de ordem teórico-metodológica e do investimento de recursos na área da educação, que visem à qualidade dos processos a serem desenvolvidos.

Assim, se o conhecimento é a construção que os homens fazem como decorrência de relações concretas de vida, acerca de si e do outro, diante da complexidade do mundo vivido hoje, as ciências em geral e as ciências humanas e sociais, em particular, obrigam-se a organizar um conhecimento que dê conta de pensar o homem em sua vivência da contradição que o coloca frente a inúmeros desafios que ameaçam sua própria possibilidade de compreensão e de auto-sustentação no mundo.

Atualmente, a Psicopedagogia integra com propriedade as prerrogativas de educação para o terceiro milênio, sendo que as dificuldades a serem superadas resumem-se na disposição de continuar se posicionando frente à realidade, promovendo a integração e a articulação das unidades e dos diferentes conhecimentos sobre o ensinar e o aprender. O que significa a abertura para uma nova forma de produzir conhecimento.

No Brasil, muito se ateve, inicialmente, na crença de que os problemas de aprendizagem estavam entrelaçados às questões de ordem orgânica, sendo que um estudo psicopedagógico mais aprofundado, começou a oferecer destaque a partir dos anos setenta, através dos primeiros núcleos de estudos e de aprofundamentos.

As conferências proferidas pelo professor argentino, Quirós, muito auxiliaram quanto aos aspectos de leitura e escrita.

Seguidamente, em Porto Alegre, surgiram centros de estudos psicopedagógicos, mas, nesse tempo, dava-se como referência uma nomenclatura que destinava-se a Pedagogia Terapêutica.

Em 1979, por iniciativa de Maria Alice Vassimon, psicopedagoga e psicodramatista, acontece o primeiro curso de psicopedagogia, realizado no Instituto Sedes Sapientiae, em São Paulo. Nessa época, a característica principal voltava-se ao modelo de atuação clínica individual, incluindo-se mais tarde, a inserção do modelo clínico grupal. Sendo ainda, que a linha de trabalho era composta pelo trabalho de caráter preventivo. Quase nesta mesma época, surgiram cursos de especialização, pós-graduação e mestrado, em instituições como a PUC-SP; PUC-RS e UERJ.

Sara Pain, Alícia Fernandéz, Jorge Visca, foram estudiosos de grande destaque que impulsionaram, através da contribuição argentina, publicações de literatura específica sobre a psicopedagogia.

Na década de 80, Visca criou os Centros de Estudos Psicopedagógicos (CEP) no Rio de Janeiro, em Curitiba e em Salvador. Sendo que os cursos, traziam a Formação Clínica Psicopedagógica. Ainda em 1980, criou-se a Associação de Psicopedagogos de São Paulo, e, em 1985, a Associação Brasileira de Psicopedagogia.

 

 

Com relação a esta Associação, podemos dizer que há o objetivo de tornar conhecido o campo de atuação da Psicopedagogia, divulgando, através de publicações, situações de aprendizagem que se destinaram à

pesquisas e experiências, nos Boletins e Revistas Psicopedagógicas.

A Associação de Psicopedagogia, também iniciou a organização de eventos com dimensões nacionais, proporcionando discussões sobre os parâmetros para a formação do profissional. Consequentemente, duas situações importantíssimas surgiram:

 

1.      Criação do Código de Ética do Psicopedagogo.

2.      Projeto de Lei - que hoje tramita na Câmara Federal – para a regulamentação da profissão de psicopedagogo.

 

 

Atualmente, a representação pela ABPp, se dá em vários *[1]Estados, sendo que no Paraná, existem duas Seções; uma em Londrina (Paraná-Norte) e uma em Curitiba (Paraná-Sul).

Os cursos de psicopedagogia, estão dispostos entre os estados brasileiros e, atualmente existe significativa produção literária brasileira, retratando o perfil do Psicopedagogo e da ciência Psicopedagogia.

Com referência aos trâmites finais no reconhecimento da profissão de Psicopedagogo, devemos nos reportar a um enfoque mais direcionado à Associação Brasileira de Psicopedagogia, sendo que esta Associação, tem contribuído para que a Psicopedagogia assuma uma nova feição no cenário educacional brasileiro a partir de um redimensionamento da concepção de problema da aprendizagem. Esse fato é perceptível através de uma linha cronológica de eventos promovidos pela Associação e pelos temas que marcam essa transformação. Ao iniciar suas atividades, em 1980, denominando-se inicialmente Associação de Psicopedagogos de São Paulo, já se preocupava em definir o perfil desses profissionais. Para isso, promovia pequenos encontros para reflexão e trocas de experiências de trabalho, enfocando os problemas de aprendizagem.

      Em 1984, a *ABPp  realizou um encontro com o intuito de ampliar essas discussões, sendo que este encontro foi denominado de: “Experiências e Perspectivas do Trabalho Psicopedagógico na Realidade Brasileira”, cujos temas versavam sobre as abordagens terapêuticas e preventivas do trabalho psicopedagógico, com a intenção de direcionar a Psicopedagogia não só para os descompassos da aprendizagem, mas, para uma atuação que objetivasse uma melhoria da qualidade de ensino nas escolas.

                        Devido ao avanço do campo de atuação da Psicopedagogia, os psicopedagogos sentiram a necessidade de aprimorar a própria formação, adquirindo conhecimentos multidisciplinares. Partindo dessa perspectiva, a Associação passou a promover diversas modalidades de atividades (cursos, palestras, conferências, seminários, etc.), contando com a liderança de profissionais de diferentes áreas de atuação (Pedagogia, Psicologia, Neurologia, Psiquiatria, etc.). A necessidade de conhecimentos multidisciplinares impunha-se cada vez mais para uma atuação psicopedagógica mais abrangente. Ciente disso, a Associação promoveu seu 2º Encontro, em 1986, com o tema: “Psicopedagogia: O Caráter Interdisciplinar na Formação e na Atuação Profissional”, abrindo espaço para a participação de um maior número de profissionais com conhecimentos científicos diversificados, possibilitando trocas de experiências de trabalho que facilitassem uma visão mais abrangente sobre os problemas de aprendizagem. (seu objeto de estudo).

                        Devido a crescente expansão, assinalando-se sobretudo a criação de inúmeros núcleos associativos em diversos Estados do Brasil, em 1988, passa a denominar-se Associação Brasileira de Psicopedagogia e realiza o I Congresso e o 3º Encontro de Psicopedagogos. Nesse Congresso, ainda com o intuito de delinear com maior clareza o campo de estudos e de atuação da Psicopedagogia, o temário versava sobre a necessidade de uma abordagem convergente, capaz de promover uma integração de conhecimentos para a compreensão da aprendizagem humana.

                        O trabalho desta Associação, mostra preocupação com relação à eticidade e qualificação profissional e, em decorrência disso, faz um alerta com relação a abertura indiscriminada de cursos de formação nesta área, em todo o país. Diante disso, a Associação elaborarou um documento sobre a Identidade Profissional do Psicopedagogo e os Objetivos da Psicopedagogia, a partir da delimitação de seu campo de estudos e de atuação. Ainda relacionando a parte de formação profissional e as recomendações pela ABPp, temos que: O currículo dos cursos de especialização é definido pelas normas da resolução 12/83 do Conselho Federal de Educação e cada instituição oferece uma linha de ensino a seu critério. Os alunos são oriundos de várias áreas: Pedagogia, Psicologia, Fonoaudiologia, Letras, História, Artes e outras.

A ABPp, sugere um modelo de linha curricular, onde devem estar inseridos, fatores como: Disciplina inicial de introdução à Psicopedagogia, abordando o histórico, campos de atuação, identidade e ética psicopedagógica; disciplinas que contemplem aspectos relacionados às dificuldades/alterações que podem surgir nessas várias áreas e sua repercussão no processo de aprendizagem; disciplinas específicas relacionadas ao âmbito clínico e ao institucional, diagnóstico e intervenção psicopedagógica; estágio supervisionado; disciplinas relacionadas às pesquisas psicopedagógicas.  Recomendando ainda, que os professores devem ter experiência na prática ou pesquisa psicopedagógica e que o coordenador detenha conhecimentos da área, mantendo contato com a associação da classe e com outros coordenadores de cursos de Psicopedagogia. Esta parte, sobre as recomendações com relação à formação do Psicopedagogo, devem ocorrer de forma simultânea, as recomendações realizadas em conformidade com a postura ética. Ao passo que, antes de darmos continuidade a exposição dos trâmites da documentação para a regulamentação da profissão de Psicopedagogo pela ABPp, torna-se de grande valia a inserção de uma pequena resenha sobre o assunto do Código de Ética do profissional em questão:

(...) A Psicopedagogia brasileira tem uma inserção histórica e especial singular, uma prática não reduzida a indivíduos, mas a uma comunidade que procura uma razão coletiva de existir. (...) Assim, diante de um código de ética, todos temos razão se não insistirmos em ter razão sozinhos”. (Código de Ética – ABPp. Introdução.1992).

Outras considerações sobre o Código de Ética, referem-se aos conteúdos específicos tratados em forma de Capítulos.

Capítulo I – Dos Princípios

Art. 1º - A Psicopedagogia é um campo de atuação em Saúde e Educação que lida com o processo de aprendizagem humana (...)

Art. 3º - O trabalho psicopedagógico é de natureza clínica e institucional, de caráter preventivo e/ou remediativo.

Art. 4º - Estarão em condições de exercício da Psicopedagogia os portadores de certificado de pós-graduação em Psicopedagogia, (...) sendo indispensável submeter-se à supervisão e (...) formação pessoal.

Art. 5º - (...) Tem como objetivo: I, promover a aprendizagem (...); III, realizar pesquisas científicas.

            O Capítulo II do referido Código, trata das Responsabilidades dos Psicopedagogos, que especificadamente, estão dispostas no artigo 6º, nas alíneas de “a à i”.

            O Capítulo IX, dispõe sobre a Observância e Cumprimento do Código e, segundo o art. 17º, “Cabe ao psicopedagogo, por direito, e não por obrigação, seguir este código”.

            De acordo com o Capítulo X – Das Disposições Gerais, no que encerra o seu artigo 20º  : (...) entrou em vigor (...) em 12/07/1992 (...) e sofreu a primeira alteração (...) em 19/07/1996 (...).

               Através desta tentativa de entrelaçar o conteúdo de formação e atuação profissional, podemos prosseguir com a explanação simultânea sobre os trâmites do documento legal. Sendo que de acordo com esta etapa, cita-se que o documento passou por várias fases de discussão, contando com a participação não só dos sócios das Associações Estaduais e da Brasileira, mas também, dos coordenadores e representantes de inúmeros cursos de Psicopedagogia de São Paulo e do Rio de Janeiro. Fato que culminou na realização de uma jornada intensiva de trabalho, com auxílio da professora Sara Pain, que contribuiu para a redação final do documento[2].

            No IV Encontro, realizado em 1990, a Associação Brasileira de Psicopedagogia centrou o seu temário na divulgação e aprofundamento de alguns pontos desse documento, na responsabilidade de oferecer diretrizes para a garantia de um melhor nível de qualidade e comprometimento em suas ações.

No II Congresso e V Encontro realizados em julho de 1992, a Associação abordou o tema: “A Práxis Psicopedagógica na Realidade Educacional Brasileira”, ficando clara a posição da Associação em enfatizar a Psicopedagogia enquanto uma práxis  capaz de oferecer alternativas de ação no sentido de uma transformação, o que possibilita à instituição escolar e aos alunos uma melhoria nas condições de aprendizagem, objetivando reverter a situação dramática em que se encontram as escolas brasileiras. Assim, de um enfoque meramente clínico, centrado nas patologias dos problemas de aprendizagem, para um enfoque multidisciplinar, levou-se em conta uma pluri-causalidade de fatores que interferem no processo de aprender, sem perder de vista a dimensão mais ampla da sociedade e, além de dominar a patologia e a etiologia dos problemas de aprendizagem, aprofundou conhecimentos que contribuem não só aos problemas de aprendizagem, mas, na melhoria da qualidade de ensino. Ao utilizar-se de várias áreas do conhecimento para aprofundar seu campo de estudo e atuação, a Psicopedagogia deixou de privilegiar esta ou aquela corrente de pensamento, esta ou aquela ciência. Dessa forma, contribui para a percepção global do fato educativo e para a compreensão satisfatória dos objetivos da Educação e da finalidade da escola, possibilitando, assim, uma ação transformadora.

Com relação à regulamentação da profissão, a necessidade de ser reconhecida sempre esteve presente no coração do profissional que abraçou seu trabalho com afinco e dedicação.

Sendo que durante o Congresso de julho de 1994 a regulamentação tornou-se crucial, pois o mercado de trabalho, influenciado por questões sociais e econômicas, estava em movimento e a ABPp recebeu solicitações de representantes de vários Institutos e Universidades brasileiras, posicionando a importância e a necessidade de que se desse maior atenção a essa questão.             Diante disso, o Conselho da ABPp,  representando vários Estados do Brasil, define como prioridade a regulamentação da profissão de Psicopedagogo. Em outubro de 1994 constitui uma comissão com a finalidade de pesquisar o maior número de informações pertinentes a esse tema.

O processo histórico da necessidade de regulamentar a profissão do Psicopedagogo começou a se definir em 1988. Nesse momento, a ABPp procurou a orientação da Professora Guiomar Namo de Mello, então deputada estadual, que orientou quanto à elaboração de um documento sobre o perfil profissional do Psicopedagogo.

            Deste modo, a ABPp convoca representantes das sessões estaduais, sócios e coordenadores de cursos de Psicopedagogia para criar, com o devido consenso, esse documento que passa por várias etapas de discussão e que se tornou em 1989, tema principal do IV Encontro Nacional da ABPp, sendo apresentado a todos os representantes de sessão dos Estados brasileiros presentes, desencadeando grande fórum de debates.

A partir daí, o documento torna-se elemento para embasar o currículo de inúmeros cursos de formação em Psicopedagogia em várias Universidades brasileiras.

Em 1994, com 14 anos de existência e de construção do perfil do Psicopedagogo, a partir da realização de inúmeras palestras, cursos, seminários e congressos e, com a representatividade de vários Estados brasileiros, a ABPp reconhece a crescente demanda do profissional em Psicopedagogia por parte das Instituições Escolares e da necessidade de se trabalhar com a população que apresenta problemas de aprendizagem.

Deste modo, o Conselho da ABPp discute e chega a aspectos considerados norteadores do processo da regulamentação da profissão em Psicopedagogia, incluindo o questionamento de qual seria a linha mestra a ser adotada por um curso de formação em Psicopedagogia.

Este debate, acabou por definir os cursos em nível de pós-graduação em Psicopedagogia, como formadores desse profissional, descartando-se a possibilidade de um curso de graduação. Para agilizar esta discussão, cria-se uma comissão...

            A comissão criada, realiza as devidas análises e considera importante entrar em contato com profissionais de áreas afins, em especial com os fonoaudiólogos e sociólogos que já haviam trilhado um caminho semelhante, trabalhando com a delimitação do campo epistemológico da psicopedagogia, para clarear a própria nomenclatura psicopedagógica discriminando conceitualmente onde esta atuação NÃO se restringe ao psicológico acrescido do pedagógico.

            Neste momento, dá-se suma importância ao caráter de identidade da profissão, definida pela construção do próprio objeto de estudo.

Este debate realizado pela Comissão, é ampliado a todas as sessões dos Estados brasileiros, contribuindo para a complementação dos dados pesquisados, apresentando idéias e surgindo assim, uma proposta para regulamentar a profissão.

            Neste atual contexto, insere-se a figura daquele que irá assumir esta tarefa em nível nacional, o Deputado Federal Barbosa Neto, que se predispõe a realizar um estudo mais aprofundado sobre a legislação vigente, no sentido de concretizar essa proposta. Este deputado viabiliza um contato com o ministro da Educação Paulo Renato de Souza em setembro de 1995. E, a partir daí, vários documentos são elaborados, contando com a colaboração de todas as sessões Regionais da ABPp,

Assim, a Comissão se propõe a fazer um levantamento a respeito dos cursos de Psicopedagogia existentes no Brasil, pesquisando sua grade curricular e carga horária, objetivando sempre, um ensino de qualidade. Para tal finalidade, necessitaria verificar os instrumentos de avaliação utilizados pelo Psicopedagogo, a produção científica publicada em Psicopedagogia no Brasil e a legislação vigente sobre regulamentações de profissões afins.

                        O primeiro resultado desse trabalho foi apresentado durante o III Congresso Brasileiro de Psicopedagogia e o VII Encontro de Psicopedagogos, em São Paulo (julho-1996) com um Relato de Trabalho intitulado “A Regulamentação da Profissão Assegurando o Reconhecimento do Psicopedagogo”. Sendo que o processo de aprimoramento desse documento prossegue durante o segundo semestre de 1996 e é apresentado na Câmara dos Deputados Federais pelo Deputado Barbosa Neto em 14 de maio de 1997 é votado e aprovado pela 1ª Comissão do Trabalho, graças ao empenho e garra da ABPp, das seções Regionais, das Instituições de ensino, da comunidade e dos políticos que assumiram nossa causa.

 

CONCLUSÃO 

                        De acordo com o trabalho de pesquisa realizado, pode-se concluir que o caminho percorrido pela Associação Brasileira de Psicopedagogia no encaminhamento do Projeto de Lei para a regulamentação da profissão de Psicopedagogo, não foi realmente uma tarefa tão simples, e sim, um verdadeiro processo! Processo este, que nasceu da busca de apropriar-se de seu objeto de estudo, que é a aprendizagem, cercando-se o quanto mais possível de fundamentações junto às demais áreas de conhecimento e alavancando com esta situação, uma forma de cumplicidade para o trato com o ser humano. Desta forma, uma vez a Psicopedagogia inserida no contexto da transdisciplinariedade, certamente será melhor reconhecida e valorizada, despontando como possuidora de identidade ímpar em nosso contexto social.

                        Com relação a todo o caminho percorrido e descrito pela historicidade nos textos didáticos, evidencia-se quanto esforço foi dispensado pela ABPp e pelos profissionais Psicopedagogos, na luta para atingir o reconhecimento de uma ciência que surge para trabalhar em prol da saúde e do bem-estar, evidenciando o indivíduo não só como aquele que é portador de alguma dificuldade, mas olhando-o como um ser humano à sua semelhança, que naquele exato momento, está em busca de um auxílio. Porém, convém esclarecer que este auxílio, não é um auxílio qualquer, mas sim, um auxílio que nasce pela profissionalidade, pelo respeito ao outro, pela responsabilidade, pela dedicação e seriedade de uma postura ética.

            Ainda como argumento dessa conclusão, cito que para a aprovação final da regulamentação do profissional Psicopedagogo, obstam fatores que encontram-se tão somente na esfera judicial, o que demonstra o fato de pleno êxito na busca desta conquista por um lugar ao sol.

            Sendo assim, repleta de um sentimento de honra, agradeço e parabenizo a ABPp, e aos psicopedagogos que estiveram engajados nesta luta pela classe profissional, bem como à querida professora Eliane Mara Alves Chaves, que brilhantemente ministrou e conduziu o módulo de História da Psicopedagogia, Formação e Profissionalização do Psicopedagogo no curso de Psicopedagogia do Centro Acadêmico Empresarial CEDAEM, votos que faço extensivos às professoras Simone Carlberg e Márcia Bertoldi, que foram responsáveis pelos estágios durante o meu processo de formação em PSICOPEDAGOGIA CLÍNICA E INSTITUCIONAL.
 


[1] ABPp:// Bahia; Brasília; Ceará; Goiás; Maranhão; Minas Gerais; Pará; Rio de Janeiro; Rio Grande do Sul; Rio Grande do Norte; Santa Catarina; São Paulo; Sergipe; - Núcleos:- Espírito Santo; Franca/SP; Recife/PE; Passo Fundo-RS; Santa Maria-RS; São José do Rio Preto-SP; Sul-Mineiro; Terezina-PI; Londrina-PR; Curitiba-PR.  

 

ABPp:  http:// www.abpp.com.br 

 

[2] Este documento foi publicado nas Revistas nº 18 e nº 19 da Associação Brasileira de Psicopedagogia.

 

Nina Rocha é psicopedagoga, escritora, poeta, ilustradora e professora
ninarocha@pop.com.br

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