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O presente artigo
responde a quatro perguntas sobre método de alfabetização em leitura:
(1) O método fônico é o mais eficaz para alfabetização?(2) Quais as
principais diferenças entre o modelo fônico e o construtivista? (3)
Segundo uma pesquisa feita pela revista Veja 60% das escolas adotam o
modelo construtivista para alfabetização dos alunos. Por que a grande
maioria opta por esse método? (4) Quais as vantagens que o aluno tem ao
ser alfabetizado pelo método fônico?
Comecemos pela
primeira questão. Há uma guerra dos métodos de alfabetização em leitura,
no Brasil e fora do Brasil, especialmente a Europa, que, na verdade,
dissimula uma outra guerra, de ordem ideológica e financista, entre
especialistas no mundo da lectoescrita. Não é de hoje.
Diríamos que há, pelo
menos, um século, discutimos a prevalência de um método sobre o outro.
Ontem, hoje e amanhã, certamente, quem ganha, claro, terá seus
dividendos editoriais e mais prestígio nacional ou internacional sobre o
campo fértil das mídias, que é o da leitura e da escrita.
No Brasil, nos anos
60, século passo, o educador Paulo Freire, por exemplo, com seu método
de alfabetização, ganhou notoriedade internacional por defender a
aquisição da leitura além do acesso ao código lingüístico e de levar o
alfabetizado a uma visão crítica, política e politizada de um mundo do
trabalho, do cotidiano, da vida em sociedade, povoado de inquietações,
aspirações sociais, violências simbólicas, conflitos de classes sociais
e dominado por forças de dominação econômica e cultural. É um modelo
inspirador para os alfabetizadores do século XXI.
A peleja dos métodos
de alfabetização está bem polarizada: métodos fônicos de um lado, do
outro, os construtivistas. Os métodos fônicos também são conhecidos por
métodos sintéticos ou fonéticos. Partem das letras (grafemas) e dos sons
(fonemas) para formar, com elas, sílabas, palavras e depois frases.
São vários modelos de
métodos fônicos. Entre eles, o mais antigo e mais consistente, em termos
de pedagogia da alfabetização em leitura, é o alfabético ou soletração,
que consiste em primeiro ensinar as letras que representam as consoantes
e, em seguida, unir as letras-consoantes às letras-vogais.
Os modelos
alfabéticos de alfabetização em leitura, por seu turno, partem das
sílabas para chegar às letras e aos seus sons nos contextos fonológicos
em que aparecem. As cartilhas de ABC, durante muito tempo encontradas em
mercearias ou bodegas ou mesmo mercados, eram o principal material
didático e contavam com a presença forte do alfabetizador que acreditava
que, pelo caminho da repetição das letras e dos seus sons, o aluno logo
chegaria ao mundo da leitura.
Os métodos
construtivistas de alfabetização em leitura, também chamados analíticos
ou globais partem das frases que se examinam e se comparam para, no
processo de dedução, o alfabetizando encontrar palavras idênticas,
sílabas parecidas e discriminar os signos gráficos do sistema
alfabético.
A aplicação do método
construtivista, na prática, quando aplicado, tende a ser mais
praxiologia do que mesmo método. Por que praxiologia? Induz à
alfabetização, centra-se no alfabetizando e não no alfabetizador,
quando, a rigor, nesse momento, a intervenção do educador se faz
importante uma vez que há necessidade, na alfabetização, de um ensino
sistemático e diretivo para levar o aluno à compreensão do sistema de
escrita da língua. É na alfabetização que o aluno deve construir a
consciência lingüística da leitura.
A tradição de
helênica de alfabetização nos leva a considerá-la uma importante etapa
da educação escolar (embora a Lei de Diretrizes e Bases da Educação(LDB),
promulgada, em 1986, não faça referência a uma sala específica de
alfabetização na educação infantil ou no ensino fundamental) como uma
iniciação no uso do sistema ortográfico.
Há uma espécie de
consenso entre os alfabetizadores de considerar que a alfabetização é um
processo de aquisição dos códigos alfabético e numérico cujo finalidade
última é a de levar o alfabetizado ao letramento e ao enumeramento, isto
é, a adquirir habilidades cognitivas para desenvolver práticas que
denotam a capacidade de uso de diferentes tipos de material escrito.
Mas como garantir a
alfabetização em leitura? Através de métodos ou estratégias de
aprendizagem. Por isso, quando nos reportamos, historicamnente, aos
métodos de alfabetização em leitura, estamos nos referindo, dentro da
longa tradição da alfabetização, a um conjunto de regras e princípios
normativos que regulam o ensino da leitura. Nos anos 60, a maioria da
população brasileira aprendeu a ler pelo método da silabação, que
consiste em ensinar a ler por meio do aprendizado de sílabas e a partir
delas a formar palavras e frases. A segmentação das sílabas em fonemas e
letras é uma etapa posterior.
Todavia, só o método,
em si, não garante a aprendizagem. É importante a formação do
alfabetizador. Sem formação lingüística, o método pode perder sua
eficácia. A alfabetização em leitura é diretamente relacionada com o
sistema de escrita da língua.
No caso das chamadas
línguas neolatinas, particularmente o Português e o Espanhol, o método
fônico se torna um imperativo educacional por conta do próprio sistema
lingüístico, isto é, o chamado princípio alfabético, manifesto na
correspondência entre grafemas e fonemas e na ortografia sônica, mais
regular e digamos, assim, mais biunívoca: uma letra representa um
fonema, na maioria dos casos. Como a língua não é perfeita unívoca –
exatamente por é social, construída historicamente pala comunidade
lingüística - sons como /sê/ ou /gê/ poderão terão várias
representações gráficas, transformando esses casos isolados em contextos
equívocos e que, no fundo, podemos contar nos dedos e que não perturba o
processo de alfabetização.
Com as afirmações
acima, já podemos estabelecer algumas diferenças básicas entre os dois
métodos. O fônico, como o próprio nome nos sugere, favorece o princípio
alfabético, a relação grafema-fonema e seu inverso, isto é, a relação
fonema-grafema. Se a escola partir do texto escrito, no método fônico,
estará, assim, enfatizando a relação grafema-fonema. Se a escola parte
da falta do alfabetizando, focalizará, desde logo, a relação
fonema-grafema.
O grande desafio dos
docentes ou dos pedagogos da leitura é, tendo conhecimento de
Lingüística e Alfabetização, levar os alunos a entenderem, ao longo do
processo de alfabetização, as noções de fonema e grafema. Entender, por
exemplo, que fonema, som da fala, faz parte do chamado módulo
fonológico, uma herança genética do ser humano.
Na fase de balbucio,
ainda não os sons da fala ainda não manipulados pela criança, mas, a
partir dos três anos de idade, já considerada nativa, a escola pode
ensinar ao educando, sistematicamente, o sistema sonoro da língua,
levando-o à consciência fonológica ou fonêmica, de modo que entendam que
o fonema é uma unidade mínima das línguas naturais no nível fonêmico,
com valor distintivo.
Os investigadores de
leitura mostram que o método fônico também é mais eficiente para as
comunidades lingüísticas pobres, ou seja, as camadas populares com
acesso precário aos bens culturais da civilização letrada. Por que isso
ocorre? Graças ao fonema podemos distinguir morfemas ou palavras com
significados diferentes, todavia próprio fonema não possui significado.
Em português, as palavras faca e vaca distinguem-se
apenas pelos primeiros fonemas/f/ e/v/.
Os fonemas não devem
ser confundidos, todavia, com as letras dos alfabetos, porque estas
frequentemente apresentam imperfeições e não são uma representação exata
do inventário de fonemas de uma língua. As letras do alfabeto são signos
ou sinais gráficos que representam, na transcrição de uma língua, um
fonema ou grupo de fonemas. Como as letras não dão conta de todo o
sistema de escrita, os lingüistas falam em grafemas no campo da escrita.
Os grafemas, bastante
variados, estão presentes no sistema da escrita da língua portuguesa.
Para a compreensão da escrita alfabética ou ortografia da língua
portuguesa, a noção de grafema se faz necessária uma vez ser uma unidade
de um sistema de escrita que, na escrita alfabética, corresponde às
letras e também a outros sinais distintivos, como o hífen, o til, sinais
de pontuação e os números.
O método global além
de não ter funcionado ou vir tendo uma resposta eficaz no sistema
educacional da América Latina, uma vez que não se presta ao nosso
sistema lingüístico, ao contrário do método fônico, que requer
conhecimentos metalingüísticos da fonologia da língua portuguesa, o
global requer dos alunos uma maior carga de memorização lexical.
O método global de
alfabetização em leitura peca porque sobrecarrega a memória dos
alfabetizandos quando ainda não estão em processo de construção do seu
léxico, que depende, como nos ensina o sociointeracionismo, das relações
intersubjetivas ou interpessoais e de engajamento pragmático das
crianças no uso social da língua. Numa palavra, diríamos que o método
global depende muito das formas de letramento da sociedade, dos
registros de atos de fala, nos diferentes contextos sociais e culturais
da sociedade, em que a palavra é, assim, o grande paradigma em ponto de
partida da pedagogia da leitura. Para os países desenvolvidos e com
equipamentos sociais à disposição dos alunos, cai como uma luva.
Para os países
subdesenvolvimentos, tem se constituído uma lástima e é deplorável a
situação por que passa o Brasil, nos exames nacionais e internacionais,
anunciando o nosso pais como o pior país do mundo em leitura.Ao
contrário do método fônico, o método global não tem um caráter
emancipatório, retarda o ingresso da criança no mundo da leitura.
A partir dos anos 80,
no século passado, o Brasil, através de seus governos, influenciado com
os achados da psicogênese da escrita, realmente uma teoria (e não
pedagogia) bastante sedutora em se tratando de postulações pedagógicas,
adotou o método construtivista para o sistema educacional, em
particular, o público, a adotar o método construtivista ou global. Uma
década depois, os resultados pífios do Sistema de Avaliação da Educação
Escolar (convertido,agora, em Prova Brasil) revelaram que as crianças,
depois de oito anos de escolaridade, estavam ainda com nível crítico de
alfabetização, mal sabiam decodificação, isto é, transformar os signos
gráficos(letras) em leitura. Sem leitura, como sabemos, o aluno não tem
estratégia de desenvolvimento de capacidade de aprender ou de
aprendizagem.
Os primeiros seis anos
do século XXI já assinalam o principal desafio dos governos,
estabelecimentos de ensino e docentes, no meio escolar, é o de levar o
aluno ao aprendizado da lectoescrita. O que deveria ser básico se tornou
um desafio aparentemente complexo para os docentes da educação básica:
assegurar, através da leitura, escrita e cálculo, a aprendizagem
escolar.
Por que o domínio básico
de lectoescrita se tornou tão desafiador para o sistema de ensino
escolar? Por que ensinar a ler não é tão simples? Como desvelar o enigma
do acesso ao código escrito? Em geral, quando nos deparamos com as
dificuldades de leitura ou de acesso ao código escrito, esperamos dos
especialistas métodos compensatórios para sanar a dificuldade.
Nenhuma dificuldade se
vence com método mirabolante. O melhor caminho, no caso da leitura, é o
entendimento lingüístico, do fenômeno lingüístico que subjaz ao ato de
ler. Ler é ato de soletrar, de decodificar fonemas representados nas
letras, reconhecer as palavras, atribuir-lhes significados ou sentidos,
enfim, ler, realmente, não é tão simples como julgam alguns leigos.
O primeiro passo, nessa
direção, o de ensinar o aluno a aprender a ler antes para praticar
estratégias de leitura depois, em outras palavras, de atuar
eficientemente com as dificuldades do acesso ao código escrito, as
chamadas dificuldades leitoras ou dislexias pedagógicas, é ensinar o
aluno a aprender mais sobre os sons da língua, ou melhor, como a língua
se organiza no âmbito da fala ou da escrita.Quando me refiro à fala,
estou me referindo, sobretudo, aos sons da fala, aos fonemas da língua:
consoantes, vogais e semivogais.
A
leitura, em particular, tem sua problemática agravada por conta de
dificuldades de sistematização dos sons da fala por parte da pedagogia
ou metodologia de plantão: afinal, qual o melhor método de leitura? O
fônico ou o global? Como transformar a leitura em uma habilidade
estratégica para o desenvolvimento da capacidade de aprender e de
aprendizagem do aluno?
Assim, um ponto inicial a
considerar é a perspectiva que temos de leitura no âmbito escolar. Como
lingüística, acredito que a perspectiva psicolingüística responde a
série de questionamentos sobre o fracasso da leitura na educação básica.
Em geral, os docentes não partem, desde o primeiro instante de processo
de alfabetização escolar, da fala. A fala recebe um desprezo tremendo da
escola e é fácil compreender o porquê: a escrita é marcador de ascensão
social ou de emergência de classe social.
A escrita é
ideologicamente apontada como sendo superior a fala. A tal ponto podemos
considerar essa visão reducionista da linguagem, que quem sabe falar,
mas não sabe escrever, na variação culta ou padrão de sua língua, não
tem lugar ao sol, não tem reconhecimento de suas potencialidades
lingüísticas. Claro, a escrita não é superior a fala nem a fala superior
a escrita. Ambas, interdependentes. A alma e o papel, o pensamento e a
linguagem, a fala e a memória, todos esses componentes têm um papel
extraordinário na formação para o leitor proficiente.
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Vicente
Martins é professor da Universidade Estadual vale do Acaraú(UVA), em
Sobral, Estado do Ceará. E-mail:
vicente.martins@uol.com.br |