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A leitura é uma habilidade complexa: o leitor tem diante de
si um texto a ser decifrado, através da decodificação,
através da soletração e da fluência verbal, e em seguida,
terá que atribuir sentido ao que é decantado ou lido. Esse
conceito vale tanto para o texto em prosa como em verso. Mas
como ler um poema ou um soneto clássico? No presente, artigo
trataremos de mostrar as principais características da
leitura literária e quais as estratégias para o aprendizado
da leitura em versos.
Partirei, então e desde logo, do conceito de poesia. No
campo da Literatura, poesia é a
composição em versos (livres e/ou providos de rima) cujo conteúdo
apresenta uma visão emocional e/ou conceitual na abordagem
de idéias, estados de alma, sentimentos, impressões
subjetivas, quase sempre expressos por associações
imagéticas
Por poesia também podemos entender também a arte de excitar
a alma com uma visão do mundo, por meio das melhores
palavras em sua melhor ordem. Daí, entendê-la também todo
texto com alto grau de poder criativo e inspiração e que
desperta, no leitor ou ouvinte, o sentimento do belo.
A etimologia da palavra poesia é muito sugestiva para se
compreender o seu verdadeiro sentido aos olhos do leitor de
versos. A palavra poesia vem do latim poésis,is
'poesia, obra poética, obra em verso', derivado, por sua
vez, do grego poíésis,eós 'criação; fabricação,
confecção; obra poética, poema, poesia'. A palavra chegou à
língua portuguesa, por intermédio da palavra em italiano poesia
entendida como “arte e técnica de exprimir em verso uma
determinada visão de mundo”
Leiamos, então, um bela poesia de Vinicius de Moraes, :

Soneto
de fidelidade
De tudo ao meu amor serei atento

Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.
Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento.
E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama
Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure. |
Trata-se um soneto. Esta palavra aparece na Língua
Portuguesa lá pela segunda metade do século XVI. Refere-se a
uma
pequena composição poética composta de
14 versos, com número variável de sílabas, sendo o mais
freqüente o decassílabo, e cujo último verso (dito chave de
ouro) concentra em si a idéia principal do poema ou deve
encerrá-lo de maneira a encantar ou surpreender o leitor. No
caso do soneto de Vinicus, a chave de ouro é a definição de
amor “ uma paixão imortal, posto que é chama, mas infinto
enquanto dura”.
A palavra soneto entra no léxico português através do
italiano sonetto, no século XIII, entendida como
“composição lírica formada de quatorze hendecassílabos,
rimados variadamente, cujos oito primeiros formam duas
quadras, e os outros formam dois tercetos'” No caso acima,
trata-se de um soneto clássico ou italiano, porque é um
soneto formado por dois quartetos e dois tercetos.
Para a leitura deste soneto de Vinicius de Moraes é
necessário o leitor levar em conta o ritmo. Um dos traços do
soneto é a musicalidade e o ritmo pertence ao mundo da
música. A própria palavra ritmo, de origem latina
rhythmus,i quer dizer “ movimento regular, cadência,
ritmo”. Assim, deverá o leitor tomar por ritmo a cadência, o
que acaba por caracterizar o soneto como um poema com padrão
rítmico especial..
Vale lembrar aqui que todo soneto é um poema, mas
nem todo poema é um soneto. Por poema, devemos entender, no
campo da Literatura, obra de poesia
em verso ou uma composição poética em que há enredo e ação.
A epopéia é um exemplo de um poema. Há situações que o
poema , no entanto, tem forma romanesca ou em prosa. É o que
denominamos poema em prosa, em que a obra não é verso, mas é
análoga a um poema pela inspiração, pelos temas e pelo
estilo, mas, diferente do poema, com estrutura menos
formal.
Para o leitor, é importante que entenda que cada linha do
poema é chamada verso. Assim, por verso, deve ser entendida
a subdivisão de um poema, geralmente, coincidindo com uma
linha do mesmo, que obedece a padrões de métrica (pés)
e de rima (variáveis no tempo e no espaço), ou prescinde
deles (versos brancos e livres), caracterizando-se por
possuir certa linha melódica ou efeitos sonoros, além de
apresentar unidade de sentido
Esta noção de verso é fundamental para a leitura do soneto
em voz alta. A essência da leitura do soneto é que o leitor
leia os versos com movimento compassado ou cadenciado como se fosse um passo de dança
ou uma dança. Este “passo de dança” é garantido, durante a
leitura, pelo enjambement, uma palavra de origem francesa.
Por
enjambement, entendemos a
partição de uma
frase
no
final
de
um
verso
ou
uma
estrofe,
sem
respeitar
as
fronteiras
dos
sintagmas,
colocando
um
termo
do
sintagma
no
verso
anterior
e o restante no
verso
seguinte.
É o enjambement
que
cria
um
efeito
de
coesão
entre
os
versos,
pois
aquele
onde
começa
o enjambement
não
pode
ser
lido
com
a
habitual
pausa
descendente
no
final,
e
sim
com
entonação
ascendente,
que
indica
continuação
da
frase,
e
com
uma
pausa
mais
curta
ou
sem
pausa.
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