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Diariamente, recebo, por e-mail, entre 20 a 40 mensagens,
solicitando-me informações sobre dislexia, disgrafia e
disortografia: como ajudar meu filho em minha casa? Como
ajudar meu aluno em sala de aula? Neste artigo, apresentamos
três passos para uma boa atuação dos profissionais em
psicopedagogia, que atuam no campo da linguagem: (a)
aprender a conhecer bem os conceitos de dislexia, disgrafia
e disortografia; (b) Ler ou ouvir atentamente os relatos de
dificuldades de aprendizagem de leitura, escrita e
ortografia por parte de pais, educadores ou os próprios
educandos e (c) Ler para atuar as principais referências de
leitura na área psicopedagógica.
O
primeiro passo é o seguinte: compreensão dos principais
conceitos das dificuldades de aprendizagem em lectoescrita
em sala de aula. Para tanto, no segundo passo, reproduzirei
alguns relatos para apreciação dos psicopedagogos que
trabalham a intervenção clínica ou instituicional no seu
campo de atuação profissional.
Uma primeira questão é a seguinte: sem
conhecimento teórico sobre leitura, escrita e ortografia
nenhum profissional de psicopedagogia pode atuar eficaz e
eficientemente no campo das dificuldades de aprendizagem em
leitura, escrita e ortografia.
Comecemos, então, por alguns termos fundamentais
para atuação dos profissionais em psicopedagogia que lidam
com dificuldades de aprendizagem relacionadas com a
linguagem.
Um primeiro termo a considerar é queixa. O que é a
queixa? No âmbito psicopedagógico, adotamos o termo queixa
por entendermos que qualquer
dificuldade de aprendizagem relatada pelo educando, em sala
de aula ou no lar, é relevante para o atendimento
educacional e a tomada de providências pedagógicas. relatado
pelo paciente. A queixa discente é, pois, aquela que, na
opinião do educando, é a mais importante de todo o seu
relato pedagógico e que terminou por levá-lo ao baixo
rendimento escolar.
A queixa se constitui um item em separado e importante da
anamnese.
No
âmbito da psicopedagogia clínica, a anamnese refere-se ao
histórico que vai desde os
sintomas ou queixas iniciais do educando até o momento da
observação psicopedagógica clínica, realizado com base nas
lembranças do educando e nas avaliações de desempenho do
aluno. Um outro termo relacionado com a anamnese é
catamnese que indica o
registro da evolução de um educando desde que observado e
diagnosticado com dificuldade de aprendizagem após ter feito
exames psicopedagógicos.
Compreendidos o conceito de queixa e o de anamnese, a noção
de diagnóstico é imprescindível para o trabalho
psicopedagógico, uma vez que os pais, em geral, têm grande
expectativa com relação ao que o psicopedago irá dar de
informação e orientação sobre sua intervenção clínica ou
institucional. Assim,
o
termo é entendido aqui como a fase em que o educador ou
gestor pedagógico, procura com a orientação psicopedagógica, a
natureza e a causa da DA (Dificuldade de Aprendizagem). Em
sala de aula, o educador pode proceder com um diagnóstico
diferencial informal, onde descarta a possibilidade de
distúrbios orgânicos que apresentem sintomatologia comum com
a dificuldade apresentada pelo educando. A etimologia da
palavra diagnóstico revela que a palavra diagnóstico vem do
grego diagnóstikós e quer dizer 'capaz de
distinguir, de discernir'.
Termos
com dislexia, disgrafia e disortografia devem ser bem
entendidos pelos psicopedagogos. No caso da dislexia,
tanto pode ser compreendido a partir dos aportes teóricos da
Medicina ou da Psicolingüística. A dislexia refere-se à
perturbação na aprendizagem da leitura pela dificuldade no
reconhecimento da correspondência entre os símbolos gráficos
e os fonemas, bem como na transformação de signos escritos
em signos verbais. Tem também a acepção de dificuldade para
compreender a leitura, após lesão do sistema nervoso
central, apresentada por pessoa que anteriormente sabia ler.
A
disgrafia tem uma natureza ou etiologia mais patológica.
Na Neurologia, termo refere-se à perturbação da escrita
por distúrbios neurológicos.
A disortografia, no âmbito da psicolingüística,
refere-se à dificuldade no aprendizado e domínio das regras
ortográficas, associada à dislexia na ausência de qualquer
deficiência intelectual. Sua etimologia: dis- +
ortografia.
Vamos agora ao segundo passo. Darei a seguir
exemplos de casos de queixas de pais e educadores sobre
educandos que apresentam dificuldades lectoescritoras
(leitura, escrita, ortografia e cálculo).
No primeiro relato, a mãe diz que tem “ uma filha
de 8 anos que está na segunda série mas que até o momento
não consegue ler. Ela só começou a falar, de uma forma que
outras pessoas pudessem entender, depois dos 4 anos. Até o
momento ela não consegue pronunciar o /r/ e tem dificuldades
para pronunciar palavras com mais de três sílabas. Minha
filha freqüenta a educação infantil desde os dois anos e
meio, tem um irmão de 12 anos que não apresentou essas
dificuldades, sempre teve acesso a um ambiente que
privilegiou a leitura. Também desde os 3 anos ela tem
atendimento fonoaudiológico e psicopedagógico. Não tem
problemas auditivos, neurológicos ou visuais. Na escola que
freqüente embora ela não tenha atingido os objetivos da
primeira série, optou-se para que ela fosse para a segunda
série porque se verificou que houve avanço no aprendizado
dela e pela questão afetiva, o relacionamento com a turma.
Num exame realizado por fonoaudiólogos, disseram que ela
tinha problemas no processamento auditivo central. Estou
muito angustiada o que me leva a buscar ajuda e escrever, e
peço desculpas por estar ocupando seu tempo. Tenho um pouco
de medo de rótulos, principalmente aqueles que estão na moda
e atribuem toda dificuldade de aprendizagem ao fato da
criança ser DDA, como estão sugerindo e empurrando Ritalina.
Acredito que não seja dificuldade de aprendizagem, mas uma
nova forma de aprender, mas eu, como mãe, não consigo
enxergar como tímida e as escolas, pelo visto, também não”
Um segundo caso a mãe revela que sua filha é “ uma
linda menina de 9 anos que tem dislexia, ela esta na segunda
serie e apesar dos meus esforços, continua tendo dificuldade
na leitura e escrita. Não temos recursos para levá-la a uma
fonoaudióloga particular”
Um
terceiro caso é uma senhora aos 40 anos que descobre, de
forma tardia, sua síndrome disléxica. Assim se diz “tenho 40
anos sou estudante do 3º período de pedagogia e sempre tive
muita dificuldade em cálculos. Somente nesse período da
faculdade, na matéria Alfabetização e Letramento ouvi falar
em dislexia e cheguei a conclusão agora que li seu artigo
sobre a referida doença que tenho esse problema. Será que na
minha idade ainda pode haver cura? Será que tenho condição
de ser uma professora? Infelizmente não tive uma boa
alfabetização. Fui alfabetizada na roça, vim para cidade
cursei a segunda série antigo primário numa cidade do
interior onde estudei até o segundo ano do Normal. Mudei
para o Rio de Janeiro onde cursei o segundo grau por sistema
de crédito um ano e meio para concluir o segundo grau,
sempre com muita dificuldade depois de 10 anos voltei a
estudar pedagogia o que sempre foi meu maior sonho, mais
estou tendo muita dificuldade devido a esse problema.
Gostaria muito de um auxilio”
Um
quarto caso é o de um pai de 26 anos que descobre a dislexia
do filho de de sete anos. “pelos sintomas descritos creio
que eu possa ser disléxica e meu filho que tem 7anos, o
mesmo não memoriza o alfabeto, faz troca de algumas silabas,
peço que me responda o que posso fazer ?”
Um
quinto caso é bem interessante e é muito bem escrito pela
mãe. “Tenho uma criança de 6 anos e 7 meses que recentemente
me tem apresentado algumas alterações na escrita e na
leitura. Note-se que ela está conosco desde Janeiro e nessa
altura não apresentava estas dificuldades. É uma criança que
chegou a nós com uma linguagem e vocabulário muito pobre,
linguagem freqüentemente à bebê... Tem evoluído muito desde
Janeiro, mas nas últimos 15 dias apresenta estas alterações
que lhe vou falar. ESCRITA –DITADO:ESCREVE: - viva
(orginal é VIVE) - lustar (original é ILUSTRA)a (original é
AL) Vide (original é VIDA)ixa (original é PEIXE)- Do
(original é DA)CÓPIA:ESCREVE: - do (original é DA)dios
(original é DIAS)- Rodos (original é RODAS)- no (original é
NA) – batatas (original é BATATES) – Xilofona (original é
XILOFONE)”
Um
sexto caso é relato por uma professora que seu aluno comete
erros “do tipo professoura em vez de professora , boua em
vez de boa. Como podemos classificar estes erros, aqui
ocorre uma ditongação pela criança por qual motivo?”
Um
sétimo caso é também relatado por uma professora diante de
um quadro de dificuldades lectoescritoras em sala de aula:
“ Tenho uma aluna que está na 3ª série e além de ter algumas
dificuldades na leitura e na escrita, também apresenta um
déficit fonológico. Ela não consegue emitir o som da letra
g, troca pelo
che.
E também troca o
d
pelo
t.Gostaria
de saber se você poderia me orientar sobre o que fazer para
orientá-la. A mãe já consultou fonoaudiólogos e parece que
nada adiantou. Desculpe por incomodá-lo, mas gostei da
maneira como abordou o problema e espero poder contar com
sua orientação”
Um
oitavo caso é relatado assim: “ Fui chamada na escola de meu
filho porque ele tem problemas com a escrita, faz trocas de
letras como v/f, d/t, ele tem 9 anos está na terceira serie,
pediram para que o leve para fazer uma avaliação com uma
fono, queria saber se este caminho que devo seguir, ou o que
devo fazer”.
Um
novo caso é relatado por uma profissional de Letras: “Tenho
um filho de 9 anos extremamente inteligente e que desde a
pré-escola demonstra um nível de inteligência surpreendente,
por outro lado não faz lição, não copia, e apesar disso só
tem boas notas, verbalmente ele é excelente mas na parte da
grafia não consegue acompanhar a classe, ano passado
concordei com a reprovação dele na 2º série como forma de
punição, pois achava ele preguiçoso. A situação vem se
agravando pois ele está ficando agressivo com os colegas da
escola, se acha burro, mas tem conhecimento de todo conteúdo
dado em sala de aula. Quanto a sua inteligência não há o que
questionar. Gosta de ler, mas somente livros com pouco
conteúdo, pois fala que se atrapalha com muitas palavras.
Na escola ele tem até tentado copiar as lições, mas se tira
o olhar do caderno não consegue retornar de onde parou e
desiste. Estou cursando o 6º ciclo do curso de letras e como
meu filho imagino ter muitas crianças, jovens e adultos com
as mesmas dificuldades. Como posso ajudar meu filho?”
O
décimo caso é relatado assim: “ ...tenho notado que meu
filho de 9 anos, atualmente cursando a 3ª série apresenta
dificuldade de leitura e tende a trocar letras como “b e d”
e se confunde com o som de sílabas como “se e es”, o que,
segundo seu artigo, enquadra-se em um caso de dislexia
pedagógica. O processo de alfabetização do Leonardo foi
deficiente, pois ele não chegou a cursar o pré-primário,
passou do 2º período pré-escolar diretamente para a 1ª série
do ensino fundamental. Embora ele não tenha dificuldade de
compreensão e entendimento, apresenta uma leitura difícil e
lenta, muitas vezes se perde durante a leitura de uma
frase, como se apresentasse uma distração na hora de ler.
Gostaria de uma orientação de como minha família deve
proceder para examiná-lo. A quem devo recorrer?”
O terceiro passo refere-se à formação do
psicopedagogo. Para atuar, há, pois, como disse, necessidade
de se conhecer. Eis uma pequena sugestão de bibliografia
para leitura e análise para aqueles que desejam trabalhar no
campo da psicopedagogia da leitura, escrita e ortografia.
-
ABARCA, Eduardo Vidal e RICO, Gabril Martinez. Por que
os textos são tão difíceis de compreender? As
inferências são a resposta. In TEBEROSKY, Ana et al.
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CEREZO, Manuel. Persuasores ocultos: os textos
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Compreensão de leitura: a língua como procedimento.
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COLOMER, Teresa, CAMPS, Anna. Ensinar a ler, ensinar
a compreender. Tradução de Fátima Murad. Porto
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-
CONDEMARÍN, Mabel e MEDINA, Alejandra. A avaliação
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linguagem e comunicação. Tradução de Fátima Murad. Porto
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(orgs.) Dislexia, fala e linguagem: um manual do
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Alegre: Artmed, 2004. pp.203-225
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TEBEROSKY, Ana.A iniciação no mundo da escrita.
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Fátima Murad. Porto Alegre: Artmed, 2003. pp.107-125.
(Coleção Inovação Pedagógica, v.7).
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VANCE, Maggie. Avaliação das habilidades de
processamento da fala nas crianças: uma análise de
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Dislexia, fala e linguagem: um manual do
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VANCE, Maggie. Avaliação das habilidades de
processamento da fala nas crianças: uma análise de
tarefas. In SNOWLING, Margaret e STACKHOUSE, Joy. (orgs.)
Dislexia, fala e linguagem: um manual do
profissional. Tradução de Magda França Lopes.Porto
Alegre: Artmed, 2004. pp.57-73
Vicente Martins é professor da Universidade Estadual Vale do
Acaraú(UVA), em Sobral, Estado do Ceará. E-mail:
vicente.martins@uol.com.br |