|
Chega às minhas mãos, em branco, preto e azul, o envelope
de avaliações bimestrais da minha filha, de 12 anos, cursando o 7º ano,
em um estabelecimento da rede privada de ensino. Como as escolas
públicas e privadas vem corrigindo as provas escolares e avaliando seus
alunos? As escolas vêm cumprimento as orientações da Lei de Diretrizes e
Bases da Educação Nacional? No presente artigo, tentaremos responder a
estas duas questões, a partir de um fato pedagógico real, envolvendo
minha filha e seu professor de Matemática.
Nas recomendações gerais, contidas na capa do envelope,
enviada pela escola aos pais dos alunos, duas informações me chamam a
atenção: a primeira diz que “ A avaliação da escola tem como objetivo
diagnosticar a situação de ensino aprendizagem dos alunos, para
estabelecer objetivos que nortearão o planejamento da ação pedagógica” e
a outra informação parece-me dirigida aos pais e aos próprios alunos: “
No verso deste Envelope de Avaliações existe também um
espaço reservado ao registro de toda e qualquer reclamação ou sugestão
sobre as questões das avaliações. Ao fazê-lo - recomenda a escola -
escreva numa linguagem clara e coerente, e com letra bem legível”. No
verso do envelope, lembra ainda: “Registre neste espaço suas reclamações
somente sobre as questões das provas que devem ser recorrigidas pelos
professores”
Parece-me tentador, como pai e educador, registrar toda e
qualquer reclamação e até fazer sugestão à escola e poder, assim,
colaborar, de alguma forma, para o “planejamento da ação pedagógica”. No
entanto, como a escola não me diz para ir direto ao assunto, mas apenas
ser claro e coerente, recorro, de logo, à entrevista do apresentador
Luciano Huck à Revista Veja ("Huck no caldeirão", 10 de outubro
de 2007).
A entrevista de Huck, nas páginas amarelas da Revista
Veja, há uma importante luz para educadores, pais e gestores
educacionais. Ao ser indagado sobre a violência urbana, uma vez ter sido
vítima de assalto, e “o que faria diferente se tivesse poder", respondeu
com duas questões simples e de insofismável epifania: "Cadê
o projeto para a educação? Por que ela não é tão competente quanto
outras áreas?". Atrevo-me, na condição de educador, a
responder, assim, ao apresentador "caldeado": primeiro, não temos
projeto educacional no país, e sim, um plano nacional de educação (Lei
n. 10.172/2001), burocrático e centralizador, que
focaliza, retoricamente, o compromisso do poder público de garantir
educação escolar para todos, mas não garante, na prática, uma
educação em valores, emancipadora, que seja capaz de educar as pessoas
para a vida, justiça, diálogo,paz, tolerância, respeito ao outro, enfim,
capaz de salvaguardar a sua vida e a de outrem, como o que ocorreu com o
apresentador global.
A
reação
de Huck (que
nada
tem a
ver
com
o
incrível
Hulk
verde)
diante
dos assaltantes foi de
um
homem
educado
em
valores:
"Eles
pediram o
relógio.
Eu
entreguei.
Depois,
pediram o do
meu
amigo,
que
também
entregou"
e Huck soube,
também,
na
entrevista,
aplicar,
muito
bem, seus
conhecimentos
básicos de
sujeito
indeterminado
(Eles
pediram...) para
não
correr
risco
de
sofrer
qualquer rechaço
futuro,
uma
vez
que,
como
disse,
fala e
se
veste
igual
às
pessoas
simples
das
favelas
por
onde
sobe
para
gravar
seu
programa
semanal.
A educação é uma área que reúne
profissionais competentes e suas ações são também produtivas em
muitos estados da Federação, mas, como sabemos, longe das favelas e da
pobreza, posto que a excelência escolar é, conforme atestamos em exames
nacionais como Prova Brasil, SAEB ou ENEM, restrita ao setor privado,
com exceções, é claro, de algumas escolas públicas. Começo minha
“reclamação” pelo caso de Luciano Huck para dizer que vejo, na educação
privada, uma ilha de boas práticas pedagógicas na educação brasileira.
Não
farei à guisa de Luciano Huck uma crítica ao modelo de avaliação escolar
por questões de ordem conjuntural da educação. Tomarei a reclamação, na
sua acepção jurídica, de reivindicação de um direito ou queixa, ou mais,
precisamente, protesto educacional. E como tal, desejo que a coordenação
da escola da minha filha tome minha reclamação como um requerimento
dirigido à gestão pedagógica, reivindicando a reparação de algo tido, no
meu olhar de pai e entendimento de educador, como injusto e
antipedagógico.
Pensando na
educação
da
minha
filha,
diria
que
minha
reclamação
caminha
para
uma
oportuna
e
necessária
queixa
pedagógica.
Mais
do
que
reclamação é
um
providencial
protesto
ou
um
generoso
brado
de
repulsa
ou
de não-concordância
com
relação
ao
sistema
de avaliação da
escola,
particularmente
a do
professor
de
Matemática
Fulano
de
Tal.
Vamos à minha reclamação. Trata-se da décima questão da
prova bimestral de Matemática do professor Fulano de Tal. Diz o
enunciado da questão: “Fulano tinha saldo
negativo no banco: -500 reais. Mesmo assim, deu um cheque de 200 reais.
Para calcular o novo saldo de Fulano podemos efetuar:
a)
- 500 + 200 = -300
b)
-500-200 = -700
c)
200 – (-500) = 700
d)
500 + (-200) = 300”
Vamos à
resposta
da
minha
filha:
a) – 500 +
200 =
- 300. A do
professor:
b) -500 -200 = - 700. Aprendi,
desde
cedo,
como
educador,
a
lidar
com
o
erro
e sendo
assim,
quando
um
aluno
erra,
em
sala,
sempre
pergunto o
que
levou a
fazer
a
opção
por
a, b, c
ou
d.
Assim,
fiz a
velha
pergunta
à
minha
filha:”por
que
você
fez
opção
pelo
item
a e
não
pelo
item
b?””
Ela
me
respondeu: “Ora,
pai,
o
Fulano
deu
um
cheque
de 200
reais,
logo,
seu
saldo
negativo,
que
era
de -500
reais,
ficou
-300”.
E continuei: “Mas
ele,
o
Fulano,
deu o
cheque
a
quem,
filha?
No
que
ela
respondeu de
pronto:”Ao
banco,
claro”.
Reli a questão e observei que, lingüisticamente, está mal
formulada, com erro crasso de sintaxe: o verbo dar, que é
bitransitivo, não tem objeto indireto (quem), mas, apenas seu objeto
direto (que). Realmente, cadê o Sicrano da questão? A questão gerou,
pois, ambigüidade, por razões didático-pedagógicas:
(1) A ausência do objeto indireto do verbo dar,
comprometendo a compreensão literal e inferencial da questão,
resultando, pois, em obscuridade de sentido;
(2) O enunciando produz ambigüidade à medida que gera uma
multiplicidade de significados conexos e complementares atribuíveis à
questão, e que, à luz do desenvolvimento cognitivo das crianças,
especialmente as da primeira infância, os erros são previsíveis ou
inesperados, mas válidos, porque nesse estágio sabem muito bem
especular, postular e inferir dados de forma plausível;
(3) Lingüisticamente, a ambigüidade de questões de provas
escolares deve ser evitada por zelo docente pela aprendizagem dos
alunos, posto que há contextos lingüístico e situacional que não
indicam, com segurança, qual a interpretação correta a ser levada em
contada durante a elaboração de uma prova de tempo definido e
(4) Formal e estilisticamente, uma questão com
ambigüidade é indesejável em provas escolares, por trazer no enunciado
ou na instrução um texto científico ou informativo, e alunos ou pais de
alunos nunca uma questão de Matemática tenha o mesmo efeito de uma piada
de humor.
Retornemos a um trecho da décima questão da prova: “Mesmo
assim, deu um cheque de 200 reais”. O que Fulano deu? A resposta
objetiva é, pois, um cheque de 200 reais, o que se constitui, pois, em
objeto direto, que, em gramática ou na lingüística estrutural, e, no
caso específico do verbo dar, na questão objeto de análise, é
considerado como complemento de verbo bitransitivo.
O verbo dar é duplamente transitivo, pois pede,
simultaneamente, dois complementos: objeto direto e objeto indireto.
No
enunciado da questão, o verbo dar, realmente, é bitransitivo (ou
transitivo direto e indireto), uma vez que seu significado é de “ceder,
entregar, oferecer (algo de que se desfruta ou de que se está na posse),
sem pedir contrapartida”, como nos ensinam as gramáticas normativas,
pode ser mais bem exemplificado em frases do tipo” Beltrano deu dinheiro
a um necessitado” ou” Sicrano deu presentes a familiares”.
A questão está tecnicamente mal formulada ou elaborada, o
que, na minha avaliação psicopedagógica, requer da gestão pedagógica da
escola a providência de anulação da mesma. É o princípio de nulidade que
deve existir em caso de ambigüidade por razões lingüísticas, cognitivas
ou técnicas. Mais do que uma recorreção por parte do professor, a
questão deve ser anulada porque, do ponto de vista pedagógica, causou
ambigüidade e dúvida na cabeça das crianças.
A resposta oficial do professor também está errada porque
o verbo dar não pode ter seu “objeto indireto” retido unicamente na
memória do professor. Ao contrário, o verbo dar, no enunciado, da
questão precisa estar claro, objetivo, completo e explícito por amor à
semântica e à sintaxe da frase que, por outro lado,requer do aluno
inferência e o cálculo matemático aplicável a partir do seu
entendimento, ao ler a instrução final do enunciado “Para calcular o
novo saldo de Fulano podemos efetuar:” Como pode o aluno efetuar o
novo cálculo sem a compreensão literal do enunciado da questão?
Portanto, a questão está lingüisticamente errada e induz a erros
pedagógicos, tornando-se, desse modo, ineficaz do ponto de vista
cognitivo. Sem eficácia, o ensino se torna contraproducente e perde a
garantia de segurança de um bom e útil resultado educacional: a
aprendizagem do aluno.
Poderíamos, então, encerrar nossa reclamação aqui. Mas,
confesso um “pecado pedagógico”,fiquei inculcado com essa história de
Fulano (em com F maiúsculo, principalmente) da décima questão da prova
e, curioso, fui ao buscador
http://www.google.com.br para
ver se tinha algo caso parecido com tipo de questão. Para minha
surpresa, o professor plagiou a questão da Internet! Pois não é que no
site http://paginas.terra.com.br/educacao/calculu/Exercicios/Teste6s/teste6.htm,
que traz questões para testes do 7º ano (antiga 6ª série) ensino
fundamental material retirado do livro didático Matemática, dos
autores Lellis e Imenes( Editora Scipione). Agora, conhecendo o”banco de
dados do professor”, aquela décima questão, doravante, para mim, não
passa de uma questãozinha sem muito valor, uma vez que foi reproduzida,
na prova da escola, tal qual aparece na Internet, inclusive com seus
erros de Português.
Em substância: o professor não formulou, e sim, plagiou a
questão e, pior, com os erros crasos de construção de enunciado,
anteriormente, apontados nessa minha reclamação. Aqui, sim, o erro é
muito grave. Trata-se de plágio. Com todo respeito aos fulanos de tal,
acho que o professor que assim procede nem é digno de ser chamado de
Fulano, mas de um Fuão e só.
O
professor
ao
capturar
a
questão
na
Internet,
sem
qualquer
adaptação
à
sua
realidade
escolar,
cometeu,
pelos
menos,
três
erros
gravíssimos. Vamos
citar,
cada
um
deles, de
forma
bem
sintética.
O
primeiro
erro
de
natureza
grave
e juridicamente
criminosa
é o
plágio
docente.
Ocorre
plágio
docente
quando
o
professor
apresenta à
escola
e aos
seus
educandos
uma
questão
(não
quis
mais
verificar
o restante das
questões
da
prova)
como
de
sua
própria
autoria, sendo a
questão,
originalmente,
produzida
por
outrem
e
mais
grave,
retirada
de
livro
com
autor
identificado e reproduzido na
Internet,
permitindo o
acesso
ao “banco
de
questões
de
Matemática”
não
só
manipulado
pelo
professor,
mas
levado
ao
conhecimento
dos
alunos
e dos
pais
dos
mesmos.
Plágio é péssimo exemplo a ser seguido na escola. É um
caminho fácil, mas desonesto, tanto para professores ou alunos.
Numa
formação
de
valores,
o
plágio
não
produz
autores
nem
cidadãos
ativos
na
sociedade,
mas
velhacos,
arapuqueiros, ardilões,
canalhas,
devassos,
espertalhões,
pulhas
e
trapaceiros
de
toda
espécie
insertos
na
política,
na
educação,
na
saúde
e na
vida
em
sociedade.
A prova de Matemática do professor fuão está elaborada
sem critério e revela-se, essencialmente, de feição somativa,
preocupado deve estar o professor unicamente em aspectos quantitativos
da sua avaliação: acertou uma questão, ganhou um ponto e encerrou o
processo avaliativo na atribuição da nota de zero a 10.
De modo geral, os professores de todas as disciplinas,
nas escolas públicas ou privadas, não têm observado o valor de uma prova
escrita, para qualquer disciplina, elaborada a partir de um barema,
em que cada uma das questões é formulada por índice de dificuldade
(fácil, média, difícil, muito difícil, por exemplo), portanto, bem
montada, criteriosamente formulada e submetida pelo professor, em tempo
hábil, à análise da gestão pedagógica.
Os matemáticos entendem
muito
bem
do
que
falo
e sabem
traduzir,
para
escola,
o
sentido
de barema, descrevendo o
valor
pedagógico
de
elaborar
uma
prova
escrita
a
partir
de
um
conjunto
de
quadros
ou
de
dados
numéricos,
com
seus
respectivos
índices
de
dificuldades,
que
apresentam a
montagem
de uma
prova,
objetiva
ou
discursiva,
em
geral,
organizando as
questões
(múltipla
escolha,
V
ou
F, e
assim
por
diante)
em
escores,
cuja
correção,
por
parte
do
professor,
irá,
objetivamente,
registrar
não
apenas
os
erros,
mas
os
acertos
cometidos
pelo
aluno
durante
a
elaboração
da
prova.
A
prova
de
Matemática,
objeto
de
análise
e
crítica
aqui,
por
exemplo,
poderia
ser
montada a
partir
de 100
escores.
A
décima
questão
valeria,
assim,
10
escores.
Um
exemplo
do
valor
da
prova
com
barema e
com
escores
pode
ser
exemplificado na
nona
questão,
em
que
minha
filha,
encontra
o
valor
de X, na
equação
5.(x +2) – 2(3x -1) =13. O X da
questão,
nos
seus
cálculos,
é
assim
expresso:
x = 13-12 =
X = 11. Observemos, o
aluno
chegou a X = 13-12,
mas
no
resultado,
coloca X = 11. O
professor
não
considerou
até
onde
acertou.
Como
diz a
metáfora
do
ditado
popular:
“
Fulano
nadou, nadou e morreu na
praia”.
O
fracasso
escolar
é,
para
o
aluno,
como
“morrer
na
praia”.
Se valorizo X = 13-12, estou dentro de uma perspectiva da
avaliação formativa e estou, pois, dando valor ou importância ao
processo de construção do aluno.
Se unicamente estou preocupado com o valor numérico,
sintético, final e reducionista de X =1, minha preocupação é com o
resultado e estou pedagogicamente atrelado a um modelo de avaliação
somativa, que valoriza aspectos quantitativos e não qualitativos das
respostas do aluno na prova.
A LDB afirma no item a do inciso V, no artigo 24, que a
avaliação do rendimento escolar deve observer o critério da
“avaliação contínua e comulativa do desempenho do aluno, como
prevalência dos aspectos qualitativos sobre os quantitativos e dos
resultados ao longo do período sobre os de eventuais provas finais”.
Dizendo de outra forma, a LDB nos manda o seguinte
recado: um erro, como sabemos, dentro de uma visão construtivista do
ensino produtivo, é uma hipótese importante a ser trabalhada em sala de
aula por parte do professor após a aplicação da prova.
A
partir
dos
erros
cometidos
pelos
alunos
em
uma
prova,
é
motivo
para
os
professores
de quaisquer
disciplinas
mostrar
o
valor
da
atenção
durante
a
elaboração
das
provas
escritas,
levando-os a
ver
na
atenção
um
princípio
precioso
da aprendizagem, uma
tensão
discente,
é
verdade,
mas
necessária
para
que
os
discentes
respondam as
questões
de uma
prova,
dentro
e
fora
da
escola
(vestibular,
por
exemplo),
com
orientação
seletiva
da
percepção,
do
pensamento
e da
ação.
A
atenção,
como
nos
ensina
a
Psicologia,
é
função
psicológica
indissociável
da
consciência,
memória
e,
sobretudo,
fundamental
à aprendizagem
escolar.
Por
fim,
minha
reclamação,
mais
do
que
uma
queixa
de
pai
é uma
advertência
de
educador
que,
em
educação,
aos
docentes
cabe,
por
incumbência
legal,
o
zelo
pela
aprendizagem dos
alunos,
conforme
preceitua o
artigo
13 da
Lei
de
Diretrizes
e
Bases
da
Educação
Nacional.
Os
professores,
dentro
e
fora
da
escola,
on-line
ou
off-line,
são
profissionais
da
educação
escolar,
formam
cidadãos
e
não
fulanos,
sicranos
e
beltranos.
Atenta
a
esses
eventos
antipedagógicos,
cabe à
escola
oferecer
cursos
de atualização e de aperfeiçoamento
sobre
avaliação e
currículo
escolar.
No século XXI, o ensino da leitura, escrita e cálculo,
presentes nas habilidades e competências instrumentais de todas as
disciplinas, requer uma escola voltada não apenas para os erros ou
lapsos dos alunos, mas expedita para cumprir os grandes objetivos da
sociedade para a educação escolar, ou seja, o desenvolvimento da
pessoal, exercício da cidadania, qualificação para o trabalho e, mais
especificamente, na Matemática, através de um currículo dirigido por
competências e habilidades, o cumprimento de finalidades do ensino
fundamental como desenvolvimento do raciocínio lógico e o
desenvolvimento da capacidade de aprender e de aprendizagem. |