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Ano I - Nº9 - dezembro de 2000 |
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Do
Poder da Palavra ADÉLIA
BEZERRA DE MENESES Em "As 1001 Noites", Sheherazade vence a morte e o poder,
propiciando a cura através de um discurso vivo, corpóreo “As
1001 Noites" em geral nos chegaram através de antologias infantis.
Conhecemos as Histórias:
"Sindbád, O Marujo", "Aladim e a Lâmpada Maravilhosa”,
"O Pescador e o Gênio” etc.
Mas tais antologias acabam por privar o leitor do plano geral da obra - a
estrutura de encaixe dos contos, embutido uns dentro de outros- e,
sobretudo, da poderosa figura da Sheherazade, que vence a morte através da
Literatura. Trata-se da maior apologia da Palavra, de que se tem
conhecimento. E analisar o papel da contadeira de histórias significará
abordar o problema das relações da mulher com a Literatura, da mulher com
a Palavra, da mulher com o símbolo e com o corpo. Sheherazade
é personagem da narrativa que inicia e termina "As 1001 Noites",
servindo-lhes de moldura; é a partir dela que se dará o pretexto para os
demais contos. Trata-se da história de Xariar, sultão de todas as Índias,
da Pérsia e do Turquestão, que descobre, por intermédio de seu irmão,
imperador da Grande Tártaria, que sua mulher o traía. E ele toma
conhecimento disso no mesmo momento em que o irmão lhe revela que também
fora traído pela mulher. A conclusão é inevitável: "Todas as
mulheres são naturalmente levadas pela infâmia, e não podem resistir à
sua inclinação". O sultão, no estupor da mais funda desilusão
afetiva, propõe ao irmão que ambos
abandonem seus Estados e toda a sua glória, e saiam pelo mundo para,
em terras estranhas, melhor esconderem seu comum infortúnio. O irmão
aceita, com a condição de que voltariam se encontras sem alguém mais
infeliz do que eles próprios. Seguem caminho, disfarçados, e chegam à
beira-mar, onde são surpreendidos por algo que parece um maremoto. Sobem a
uma árvore, escondem-se entre os galhos, e presenciam uma cena qual um gênio
(um djinn) tira do mar uma grande caixa de vidro, fechada a quatro chaves,
onde estava encerrada uma bela mulher, quase adolescente, que ele libera da
caixa. Era a sua mulher, que ele roubara para si no dia de suas núpcias, e
que mantinha presa. Declarando-se cansado, o gênio diz à mulher que
gostaria de deitar a cabeça nos seus joelhos, e adormece. Os
dois irmãos acabam por ser descobertos no meio das ramagens de seu
esconderijo pelos olhos perscrutadores da jovem. Ela retira delicadamente a
cabeça do gigante do colo, vem para baixo da árvore e propõe aos dois irmãos
que tenham relação com ela. Atemorizados pela presença do gênio, eles
inicialmente se recusam, mas ela os força exatamente com o argumento de
que, se não dormissem com ela, ela acordaria o gênio. Obrigados, eles
satisfazem sua vontade, primeiro o mais velho, depois o caçula. Ao fim, a
jovem pede a cada um o seu anel. E diante de seus olhos estupefatos, abre
uma pequena bolsa que continha outros 98 anéis. Conta que esses anéis
foram dos homens que já a tinham possuído. "Com os dois de agora, diz
ela, completo uma centena". "Uma centena de amantes, malgrado a
vigilância ciumenta e a precaução do gênio, que me quer só para
si". Ele se esmerava em encerrá-la numa caixa no fundo do mar, mas ela
não deixava de enganá-lo... “Vede
que, quando uma mulher tem um desejo, não há marido que possa impedir a
sua execução" - dizendo isso, ela se senta e coloca de novo a cabeça
do gênio, que continuava a dormir, tranqüilamente em seu colo. Plano Os
dois irmãos voltam pelo caminho de onde tinham vindo, comentando que nada
no mundo ultrapassava a malícia das mulheres, e que, nesse assunto, até
aquele gênio de poderes sobrenaturais era mais infeliz do que eles.
Convencidos da perfídia feminina, decidem retornar cada um para o seu
reino. O sultão Xariar formula um plano, que lhe permitiria manter sua
honra inviolavelmente preservada, sem que fosse obrigado a prescindir de
mulher: consistia em dormir a cada noite com uma virgem, e no dia seguinte,
ao acordar, mandar matá-la, pelo seu grão-vizir. E escolheria uma nova
para a noite seguinte, e assim por diante. A cada dia, uma jovem casada e
morta. E o início dessa prática trouxe à cidade a mais intensa das desolações. Ora,
o grão-vizir, que devia ao sultão a mais cega obediência e que malgrado
sua vontade, a cada noite apresentava ao sultão um nova virgem, e a cada
manhã, malgrado sua repugnância, era obrigado a matá-la, tinha duas
filhas: Sheherazade e Dinerzade. E assim que, textualmente, é apresentada
Sheherazade, na versão de Galland: "...
tinha uma coragem maior do que se seria de esperar do seu sexo, e um espírito
de uma admirável penetração. Tinha muita leitura e uma memória tão
prodigiosa, que nada lhe escapava, de tudo que ela "avia lido.
Aplicara-se com todo sucesso ao estudo da filosofia
e da medicina, e das belas-artes; e fazia versos melhores que os mais célebres
poetas do seu tempo. Além disso, era provida de uma grande beleza, e uma
muito sólida virtude coroava todas essas belas qualidades." (G., vol.
1, pág. 35) Dessa
descrição ressaltam primeiro as qualidades "intelectuais" que
fazem de Sherazade uma mulher
extremamente inteligente e que se cultivava (lia, estudava, fazia poesia).
Mas suas características propriamente físicas -que não são dadas em
detalhe, e vêm depois, e só depois, das intelectuais, também não são
descuradas: trata-se de uma bela mulher. Pois
bem: essa mulher altamente interessante que parece ser Sheherazade, comunica
um dia ao grão-vizir seu pai que queria tornar-se mulher do sultão: "Desejo
por um termo a essa barbárie que o sultão exerce sobre as famílias desta
cidade. Quero dissipar o temor que tantas mães têm de perder suas filhas
de uma maneira tão terrível. (...) Se eu perecer, minha morte será
gloriosa; se tiver êxito, restarei um serviço importante minha pátria." E
combina com a irmã seu plano: Dinerzade deveria deitar-se no quarto nupcial
(sob pretexto de que, ainda uma vez, elas pudessem passar uma noite próximas),
e uma hora antes do romper do dia, deveria acordar Sherazade e solicitar-lhe
que contasse uma de suas histórias. É o que se passa: nessa noite,
depois de ter dormido com o sultão, que a desvirgina, Sheherazade é
despertada pela irmã, que lhe pede uma história -talvez pela ultima vez.
Depois de obtida a permissão do sultão, Shehrazade começa a narrar. E no
auge do suspense, quando a ação esta para ser definida e a curiosidade do
seu real ouvinte aguçada, vendo que a aurora se anunciava, suspende sua
narrativa: "Sheherazade,
nesta passagem, percebendo que era dia e sabendo que o sultão se levantava
bem cedo para fazer suas preces e ir gerir seus negócios de Estado, parou
de falar." (G., vol. 1, pág. 46). Diante
da observação da irmã, de que essa história era maravilhosa, Sheherazade
lhe afirma que a continuação seria mais maravilhosa ainda e que, se o sultão
quisesse deixá-la viver mais um dia, que lhe desse permissão para acabá-la
na noite seguinte. Sheherazade ganha um dia de vida. Na segunda noite,
quando a irmã a acorda, Sheherazade "satisfaz a curiosidade do sultão";
acaba a historia iniciada e começa uma nova, interrompida no auge do
suspense, ao romper a aurora: e assim, noite após noite, o sultão declara
desejar ouvir a história iniciada na véspera, e a deixa viver por mais um
dia. Não há garantia, nem Sheherazade a pede: ela consegue, à prestação,
dia a dia, ganhar um dia de vida. Ela aceita assumir o risco absoluto:
arrisca perder a vida, para recuperar ao sultão uma imagem feminina,
perdida pela infidelidade. Há algo de épico no seu gesto:uma mulher que,
através da Palavra, salva a raça feminina. E
quando chega a milésima primeira noite, o sultão se rende: "1001
noites tinham transcorrido nesses inocentes divertimentos; elas tinham mesmo
ajudado muito a diminuir as prevenções iradas do sultão contra a
fidelidade das mulheres; seu espírito tinha-se abrandado; ele estava
convencido do mérito e da sabedoria de Sheherazade; lembrava-se da coragem
com a qual ela se tinha exposto voluntariamente a tornar-se sua esposa, sem
apreensão quanto à morte a que se sabia destinada no dia seguinte." E
diz o sultão: "Bem vejo, amável Sheherazade, que sois inesgotável em
vossas narrativas; há muito me divertis; pacificaste minha cólera, e eu
renuncio de bom grado à lei cruel que eu me tinha imposto... Desejo que
sejais considerada como a libertadora de todas as moças que deveriam ser
imoladas ao meu justo ressentimento". (G.vol.3,pág. 439). Memória Isso,
na versão de Galland. Na versão de Mardrus (1) (por muitos considerada a
"tradução obscena" de "As 1001 Noites"), as coisas são
apresentadas de uma maneira bem mais concreta. Em Mardrus, Sheherazade
apresenta ao sultão ao fim da 1001ª noite, os filhos que, ao longo desses
quase 3 anos, ela tivera com ele. A relação sexual entre o sultão e
Sheherazade, que Galland omite, Mardrus explicita: ganha aqui inequívocas
provas, ganha concretude. Mas
voltemos um instante à caracterização inicial de Sheherazade. Se há algo
que a tipifica sobremaneira, é sua prodigiosa
memória. Em "As 1001 Noites" podemos vislumbrar as ligações
da narrativa com o infinito, da Memória com o infinito aspecto esse que se
tornará bastante evidente se formos situar a Memória na sua dimensão mítica.
Com efeito, no Panteão grego, a Memória, "Mnemosyne", é uma
deusa, filha de Urano e de Gaia, irmã de Chronos e de Okeanos - a memória,
filha do céu e da terra, irmã do tempo e do oceano: todas, metáforas de
infinitude... E
a Memória é para os gregos a mãe das Musas, mãe das divindades responsáveis
pela inspiração. ''Mnemosyne'' preside à função poética. A própria
sacralização da Memória (os gregos fizeram dela uma divindade!) revela,
por si só, o alto valor que lhe é atribuído numa civilização de tradição
oral, como foi, entre os século 12 e 8, antes da difusão da escrita, a da
Grécia. Essa
deusa feminina tem tudo a ver com Sheherazade. "Mnemosyne" revela
as ligações obscuras entre o rememorar" e o "inventar": a
musa inspiradora da invenção poética é, ela própria, filha da Memória.
Sherazade, a contadeira de histórias, não era apenas uma espécie
de repositório vivo das histórias de seu povo, não apenas aquela que
"transmitia" histórias contadas por outros; na sua caracterização
inicial, fora-nos dito que ela também escrevia "versos melhores que os
dos mais célebres poetas seu tempo". Ela também criava. E
assim, noite após noite, Sheherazade vai, com a ajuda da Memória,
conduzindo adiante o fio de suas histórias: vai tecendo as narrativas. Não
é um fio linear: é uma teia, uma trama. Infindável, infinita. Uma história
dará margem a uma outra história que, embutida dentro dela, desembocará
numa terceira, que contém em si o germe de uma quarta etc. etc. Na acepção
do último tradutor ocidental de "As 1001 Noites", Khavam (saiu
sua tradução completa, na França, em 1986), Sheherazade é "La
Tisserande .des Nuits" -a tecelã das noites. Mulher tecelã Evidentemente,
essa trama, essa rede narrativa eram frutos da astúcia de Sheherazade:
serviam para enredar o sultão. Essa trama narrativa (trama quer dizer também
procedimento ardiloso!) no limite significava... tramóia: a astúcia, velha
arma dos fracos contra os fortes. E arma feminina, muitas vezes. Sheherazade,
a astuciosa, é a mulher que tece narrativas intermináveis, e que nesse fio
prende o seu homem e vence seu poder. E nessa linha de astúcias, e de fios,
e de tramas, há toda uma tradição (é verdade que de outra cultura, mais
uma vez, a grega) de mulheres fiandeiras (2). Penso sobretudo em Penélope,
de quem já se disse que é tão astuciosa quanto seu marido, o astuto
Ulisses, tecendo infindávelmente o manto com o qual afastará os
pretendentes à sua mão, enquanto espera a volta do seu homem. Mas há também
Ariadne, que fornece a Teseu o fio com que ele enfrenta o Labirinto; e
Pandora (a primeira mulher), tecelã, que aprendeu a arte das fiandeiras com
a deusa Atena, cujo epíteto é exatamente Atena Penitis, a "tecelã";
e Aracnê, que desafia a deusa Atena na arte da tapeçaria e acaba
transformada em aranha. E há as Parcas, que tecem a trama dos destinos
humanos. Todas, mulheres. Por que é sempre feminina a personagem que lida
com o fio? Num estudo sobre a Feminilidade (3), Freud tece uma engenhosa
explicação: a arte da tecelagem teria sido uma invenção de mulheres,
inspirada pelo pudor feminino. Com efeito, o pudor, diz ele, teria como
finalidade primitiva dissimular os órgãos genitais, dissimular a fenda que
existe no sexo feminino: "Parece
que as mulheres fizeram poucas contribuições para as descobertas e invenções
na história da civilização; no entanto, há uma técnica que podem ter
inventado traçar e tecer. Sendo assim, sentir-nos-íamos tentados a
imaginar o motivo inconsciente de tal realização. A própria natureza
parece ter proporcionado o modelo que essa realização imita, causando o
crescimento, na maturidade, dos pelos pubianos que escondem os genitais. O
passo que faltava dar era enlaçar os fios, enquanto, no corpo, eles estão
fixos à pele e só se emaranham." Mas
voltemos a Sheherazade e Penélope, astuciosas e fiéis. Trata-se, aqui, do
mesmo tema da fidelidade. Não nos podemos esquecer de que, na história de
Sheherazade, é a fidelidade que está em jogo: o desígnio cruel que o sultão
se havia imposto, de que sua mulher por uma noite fosse morta ao romper da
aurora não tem outro objetivo senão preservar, ainda que à custa da
morte, a fidelidade feminina. (E ao mesmo tempo, como veremos mais adiante,
tal desígnio impedia-o de amar vedava ao sultão o amor: matando a mulher
com quem dormia a cada noite, impedia-se de relacionar-se em continuidade,
de estabelecei vínculos). Penélope/Sheherazade
Uma tece infindavelmente o manto, dia após dia, no meio dos príncipes,e
sua fidelidade é condição para o reencontro; outra tece infindavelmente,
noite após noite, teia de sua narrativa: sempre em suspense, sempre na
terminada. Terminá-la, seria a morte. Penélope:
a fidelidade por um fio. Sheherazade: a vida por um fio. A falta de término,
em ambas, é uma metáfora do infinito. Em ambos o casos, na tecelagem que
praticam, é a fidelidade que está em questão. No caso de Penélope, a
trama feita desfeita é seu ardil, para afastar os pretendentes reservar-se
para a volta de Ulisses. No caso de Sheherazade, a construção de su teia
narrativa não apenas ardil para ganhar mais um dia de vida, mas seu fio
narrativo refaz, ponto a ponto, os farrapos do coração do sultão,
dilacerado pela traição feminina. Sheherazade
tece o tecido de sua história,
conduz o fio da narrativa. A trama da narrativa não é um fio; é uma teia,
com todas as suas ramificações, e nessa rede ela enreda o sultão. Não
por acaso que ela é a imagem mesma da sedução. Penélope:
aquela que tece. Seu próprio nome (em grego, Penelopéia) revela sua vocação:
do grego "pene", fio de tecelagem, e, por extensão, trama, tecido
(daí nosso pano do latim pannus). E c substantivo grego "penelopéia"
significa: dor. Tudo se explica quando pensamos que ela vivia na nostalgia
(= dor do retorno) de Ulisses, e que o pano que ela tecia (que tem a ver com
a morte: era uma mortalha para Laertes, o pai do seu marido) era garantia da
sua fidelidade, como que vedava o acesso de sua sexualidade aos pretendentes
que a assediavam: "Então,
de dia ela tecia a grande tela e de noite, desfazia a sua obra, à luz das
tochas. Foi assim que, durante três anos, ela soube esconder sua astúcia e
enganar os Aqueus" ("Odisséia", cap. 24). Astúcia Penélope,
Sheherazade uma tece de dia, outra tece de noite. Três anos:
aproximadamente 1001 noites. Fidelidade e sedução articuladas Em ambas,
uma mulher vence o poder masculino. Qual é, exatamente, a astúcia de
Sheherazade? A
primeira resposta é que Sherazade não apenas joga com a imperiosa
necessidade de ficção que habita o coração de cada homem, mas teria
inventado também a técnica do suspense: inicia uma narrativa aguça a
curiosidade de seu ouvinte e... não a satisfaz - naquela noite.
O desenlace seria narrado na próxima noite, se o sultão lhe
concedesse mais um dia. Aos poucos, vão sendo introduzidas referências às
reações do sultão, e, especificamente, à sua curiosidade. Assim termina,
por exemplo, a noite 33: Sherazade
preparavase para prosseguir seu conto; mas, percebendo que era dia,
interrompeu sua narrativa. A
qualidade dos novos personagens que a sultana
acabava de introduzir em cena tendo aguçado a curiosidade Xariar, e
deixando-o na espera de algum acontecimento singular, o príncipe esperou a noite seguinte com impaciência" (G., vol. 1,
pág.25) Ou
então: "O sultão, persuadido de que a história que
Sherazade tinha a contar seria o desenlace das precedentes disse
consigo mesmo: “ É preciso que eu me conceda o prazer completo."Levantou-se
e resolveu deixar viver ainda este dia a sultana". (G.,
vol. 1, pág. 216). Satisfazer
a curiosidade, para o sultão, significa prazer. Postergá-la, significa
cultura. Pois uma das coisas que diferenciam o homem do animal é exatamente
isso: a capacidade de postergar a realização do prazer. E assim temos a
curiosidade do sultão extremamente bem administrada por Sheherazade, com
sua técnica de suspense. E os textos acima provam o quanto a quaIidade
narrativa de suas histórias, sua qualidade literária, portanto (a
saber: introdução adequada de novos personagens; previsão de acontecimentos
singulares; preparação cuidada do desenlace) conta. E
o interessante é que a curiosidade está presente em dois níveis, em
"As 1001 Noites": nesse primeiro nível, da
"macro-estrutura", na história que serve de moldura é a
curiosidade que fundamenta o adiamento da execução da sultana. Mas também,
ao nível das histórias contadas, entre os muitos motivos recorrentes nas
narrativas de "As 1001 Noites", esse motivo da curiosidade adquire
grande importância, dado seu estatuto de desencadeador das ações.
Curiosidade necessidade
imperiosa de conhecer. Aguilhão do saber por experiência. Haveria que se
fazer um estudo antropológico da curiosidade, e do papel que ela desempenha
em várias religiões e mitologias: desde a curiosidade de Eva, atiçada
pela serpente, na narrativa mítica do Paraíso, tal como aparece no "Gênesis"
("Podes comer de todas as árvores do jardim. Mas da árvore do
conhecimento do Bem e do Mal não comerás..." E o resto a gente sabe:
a queda, a expulsão do Eden, o Paraíso Perdido...), passando pela
curiosidade de Pandora, que abre a fatídica caixa de males que se espalharão
por toda a terra, só restando no fundo da caixa a esperança...; até a
curiosidade do curumim que abre o coco de tucumã que encerra noite, fazendo
com que a escuridão se espalhasse pelo mundo, como na lenda indígena
brasileira. Sempre a curiosidade, com o que ela representa de fálico e faustico,
de motor do progresso e de propulsora do espírito humano, mas também com o
que ela comporta de fragilidade: deixar-se vencer pela curiosidade
significa "sucumbir a uma fraqueza", cair em tentação. Como
naquela história que Sheherazade conta ao sultão, do moço a quem foram
franqueadas 99 salas de um castelo, com todas as suas delícias; mas vedada
a abertura da 100 ª porta: premido pela curiosidade, ele a abre, e ai começa
a sua perdição. Mas sobretudo, em vários contos de "As 1001
Noites" (como "O Comerciante e o Gênio" ou "História
dos Três Dervixes e das Cinco Damas de Bagdá", e muitas outras), é a
curiosidade por uma narrativa a ser feita por uma personagem que lhe salva a
vida, inicialmente suspendendo a execução da sentença e, finalmente,
anulando-a. Assim, o mesmo elemento que se encontra, importantíssimo, a nível
da estrutura geral da obra, comparece no detalhe, em numerosos contos. E
Sheherazade, o que faz é manipular a curiosidade do sultão. No entanto, ao
longo das 1001 noites processasse uma evolução. Considera-se Sheherazade
como a especialista do suspense. Contudo, isso é só inicialmente verdade:
ao longo de suas tantas noites de contadeira de histórias, ela abandona o
suspense, chegando a levar a termo, ao romper da aurora, as suas narrativas.
Mas acena com a próxima... Ela abandonará o recurso do suspense
- que tem algo de um
golpe mais ou menos enviesado - um discursus interruptus-
chegando a terminar os contos na mesma noite em que os iniciara. E
mesmo prescinimdindo do recurso do suspense, o sultão a deixará viver,
mais um dia. E
aqui está a segunda a resposta para a pergunta "em que consiste a astúcia
de Sheherazade": na realidade, ela lida é com o Desejo. E todos
sabemos que o Desejo não tem um objeto que o aplaque; uma vez cumulado, ele
ressurge, desperto do outro, e assim suscessivamente.
Não tem objeto que o supra, que o satisfaça, que o cumule. O que é que
que o sultão queria? Uma nova de história, e por isso Sheherazade viveria
mais um dia, e depois outro, e outro. Ela não tenta obter dele, logo de do
início, que lhe poupe a vida para sempre: consegue dele, a cada dia, que
lhe poupe a vida por aquele dia. Mas ele, também, o sultão, daria sentido
a mais um dia de sua existência, na espera/expectativa de algo que o
plenifique. A função de Sheherazade era alçar sua vontade, tendê-la para
algo por vir. Ela age no sentido de acutilar o Desejo, de atiçá-lo, de só
ilusoriamente aplacá-lo... por uma noite. Uma vez supostamente aplacado,
ele renascerá. O objeto do Desejo está sempre além, sempre adiante, visa
sempre um além que escapa: é isso que nos conta a história de Sheherazade
e do sultão de todas as Indias. E
o mundo do Desejo é o mundo do Id, mundo da noite, da magia e da fantasia.
O dia que surge significa que a voz de Sheherazade deve-se calar; é de dia
que se realizaria sua execução. Há uma fórmula quase que ritual, que esconde
o fio narrativo de Sheherazade: quando rompe o dia, ela se cala, e o sultão
vai "cumprir seus deveres" de chefe de Estado. Há aí um
confronto entre o princípio do prazer e o princípio de realidade: o princípio
do prazer cessa com a luz do dia, quando se impõe a realidade, com o seu
cortejo de opressões. As noites são para as histórias e para o amor; os
dias são para o trabalho (e para a morte) Palavra Referi
a situação (presente tanto a nível das histórias que Sheherazade conta,
quanto naquela da própria sultana, e que serve de moldura às demais) em
que uma vida é trocada por uma narrativa. Isso significa um extraordinário
apreço pela palavra. As vezes esse apreço é expresso materialmente. Numa
das histórias que Sheherazade conta ao sultão ("A História de
Ganem"), por exemplo, registra-se o seguinte: "Ele
[o califa] achou esta história tão extraordinária que ordenou a um famoso
historiador que a escrevesse, em todos os detalhes. Ela foi em seguida
depositada no seu tesouro, de onde várias cópias tiradas deste original a
tornaram pública." (G., vol. 2, pág. 420) As
histórias excelentes são guardadas no tesouro real! Estamos numa civilização
em que, literalmente, a palavra vale ouro, em que a história narrada é
tesouro. E
ainda, a palavra aqui é mágica. Já repeti várias vezes que, através da
Palavra, Sheherazade vence a morte e o Poder. Sheherazade, a mulher,
instaura um novo tipo de poder. A força da Palavra radica na magia. A
palavra aqui transforma -como no curandeirismo, na magia, na religião... e
na psicanálise. O conto "Ali-Babá e os 40 ladrões", por
exemplo, é expressivo disso: trata-se de uma palavra mágica, palavra
eficaz, que tem o poder de remover um rochedo, o poder de fazer abrir a
entrada da gruta onde os ladrões guardam seus tesouros: "Abre-te Sésamo".
Ali-Babá a guarda na memória, com cuidado e respeito, e ela se torna um
instrumento de força na sua boca. Mas seu irmão, o invejoso e insolente
Cassim, se esquece da palavra certa, e tenta outras, que não têm, no
entanto, a força mobilizadora da palavra mágica. Da palavra
transformadora, que remove rochedos. Ele consegue penetrar na gruta dos ladrões,
mas depois não consegue sair: “...
acontece que ele se esquecera da palavra necessária (...) e, em lugar de
"Sésamo", diz "abre-te Cevada"; e espanta-se ao ver que
a porta, longe de se abrir, permanece fechada. Nomeia vários outros nomes
de grãos, diferentes daquele que era necessário, e a porta não se
abre". (G., vol. 3, pág. 247). Ele
se esquecera da palavra certa, da boa
palavra acaba perecendo às mãos dos ladrões, que o pilham preso
dentro da gruta. Pois
bem, há algo de mágico na palavra, na história do rei Xariar e da bela
Sheherazade, que consegue demover seu coração de pedra. A tentação de um
paralelo com a psicanálise é bastante grande: essa situação extraordinária
em que a Palavra (aquela que é preferida pelo paciente, e aquela que é
ouvida por ele) é palavra eficaz: provoca alterações, transforma aquele
que a recebe. Restaura-se aqui o po der arcaico e mágico da Palavra. O
poeta, o mago e o psicanalista: aqueles que constroem coisas com a palavra,
que alteram a realidade, modificam a essência profunda do ser. E ao lado
poeta, do mago e do psicanalista, a mãe, que conta histórias, a mulher. A
mulher contadeira de histórias: sua influência foi reconhecida por todos
aqueles que, desde a Antiguidade, se preocuparam com o problema da eficácia
da Palavra, da força transformadora da palavra: "Por
conseguinte, teremos de começar pela vigilância sobre os criadores de fábulas,
para aceitarmos as boas e rejeitarmos as ruins. Em seguida, recomendaremos
às mães que contem a seus filhos somente as que lhes indicarmos e procurem amoldar por meio delas as
almas das crianças com mais carinho do que por meio das mãos fazem
com o corpo." ("República", livro 1 2,377b). O
grifo, evidentemente é meu, realça a importância
extrema que Platão atribui às narrativas: capacidade de moldar, de
plasmar almas. Não seria exatamente isso que Sheherazade faz com o sultão?
Ela plasmou, moldou sua alma, "abrandando o seu espírito". Jeanne
Marie Gaguebin, num artigo publicado no Folhetim (4), articula essa passagem
de Platão a um texto de Walter Benjanim, que se intitula, exatamente,
"Narrar e Curar" (5). Além da ligação entre a fala e o gesto,
entre a voz e a mão (a que retornarei mais adiante), o texto de Benjamin
aponta, de uma maneira extremamente pertinente, para a cura
pela narração (não fosse esse o seu título!) - que é, como todos
sabemos, apanágio da psicanálise ("talking cure') e de certas técnicas
de cura chamanísticas. Pode-se
considerar o sultão doente,
ferido na sua afetividade, na sua capacidade amorosa, pela traição
feminina; pois bem, nessas longas noites de história, Sheherazade vai
exercendo junto a ele um longo processo terapêutico, analítico, pontuado,
a cada manhã, pela interrupção com que ela o remetia á
vida real. Ao fim das 1001 noites, o sultão se declara
"curado", abandona o "sintoma" e se dá alta: "Vós
pacificastes minha cólera, e eu renuncio de bom grado e, vosso favor, à
lei cruel que eu me tinha imposto". E Sheherazade cessa suas
narrativas. Num
processo analítico, o paciente fala; ao analista, cabe a escuta. Ele também
fala, interpretando; mas o que funda a psicanálise é o discurso do
analisando. Pois bem, aqui se trata de um processo invertido: é a escuta
que é transformadora, é a escuta que cura o sultão. Falei
da psicanálise e também aludi a certos processos de cura chamanistica,
que, aliás, estabelecem com a psicanálise mais de um vínculo. Lévi
Strauss relata, na "Antropologia Estrutural" (no capitulo "L'Efficacité
Symbolique") um procedimento dos índios Cuna do Panamá, por ocasião
dos partos difíceis: o chamã canta para a mulher grávida, diz palavras ao
seu ouvido, e assim o nascimento da criança é facilitado. Trata-se, como
observa o antropólogo, "de uma medicação puramente psicológica, uma
vez que o chamã não toca no corpo da paciente, nem lhe administra remédios;
mas, ao mesmo tempo, é colocado diretamente e explicitamente em causa o
estado patológico e seu centro: diríamos antes que o canto constitui uma
manipulação psicológica do órgão doente, e que é desta manipulação
que a cura é esperada' (6). Manipulação psicológica: metáfora
expressiva para o processo psicanalítico. E também para aquele processo em
que as narrativas, como queria PIatão, moldam as almas, "com mais
carinho do que por meio das mãos fazem com o corpo". Mas voltemos a
Lévi Sstrauss. Diz ele que o chamã fornece à sua doente uma 'liguagem:
"E é a passagem a esta expressão verbal (que permite, ao mesmo tempo,
viver sob uma forma ordenada e inteligível uma experiência atual, mas sem
isso, anárquica e inefável) que provoca o desbloqueio do processo fisiológico,
isto é, a reorganização, num sentido favorável, da seqüência da qual a
doente sofre o desenvolvimento" (pág. 218). O
sultão se encontra crispado na sua ira de traído, bloqueado na sua
capacidade de amar: Sheherazade oferece a ele uma linguagem, na qual esse
estado pode exprimir-se. Sheherazade fala, e o sultão escuta. É como se a
perturbação afetiva grave, de que fora acometido, na sua ira de traído
pelas mulheres, só fosse acessível à linguagem simbólica da poesia e da
literatura. E aqui a gente encontra a narrativa restaurada no seu sentido
pleno e primordial, de veículo de experiência humana. Sheherazade
oferece ao sultão uma linguagem, um discurso simbólico que possa
atingi-lo, por inteiriçado e crispado que ele estivesse na sua incapacidade
afetiva. Ela oferece ao sultão o acesso ao mundo simbólico; oferta-lhe uma
linguagem, como queria Lévi-Strauss, "na qual podem exprimir-se
estados não formulados e, de outro modo, não formuláveis". "Não
é portentoso que na noite 602, o rei Xariar ouça da boca da rainha a sua
própria história?", pergunta-se Jorge Luís Borges (7) extasiado. Sheherazade
apresenta a Xariar o nível mítico: apresenta-lhe à consciência conflitos
que o traumatizaram, bloqueando sua capacidade afetiva, de tal maneira que
ele possa lidar com eles. É por isso que ela não expurga de suas
narrativas as histórias de adultérios e traições femininas, não omite
casos em que as mulheres enganam a seus maridos; ela não faz ao rei uma
narrativa "ad usum delphini"; é notável a ausência de censura
moral nas suas histórias. Trata-se
aqui, como na psicanálise, (e na cura chamanística), de propiciar uma
transformação interior, consistindo numa reorganização estrutural da
personalidade: trata-se de recuperar a capacidade amorosa do sultão. Pois
bem, Sheherazade, como na transferência, propicia ao sultão que reviva com
ela uma experiência afetiva continuada e para isso ela precisava de tempo
(a saber: 1001 noites -o tempo de uma terapia?) e assim resgata sua
capacidade afetiva. Falei
em paralelo com a psicanálise. Mas trata-se aqui de um paralelismo que,
evidentemente, não exclui as diferenças. Pois há em "As 1001
Noites", como aparece em Platão, como sugere W. Benjamin, uma ligação
entre a fala e o gesto, entre a voz e a carícia. Não nos podemos esquecer
de que as narrativas de Sheherazade se seguiam às suas noites de amor com o
sultão e são suas histórias
que lhe facultam a possibilidade
de dormir próxima noite com ele. É a narrativa que possibilita o encontro
futuro. Já se disse que se Sheherazade tivesse oferecido ao sultão só o
seu corpo, ela teria sido executada, logo após a primeira noite: foi o
que, todas as suas antecessoras fizeram, e todas pereceram. E Sheherazade
salva não apenas a si própria e a todas as mulheres em idade de casar do
seu povo: ela salva também o sultão: ela o cura de sua ira patológica e
assassina, e possibilita a ele uma descendência. A persistir no seu plano
cruel e ginecida, o sultão se privaria para sempre de amar, e de filhos.
Sheherazade oferece a ele o tempo e, junto com as suas histórias, a História;
oferece a ele o tempo, e, junto com ele, as coisas todas que dele precisam
para se engendrarem: os filhos, a duração do afeto, a permanência de vínculos,
o longo processo (analítico) de uma cura. Sheherazade oferece ao sultão um
discurso vivo. Sheherazade
ou do poder da palavra. A sultana era uma contadeira de histórias, não em
primeira linha uma escritora: ela as contava de viva voz. Aquelas 1001
noites eram marcadas pela cálida proximidade da 'mulher, da mulher na sua
inarrável corporeidade. Não podemos esquecer da carga corporal que a
palavra falada carrega. Na narrativa oral, a Palavra é corpo: modulada pela
voz humana, e portanto carregada de marcas corporais; carregada de valor
significante. Que é a voz humana senão um sopro (pneuma: espírito...) que
atravessa os labirintos dos orgãos da fala, carregando as marcas cálidas
de um corpo humano? A palavra oral é isso: ligação de sema e soma, de
signo e corpo. A palavra narrada guarda uma inequívoca dimensão sensorial. "No princípio era a Ação", diz o Fausto de Goethe. Mas entre a Ação e a Palavra, em "As 1001 Noites" a escolha está feita. "No princípio era o Verbo", parecem dizer-nos elas, retomando o início do texto do mais visionário dos Evangelistas. No entanto, esse texto não para aí: "...e o Verbo se fez carne": restaura-se, assim, a dialética sema/soma, inscrita no cerne da palavra a Palavra é também, inapelavelmente, corpo. Notas 1.
Utilizo aqui basicamente o texto de Antoine Galland (1717), em edição Garnier , 1965, recorrendo também por vezes, ao texto
de Mardrus (1899), publicado por Robert/Laffont, Paris, 1985. 2.
Cf. Gilbert Lescault -"Figurées, Défigurées (Petit Vocabulaire de
la Féminité Représentée)", Union Générale d'Editions, Paris,
1977, em que, no vocábulo "Fileuses" são elencadas várias
mulheres mitológicas que lidam com o fio. 3.
Freud: "A Feminilidade", Conferência 33 das "Novas Conferências
Introdutórias sobre Psicanálise", 1933, vol. 22 das "Obras
Completas", Imago, pág. 162. A referência a esse ensaio foi sugerida
pela leitura de Gilbert Lescault: "Figurées, Défigurées", op.
cit. 4.
"Narrar e Curar", Folhetim, S. Paulo, 1 de setembro de 1985. 5.
"Erzaehlung und Heilung", in "Gesammelte Schriften",
vol. 4, Suhrkamp Verlag, pág. 430. 6.
Cf. capítulo "L'Efficacité Symbolique", in "Anthropologie
Structurale", Paris, Plon, 1958, págs. 211 e seguintes. 7.
Cf. J. L. Borges -"Los Traductores de las 1001 Noches", in
"Historia de la Eternidad", Emecé Editores, Buenos Aires, 1953. Publicado
no caderno Folhetim/Folha de São Paulo,
em sexta-feira, 29 de janeiro de 1988 ADÉLIA
BEZERRA DE MENEZES é professora de
Teoria Literária na Unicamp.
autora de A Obra Crítica de Álvaro Lias e Sua Função Histórica"
(Vozes) e "Desenho Mágico: Poesia e Política em Chico Buarque" (Hucitec) |
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