Em Questão

Ano I - Nº 2 Maio de 2000



A comunicação e a tecnologia

Paulo de Abreu Lima

Dizem que quando os cientistas provarem a existência de Deus, quando chegarem  "lá", encontrarão muitos teólogos conversando com Ele.

Ocorreu-me esta imagem, conhecida como anedota, pensando a relação comunicação – tecnologia de uma forma semelhante a ciência – religião.

O que é a ciência?  - senão pensar como dominar o mundo...da natureza? Sim, dominar as relações nela existentes e o que estas relações e seus produtos resultantes possam contribuir de forma positiva e importante para o bem estar da sociedade. A ciência, porém, tem uma peculiaridade, que é o despojamento emocional; a leitura fria e seca dos dados obtidos a partir das observações. E é importante que ela tenha este rigor visual, sob pena de enviesar o objeto de estudo.

O que é a religião? – senão re-ligar? Re-atar nossos laços originais com nosso Criador. Buscar, através de símbolos e do exemplo de uma conduta (Cristo, Buda, Maomé) as referências éticas necessárias e o caminho do nascimento existencial (de onde vim, o quê significo para mim e para os outros, e todas as outras perguntas que nos afligem - todas as outras perguntas que a ciência não consegue responder ).

Olha que interessante! Pelo menos para quem tem fé, a religião parece ser infinitamente possível, ao passo que a ciência seria finita.  Na verdade talvez seus objetivos sejam diferentes. A ciência é caminho, é conhecimento, é trilha para chegarmos ao nosso destino.  Esta trilha é aquela  nossa busca.

E o que tudo isso tem com a comunicação e a tecnologia. Acho que tem muito. Pois tecnologia é resultado da ciência; resultado do domínio do conhecimento da natureza (desde os tipos de Gutemberg até a internet), possibilitando, no caso da comunicação,  agilizar, aperfeiçoar  e disponibilizar mais e mais informação (objetiva, justa, coletiva e enriquecedora para a nossa busca).

Se a ciência é caminho (e não destino) devemos entendê-la como ajuda, como recurso e ferramenta para nos guiar e fazer chegar ao nosso destino. E qual é o nosso destino (ideal pelo menos)? Ter um bom salário? (o que é um bom salário?)Ter uma casa própria? Ter um apartamento na praia? Ter um carro novo? Viajar para o exterior nas férias? .......? ........?.......?.......?........?

Isso tudo é destino? Não é meio? Não é caminho? Viver as agruras de um cotidiano estressante para garantir o ganha-pão e economizar algo para garantir o carro novo é destino? Será que nós não conseguimos ver um pouco mais para frente?

Acho que a comunicação e a tecnologia têm significados e papéis correlatos à ciência e à religião. Tecnologia é caminho (porque é produto da ciência) e comunicação é destino (porque re-atar é entrar em contato). Acho que é destino sim, pois tornar comum as coisas entre as pessoas (acho que a comunicação não é outra coisa) faz parte do nosso destino; nosso destino de con-viver: de acordar, alimentar, conversar, rir, chorar (pagar contas também; queria pular esta parte, mas não tive como), e “entender “ o quê fazemos aqui e por quê estamos aqui. No fundo – e acho que o mundo tem pensado muito nisto – o quê fazemos e por quê estamos aqui parece ter se tornado uma questão menos importante. Esta questão é intrínseca ao nosso cotidiano mínimo, que é este nosso destino de con-viver.

A ciência e a tecnologia são fantásticas enquanto meios, recursos, ferramentas; é temeroso, no entanto, que elas se tornem fim (apenas comércio – o que na prática já é muito comum – quem não tem um e-mail, hoje, não é cidadão) e não meio; ou seja, que esqueçamos esta nossa busca cotidiana da informação enquanto reflexão, crescimento, troca, partilha, compreensão, agregação em troca de lucro egoísta (quantos milhões de pessoas no mundo ainda são analfabetas, pois não podem partilhar informações através da escrita) – é a questão da partilha – tanta tecnologia para quem? Esse é o nosso grande desafio político: disponibilizar a tecnologia, e portanto o bem estar, para todos.

É conhecida a obra do fotógrafo Sebastião Salgado – seu trabalho recente conta a história de refugiados (Ruanda, Bósnia, e outras tragédias); "conta a história da humanidade em trânsito.....fugindo da pobreza, da repressão e das guerras", conforme ele relata a respeito de seu último livro, Êxodos. Acho muito legal registrar e destacar este trabalho (ricamente comunicativo, através da arte fotográfica) pois ele denuncia o desafio que temos pela frente, pois como diz Salgado, "muitas destas pessoas não conseguirão chegar a lugar nenhum ".

É isso: tecnologia é meio; comunicação é fim. Viva a tecnologia!! E que os 160 milhões de dólares gastos no Programa de Busca de Inteligência Extraterrestre, do governo norte-americano (segundo Peter Ward, da Universidade de Washington) sejam convertidos e re-investidos em tecnologia de comunicação intra-terrestre.  Esta é a nossa busca.  É um grande desafio.

Paulo de Abreu Lima é psicólogo


A velhice e a tecnologia

Fátima Teixeira

A poucos dias precisei encaminhar uma proposta por escrito que deveria ser recebida o mais rápido possível. Como não dispunha de aparelho de fax me dirigi a uma papelaria próxima para executar a operação. Enquanto aguardava, puxei conversa com o balconista lamentando não dispor de tal comodidade em minha residência.

O balconista minimizou minha queixa afirmando que, com a chegada do micro computador e o acesso à Internet, o aparelho de fax havia se tornado um objeto obsoleto. Projetou ainda, que num futuro próximo a papelaria, a biblioteca e outros serviços ligados ao setor serão desnecessários fazendo com que a sua própria profissão desapareça do mercado de trabalho. Disse que já está se preparando na busca de novos rumos profissionais, no intuito de permanecer inserido no mundo do trabalho.

Ele argumentava com muita naturalidade e aceitação sobre as mudanças que, segundo sua analise estão por acontecer, demonstrando estar preparado para enfrentar as adaptações exigidas e manter-se incluído no novo mercado.

A rápida conversa me fez refletir sobre a importância das pessoas, especialmente as mais velhas, desenvolverem a capacidade de entender e assimilar as constantes mudanças que vem ocorrendo na sociedade atual, resultado dos avanços da tecnologia e da informática, a fim de se inserirem no contexto social.

Segundo a última Pesquisa Nacional por Amostras de Domicílios (PNAD), de 1997, o total da população brasileira levantada em 109 mil domicílios de todo o país era de 156.128.023 habitantes. Destes, 79.688.353 eram mulheres, enquanto 76.439.645 eram homens. A população feminina com mais de 60 anos era de 7.420.388 pessoas e a de homens de 6.081.442. É exatamente esta a faixa etária que assistiu e vivenciou a grandes e interessantes transformações sociais decorrentes do progresso da ciência e da tecnologia.

Para os jovens as mudanças são sempre bem vindas, pois em geral , são mais abertos a novidades e aceitam o novo como possibilidade de realizarem outras escolhas, como bem demonstrou o balconista. Já as pessoas idosas, em geral, mostram-se mais resistentes, porque as situações desconhecidas causam-lhes inseguranças e ansiedades.

Os idosos que encontram-se hoje na faixa etária entre os 70 e 80 anos,

provavelmente utilizaram água de poço, cozinharam em fogão à lenha, e à noite iluminaram as conversas na sala com a luz do lampião, isso sem considerar as mudanças no campo das relações familiares e comportamentais que merecem uma análise mais aprofundada.

Essas pessoas acompanharam a rápida evolução do mundo moderno, se adaptaram e absorveram em seu cotidiano as facilidades oferecidas pela variedade dos aparelhos eletrodomésticos. Incorporaram também a escada rolante, o metrô como meio de transporte e os caixas eletrônicos. Este último ainda com algumas ressalvas, pois utilizar o cartão magnético e se comunicar com uma máquina que nem sempre responde às nossas perguntas ainda é motivo de angustia para muitos aposentados em dia de receber os benefícios previdenciários ou efetuar algum pagamento. Tenho observado que muitos idosos ainda fazem questão da autenticação mecânica e do carimbo do banco como forma de comprovação do pagamento efetuado. Essa atitude pode ser fruto da desconfiança, traço às vezes acentuado nessa fase da vida.

Parece que superado o impacto inicial natural provocado pelo novo, há um claro movimento de abertura para conhecer, aprender e usufruir dos modernos recursos disponíveis. Evidentemente as pessoas mais velhas necessitam de um tempo maior para se adaptarem. No entanto, a vontade de aprender, a disponibilidade e a valorização do conhecimento é muito grande ajudando-as a transporem seus próprios limites.

Muito recentemente, a velhice vem sendo objeto de atenção e cuidados por parte da sociedade e embora de maneira lenta, vem estabelecendo-se uma nova relação da nossa cultura com a velhice. O envelhecimento vem sendo entendido como uma etapa na qual é possível manter a continuidade de uma vida ativa, produtiva e independente.

Na área da informática, por exemplo, já encontramos vários cursos especialmente dirigidos à pessoas da terceira idade, indicando que o segmento idoso vem se constituindo em campo de investimentos e paralelamente ganhando visibilidade social.

O impacto que o avanço da tecnologia provoca nas pessoas e como ele se manifesta pode variar de acordo com o grau de necessidade de contato com os equipamentos, ou o interesse e curiosidade pessoal. No entanto, o idoso que já passou por tantas fases de transição e acompanhou a várias mudanças na sociedade adquiriu a experiência necessária para enfrentá-las com serenidade.

A sabedoria do idoso consiste em flexibilizar-se e usufruir de todo o benefício que o progresso possa lhe oferecer para manter-se participativo e atuante na sociedade.

Resta uma pergunta:

Como será o comportamento dos jovens atuais que se utilizam dos disquetes para arquivar informações, realizar trabalhos, guardar documentos, etc, ao envelhecerem?

Provavelmente não experimentarão o romantismo de possuir a "caixa de recordações", na qual estão guardadas as cartas, as fotografias e os objetos recebidos de pessoas queridas, todas juntas, colecionadas ao longo da vida.

A alteração na coloração, no perfume e outros sinais evidentes da passagem do tempo, concretizam e registram uma história de vida repleta de grandes e inesquecíveis emoções...

 

Fátima Teixeira é mestre em Serviço Social pela PUC/SP. 

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