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Ano I - Nº3 - Junho de 2000


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Minorias, maiorias... a quem interessa a divisão?

 Eduardo Paulo Berardi Junior

Minorias? Maiorias?
Negro. Mulher. Indígena. Judeu. Muçulmano.
Homossexual... Heterossexual... Passivo... Ativo...Travesti... Transexual ...G.L.S...

Lenta e morbidamente, como um câncer, vivemos a tentativa - ou seria preferível dizer, a tendência? - da diluição da consciência de classe como parte fundamental da luta de classes através de mecanismos muito sutis. Estruturalmente, a economia globalizada, e a proposta de um mundo sem fronteiras, distancia o sujeito - detentor do poder econômico - do objeto, trabalhador, detentor da força de trabalho. Tornados iguais como consumidores, tornamo-nos massa, sem sermos classe, sem nem identificarmos os sujeitos e os objetos.

Ao invés do "Trabalhadores do mundo, uni-vos!" cunhado por K.Marx temos hoje o Consumidores do mundo, consumi! sem que se possa, ao menos, gravar uma autoria.

A queda do muro de Berlim e tudo o que representou contribuiu sobremaneira para a composição do comportamento geral destes tempos. O mastro erguido não possui bandeira a tremular, criando um vazio ideológico que serve como uma luva ao crescimento do individualismo e de sua defesa pelos mais diferentes meios (seja por parte do Estado com, por exemplo, o Código de Defesa do Consumidor; seja por parte de ONGs; seja por inúmeras associações; seja pela mídia; Procon e tantos e tantos outros).
Quem se colocaria contra esses mecanismos de defesa? Ninguém, afinal a luta pelos Direitos Humanos é uma luta da Humanidade.

Entretanto, paralelamente, muitas lutas das denominadas minorias, sutilmente têm cumprido o papel de enfraquecer e não fortalecer tais lutas. Seria possível outra via?

As mulheres, por exemplo, lutam pela igualdade dos direitos frente aos homens. Pouco importa que sejam mulheres proletárias ou burguesas? Afinal, quem são "os homens"? Quem são "as mulheres"?

Os negros, lutam pelos seus direitos, contra as discriminações. Há negros e negros. Há negras e negras. Há trabalhadores e patrões.

Os gays, lutam pelos seus direitos, igualmente contra a discriminações. Há gays negros e não negros. Há trabalhadores e patrões.

As lésbicas, lutam pelos seus direitos, igualmente contra as discriminações. Há lésbicas negras e não negras. Há empregados e patrões.

Índios. Ecologistas. Crianças e Adolescentes. Meninos e Meninas de Rua. Portadores de Necessidades Especiais. Aposentados. Prostitutas. Toxicômanos. Roqueiros. Metaleiros. Pagodeiros. Rapers. Corintianos. Palmeirenses. Há empregados e há patrões.

As classes sociais podem ser "classificadas" com as mais diferentes denominações ao longo da História, mas sempre é possível identificar dois pólos contrários, antagônicos e contraditórios. De um lado, o explorador e do outro o explorado. Escravo, servo ou operário guardam entre si a mesma característica, qual seja a de ceder sua força de trabalho em proveito do outro - senhor, industrial, banqueiro - que enriquece. Um não existe sem o outro. Seus interesses sempre são opostos. Um domina o poder político e o outro é submetido. Caia o muro de Berlim ou não, haja a globalização ou não, haja minorias ou não, classes sociais sempre existirão e portanto sempre haverá a luta de classes como afirmava Marx, mesmo quando nos informam que a História acabou. Como poderia? Como pretenderia o homem conter a dialética, sem exterminar a sociedade e as classes que a constituem? A quem interessa dissimular a luta de classes?

A nosso ver as ideologias que defendem o modo de produção capitalista atuam de forma sofisticada, sutil, investindo em formas as mais variadas de divisão das classes antagônicas, trabalhadoras, desse modo retardando o enfrentamento. O caminho socialista não sucumbiu. O sonho da igualdade entre os homens permanece. Nem porque desabou o muro de Berlim, desabou com ele nossa racionalidade sustentada pela concepção dialética da história. A História se faz no tempo e para o tempo não há finitude, não existe limite...

Nesse sentido, seria interessante que as correntes de pensamento e ação (partidos, sindicatos, associações diversas) inscrevessem em seus programas e objetivos o acolhimento às diferentes minorias numa dimensão de luta de classes e não como categorias à parte, dissociadas das relações de produção, como se ser negro fosse a condição primeira para ser explorado. É na pobreza que as diferentes minorias se tornam uma só. Por que então dividi-las? A quem convém a atomização das forças de oposição?

A mais recente divisão a contribuir para essa atomização das forças, é a dos sexos.
Bem... mas seria melhor deixarmos esse assunto para o próximo número...

Eduardo Paulo Berardi Junior é professor de História


A clareza tem o seu preço

Rodrigo Contrera

Sou duplamente estudante na Universidade de São Paulo. Duplamente porque faço filosofia (graduação) e ciências sociais (pós-graduação) na mesma faculdade. Tenho conseguido um rendimento razoável em ambos os cursos, mas é bom desde já esclarecer que custo vários milhares de dólares ao erário público todos os anos, como todos os meus colegas. Não tenho bolsa (já tive) e portanto custo aquilo que todo estudante custa - mas em dobro. Estudo em dobro, também - acreditem.

Acompanho à distância o movimento dos professores da USP, que reivindicam aumento de salário. Pelo que sei, querem aumento de 54%, mais ou menos. Eles ganham pouco, isso é óbvio, sendo que doutores ganham menos do que eu, que tenho apenas curso superior concluído. Tenho também acompanhado à distância os atos públicos que, na semana retrasada, acabaram em pancadaria na Paulista, e que praticamente cegaram um fotógrafo do Agora!

Ninguém em sã consciência pode ser contrário a um movimento que exige melhoria de salários e de condições de ensino para professores capacitados. A USP é universidade pública, e como tal tem - ou deveria ter - como principal missão educar jovens que por razões as mais variadas não podem pagar cursos superiores em faculdades particulares. Creio, porém, que seja necessário trazer duas questões à baila, nem que seja para melhor avaliar os movimentos e o atual momento político.

Primeira. A USP vive de porcentagem de arrecadação do ICMS. Isso não cabe aqui ser discutido, nem tenho capacidade para tanto. O fato é que a USP vive de ICMS, e como autarquia não precisa dar satisfação dos seus atos ao Estado, até para evitar ingerências políticas. Decorre daí que a USP, para funcionar, tem tantos recursos quantos pode derivar do ICMS, e que ao menos teoricamente - sem avaliar as planilhas de receitas e gastos - em caso de gastos a mais só há duas possibilidades, mantida a atual situação quanto à origem dos recursos: gastá-los de forma diferenciada ou pedir aumento de recursos.

Confesso que não sei se os professores pedem aumento do ICMS. Infiro porém que se o movimento diz respeito ao governo do Estado ele deve dizer respeito a aumento de impostos. Mas isso não vem à tona, ao menos por aquilo que eu vejo. Por quê? Não sei, e não cabe aqui fazer suposições.

Há um outro ponto, porém. Na manifestação da Paulista, houve um grande ferido, que foi um fotógrafo do Agora! Pelo que se veiculou na imprensa, ele já era quase cego de um dos olhos. A bala de borracha disparada por algum policial do Batalhão de Choque atingiu o outro olho do fotógrafo, deixando-o assim quase cego e dessa forma incapacitado a exercer sua profissão.

Bom, não quero aqui ser mais um divulgador de comoção, mas enquanto assistia uma reportagem sobre o caso, no portal em que trabalho, soube pelo meu redator-chefe que tal fotógrafo é freelance. Moral: ele está na mão, não tem direito a nada, apesar do fato de que o jornal em que trabalhava haver com grande probabilidade auferido lucros para sua imagem em função daquilo que aconteceu.

O fotógrafo em questão é pessoa responsável e acredito que soubesse em que se metia ao cobrir a manifestação. Se soubesse que iria dar nessa merda, muito provavelmente teria evitado ir. Não sei por que ele foi à manifestação, nem se ele ponderou os riscos que ela implicava. Sei, porém, que ele é usado pelo movimento dos professores, pelas emissoras e por toda a parcela da sociedade civil favorável ao movimento como exemplo da truculência policial, que reputo evidente.

Acontece que o problema real do fotógrafo é particular. É ele quem perdeu a capacidade de trabalhar. É ele que não receberá qualquer seguro pelo acidente - seguro esse que a empresa lhe deve por ser profissional ao seu cargo. É ele quem terá de bancar sua recuperação. De todos esses processos todos os envolvidos na truculência do ato de que foi vítima estão desincumbidos, ao menos formalmente.

Gostaria que o movimento dos professores fosse mais claro em suas reivindicações, dizendo à mesma sociedade que reprova a truculência policial qual a conseqüência derivada PARA TODOS do atendimento de suas reivindicações. Gostaria além disso que todos os envolvidos nas conseqüências de tais movimentos - professores, jornais, sociedade civil - não ousassem tirar o corpo fora face a dramas como os do fotógrafo, o único até prova em contrário que perdeu seu futuro no confronto do qual todos tiraram - mesmo sem querer - alguma casquinha.

Rodrigo Contrera é editor-assistente de espanhol de um portal de futebol a ser lançado em julho.

 

O país das crianças

Por Fábio Luís

 

 

A gente já sabe o plano: enquanto ficam falando de sucessão presidencial em 2002 e etecetera, vão fazendo o que não devem. Como o adulto que, quando quer que a criança pare de chorar, grita e aponta alto:

— O que é aquilo?

Se não é distração é ameaça:

— Fica quieto senão apanha!

Nunca entendi por que uma mãe espera que batendo a criança pare de chorar, já que isso só aumenta a dor. Como vem sendo dito, a polícia na rua contra as pessoas não resolve o problema, só cria outro: aquele de uma direita que trata os oprimidos como criança. Ruim é cair neste jogo. Uma especialidade presidencial é criar as novas expressões, que funcionam como apelidos na escola. E, de repente, está toda a mídia a repetir os apelidos, como o colega maroto que diz com a mão tampando a boca e segurando o riso covarde:

— Você viu, chamou ele daquilo...

E fica esperando a reação do ofendido. O problema é que muitas vezes o nosso lado toma o problema para si, debatendo anos-luz para refutar a desqualificação proposta. Qualifica o desprezo. Enquanto isso, seguem arrombando a casa.

— Não sou aquilo não.

A TV mostra a polícia batendo. Mostra muita polícia, e, de vez em quando, batendo. Discute-se a legitimidade (!) da pancadaria. Mas e as causas —não da pancadaria, mas da gente nas ruas?

Olé, tapeia-se de novo.

Dizem que uma das dificuldades do neoliberalismo é focar o inimigo. E o inimigo não é Fernando Henrique. O inimigo tem nele seu ventríloquo sagaz. E é um bom vitrinista democrático, pois governa bem a mídia e as línguas de fora. Mas aqui é só serviçal. Debateremos eleições? O grande susto do governo foi o MST ocupar logo depois de Porto Seguro. E no dia seguinte ao primeiro de maio. Não é data de agenda, ninguém estava esperando. Para quem ficou com aquela impressão de povo fácil na quizomba armada pela Força Sindical, no dia seguinte lembrou-se do poder da consciência. Não há povo fácil, o que existe é gente boa. Que vai buscar a dignidade onde lhe parece possível, porque a gente tem fome de música, de luta e de Beleza. Como ligar estas fomes?

No momento da maré baixa, o artista Chico César aceitou um show de última hora em benefício do MST. O artista manifesta sua presença na arena da carência popular. Carência de amor, carência de solidariedade, carência de música. É difícil ser minoria na maioria, é preciso inspiração, alimento de alma. O povo dança.

Em uma favela recente, toda coberta de terra e ocupada de gente, a iniciativa popular promove o plantio de árvores na paisagem barro-bloco local. Um cartaz exibe uma vintena de árvores ao gosto popular, para cada quem escolher e plantar no seu defronte lar. Quatro em cada cinco pedem pau-brasil, o outro chama uma planta da infância no norte. Saudades de uma terra não revelada.

Enquanto isso, panelada nas ruas. E, no congresso, aprovam a demolição do Código Florestal. Aprendi ainda criança, com eminente jurista de terno verde e coração vermelho: "se alguém te disser que o Código Florestal brasileiro precisa ser reformado não acredite. É uma da lei revolucionária, das melhores da nossa legislação." Não acreditei, mas mesmo assim reformaram.

Que vou dizer? Direi o seguinte: precisamos abraçar as questões da arte e da ecologia com urgência. É nesse terreno que mora a kriptonita da direita. Quem oprime e explora não se alimenta de Vida e Beleza. Não transcende, não toca a alma de nossa gente mística que tem sede de Vida. A imaginação, diz Suassuna, é o maior capital do nosso povo. Podem ter o dinheiro, podem ter as leis, mas a Beleza é e sempre será nossa. É hora de começar a sacar da poupança. São as nossas crianças que pedem o país de volta.

Este artigo foi publicado no Correio da Cidadania, edição 195.

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