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Ano I - Nº8 -novembro de 2000

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Uma grande jogada

Aldo Rebelo

A CPI da CBF-Nike é uma grande jogada dos que gostam do futebol brasileiro. Vai apurar, inicialmente, a regularidade do contrato entre a Confederação Brasileira de Futebol e a multinacional de material esportivo Nike, assim como os acordos comerciais entre clubes e grandes empresas. Vai investigar toda e qualquer irregularidade praticada em nome do esporte do Brasil – de subfaturamento e sonegação de impostos a tráfico de influência e fraude em arbitragens, habilitando-se, desde já, a contribuir para a punição dos que usam o futebol – ou o vôlei ou o judô – como uma escada para a vaidade ou o enriquecimento pessoal.

A CPI deve, no entanto, capitalizar a característica de ser a mais popular das que já funcionaram no Congresso Nacional. Está na boca e sob vigilância do povo, nos corredores da Câmara, nos estádios, nos botequins do Brasil. Deve, também por isso, ir além dos fogos de artifício da investigação sensacional, que mexe nos efeitos mas ignora as causas dos problemas. Apesar dos esforços de parlamentares sérios e dedicados, algumas Comissões de Inquérito têm-se contentado com atitudes superficiais. A do Judiciário, por exemplo, culminou na cassação de um senador e num mandado de prisão para o juiz Lalau, mas o sistema judicial do Brasil continua tão ruim quanto à época em que a CPI foi instalada. Ainda temos uma justiça elitista, cara, demorada, ineficiente.

Queremos que a CPI da CBF-Nike seja um agente transformador da estrutura do esporte no Brasil. Para tanto, é necessário investigar por que o futebol sofre uma crise sem precedentes desde que o brasileiro Charles Miller trouxe da Inglaterra, em 1894, o apetrecho essencial – a bola – e promoveu os primeiros jogos num local emblematicamente chamado de Várzea do Carmo, em São Paulo. O jogo inglês encontrou no país mestiço o seu campo definitivo. Hoje temos cerca de 12 mil clubes e meio milhão de jogadores registrados. Construímos os maiores estádios do planeta. Chegamos a seis finais de Copa do Mundo, e ganhamos quatro. Produzimos artistas da bola, como Pelé e Garrincha, que muitos comparam, cada um no seu campo, a Picasso na pintura ou a Beethoven na música. O historiador inglês Eric Hobsbawm, ao fazer um retrospecto das manifestações culturais do século XX, escreveu, no livro Era dos Extremos: "Quem, tendo visto a seleção brasileira em seus dias de glória, negará a pretensão do futebol à condição de arte?"

É trivial dizer que o futebol é uma referência de identidade, um bem cultural do povo brasileiro – uma legião de 160 milhões de fanáticos que jogam ou ensinam a jogar. Contraditoriamente, a crise ocorre num momento em que o esporte mais movimenta recursos. Jogadores trocam de clube com contratos de estrelas de Hollywood – milhões de dólares pra cá, milhões pra lá. Hoje tudo é patrocinado: a Seleção, o time, o jogador, a bola, a chuteira, a transmissão, o estádio. Só falta o juiz entrar em campo com uma bandeirinha da Coca-Cola.

E o futebol piorou – em técnica, em espetáculo, em organização, e, sobretudo, em resultados. A Seleção dá vexame nas Olimpíadas e passa sufoco nas eliminatórias para a Copa de 2002. Os melhores jogadores emigraram. Os estádios esvaziaram-se. Os clubes se dizem falidos. As arbitragens são postas sob suspeita. O calendário enlouquece qualquer um – o atleta se esgota e o torcedor confunde-se com tantas competições.

Não basta responsabilizar os cartolas. Foram eles, uns com mais decência e espírito esportivo que outros, que no passado conduziram o futebol brasileiro à glória do mundo. É necessário que a CPI investigue as causas profundas desta crise, determine providências em sua alçada ou solicite ao Ministério Público e à Receita Federal (ou simplesmente à delegacia do bairro) as punições cabíveis. Cabe a ela, porém, atuar também como um centro de reflexão, fazer um diagnóstico e dar sugestões que revitalizem o futebol, para devolver-lhe o caráter de paixão nacional. Com esta pauta, a CPI da CBF-Nike não vai acabar em pizza, vai acabar em gol de placa.

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Artigo de José Genoino sobre a CPI do Futebol