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Ano I - Nº10 - janeiro de 2001

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O PSDB e a nova história oficial

Aldo Rebelo
A pretexto de destruir mitos e repor verdades históricas, o PSDB, partido do presidente Fernando
Henrique Cardoso, está publicando uma coleção de 15 volumes, intitulada "Sociedade e História do
Brasil", com o selo da Fundação Teotônio Vilela. O combativo senador alagoano que deu nome à
fundação não ia gostar de ver o achincalhe a que são submetidos próceres da nação brasileira, como Tiradentes, Rui Barbosa, Floriano Peixoto. São criticados não por seus defeitos, mas porque
ousaram pensar num projeto nacional, com as limitações de sua época.

O fascículo VI da versão tucana da nossa história descamba abertamente para a falsificação, pelo
menos ao registrar a célebre frase atribuída a Floriano, "serão recebidos à bala". Qualquer
curioso da história do Brasil sabe que essa foi a resposta a oficiais estrangeiros que pretendiam desembarcar no Rio de Janeiro a pretexto de defender interesses europeus ameaçados
pela guerra civil, mas na cartilha do PSDB a frase é dada como resposta do consolidador da
República sobre como receberia um grupo de manifestantes de oposição.

Toda era de transformações produz sua versão da história - e não surpreende que a casta
neoliberal também faça a sua. Como as anteriores, anuncia que vai banir a "história oficial", embora seja difícil entender de que forma uma revisão elaborada pelo partido no poder deixe de ser oficial como uma medida provisória. Na verdade, urde-se uma apropriação da história.
A coleção do PSDB promete reabilitar o povo anônimo nas lutas sociais e políticas, mas é um deboche dos que abraçaram as causas nacionais e populares. O que diz da Conspiração Mineira é a versão do Império. Esquarteja a memória de Tiradentes tal qual Dona Maria a Louca mandou enforcá-lo em vida e retalhá-lo morto. Tiradentes não teve a opção de exilar-se em Paris com roupão de cetim.

A Conspiração ou Conjuração Mineira (Inconfidência é o insulto dos algozes) foi o primeiro movimento na Colônia a propor a Independência e a República. Apresentar os revoltosos como um
grupelho de sonegadores de impostos é ignorar o quadro internacional em que se fermentava não só
a decadência do colonialismo mercantilista como o vendaval republicano soprado no Novo Mundo
desde a grande Revolução Americana. Lá também os revolucionários usavam culote, e revoltavam-se
contra a voracidade tributária da Inglaterra.
A reinterpretação também afronta um dos mais importantes movimentos de ruptura da história do
país, a da instituição da República, chamando-o de veículo de maracutaias e de racismo. Está de
volta uma das mais renitentes calúnias da história, a de que o Império foi austeridade, e a
República, corrupção. A República foi feita pelos líderes da Abolição, tanto que é impossível
separar os dois movimentos. Quem traiu o ideário republicano foi a oligarquia entreguista,
comparável à de hoje, com Prudente de Morais e Campos Sales (modelo de FHC) à frente.
A se ler o PSDB, o grande estadista do século XIX não foi o patriarca José Bonifácio, mas Dom
Pedro II. Faz sentido esta fixação em personalidades que reinam mas não governam. O imperador
era o FHC da época, um monarca neoliberal que gostava de receber naturalistas estrangeiros,
deslumbrar-se em feiras de tecnologia no exterior, comprar bugigangas. Nunca teve um projeto
para o Brasil. O Segundo Reinado foram 50 anos de atraso. O povo apelidou-o de Pedro Banana.
Mas, para o PSDB, pusilânime foi João Goulart - logo ele, deposto a mão armada porque queria
fazer reformas de base ainda hoje à espera de um governo com força, coragem e patriotismo para
realizá-las. O truque é exaltar o povo anônimo na história. Nada mais necessário. Ocorre que
para os patrocinadores da coleção, povo bom é o do passado. Se o Movimento dos Sem-Terra tivesse
ocorrido no século XVIII, resplenderia nas páginas da coleção como uma rebelião popular reprimida a ferro e a fogo pela elite. Quem transplantar a situação para hoje, buscando o indispensável nexo entre passado e presente, verá que os homens fazem sua história, mas alguns a escrevem como querem.


Aldo Rebelo é deputado federal PCdoB/SP

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