Comecemos pelo título deste artigo. Você sabe como vai ser
escrito “imbróglio” depois de entrar em vigor o novo Acordo
Ortográfico que, nascido no Rio de Janeiro, em maio de 1986, vai
entrar em vigor em 2009, no Brasil e nas demais nações
lusófonas? Aliás, a data de início da vigência vale apenas para
documentos oficiais e para a mídia. Para as outras instâncias,
incluindo o ensino público, o prazo vai até 2012, embora o
Acordo comece a ser aplicado em 2010.
Convido os leitores a examinar certos detalhes e brechas, como
fazem juristas e advogados com as leis. Afinal, semelhando a
Constituição de 1988, a norma culta da Língua Portuguesa tem
suas leis, que todos devemos respeitar. Todos?
Bem, o Instituto Antônio Houaiss e a Publifolha acabam de lançar
Escrevendo pela nova ortografia: como usar as regras do novo
acordo ortográfico da língua portuguesa, coordenação e
assistência de José Carlos Azeredo (134 páginas).
É um opúsculo que certamente colabora para fazer da Unificação
Ortográfica da Língua Portuguesa o livrinho que foi a
Constituição para o presidente Eurico Gaspar Dutra, mas deixa
inseguro quem o consulta.
Vejamos. Na apresentação, aparecem “linguística” e “europeia”,
em vez de “lingüística” e “européia”, pois o trema e o dito
acento ainda estão em vigor. E vade-mécum, já aportuguesado,
aparece em itálico. Mas, então, uma coisa ou outra: se aceitamos
a forma portuguesa, é vade-mécum. Se não aceitarmos, será vade
mecum, sem acento e sem hífen, pois é assim que se escreve em
latim. Cuidemos do latim, ele está presente no português,
principalmente no direito, e acho que ninguém de nós quer
dispensar o habeas corpus, quer?
Eu queria ser amistoso nesse artigo. Primeiro, porque gente de
bem, qualificada, com boas intenções, vem a público para
explicar o Acordo. Mas, como escritor e professor de Letras,
gosto de voltar ao antigo dilema que enfrentam todos os que
escrevem: a botânica ou a jardinagem? A maioria dos leitores
quer a jardinagem da língua, não a botânica, que esta é obra de
lingüistas, lexicógrafos, gramáticos. Não se enfeita a janela
com um vaso de sementes. Para a mulher amada, você dá um buquê
de flores, e essas são palavras. Confiar a língua portuguesa
exclusivamente a estudiosos da língua, por mais qualificados que
sejam, equivale a permitir que sobre o sexo legislem apenas
ginecologistas e urologistas.
Os dicionários mais consultados de nossa língua ainda não se
atreveram a grafar “imbrólhio”, como se diz em bom português.
Preferiram manter o neologismo italiano imbroglio, sem acento,
ou acentuá-lo, seguindo os editores do português Camilo Castelo
Branco e do brasileiro Raul Pompéia. Sim, abonaram imbróglio com
um texto de Dispersos I, do primeiro, e de O Ateneu, do segundo.
Mas por quê? Por que acentuaram, indicando a pronúncia, e
mantiveram o encontro “gl” como se tivesse em português a mesma
pronúncia que tem no italiano?
De todo modo, o Acordo veio para ficar. É bom começar a ler
obras como este livrinho. Tudo indica que, por razões de
mercado, logo estará em bancas e livrarias o de sempre: o roto
ensinando o esfarrapado a se vestir.
Com que roupa você vai? Este é o xis da questão também para a
língua. Você não vai à praia de terno e gravata, e não vai ao
Legislativo, ao Judiciário, ao Executivo, ao trabalho ou ao
estudo de calção de banho.
Reprodução autorizada. Original em: 'Brasil que Lê - Agência de
Notícias'.
Contato: agencia@brasilquele.com.br